domingo, 30 de julho de 2017

Cerração pt, III




Caminhei brincando com meu guarda-chuva já tão estropiado pelo efeito da gravidade que age diretamente sobre minhas inabilidades malabarísticas... Chegando ao RU eu encontrei a Querida... Uma mulher de barba e de paus como só o século vinte e um consegue produzir, com todos os direitos de se sentir mulher e de pensar livremente novos conceitos de gênero de acordo sua própria metafísica. Ela sorri ao me encontrar, eu lhe pergunto se vai almoçar, se quer me acompanhar. Ela aceita e vamos juntas, eu permaneço calado a maior parte do tempo, ocupado com meus próprios devaneios, sonhos e abstrações naturais das que compõem a cosmovisão de um genuíno teimoso...

- Você ficou muito bem assim de cabeça rapada, viu... Gostei mesmo, ta com a cara mais limpa, ficou muito bonito. - Ela diz.  Eu só consigo sorrir e agradecer de maneira discreta. 

Após alguns minutos eu me despeço, tenho que rumar para o trabalho, atrasado como o de costume. Na saída do restaurante encontrei uma das pessoas que mencionei anteriormente. A canceriana me viu e sorriu para mim... E então eu disse:

- Vi você na estrada de São Lázaro. Era pra ter te oferecido uma carona, mas eu tava chapado, não consegui reagir a tempo.

- Aff... É a sua cara fazer isso. Tive que andar isso tudo e eu tava morta de cólica... 

- Pois eh... Mas é isso neh? Você não vai conseguir me fazer sentir pior do que eu já me sinto horrível... - Eu disse com certo ar pesado e... depois de um breve reclinar de cabeça, ergui-me novamente e me despedi sorrindo... Saí dançando à luz do dia, rodopiando o guarda-chuva como uma criança que não se preocupa com o depois...

O restante do dia passou arrastado e utilizou de pouca energia para gravar as experiências na memória. Me lembro de uma parte da tarde onde um visitante do museu me agradeceu por ter realizado um bom trabalho, por ter sido atencioso, dedicado, por destilar os percalços da História do Brasil de maneira apaixonada... Eu fico feliz em poder estar nos lugares em que estou... Na hora em que estou... Esta é a minha imensa felicidade de viver, porque sei que só eu sinto o que sinto e que para isso preciso dar crédito aos mínimos sinais que me mandam sair... ou ficar... E é esse sentimento que me carregou até esta noite...

Esta noite me trouxe de volta a todo o caminho percorrido... Estava sozinho a saborear minha janta sem gosto quando vejo surgir no restaurante aquela figura que só de me aparecer no campo de visão modifica toda a atmosfera à minha volta... Ela sentou-se e jantou comigo... Mal conversamos, adotamos o hábito semi-inviolável de dialogarmos em silêncio... Pergunto se posso acompanhá-la até o ponto, tento ficar o máximo de tempo possível com ela... O tempo passa... Ela conversa pelas teclas do celular... Eu converso com os espíritos... Peço ajuda a um cigarro... Acendo e espero...

O ônibus chega... Nos sentamos lado a lado... Eu fecho meus olhos e sinto o seu perfume... É tudo calmo agora... Não há mais nada para esperar ou temer... Exceto o meu ponto que chega primeiro... Quando reabro os olhos ela esta cochilando... Ou fingindo... Nunca o saberei... Eu me despeço com um singelo toque em sua cabeça... Saio correndo como o de costume... Há sempre habitante em mim esse medo de chorar... Do lado de fora da janela eu a contemplo uma última vez e abro em seguida o meu guarda-chuva quebrado... E então eu sei que posso conservar por mais um pouquinho de tempo essa felicidade minúscula de vê-la mais uma vez, ainda que partindo... Hoje eu não preciso chorar porque sei que o céu faz isso por mim sempre que tento ser um bom garoto...










Inverno de MMXVII.



https://www.youtube.com/watch?v=BOO5ApAZlm4
(Quando Eu Olho O Mundo - U2)

*Legendas ativadas no Closed Caption do Video - CC.

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