Oi! Hoje eu acordei tarde, como tem sido
comum nos últimos dias... É que durmo demais nesta época do ano, acho que pra
compensar a parte do verão onde não durmo nada... Ontem raspei o cabelo...
Tinha ido lá à Ponta de Humaitá, foi a primeira vez que voltei lá em mais de
dois anos... Saímos em trio de lá da Boa Vista do Lobato num final de tarde (ou
melhor, início de noite...) de domingo... Mal passava ônibus, um deles passou e
não parou. A ida demorou mais do que imaginei, mas pude observar com calma uma
Ribeira anoitecendo as lembranças que eu, como um perfeito nostálgico, agora
revisitava religiosamente por detrás das janelas de minhas memórias...
A minha memória é um organismo vivo. Ela
perpetua em mim inumeráveis imagens que se movem, falam, cheiram, transpiram e
até escutam de maneira sempre atenta esta alma aberta a se ressignificar...
Mesmo assim ainda me pego se perguntando se tudo o que vivi foram cálculos de
grandes decisões importantes ou apenas conjuntos borrados de uma imensa perda
de tempo(?) Estar ali depois de tanto tempo e poder refletir com maior clareza
sobre as dores de um passado... Revisitar estas lembranças e poder refazê-las
ao som destas ondas que ecoam os barulhos dos tantos beijos nunca dados que
imaginei... Lembro-me dos meus olhos naqueles dias, lembro-me da distância que
guardei de todos... com medo de minhas próprias lamúrias quando aquele amor me
visitava... Aquele amor que ainda me doía, que surgia a mim como um veneno
soprando em minhas veias, que corroía-me em todos os momentos, sem exceção,
para me lembrar que eu ainda não estava sarado para viver dignamente... Vivi
foi muitos comas, muitas febres e frios noturnos... Às vezes abria meus olhos e
me esforçava para permanecer em vigília, mas logo logo minha frágil esfinge soçobrava
sobre o castelo masculino de areia que havia erguido na esperança vã de me
proteger do mundo...
Foi a primeira vez que fui até lá e não
visitei os fundos... a área do farol, não fui até o lugar onde fora realizado o
seu sarau... Ficamos no gramado perto da quadra... Estive a maior parte do
tempo em silêncio... só assim poderia prestar atenção às pequenas coisas que
pareço tanto negligenciar... as pequenas coisas que dão sentido a existência...
Enquanto os outros dois conversavam, eu buscava os arredores de meus
pensamentos me recordando de todos os meus excessos... Todas as palavras que
derramei a mais, mas também de todos os silêncios que guardei para mim esse
tempo todo... E o pior de todos os excessos... O excesso de travar e não
conseguir se decidir a tempo de fazer a coisa certa antes de se arrepender e se
sentir culpado por isso pelo resto da vida... kkkkk
Um dos brothers que compunha o trio havia
prometido uma session (sexón, em bom baianês), não fez por
menos, acendeu três becks que me fizeram refletir pesadamente
sobre quanto tempo mais eu estaria imerso naquele vício. Estava de estômago
vazio quando os fumei, a fome foi piorando e se acumulando sobre todos os
maltratados anos do meu corpo. Estou tentando me regenerar já faz um tempo,
passo períodos de meditações intensas, de boa alimentação, de tentativas novas
na arte de se de se auto disciplinar... Mas no fim, volto ao estado de desgraça
que sempre estive... É que a dor da culpa que recai sobre mim é imensa... Às
vezes pareço me sentir culpado pelo buraco da Camada de Ozônio, pela destruição
do Agronegócio, pelo terrível holocausto de animais que alimentam um ser humano
cada vez mais ridículo e superficial... Enfim... Às vezes me entrego ao
pessimismo e tudo o que eu quero é morrer junto com o mundo... Explodir, enfartar,
ver o quanto este corpo agüenta dos males que o próprio homem inventou para
consumir o tédio de uma vida mesquinha que ele não consegue dar conta sem
surtar ou sem bater em alguém... Bem, só me restava voltar pra casa par dormir
mantendo firme na cabeça os rituais de despedida que sempre me repito... (Um
dia eu paro, um dia eu não precisarei mais disso para sobreviver...)

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