quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Do Jardim da Desolação ao Fogo Restaurador


(Krishna)




Foi assim, como as notas de uma canção dramática, quando me percebi em um momento muitíssimo delicado desta minha existência, um lugar onde nada parecia mais fazer sentido ou valer a pena. Chamar isso de o Jardim da Desolação me faz lembrar deste período com uma sensação parecida à de Arjuna frente ao campo de batalha onde todos os seus familiares haviam morrido, nada mais parecia importar, o mundo parecia deserto e sem nenhuma possibilidade de felicidade em parte alguma. E aí então, que aquele desejo de suicídio, já tão presente durante praticamente a minha vida toda, se tornou muito mais contundente. Os dias se passavam e essa vontade só crescia dentro de mim, tentei de tudo, me afastei o máximo que pude das pessoas e busquei um caminho de auto-compreensão, tentei entender o que estava acontecendo comigo e o porquê de sentir aquele vazio tão grande me destroçar não só por dentro, como também me vi fisicamente
debilitado.

                                   
(Batalha de Kurukshetra)

(Arjuna Desolado)
                                                                                                            
Já havia entrado em contato com algumas leituras e filosofias orientais, mesmo que por alto, mas foi neste momento que algo me direcionou para a yoga. Comecei a ler um livro que, embora não ensine a prática da yoga propriamente,  me transportou para a possibilidade de talvez, um dia quem sabe, eu pudesse me compreender de fato, me aceitar como sou, aceitar meus erros e a partir daí me permitir mudar para algo melhor. Depois disso entrei em contato com outros textos, com a religiosidade hindu, zen budista, taoísta. Com o tempo, percebi que aquelas leituras faziam sentido para mim, fui me percebendo mais calmo aos poucos, mais silencioso, e aí então eu perdi o medo e a preguiça de mudar. Antes, cheguei a pensar que a meditação era algo impossível para mim, para minha mente inquieta, parecia impossível vencer minha ansiedade, minha angústia e meus vícios. Foi no final de 2015 que fiquei sabendo que no Palacete das Artes havia uma aula quinzenal de graça, e como tinha interesse mas não tinha dinheiro, achei que não custava nada ir até lá ver.


(Krishna e Arjuna)


 Me lembro do primeiro dia que fui, não fiz nenhum asana, apenas me sentei em um dos bancos e observei, respirei, ouvi com atenção tudo o que a professora dizia. No final, na hora da curta meditação onde todos se deitaram, eu simplesmente fechei os meus olhos e, de repente, aquela pessoa que não sabia meditar permitiu que os sons do espaço e os diversos silêncios acolhidos ali lhe invadissem, e naquele momento eu senti uma paz e uma felicidade cheia de vida e esperança.  Daí então comecei a frequentar mais vezes e a repetir os movimentos em casa com a máxima dedicação que me foi possível, assisti muitos vídeos e procurei outras pessoas que gostavam do assunto. Obvio que não foi mágico assim, ainda passaria e passo por diversas dificuldades e crises que me afastam da prática, porém, aquelas leituras, ambientes como aquele e a minha reabertura para o mundo externo, para redescobrir à beleza das pessoas e do mundo, isso tudo me trouxe de volta uma certa esperança que eu julgava perdida. A yoga, sem dúvidas, se apresenta como verdadeira divisora de águas para mim.

(Krishna ensina a Yoga a Arjuna)


A tradição hindu tem diversos mitos relacionados à yoga. Mas de maneira geral os mitos de origem revelam a nossa ligação com o Eterno. Yoga quer dizer "união", e os hindus acreditam que esta não é uma prática inventada pela humanidade, é sim um dom dos deuses e está presente desde o início de tudo. Desta forma a yoga é uma prática muito além dos asanas, é algo que nos aproxima de novo deste Eterno e faz com que (no meu caso, por breves momentos que parecem infinitos) não sintamos mais pressa, ansiedade ou cansaço. A yoga me permite entender que por mais difícil que seja um movimento, eu sei que posso resistir por mais uma respiração ou duas e entender que eu não sou apenas o meu corpo e o que eu sinto, mas também sou outros corpos e também o que estes corpos sentem. Percebi que era preciso me entender para entender os outros, para poder amá-los e respeitá-los como são, com todas as minhas limitações e excessos eu também aprendia a ver as pessoas como belas desta mesma forma.



(Shiva, o Destruidor)




No Bhagavad Gita, Krshna afirma que ensinou a yoga ao sol, e dessa forma o ensinamento chega até nós. Ele ensinou esta prática ao seu aluno Arjuna que pôde ver algo de bom depois da desastrosa  Guerra de Kurukshetra. Outras lendas apontam Shiva como o criador da yoga, sendo esta uma divindade relacionada diretamente com as forças de mudança, o Fogo Destruidor e Regenerador. Enfim, não sei detalhes sobre os mitos, apenas posso dizer que tudo isso faz sentido para mim. Acredito que o mundo é sim um mar de lágrimas e lamentações quando estamos acostumados a enxergá-lo com nossos sentidos e desejos mais primitivos, ou seja, sem entendimento. Por isso, acho fácil para a vida de um ser humano se encontrar na depressão, no fundo de um poço onde nada mais parece valioso, onde tudo foi aparentemente destruído, e é nesse ponto onde a energia de Shiva me consola. Eu posso dizer que sinto esta chama criadora dentro de mim e sei que ela é parte da mesma força que me destruiu, ela me dá a esperança de que tudo pode ser refeito e de que nada está totalmente perdido, ou que ainda assim, tudo é aprendizado... E é por causa dessa energia de mudança que qualquer floresta faz brotar novas flores depois do incêndio e daí então posso usar os asanas para fortalecer o meu corpo e me preparar para sentar e meditar e me entender e me aceitar e me amar tal como tudo o que existe, existiu ou existirá.


(Arjuna e o Caminho da Iluminação)



 Pratiquem Yoga...

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A Escuridão Que Precede A Primavera, IV


IV



- E ai! Já vai botar seus óculos de sol?

É o que fazem as piadas a respeito do meu novo rosto... Coberto pela vergonha de não saber... De não fazer realizar minhas expectativas em relação ao mundo de que tento me esconder... Ando na rua e atraio a atenção desnecessária para mim... Aquela atenção que as pessoas dispensam de seus próprios egos, de suas próprias carências individuais, só para poder criticar os outros... Criticam porque alguém teve a coragem de andar fora da linha... De realizar o aparente impossível... Afinal, alguém tem que criar novos dragões...

De muito me perguntam... Perguntam se consigo enxergar... Se é alguma promessa... Qual é o objetivo disso tudo?

Ah! Se eu por um acaso mesmo soubesse! Seria tudo mais fácil...

A verdade mesmo é que não sei... Tenho raiva de quem sabe... Mas minha mente febril vive a fabricar explicações... Diz a alguns que é para treinar os reflexos... Me tornar mais ágil... Mais equilibrado... De fato a deficiência temporária da visão já me mostrou que é necessário redobrar a atenção deitada sobre os outro sentidos... Ou seja, não é que milagrosamente sua audição se expanda... Mas sim, você passa de um pobre ser humano distraído para alguém que presta mais atenção ao que escuta, cheira, pisa, alisa, sente... Deseja...

Como chegar em algum lugar, por exemplo...

- Aonde você quer chegar?

- Eu não consigo compreender!

Mas enfim...


Já pensou? Com todas essas árvores sendo destruídas... Com todos os pássaros que já entraram em extinção por causa do avanço incauto desta sociedade consumista e inconsequente?

Bom... Talvez, quem sabe, eu esteja apenas lançando uma nova moda para o futuro... Sem tantas árvores para nos fornecer sombra fresca... Só nos resta lambuzar-se de protetor solar... O que meleca tudo e é um horror... 

Ou podemos lançar um lenço fino sobre a cara e proteger nossos olhares do Sol escaldante... Podemos até transpirar um pouco sobre o tecido e assegurar que este suor não seja em vão... Que não evapore inutilmente ou sirva apenas de aderência da poeira e eventuais sujidades desta cidade tóxica...

Um pano que guarda este suor bendito do esforço que galgo a todo dia para me fazer valer a pena... Uma moda bonita, rica em nutrientes, sais minerais que ajudam a conservar a pele, refrescar, resfriar a máquina de pensamentos... 

Depois é só lavar no final do dia... Usar uma outra cor no dia seguinte...  E tudo fica de boa... Cool... Chill out...

Mas isso é claro... Apenas para um futuro nuclear que acabaria com os dias nublados... Que extinguiria as nuvens de chuva do ar... Que exageraria no calor escaldante... Ou nos presentearia com raios gama e ultra violeta da pior qualidade...

Não quero que esta moda pegue... Quero apenas me esconder um pouco de vocês enquanto peregrino pelas ruas em busca de mim mesmo...

Farewell...

XXX - VIII - MMXVII.


*Imagem: Davos Hanich : La Jetée (Chris Marker, 1962)

domingo, 27 de agosto de 2017

A Cegueira da Terra, II



II


Hoje foi um dia meio apagado... Apesar de tanta luz lá fora... Habitando outros corpos... Sorrindo... Hoje foi um dia que só quis mesmo dormir... Me entorpecer... Desligar a parte racional do Cérebro... Rir de qualquer coisa... De nada... De tudo... Da minha desgraça... Da desgraça humana... Dos equívocos humanos... Das tentativas de ser feliz... De fazer tudo o que quer... Sem impedimento... Sem ameaças de loucura... Sem lembrar da gravidade... Tudo isso junto concentrando a vontade de fazer direito... De usar a única chance que tenho por garantia... A vida...

Pois eh... A vida! Talvez seja uma única cartada atirada sobre o tabuleiro...

A única chance de tentar um Az... Sobre O Blefe... A seta atirada contra aquilo que tenta a todo custo nos fazer desistir e não acreditar mais nas ciladas que muitas vezes nós mesmos cavamos pra si... Pra nos resgatar a nós mesmos do buraco das acomodações... Dos medos... Pra nos tirar daquela zona de conforto que construímos para evitar sofrer ainda mais... Mas que pobre garantia nós temos de não estarmos construindo outras prisões?

Ou Você Também Pode...

Acreditar, por exemplo... Que talvez aja uma pessoa que seja inesquecível. Sabe, daquele jeito? Tipo... Daquele jeito que te faça, apesar de todo sofrimento, sentir um alívio de pensar que talvez ela proporcione algo tão gigantesco (um sentimento) que te polparia de passar aquilo de novo por outra pessoa... Que exista algo tão forte que te cegue ao ponto de você precisar descobrir dentro de si um olho ainda maior... Um olho invisível que te permita perceber que tudo é infinito do jeito que é... Infinito ao ponto de gritar dentro de si dizendo... 

A busca acabou! Hoje eu senti o Infinito ardendo dentro de mim...

Sim! Eu sou um pregador do Evangelho do Infinito!

Um Evangelho que manda dizer aos mais altos pontífices que reconheçam a suprema humanidade de Jesus... Que reconheçam que também Mohamed, Sidarta, Lao-Tse e tantos outros são igualmente outras células finitas deste Deus Infiníto que, mesmo possuindo todos, não há nenhum nome que um mero ser humano poderia dar...

E tampouco fala conosco exclusivamente por meio de signos tão frágeis quanto as palavras... Pois... Se digo todas estas blasfêmias pela inspiração do Diabo (Quem criou o Diabo se não este mesmo Deus Infinito e Onipotente?), então por que todos os infames adoradores do medo não me entendem? Acho que Deus fala através de mecanismos diferentes, para células diferentes de seu maravilhoso e inimaginável corpo... 

Perdoe-me Mãe, pois pequei...

Só queria dormir e me esquecer de tudo isso... E este é o meu maior pecado... Renegar toda a dor que me permite recriar estas coisas... Estes sonhos... Estes deuses... Estas explicações para angústias tão transformadoras quanto as minhas...

Perdoe-me Mãe, pois pequei...

Não sabia que a senhora era a paridora de todas as estrelas do Universo... Não sabia que era esta força que me amparava no sorriso das flores que pouco a pouco começam a despertar com as canções vibrantes dos passarinhos... Estes jovens passarinhos que voam em rasantes tão poderosos que, até um pobre homem ignorante como eu, consigo ouvi-los quando fecho os olhos por muito tempo e penso... 

Quem sou eu senão isso tudo que está acontecendo agora?

XXVI - VIII - MMXVII

sábado, 26 de agosto de 2017

A Cegueira Da Terra




I



No meio do terreiro a figura mascarada dança... Os olhos cerrados por detrás da máscara se familiarizam com todo o espaço... Tem por extensão de sua retina, os pés... Os vultos tortuosos que pode observar com rápidas aberturas das pálpebras... Confia no movimento interno de suas estrelas... Tudo o que lhe possa permitir que dance sem prejudicar ninguém... Mas sempre na defensiva... Existe um índio louco querendo lhe atrair pro meio da roda... Ele é um grande guerreiro... E sua pesada pode ser fatal... É preciso fazer com que ele dance... Que esqueça que aqui dentro de mim há também um espírito pronto para a luta... Não gosto de brigar... Prefiro usar toda a minha destreza para a dança... Para não machucar ninguém... A dor não pode permanecer no mesmo conjunto das belezas cultiváveis... Dor não pode mais rimar com o tipo de amor que ainda sonho para mim...

A roda... A fumaça... A brasa... Doce encanto dos batuques fechando a Mata Inteira... Todos os sons que sibilam revelando a revolta intensa sacudida em meus maracás... Precisa se controlar Índio Guerreiro... Se contenha pra não falar bobagem...

Mas sabe o que é pior?

Acho que te deixo aflita, pequenina, porque sabes que posso até falar demais, mas não abro a boca para proferir palavras aleatórias da boca pra fora... Tudo que transa nos meus lábios são pensamentos remoídos dentro da escuridão da noite e do raiar de muitos dias de inquietude e filosofia solitária...

Como esta... Como aquela... Como tudo que deitei em vão aos olhos de quem não me queria... Tudo o que não posso agarrar com a mão porque o destino fez voar para longe deste ninho amaldiçoado que ofereço ao léu das ondas fugidias... Não corram de mim, não fujam assim passarinhos... Sou apenas uma pedra cega atirada na noite... 

Já não posso acertar ninguém...

XXVI - VIII - MMXVII 


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Escuridão Que Precede A Primavera, III





III




- Oi! É pesquisa social?

- Hã?

- Queria saber se você está usando isso para perceber a reação das pessoas...

- Ahhhh!

Hoje eu senti como se tivesse nascido com isso... Parece que a escuridão cobre o meu rosto desde o dia em que fui concebido... Passo pelas ruas e o espanto dos dias anteriores parece não se repetir com a frequência habitual... Ao que parece... As pessoas também se acostumam com a loucura dos outros... Afinal... Toda loucura é absolutamente normal... E eu... Com uma porcentagem de vista muitíssimo reduzida... Pareço parte da escuridão que me acompanha... Meus reflexos estão melhores... Minha audição está mais atenta... E meu propósito está cada vez mais claro neste mundo... Eu preciso experimentar as coisas que outras pessoas não se darão ao trabalho de fazer... Os meus olhos arrancados tem sua própria importância no mundo...  São os olhos que estão por trás deste texto simples... E tenta dizer ao mundo o seu propósito desproposital...

A verdade é que talvez... Talvez eu esteja usando essa tarja preta apenas para me esconder do mundo... Para que apenas alguns poucos saibam que por debaixo dos panos se escondem os olhos que não quero mostrar a ninguém... Se esconde um garoto muito especial... Muito encantador... Mas de olhos tristes... Tristes de não ter jeito... Por aqui eu reflito todas as coisas que parecem não ter solução... Aqui eu viajo através dos anos que já se passaram... E talvez dos que virão... Será que alguma coisa vai mudar??? Será que há alguma chance de entender o que está acontecendo??? Por quê??? Gostaria de entender porquê fui considerado insuficiente... Porquê fui rejeitado... Porquê tudo o que tinha aqui dentro foi escorrendo e se misturando junto com o chorume da lixeira... 

Me sinto uma peça descartável que não cabe na parede da memória de ninguém...

Mas nem tudo é esse drama todo... Ao passar na rua... Há dezenas de pessoas que não me conhecem, mas se intrigam com aquela figura calada e solitária... Alguns dão risada... Alguns me amaldiçoam... Mas sou igualmente significativo para todos... Porque sou eu que ponho aquele véu que a sociedade renegou...

E no fim das contas... Hoje eu fui visto por uma criança... Um pequeno garotinho... Que disse da maneira mais maravilhosa do mundo o quão sou importante para alguém... Ao me ver de perto ele disse num grande fôlego:

- UÁAAAUUUUU!. - E só...

Isso me bastou para saber que no fundo daquele coraçãozinho eu sou o Super-Herói que sempre sonhei... Pois eu realizo em mim meus pequenos sonhos infantis e continuo lutando conta o mundo inteiro para tornar real meus sonhos de gente grande... 

Obrigado a você, pequenino, por me fazer acreditar que eu sou real... 





XXIV - VIII - MMXVII

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A Escuridão Que Precede A Primavera, II



II



Ontem eu quase torci o tornozelo... Hoje eu dei em cheio com a cara em um poste... Mas não tem revolta não... Tenho tido mais tempo para olhar para dentro de mim mesmo... Tenho passado mais tempo com as pálpebras cerradas...  E tenho mais forte a certeza que as pessoas não estão de fato interessadas em entender as outras pessoas... O que elas pensam ou sentem... Acho que a maioria das pessoas da Terra só querem ver o outro como uma extensão de si... No pior sentido da coisa... Elas não querem ver no outro aquilo que não teriam coragem de fazer... Elas não querem ver no outro aquilo que julgam supérfluo ou tolo... Elas definitivamente não querem ver no outro a verdadeira face da incerteza e da incompletude que também carregam...

Às vezes ouço:

- É cada viadagem viu!

ou:

- Vou dar um pau na cara dele pra ver se ele enxerga!


Tenho vontade de gritar!!! - Vocês já pensaram como seria se amanhã vocês acordassem completamente cegos? Já pararam para pensar que não conseguiriam se virar enquanto não aceitassem suas novas limitações? Que não conseguiriam andar um palmo a frente do próprio nariz sem perceber com calma a existência dos outros sentidos? 

- Seus tolos, covardes! Vocês vivem numa cidade de merda, num país de merda, num mundo de mentira... Onde todos fingem tanto não enxergar tudo de errado que está a nossa volta... Fingem tanto que acabam acreditando de verdade em toda essa babaquice que os Homens do poder enfiam através de nossos orifícios globulares todos os dias...  Nós estamos sendo escravizados pelos nossos sentidos e estamos sentido pouco porque não sabemos o real potencial do sentir... Somos pobres empobrecendo ainda mais nossa infinita capacidade de amar...

Mas não consigo dizer nada porque nada disso faria sentido...

O nome disso tudo é medo... Temos medo de nossa imperfeição... De nossa irresponsabilidade para com o outro... Temos medo de amar as decisões dos outros como se fossem nossas... Temos medo de aceitar, porque aceitar as coisas, na maioria das vezes, prova que estamos errados, ou que estivemos errados em relação a determinados assuntos... E o Ego se prende a toda certeza só porque ele acha que estar errado é o mesmo que morrer...

Mas o que é morrer? Você sabe? Alguém sabe?

Talvez morrer seja apenas mudar de perspectiva...

Talvez seja apenas enxergar o mundo de outra forma...

Talvez seja apenas voltar os olhos para a Terra...

E não depender mais de algo tão frágil para ver...


XXIII - VIII - MMXVII

terça-feira, 22 de agosto de 2017

A Escuridão Que Precede A Primavera








I


Já te ocorreu alguma vez que tudo o que existe surgiu da mais completa escuridão? Não? Mas como, se nos esquecemos que as coisas funcionam como um grande relógio inacreditável que não conseguimos ver? Nós temos infra-vermelhos, temos ultra-violetas... Mas não podemos sonhar de ter todas as outras infinitas cores que nem sequer poderíamos imaginar... E sendo assim que meus olhos se tornam mundos inabitados... O inverno foi tão frio e calado que meus olhos adormeceram e quiseram desistir de poder ver qualquer coisa... Hahaha! Mas isso certamente é impossível... Pois se existem infinitas cores... Saibamos que há também outras infinitas formas de ver...

Do mesmo modo, antes de tudo havia o Caos... E muito antes da incrível invenção de nossa tão soberba Sabedoria Humana (Ciência; Magia; Religião; Espiritualidade; Astrologia; História; Arte... Quer Infinitas que Sejam...), este mundo que demos o nome de Terra foi criado, por alguma razão, para ser um planeta (errante como os gregos e todos os outros antes e depois de nós, seres humanos). 
E se meu olho é um planeta... Não adianta eu abri-los para errar antes de visitar o que há por dentro... Antes da massa ígnea que ilumina cada centro de gravidade... Cada vestígio de luz que se condensara em matéria... Tudo isso precisa de uma luz que vem de dentro... E que é preciso muito exercício para que possamos ver... Irradiar... Iluminar...

Já lhe ocorreu que vivemos o tempo todo muito distraídos??? Como se o deserto de flores venenosas que plantam a nossa volta já não nos afetasse mais... Como se todas as árvores e flores que purificam um pouco nossa visão ...

(.) já tão judiada do dia-a-dia e da escravidão do nosso tempo (.)

                                                                                                          ...estão sendo exterminadas??? E nós fingimos que não somos loucos só porque não imitamos os mendigos, as crianças, os loucos, os personagens de desenho animado??? Por quê? Por que nos julgamos humanos melhores do que eles??? Do que estas representações mais máximas da pureza e da sinceridade dos sentimentos humanos?

Que tipo de Louco é Você?

XXII - VIII - MMXVII

domingo, 30 de julho de 2017

A Luz De Leão ou oãeL eD zuL Á





Acordei cedo embrulhado em outra cama... atravessei a cozinha da casa e fui acordar meu amigo... despedi-me da amiga que dormia também na sala... cumprimentei o homem que lavava a moto ao sorriso de sábado de manhã e rompi feito um feixe de luz pelo portão amarelo... Fazia frio mas o Sol reluzia um charme garboso e todo inflado como se nenhuma tempestade tivesse acontecido... Eu caminhava sob olhos do Leão.
A estrada até minha casa foi alegre... Travessia traçadora de planos... Calculando as matemáticas das imprevisibilidades porque no ontem não imprimi o poema que acompanharia a marmita de sonhos que embrulharia logo mais naquele pano de bolinhas... Hahaha!, Eu sei que as vezes o que eu digo não faz o menor sentido para vocês, meus maltratados leitores... É que não é pra fazer mesmo... Concluam qualquer coisa... Ou melhor... Imaginem porra! Vai ficar gostosa a imagem que vocês mesmos derem para esta cena...

Ao chegar em casa, após um banho termal delicioso, desembrulhei os melindres dos cuidados em que meus sentimentos envolveram aquele singelo presente... Uma máquina de escrever de mentira... Aquela que não dá vida a nomes de pessoa, mas que faz vibrar o seu nome na estrela mais distante na infinita noite do meu céu observável... Dei corda... Torci o máximo que pude o bichelenguinho para que a música tocasse infinitamente por alguns segundos... Torcendo também para que aquela porra não quebrasse... Pois seria o limiar do meu drama, ou início de outra tragédia que daria fim a toda civilidade clássica de meu pathernon exibido... Bom... Pela deusa, não quebrou ainda, eu acho...

Havia marcado ainda dez pras oito no relógio... Precisava fazer o corre da impressão... Mas primeiro, ainda dava para rapar um último camarão dos mais bonitos que havia guardado dentro da caixinha... Sobraria o suficiente para mandar para o alto a mensagem secreta de fumaça que dirá ainda no seu subconsciente tudo o que ainda sou capaz de fazer pra te convencer de que digo a verdade... Para você só a verdade... Pelo menos toda aquela que poderia proferir sem lhe causar nenhuma mágoa... (ah, minha pequena... Como queria realmente ser forte para não desejar te dizer mais nada... Mas seria mentira se dissesse que não quero... Pois quero gritar pra ver se tu me ouves daqui... Mas não vou... Não quero ser internado hoje...)

Bolei o beck pra fumar na estrada... Decidi tentar a Escola de Arquitetura, lá poderia ter uma impressora, neh? Negativo, tudo fechado, alunos não tiram xerox dia de sábado... Desci, me deparei com um gordinho subindo as escadas. – Você sabe por onde posso descer, aqui ta fechado o portão – Me pergunta ele. Antes que eu dissesse qualquer coisa, outro indivíduo me poupou alguns segundos. – Ah tem outra escada ali do lado. – Ouvia isso já descendo com uma voz quase satânica na minha cabeça, dizendo: - Esse portão não é NADA para você, meu lindo... Você pula em dois movimentos, com certeza... – Então eu pulei, na verdade dei uma escorregada no segundo movimento, o que me fez descer e repetir o primeiro e conseguir somente na segunda tentativa... Droga! Fico realmente chateado quando não consigo materializar meu pensamento perfeitamente... Mas enfim, tenho que respeitar também estas leis de Carne o Osso...

Bem... Passada a aventura, “o mar é o mesmo, já ninguém o tema”, e o meu sorriso secretamente leonino revela-me a hora exata de ascender o baseado... Ufhhhh... As árvores hoje gorjeiam mais bonitas... Não choveu e nem ameaçou... Em Ondina com certeza há uma xerox aberta...
O beck ia pela metade quando avistei de longe um amigo, o black entregava de longe a silhueta imprecisa que conheci pelo conjunto das características... Aquele cara ta de cara, pensei...

– E ai Rafa, vai? – Aponto o instrumento.

- Que é isso, um beck? Ele redargüiu.

- É sim...

Não preciso dizer mais nada... Logo fiquei sabendo que por ali não haveria nada aberto... Ele me contou da possibilidade de um lugar em frente a Arquitetura... Bem... Corri lá novamente para me dar de cara com o ócio merecido do final de semana sagrado de alguém... Bom... Pensei em inúmeras possibilidades de lugares longínquos onde poderia imprimir aquele poema... Mas concluí nos meus quiças atômicos que, talvez fosse melhor entregá-lo no ano que vem, ou sei lá, quando o deus que há em mim decidir que é a melhor hora... Talvez ainda poderei somá-los ao meu pretenso conjunto de obras para além da funerária (Eu bem que poderia dizer “obras póstumas”, mas isso não condiz com minha criatividade essencialmente dramática... Além do mais, tudo em mim é um evento histórico, ou porque nunca foi feito, ou porque tentei fazer melhor...)... Enfim, voltei pra casa...

Em casa o desafio era mais extremo... Como fazer caber o impossível dentro das fronteiras das possibilidades? Por alguma razão cósmica, as duas barras de chocolate que comprei não cabiam na gaveta daquele porta jóias inútil... O engraçado que eu calculei... Perguntei ao vendedor on-line o tamanho... O vendedor respondeu: 14 cm de largura, 11 cm de altura e 15 cm de profundidade... Caberia perfeitamente se ele não tivesse esquecido de me avisar da porcaria do parafuso que tem na porra do meio da gaveta que a impede de fechar quando está cheia... Bosta... Nem os camarões verdinhos que eu havia separado estavam dando, tive que customizá-los... Reduzi o mínimo que pude o efeito visual de sua beleza... Mas isso já era motivo o suficiente para inquietar minha alma perfeccionista... Enfim... Em outros tempos eu me estressaria, em vez disso fui trabalhar o bilhete...

Bem, não possuía nada parecido com papel cartão... Mas havia dois pequenos envelopes, um preto, outro rosa... Acho uma linda combinação... Logo, cortei o rosa em tamanho menor... Escrevi uma mensagem (que somente o destinatário poderá ler, me desculpem) e o coloquei no envelope negro... Bem, não preciso dizer que a merda da gaveta não gostou nada disso também neh? Fez o que pode pra enguiar... Mas me retei e fechei aquela porra com um ligeiro comportamento forçado... E... Rezei para que o seu jeitinho desastrado não quebrasse quando fosse abrir... Embrulhei... Já eram 9:30 da manhã.

Mas é óbvio que não poderia sair naquele estado, de gente que não dormiu (na verdade, quase sempre estou assim, mas é preciso às vezes disfarçar a cara), fui tomar banho... Fazer a barba... Escolher uma roupa que caiba bem numa memória... Colocar um perfume diferente para ver se causa algum estranhamento (o que também é importante para a memória)... Bom, desde o princípio pensei em deixar o presente na portaria... Mas a possibilidade de encontrá-la só de botar a cara na rua é risco consideravelmente grande... E todos já perceberam que não gosto de me colocar à mercê da Fortuna sem ter uma lista significativa de planos de fuga... Prefiro me sentir elegante, ou melhor, empertigado... (pra algumas pessoas é a mesma coisa, mas para mim a palavra “elegante” não traduz como eu gosto de me sentir). Finalmente, meti no bolso o chocolate que não coubera na caixinha... Talvez me servisse de um útil elemento surpresa... Em último caso eu mesmo o comeria (Era feito com pedaços de cacau... Vocês sabem que eu adoro cacau neh?)...

Hum, e por falar em comida... Por fim saí de casa, mas havia me lembrado que não tinha comido nada ainda... Juntei as moedas e passei na venda pra comprar dois reais e setenta e cinco centavos de castanhas de caju (altamente nutritivas e me forneceria energia o suficiente para uma empresa como esta)... Bom! Já se passavam das dez, e a conhecer a pessoa, conheço também as imensas probabilidades dela estar aproveitando este lindo dia de sol... Mesmo assim segui com minha sacolona de sonhos... Logo na rua, outro impasse... Que caminho devo tomar? O mais curto e perigoso? Ou o mais longo e mais seguro para a carga que trago comigo? ... Bem... Ninguém vai ousar me roubar hoje, hoje não... Fui pelo mais curto, na esperança de talvez, quem sabe, ganhar um abraço ainda hoje... De qualquer forma, tratei de segurar a sacola firmemente, mas não poderia ser tão firme que denotasse desespero (até pq não sou de me desesperar com tamanha facilidade). Tinha que segurar de uma forma que demonstrasse minha imensa tranqüilidade em estar passando por ali com aquilo na mão, ao passo que também mostre aos que me olham que ali não está nenhuma trouxa perdida num caminho deserto...

Cheguei na rua dela depois de uma caminhada agalopada... Parei um pouco antes do portão... Empavonei-me as roupas e segui... O porteiro me dá o sinal que torna a campainha desnecessária... Entrei e fiz a pergunta que me traz um nó quase imperceptível à garganta:

- Fulana de Tal está?

-Acabou de sair – disse ele.

- E a colega de quarto dela? (Sempre tenho medo que a encomenda se extravie, não confio cegamente em porteiros, ou melhor, em ninguém)
-Também saiu... ele disse.

- Tudo bem, posso deixar isso aos seus cuidados? – Ele respondeu afirmativamente. Fiz um sinal dramático e continuei – Mas tome cuidado, é frágil.
- Não, ta tranqüilo, vou colocar ali no cantinho.

Sorri, fiz um sinal de agradecimento juntando minhas duas mãos semicerradas como num abraço e, inclinando-me para frente, o reverenciei e me despedi... Na rua o Sol continua me fazendo sorrir radiantemente... Acho que está Sim na hora de fazer visita a Uma Outra pessoa muito especial... Fui até ao baluarte onde ela se esconde... Chegando lá, não havia ninguém na portaria, entrei em casa e não vi ninguém conhecido... Ou melhor, entrei naquela casa que foi meu parque de diversões por tantos anos, e me senti um completo estranho... Uma menina que estava na sala me fitou curiosamente... Perguntou quem eu desejava ver e eu disse que queria Sim ver a Uma... Prontamente a guria subiu até o quarto e verificou ... - Ela não está... Eh! Eu sabia que Ela também deveria estar aproveitando aquele lindo dia ensolarado... Ahhhhh... Gente com muita coisa em Capricórnio... Sempre leais ao imenso trabalho de ser feliz...

Decidi então passar em outra residência... Talvez receber um abraço de um amigo tão caloroso quanto o mar... Perguntei se meu guru de Escorpião estava em casa... O engraçado que neste lugar onde sempre me senti um tanto mal tratado, fui recebido por um segurança que nunca tinha visto... – Quer ver quem? – Perguntou ele. Disse o nome e ele: - Sabe onde é? – Sei, respondi. – Pronto, vá lá e pede pra ele vir assinar aqui... Simples assim... Fui no quarto dele e só João estava dormindo... Lavei o rosto no banheiro e saí... Fui comer minhas castanhas no Campo Grande de dar minha missão por encerrada...

Vagandiei entre as árvores da Vitória... Sentia a brisa sacudir as memórias de meus velhos cabelos por entre as folhas... Minha juba dissonante... Ao chegar no Campo Grande, antes de entrar na praça, observo uma corpa estendida no chão de um dos grandes portões da praça. Era um rosto conhecido, mas dei de ombros e preferi me sentar num local próximo para apreciar a cena... Vejo um grupo de velhinhas circundarem a corpa... Quase podia ouvir o que murmuravam... Ou pelo menos imaginava algo assim: “Tadinho! Será que surtou?”; ou qualquer coisa que denotasse a compaixão cristã que aprendemos nos bolsos da sociedade diante da loucura... O jovem ergueu a cabeça e tranqüilizou as senhorinhas... Era um experimento... Escreveu algo num papel e voltou à sua posição meditativa... Nesse momento...

-AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Bem grande como uma loba, Outra louca grita um estampido do outro lado da praça... kkkk... - Eh minha amiga. Até meu fígado que não tem ouvidos reconheceria o reverberar daquele grito... Enfim... Continuei comendo minhas castanhas, uma a uma, vagarosamente... Quando acabaram, peguei o chocolates, o despi de sua indumentária soberba e levei um naco até a boca... Tinha o gosto da eternidade... Quis dividi-lo com minha amiga e fui em direção do horizonte de onde partira o grito... Chegando perto, noto aquela figura sublime meditando acostada numa árvore... Ao me aproximar, um homem vem em minha direção e murmura alguma coisa que a catarse de estar diante de minha amiga meditativa não me permite deixar que complete... Olhando-o nos olhos, posiciono automaticamente o dedo indicado entre os lábios em sinal de silêncio e aponto para Ela... O homem, que era mais alto e mais forte do que eu, se encolhe e retrocede.

Aproximo-me, me sento em sua frente com o chocolate entre as mãos... Ponho minha espinha ereta e também eu me conecto à cena... Com os olhos semicerrados eu fico lá, me certificando que o homem foi embora (não confio em ninguém, às vezes reações como a minha podem gerar represálias ou vinganças que só encontram sentido na cabeça de quem se vinga...), felizmente não havia motivos para preocupações, ninguém aborreceria nossa conexão... Ficamos lá alguns minutos, até que alguns movimentos da pessoa em minha frente denunciava seu retorno... E ela finalmente abriu os olhos, eu ergui também os meus a tempo de ouvir sua gargalhada... Ela se levantou... Nos abraçamos bem apertado... Ofereci um pedaço do meu chocolate... Logo em seguida uma moça chegou com uma caralhada de papeis... Eram relatórios do experimento... Sim... era Ela também Uma cientista...

- Toma o seu relatório... Nos reunimos em 10 minutos. – Disse a moça.

Minha amiga pegou o papel e começou a ler concentradamente, eu sabia que ela se guiava pela mesma lua que a minha... Olhei um pouquinho admirando aquela juba castanha... Apaixonadamente eu sinto que meus amigos me revelam o sentido da vida... O caminho de fazer o nosso melhor... Sempre... Sempre... Sempre...

Eu por fim a abracei... Agradeci por ela existir também... E disse:

- Tchau amiga, eu só vim aqui te dar esse abraço... Este é apenas o primeiro dia de Leão... E o Sol está sorrindo sob nossas cabeças...


Inverno de MMXVII.


https://www.youtube.com/watch?v=zethvKil2m4
(Muito - Dentro da Estrela Azulada - Caetano Veloso, 1978)

Cerração pt, III




Caminhei brincando com meu guarda-chuva já tão estropiado pelo efeito da gravidade que age diretamente sobre minhas inabilidades malabarísticas... Chegando ao RU eu encontrei a Querida... Uma mulher de barba e de paus como só o século vinte e um consegue produzir, com todos os direitos de se sentir mulher e de pensar livremente novos conceitos de gênero de acordo sua própria metafísica. Ela sorri ao me encontrar, eu lhe pergunto se vai almoçar, se quer me acompanhar. Ela aceita e vamos juntas, eu permaneço calado a maior parte do tempo, ocupado com meus próprios devaneios, sonhos e abstrações naturais das que compõem a cosmovisão de um genuíno teimoso...

- Você ficou muito bem assim de cabeça rapada, viu... Gostei mesmo, ta com a cara mais limpa, ficou muito bonito. - Ela diz.  Eu só consigo sorrir e agradecer de maneira discreta. 

Após alguns minutos eu me despeço, tenho que rumar para o trabalho, atrasado como o de costume. Na saída do restaurante encontrei uma das pessoas que mencionei anteriormente. A canceriana me viu e sorriu para mim... E então eu disse:

- Vi você na estrada de São Lázaro. Era pra ter te oferecido uma carona, mas eu tava chapado, não consegui reagir a tempo.

- Aff... É a sua cara fazer isso. Tive que andar isso tudo e eu tava morta de cólica... 

- Pois eh... Mas é isso neh? Você não vai conseguir me fazer sentir pior do que eu já me sinto horrível... - Eu disse com certo ar pesado e... depois de um breve reclinar de cabeça, ergui-me novamente e me despedi sorrindo... Saí dançando à luz do dia, rodopiando o guarda-chuva como uma criança que não se preocupa com o depois...

O restante do dia passou arrastado e utilizou de pouca energia para gravar as experiências na memória. Me lembro de uma parte da tarde onde um visitante do museu me agradeceu por ter realizado um bom trabalho, por ter sido atencioso, dedicado, por destilar os percalços da História do Brasil de maneira apaixonada... Eu fico feliz em poder estar nos lugares em que estou... Na hora em que estou... Esta é a minha imensa felicidade de viver, porque sei que só eu sinto o que sinto e que para isso preciso dar crédito aos mínimos sinais que me mandam sair... ou ficar... E é esse sentimento que me carregou até esta noite...

Esta noite me trouxe de volta a todo o caminho percorrido... Estava sozinho a saborear minha janta sem gosto quando vejo surgir no restaurante aquela figura que só de me aparecer no campo de visão modifica toda a atmosfera à minha volta... Ela sentou-se e jantou comigo... Mal conversamos, adotamos o hábito semi-inviolável de dialogarmos em silêncio... Pergunto se posso acompanhá-la até o ponto, tento ficar o máximo de tempo possível com ela... O tempo passa... Ela conversa pelas teclas do celular... Eu converso com os espíritos... Peço ajuda a um cigarro... Acendo e espero...

O ônibus chega... Nos sentamos lado a lado... Eu fecho meus olhos e sinto o seu perfume... É tudo calmo agora... Não há mais nada para esperar ou temer... Exceto o meu ponto que chega primeiro... Quando reabro os olhos ela esta cochilando... Ou fingindo... Nunca o saberei... Eu me despeço com um singelo toque em sua cabeça... Saio correndo como o de costume... Há sempre habitante em mim esse medo de chorar... Do lado de fora da janela eu a contemplo uma última vez e abro em seguida o meu guarda-chuva quebrado... E então eu sei que posso conservar por mais um pouquinho de tempo essa felicidade minúscula de vê-la mais uma vez, ainda que partindo... Hoje eu não preciso chorar porque sei que o céu faz isso por mim sempre que tento ser um bom garoto...










Inverno de MMXVII.



https://www.youtube.com/watch?v=BOO5ApAZlm4
(Quando Eu Olho O Mundo - U2)

*Legendas ativadas no Closed Caption do Video - CC.

sábado, 29 de julho de 2017

Cerração pt, II



O dia de hoje cresceu aninhado em névoas, caiu uma chuva miúda logo de manhã, já estava saindo de casa quando voltei para buscar meu cajado (guarda-chuva)... Fui até a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas com o intuito de chegar a tempo da aula de História Contemporânea. Chegando lá eu encontrei o Roberto, que estava fumando um cigarro embaixo de uma árvore antes de caminhar para sua aula chata sobre festas baianas, onde o professor passa grande parte da aula falando de novelas e inventando hipóteses e procurando nomes adequados para suas personagens, de comportamento fictícios, inventadas por uma emissora de Tv completamente fora da realidade de milhões de brasileiros ... Aff... Nisso já haviam se passado dez minutos do horário da minha aula... Conversamos um pouco sobre o fato de eu já estar saturado da universidade, das aulas, de estar novamente neste campus depois de ter abandonado o semestre anterior... Ele está já tão carregado de memórias do que não vivi que às vezes realmente tenho um sentimento estranho de angústia... É então que o Roberto fala que para ele é vantajoso estar chapado durante as aulas... Eu digo a ele que para mim é uma merda, pois eu viajo tanto em meus próprios pensamentos, são tantos os mundos que eu visito quando estou lombrado que chego a duvidar se aquilo não se trata de algum tipo de projeção astral ou sei lá o que... Acho que não nasci para o mundo acadêmico...

Roberto diz que com ele é o contrário, que consegue prestar atenção em tudo e viajar com os detalhes do que a professora gostosa fala. Ela assume uma postura tão sublime e fala com tanto domínio do assunto, que deixaria qualquer jovem intelectual excitado... É então que a conversa volta ao baseado e é nesse momento que ele se volta para mim e diz:

- Vey eu viajo demais em ouvir ela fala, vou entrando na onda. É muito bom estar chapado na aula dela... E por sinal, eu tenho um bequinho aqui, vamo ali em cima fumar!

O engraçado é que eu tinha conseguido recusar o beck que meu outro amigo havia me oferecido pela manhã... A este, porém, não fui tão forte... Fumei a contragosto como tem sido na maioria das últimas vezes... No fundo eu sei que estou fazendo isso para amainar o vício... Conversamos um pouco sobre as minhas mudanças e falei a ele um pouco sobre a minha necessidade de parar de beber, de fumar, de me entregar às saídas tóxicas da vida... O Sol clareou nesse instante... Depois de me ouvir ele perguntou o porquê eu precisava largar, porque achava que era isso que estava me prejudicando... No fundo isso é muito difícil de explicar para as outras pessoas, então eu resumi dizendo que estava me atrapalhando de fazer um monte de coisas que sempre sonhei fazer e nunca fiz. Como dominar alguma arte marcial, por exemplo. Quando disse isso ele desembestou a falar, é que Roberto estuda Aikidô, já fez Judô e Karatê e tals... Sácomé...

Ouvi atentamente o que ele dizia, e fui gradualmente pensando nos nove preceitos do Miamoto Musashi, sobretudo no último, onde ele diz que é preciso tentar não fazer nada inútil... Mas como posso eu, a mais inútil das pessoas, posso fazer qualquer coisa que tenha alguma utilidade à voz do mundo? Como posso eu um poeta anônimo contribuir ao melhoramento de um cosmo tão infinito? Com certeza não será destruindo ainda mais o meu corpo e me afogando nas depressões cotidianas de um mundo louco como este que inaugura o século XXI. É nessa parte que Roberto faz uma comparação entre os rolamentos o Judô e o Aikidô.

- Não sei men, acho que no Aikidô tem muito a onda da repetição do movimento, saca? É preciso treinar até sair perfeito. Por exemplo, no Judô todo mundo fazia o rolamento, mas era aquele rolamento de qualquer jeito, o importante era rolar entende? Já lá no Aikidô, é preciso rolar sem fazer nenhum ruído, sem ter nenhum desgaste. O Judô vc se jogava lá ou derrubava o cara, - reproduz com a boca o barulho de corpos caindo no tatame - o importante era derrubar.

- Éh isso - disse eu. - É isso que estou evitando, o desgaste. Quando estou sob o efeito de drogas, também fico muito sensível, acho que abrem portas do meu subconsciente das quais não tenho muito controle. É nesse ponto que acabo dizendo coisas que só deveriam existir dentro da minha cabeça. Coisas que machucam as pessoas, que reverberam em outras pessoas e que, em longo prazo, acaba causando grandes estragos na minha vida... Acho que eu me culpo demais, por tudo...

- Porra, isso aí é foda, cara... - Roberto irrompe e logo me seqüencia de perguntas. - Mas você acha que tudo isso que você fez foi errado? Acha que estar aqui e não estar na aula é a coisa errada a se fazer? Não dá pra conciliar os dois?

Digo a ele que realmente não me arrependo das coisas que fiz, não acho que aja culpa quando não se sabia do erro... Fiz tudo o que fiz porque foi a saída que me surgiu... De todas as coisas que fugi, de todas as sensações desagradáveis que tentei evitar... Todas as que causei por causa da decisão de evitá-las... Mas não acho que as pessoas estão nos lugares que não deveriam estar... Estar alí, naquela hora, chapando com meu amigo era tão produtivo e útil para minha vida... Para minhas reflexões... que seria muito injusto dizer que valem menos do que as coisas "que tenho que fazer"... Acho que as conciliações estão dentro de nós e “acendem-se em medidas e apagam em medidas...” Esta é a chave para a compreensão do Universo... Achar a conciliação, a redenção das coisas que constroem e destroem... Afinal, é possível construir algo sem movimentar a matéria? Sem decantar? Sem Fundir? Sem destruir??? Não meu amigo, estamos exatamente onde deveríamos estar e transformamos o mundo deste jeito... Isso é materializar o pensamento - Partir ou ficar, na minha vida, tem sido questão de onde a luta me chama... O meu caminho... as asas quebradas das vozes da minha cabeça...

Neste momento ficamos os dois em silêncio, observando a linda vista do Mirante de São Lázaro... As nuvens se abriam, o Sol brilhou divinamente, sorrindo entre as sombras da grande gameleira... Ao nos darmos conta do passar do tempo, descobrimos que já era dez pro meio dia. Ele precisou ir para a aula... eu... como sempre sigo os instintos que me dizem para não ir... Resolvo adiantar meu lado para não chegar atrasado ao trabalho de novo... Me despeço de Roberto e desço para pegar a trilha que me levará até ondina... Nesse momento eu vi a silhueta ruiva que me perseguem as vistas... Será que é ela mesmo? Quantas miragens num já vi este ano? Quantas vezes já não vi o rosto dela nos vazios? Nos vãos da aurora ao parir atravessado das madrugadas que insisto... Eu a vejo em todos os lugares onde a minha vontade maltrata meu subconsciente...

Segui na ânsia sem saber se era ela... Os pensamentos não fluem direito sobre o efeito destas drogas... É tudo muito turvo... às vezes lento... às vezes devagar... Não se consegue focar em alguma coisa por muito tempo, a menos que... Seja algo muito importante... Segui acelerando o passo... Ainda em dúvida se descia o caminho ou seguia pela estrada de São Lázaro... Nesse momento fui surpreendido por uma interlocução inesperada:

-Entra ai Estado Islâmico... Agora que ta parecendo o Estado Islâmico mesmo...

Era a voz de uma senhora muito agradável.... Não sei direito como as coisas aconteceram, não conseguia pensar direito, entrei no carro meio no automático. O carro seguiu pela estrada e lá estava a criatura de cabelos vermelhos que não saí da minha cabeça... Estava acompanhada de outra canceriana também muito importante para mim... A senhora que me deu carona falou um montão de coisas nesse meio tempo e eu não ouvi nada... Só me dei conta que não estava mesmo ali quando olhei para ela e percebi que ela estava falando sozinha... Neste momento me bateu a tristeza... Logo eu que me arrogo tanto de prestar atenção ao que as pessoas dizem? Perdi completamente o áudio daqueles segundos que se passaram desde que entrei no carro... Quando recobrei o controle de meus devaneios ela estava no meio da frase:

- ... às vezes a gente se deixa ficar triste por pequenas coisas, não eh? - Não sabia sobre o que ela estava falando, mas neste momento o meu triste ar introspectivo revelou uma estranha sensação de felicidade e então eu disse:

- Mas a felicidade também é feita de pequenos momentos, pequenas coisas que podem nos deixar feliz. - Percebi que por mais que eu estivesse triste e sem esperança da realização dos meus desejos íntimos, a vida ainda me presenteava com certos calores, certas circularidades sanguíneas irregulares que me fazem tremer as pernas, que me fazem suar frio, gaguejar... ou algo até mais raro em se tratando de mim... me fazem ficar mudo, sem palavras fiéis para descrever o que sinto... - Acho que tudo depende da maneira como captamos as energias que envolvem as pequenas coisas... Nós temos a oportunidade de transformar as situações em algo bom, sempre, desde que prestemos a atenção nos pequenos detalhes.

Nesse momento ela parou de falar um pouco e disse:

- É bem verdade, menino terrorista, é verdade.

Nós nos aproximamos daquele monumento ridículo da Avenida Garibalde, eu caminhava para o Restaurante Universitário, por isso pedi que parasse ali... O Sol brilhava sobre nós quando eu saí do carro e disse:


- Está uma linda manhã para se aproveitar os pequenos momentos, os pequenos encontros da vida... Tenha um bom dia professora, o Sol voltou a brilhar e está lindo... - Ela agradeceu com um sorriso e singelas palavras de despedida... Segui...



https://www.youtube.com/watch?v=wo9KedPA8Z0
(O Livro de Colorir do Tio Brinquedo - Blockhead)

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Cerração pt, I




Oi! Hoje eu acordei tarde, como tem sido comum nos últimos dias... É que durmo demais nesta época do ano, acho que pra compensar a parte do verão onde não durmo nada... Ontem raspei o cabelo... Tinha ido lá à Ponta de Humaitá, foi a primeira vez que voltei lá em mais de dois anos... Saímos em trio de lá da Boa Vista do Lobato num final de tarde (ou melhor, início de noite...) de domingo... Mal passava ônibus, um deles passou e não parou. A ida demorou mais do que imaginei, mas pude observar com calma uma Ribeira anoitecendo as lembranças que eu, como um perfeito nostálgico, agora revisitava religiosamente por detrás das janelas de minhas memórias...

A minha memória é um organismo vivo. Ela perpetua em mim inumeráveis imagens que se movem, falam, cheiram, transpiram e até escutam de maneira sempre atenta esta alma aberta a se ressignificar... Mesmo assim ainda me pego se perguntando se tudo o que vivi foram cálculos de grandes decisões importantes ou apenas conjuntos borrados de uma imensa perda de tempo(?) Estar ali depois de tanto tempo e poder refletir com maior clareza sobre as dores de um passado... Revisitar estas lembranças e poder refazê-las ao som destas ondas que ecoam os barulhos dos tantos beijos nunca dados que imaginei... Lembro-me dos meus olhos naqueles dias, lembro-me da distância que guardei de todos... com medo de minhas próprias lamúrias quando aquele amor me visitava... Aquele amor que ainda me doía, que surgia a mim como um veneno soprando em minhas veias, que corroía-me em todos os momentos, sem exceção, para me lembrar que eu ainda não estava sarado para viver dignamente... Vivi foi muitos comas, muitas febres e frios noturnos... Às vezes abria meus olhos e me esforçava para permanecer em vigília, mas logo logo minha frágil esfinge soçobrava sobre o castelo masculino de areia que havia erguido na esperança vã de me proteger do mundo...

Foi a primeira vez que fui até lá e não visitei os fundos... a área do farol, não fui até o lugar onde fora realizado o seu sarau... Ficamos no gramado perto da quadra... Estive a maior parte do tempo em silêncio... só assim poderia prestar atenção às pequenas coisas que pareço tanto negligenciar... as pequenas coisas que dão sentido a existência...  Enquanto os outros dois conversavam, eu buscava os arredores de meus pensamentos me recordando de todos os meus excessos... Todas as palavras que derramei a mais, mas também de todos os silêncios que guardei para mim esse tempo todo... E o pior de todos os excessos... O excesso de travar e não conseguir se decidir a tempo de fazer a coisa certa antes de se arrepender e se sentir culpado por isso pelo resto da vida... kkkkk


Um dos brothers que compunha o trio havia prometido uma session (sexón, em bom baianês), não fez por menos, acendeu três becks que me fizeram refletir pesadamente sobre quanto tempo mais eu estaria imerso naquele vício. Estava de estômago vazio quando os fumei, a fome foi piorando e se acumulando sobre todos os maltratados anos do meu corpo. Estou tentando me regenerar já faz um tempo, passo períodos de meditações intensas, de boa alimentação, de tentativas novas na arte de se de se auto disciplinar... Mas no fim, volto ao estado de desgraça que sempre estive... É que a dor da culpa que recai sobre mim é imensa... Às vezes pareço me sentir culpado pelo buraco da Camada de Ozônio, pela destruição do Agronegócio, pelo terrível holocausto de animais que alimentam um ser humano cada vez mais ridículo e superficial... Enfim... Às vezes me entrego ao pessimismo e tudo o que eu quero é morrer junto com o mundo... Explodir, enfartar, ver o quanto este corpo agüenta dos males que o próprio homem inventou para consumir o tédio de uma vida mesquinha que ele não consegue dar conta sem surtar ou sem bater em alguém... Bem, só me restava voltar pra casa par dormir mantendo firme na cabeça os rituais de despedida que sempre me repito... (Um dia eu paro, um dia eu não precisarei mais disso para sobreviver...)












https://www.youtube.com/watch?v=yB3XTWMXEgU - Nuvem Negra - Djavan/Chico/Gal

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Os Espinhos da Invídia - Terceira Parte

(Leviathan e Behemoth, William Blake, 1825)


III

MEDO



Impreterivelmente (...), acima de tudo, acho que tenho primeiramente que te agradecer, amiga, obrigado por ter sido durante esse tempo todo como um raio de luz; como um relâmpago a trovar nos céus de minhas tempestades. Toda vez que nos afastamos, levei um arcabouço cravejado de memórias, lembranças das coisas que vivemos, das coisas que você me disse, das coisas que eu disse pra você, e principalmente... das coisas que não dissemos... gestos, expressões faciais e olhares... Pensamentos ultra secretos e desconfiados... Tudo isso que me fez sentar inúmeras vezes para tencionar energicamente os músculos das horas, perscrutando respostas melhores para minhas próprias perguntas. Toda vez que você apareceu, eu chafurdava em crises existenciais muito diferentes umas das outras... De alguma forma, em todas elas você apareceu de formas diferentes também... Mas sempre de maneira mais intensa do que a anterior... Mais madura, mais forte... mais bonita... E cada vez mais foi me encantando e me fazendo refletir que tipo de homem eu era, e que tipo de homem eu quero ser... Que tipo de homem eu invejo? Bom, hoje eu posso dizer com experiência de causa que, certamente invejo um homem que pudesse, em qualquer realidade, ser chamado de seu... Invejo alguém que possa te amar do jeito que você merece e deseja ser amada...

Na infância, desejei uma mulher como você, que escondesse por detrás do olhar, sonhos tão infantis quanto os meus... Ao decorrer da vida, senti o terror endurecido emagrecendo a pureza dos meus sonhos... Ao que parece, as pessoas crescem neste mundo para pararem de sonhar... Porque o mundo e tudo o que há nele parece nos empurrar cada vez mais para o fosso por onde os mortos são consumidos... Onde a alma desaparece, perde o brilho e vira apenas parte de um exército sombrio aguardando o fim do mundo... O pior é que nem saberia dizer ao certo quando foi que deixei de ser criança... Não sei exatamente quando passei a ser chamado de tio pela pivetada da rua... Sei apenas que deixei com que meu brilho se apagasse no olhar do homem que pensei que era... Um homem que pensou encontrar no mundo masculino algum refúgio... Um refúgio ilusório por debaixo de uma casca de chumbo onde nenhum super-homem poderia olhar... E lá tranquei os sonhos que não cabiam neste lugar...

Mas eu me lembro perfeitamente daquela época remota... Me lembro dos meus dias de solidão infinda... agoniante... quando só queria alguém para contar as minhas estórias... Uma companheira... Me achava feio e relento, usava roupas usadas e pobres... gastas... Tinha inveja dos caras fortes e bonitos, os caras que tinham namoradas brancas e perfumadas - tsc! Me lembro como se fosse hoje o quanto eu gostava das ruivas, de pele bem alva, o porque exato não sei; podia ser o rock n' roll, poderia ser as convenções sociais de padrões de beleza, a verdade é que o meu pescoço acompanhava cada cabeleira vermelha a cruzar a rua de meus olhos, acho que apenas não sabia nada da vida, tsc - Tinha inveja também dos caras que dançavam break e faziam cover dos Garotos da Rua de Trás no colégio que eu estudava; tinha inveja dos caras que sabiam tocar violão. Tinha inveja dos que sabiam lutar e dar salto mortal, dos que eram astros do futebol ou qualquer outro esporte (garoto franzino, de alimentação precária, sabe?), tinha inveja dos mentecaptos populares e principalmente, dos que possuíam coisas bonitas que só o dinheiro poderia comprar...

Mas realmente tenho razões para acreditar que ninguém tinha inveja do garoto estranho que passava horas escondido na biblioteca, que andava cantando e falando sozinho o tempo todo... Que vivia brincando e criando personagens para um teatro de ninguém... Às vezes eu percebia um certo tipo de inveja que não lhes durava muito mais que 1 minuto... O tipo de inveja de quando os professores elogiam o seu 10 naquela prova do caralho, ou da cara perplexa da professora nova de inglês da 7ª série ao perceber que o garoto calado conseguia reproduzir com proficiência algumas frases complexas no idioma que ela lecionava numa escola onde, na opinião dela, só deveriam haver nécios fracassados... E nesses momentos, colaboradores de minha desgraça, eu juro que podia perceber os olhos brilhando enquanto olhavam para aquela criatura grotesca que só vestia preto, mas não conseguiam olhar nos meus olhos amargurados de loucura por mais de um segundo, e ao fim de um minuto, suas vidas de espuma voltavam a se fundir com a areia agitada de suas praias super badaladas... Ser inteligente parecia apenas mais um fetiche sem importância ou sem valer o esforço para todos ao meu redor...

Ninguém parecia querer saber de fato como é que este mundo funcionava... Como e por que as coisas eram como eram? Por que as pessoas morriam? Se havia realmente vida após a morte? Se a minha mãe realmente via e ouvia os espíritos, ou se Deus existia? Ninguém parecia realmente se importar com isso... Me lembro de ter me feito essa pergunta antes mesmo de ter dado o meu primeiro beijo, aos 11 anos de idade, numa menina que já tinha ficado com quase todos os caras da rua (Não preciso dizer que me apaixonei por ela, neh? Acho que sempre tive uma preferência pelas putas, e não me arrependo disso, pois sempre me foram as melhores professoras...)... Mas acho que essa insistência em querer saber das coisas é que foi a minha verdadeira ruína... Pois aonde cheguei é impossível retroceder, não há caminho de volta para a total ignorância, nem há fuga suficiente para levar embora toda a carga, toda a dor provocada pelas respostas que encontrei... e principalmente o vazio deixado pelas novas perguntas que são feitas a partir do rombo que alarga a borda da minha realidade... O medo de nunca saber um monte de coisas... Sobre as leis que governam tudo o que eu amo, a Natureza, o Universo, os átomos, as estruturas moleculares, os poemas... Tudo isso que foi atirado num imenso caldeirão de bruxa que irá cozer a sua cabeça até o fim dos tempos...

Na antiga Mitologia Nórdica havia uma Serpente, Níõhöggr é um dragão enorme que habita o mundo subterrâneo (Niflhein, o mais profundo dos 9 mundos), ela engole os corpos dos são enviados para o mundo dos mortos (não, não tentem comparar com inferno cristão, isso é um equivoco tosco e grosseiro), absorvendo suas almas que serão transformadas em soldados no dia do Ragnarok. Por volta do ano 1220, o poeta, historiador, político e legislador islandês, Snorri Sturluson, compilou uma série de narrações que juntamente com a Edda Poética (Edda em Verso, de autores desconhecidos) constituem a mais importante fonte da mitologia nórdica. Segundo a descrição de Snorri, o Níõhöggr,  também chamado de Nidhogg, ou Nidogue,  é um dragão sem asas e sem pernas que come as raízes da Yggdrasil, a árvore que sustenta os nove mundos da Mitologia Escandinava. Ela tem a missão de matar a Árvore e destruir o mundo conhecido para que outro novo surja em seu lugar. As raízes da Yggdrasil impedem que o Nidogue passe para os outros mundos, principalmente Midgard (onde nós habitamos).


(Ti fofa, ela...)

Nidhogg se alimenta dos pecadores, de todos aqueles que jamais entrarão no reino de Valhala, sobretudo os perjuros (quem quebra um juramento, uma promessa feita); o homicídio (quem mata fora de guerra); e o adultério (quando há infidelidade, mentira, enganação entre duas pessoas que supostamente se amam)... Estes são apontados como os mais graves delitos espirituais (sociais) da cultura nórdica medieval... Nidhogg também não é o único ser que habita a árvore, no seu topo reside Hraesvelgr , um gigante que transforma-se em águia sentado nos confins do mundo (extremo mais elevado). No tronco da Yggdrasil mora Ratatosk, um esquilo que troca insultos e palavras invejosas entre a Águia e a Serpente que guerrearão implacavelmente até se exterminarem no advento do fim do mundo nórdico (q.v.  Ragnarok).


Assim como Behemoth e Leviatã (q.v. capítulo anterior), estamos todos fadados à auto-sabotagem, à auto-destruição... Como se houvessem dois egos principais dentro de nós e um estivesse sempre tentando esconder do outro os planos secretos do amanhã; pois caso esse outro descubra, inventará mil motivos para não vê-los acontecer, para termos preguiça, para desistirmos de mudar, de ir, de seguir em frente... de tentar de novo... Neste dia, ouvi muito sobre a coragem de seguir com nossos sonhos, de buscar mundos diferentes, ou de destruir o velho mundo para criarmos algo completamente novo... Partir para podermos nos encontrar... Perder-se das ilusões do que acreditamos ser o Eu... E é por isso que o Medo nos apodera tanto... Pois tudo aquilo que acreditamos ser este Eu, está coberto de ilusão. Todas as suas memórias foram sabotadas, elas estão repletas de sentimentos novos, de novas leituras sobre as mesmas; amores mais intensos, coisas ditas (ou não) que revigoram ou destroem nosso ser... Tudo isso, amontoando os outros fardos que a sociedade nos impõe através desta realidade parca que consumimos... Tudo isso vai roendo as raízes profundos dos nossos mundos ocultos até que retornemos completamente para os braços do Universo, da Terra, do Sol... Aos átomos que daqui a anos inimagináveis constituirão outras galáxias (pois eh, você achou mesmo que a Terra e o nosso Sistema Solar... kkkkk... A Humanidade... Durariam para Sempre? Jura que pensou nisso? Sinto muito, o Universo não foi criado para nós! hahahha!)

Acho que nunca conseguirei acreditar de fato que os erros sejam irremediáveis... Que o tempo tenha passado para nós... Imaginar isso é me perceber exatamente como nossos pais... É que quando ouço aquela velha música do Belquior, tenho a impressão de que todos os nossos pais, nossos ídolos, nossos músicos, poetas, filósofos e personagens prediletos, todos eles discursaram sobre seus próprios erros para que nós talvez tivéssemos alguma possibilidade de salvação, de redenção, de mudança... De acerto... Portanto, aquela música é uma ode à tristeza... Uma ode às pessoas que desistiram umas das outras... E eu, bem... Eu trago este cansaço dolorido de velhas desistências... Ao que parece, eu não valho a pena para ninguém... Acho que ninguém que amei realmente tenha tido vontade de construir algo maior comigo... Bom, mas seria realmente injusto afirmar isso por outras pessoas, então eu só acho mesmo... Sei apenas que vai doer, ver o teu cabelo balançando ao vento, saber de toda a gente jovem reunida à sua volta e eu... Bem, o meu maior medo e nem sequer saber se ocuparei algum lugar especial nas suas lembranças... E da mesma forma que todos desistiram, tenho medo de nunca realizar meus sonhos maiores, tenho medo de desistir de invejar ser um homem que jamais fui... O homem que invejo é sem dúvida um homem pelo qual vale a pena lutar...

Bem, viajo daqui há pouco... Certamente visitarei um outro mundo... Lá tenho uma família que me aguarda como sou... Terei Irmãs... Terei Pais... Terei até um Tio-Avó muito querido... Gostaria mesmo de saber tudo o que me espera antes do meu próprio Ragnarok... Porém, o que é justo e não me falha... Tenho todas essas memórias sabotadas e gastas pelas dores do tempo... Mas apenas as tenho porque tive a coragem de seguir meu coração... Porque tive a coragem de partir ou de ficar quando ele me pediu... Tenho todas estas memórias maravilhosas dos amores que me transformaram em alguém melhor e mais forte para lutar esta minha guerra... Porque assim pude ficar de pé e caminhar em busca de meus sonhos... Tenho orgulho de ainda estar vivo por causa deles... E tenho Orgulho apenas porque sei que Vivi...


XIII - IV - MMXVII


https://www.youtube.com/watch?v=da5hGxi-W_U
(Como Nossos Pais - Belquior)

https://www.youtube.com/watch?v=IHtExPwC100
(Super Homem - A Canção - Caetano Veloso e Gilberto Gil)