quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Do Jardim da Desolação ao Fogo Restaurador


(Krishna)




Foi assim, como as notas de uma canção dramática, quando me percebi em um momento muitíssimo delicado desta minha existência, um lugar onde nada parecia mais fazer sentido ou valer a pena. Chamar isso de o Jardim da Desolação me faz lembrar deste período com uma sensação parecida à de Arjuna frente ao campo de batalha onde todos os seus familiares haviam morrido, nada mais parecia importar, o mundo parecia deserto e sem nenhuma possibilidade de felicidade em parte alguma. E aí então, que aquele desejo de suicídio, já tão presente durante praticamente a minha vida toda, se tornou muito mais contundente. Os dias se passavam e essa vontade só crescia dentro de mim, tentei de tudo, me afastei o máximo que pude das pessoas e busquei um caminho de auto-compreensão, tentei entender o que estava acontecendo comigo e o porquê de sentir aquele vazio tão grande me destroçar não só por dentro, como também me vi fisicamente
debilitado.

                                   
(Batalha de Kurukshetra)

(Arjuna Desolado)
                                                                                                            
Já havia entrado em contato com algumas leituras e filosofias orientais, mesmo que por alto, mas foi neste momento que algo me direcionou para a yoga. Comecei a ler um livro que, embora não ensine a prática da yoga propriamente,  me transportou para a possibilidade de talvez, um dia quem sabe, eu pudesse me compreender de fato, me aceitar como sou, aceitar meus erros e a partir daí me permitir mudar para algo melhor. Depois disso entrei em contato com outros textos, com a religiosidade hindu, zen budista, taoísta. Com o tempo, percebi que aquelas leituras faziam sentido para mim, fui me percebendo mais calmo aos poucos, mais silencioso, e aí então eu perdi o medo e a preguiça de mudar. Antes, cheguei a pensar que a meditação era algo impossível para mim, para minha mente inquieta, parecia impossível vencer minha ansiedade, minha angústia e meus vícios. Foi no final de 2015 que fiquei sabendo que no Palacete das Artes havia uma aula quinzenal de graça, e como tinha interesse mas não tinha dinheiro, achei que não custava nada ir até lá ver.


(Krishna e Arjuna)


 Me lembro do primeiro dia que fui, não fiz nenhum asana, apenas me sentei em um dos bancos e observei, respirei, ouvi com atenção tudo o que a professora dizia. No final, na hora da curta meditação onde todos se deitaram, eu simplesmente fechei os meus olhos e, de repente, aquela pessoa que não sabia meditar permitiu que os sons do espaço e os diversos silêncios acolhidos ali lhe invadissem, e naquele momento eu senti uma paz e uma felicidade cheia de vida e esperança.  Daí então comecei a frequentar mais vezes e a repetir os movimentos em casa com a máxima dedicação que me foi possível, assisti muitos vídeos e procurei outras pessoas que gostavam do assunto. Obvio que não foi mágico assim, ainda passaria e passo por diversas dificuldades e crises que me afastam da prática, porém, aquelas leituras, ambientes como aquele e a minha reabertura para o mundo externo, para redescobrir à beleza das pessoas e do mundo, isso tudo me trouxe de volta uma certa esperança que eu julgava perdida. A yoga, sem dúvidas, se apresenta como verdadeira divisora de águas para mim.

(Krishna ensina a Yoga a Arjuna)


A tradição hindu tem diversos mitos relacionados à yoga. Mas de maneira geral os mitos de origem revelam a nossa ligação com o Eterno. Yoga quer dizer "união", e os hindus acreditam que esta não é uma prática inventada pela humanidade, é sim um dom dos deuses e está presente desde o início de tudo. Desta forma a yoga é uma prática muito além dos asanas, é algo que nos aproxima de novo deste Eterno e faz com que (no meu caso, por breves momentos que parecem infinitos) não sintamos mais pressa, ansiedade ou cansaço. A yoga me permite entender que por mais difícil que seja um movimento, eu sei que posso resistir por mais uma respiração ou duas e entender que eu não sou apenas o meu corpo e o que eu sinto, mas também sou outros corpos e também o que estes corpos sentem. Percebi que era preciso me entender para entender os outros, para poder amá-los e respeitá-los como são, com todas as minhas limitações e excessos eu também aprendia a ver as pessoas como belas desta mesma forma.



(Shiva, o Destruidor)




No Bhagavad Gita, Krshna afirma que ensinou a yoga ao sol, e dessa forma o ensinamento chega até nós. Ele ensinou esta prática ao seu aluno Arjuna que pôde ver algo de bom depois da desastrosa  Guerra de Kurukshetra. Outras lendas apontam Shiva como o criador da yoga, sendo esta uma divindade relacionada diretamente com as forças de mudança, o Fogo Destruidor e Regenerador. Enfim, não sei detalhes sobre os mitos, apenas posso dizer que tudo isso faz sentido para mim. Acredito que o mundo é sim um mar de lágrimas e lamentações quando estamos acostumados a enxergá-lo com nossos sentidos e desejos mais primitivos, ou seja, sem entendimento. Por isso, acho fácil para a vida de um ser humano se encontrar na depressão, no fundo de um poço onde nada mais parece valioso, onde tudo foi aparentemente destruído, e é nesse ponto onde a energia de Shiva me consola. Eu posso dizer que sinto esta chama criadora dentro de mim e sei que ela é parte da mesma força que me destruiu, ela me dá a esperança de que tudo pode ser refeito e de que nada está totalmente perdido, ou que ainda assim, tudo é aprendizado... E é por causa dessa energia de mudança que qualquer floresta faz brotar novas flores depois do incêndio e daí então posso usar os asanas para fortalecer o meu corpo e me preparar para sentar e meditar e me entender e me aceitar e me amar tal como tudo o que existe, existiu ou existirá.


(Arjuna e o Caminho da Iluminação)



 Pratiquem Yoga...

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