O dia de hoje cresceu aninhado em névoas,
caiu uma chuva miúda logo de manhã, já estava saindo de casa quando voltei para
buscar meu cajado (guarda-chuva)... Fui até a Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas com o intuito de chegar a tempo da aula de História Contemporânea.
Chegando lá eu encontrei o Roberto, que estava fumando um cigarro embaixo de uma
árvore antes de caminhar para sua aula chata sobre festas baianas, onde o
professor passa grande parte da aula falando de novelas e inventando hipóteses
e procurando nomes adequados para suas personagens, de comportamento fictícios,
inventadas por uma emissora de Tv completamente fora da realidade de milhões de
brasileiros ... Aff... Nisso já haviam se passado dez minutos do horário da
minha aula... Conversamos um pouco sobre o fato de eu já estar saturado da
universidade, das aulas, de estar novamente neste campus depois de ter
abandonado o semestre anterior... Ele está já tão carregado de memórias do que
não vivi que às vezes realmente tenho um sentimento estranho de angústia... É
então que o Roberto fala que para ele é vantajoso estar chapado durante as
aulas... Eu digo a ele que para mim é uma merda, pois eu viajo tanto em meus
próprios pensamentos, são tantos os mundos que eu visito quando estou lombrado
que chego a duvidar se aquilo não se trata de algum tipo de projeção astral ou
sei lá o que... Acho que não nasci para o mundo acadêmico...
Roberto diz que com ele é o contrário, que
consegue prestar atenção em tudo e viajar com os detalhes do que a professora
gostosa fala. Ela assume uma postura tão sublime e fala com tanto domínio do
assunto, que deixaria qualquer jovem intelectual excitado... É então que a
conversa volta ao baseado e é nesse momento que ele se volta para mim e diz:
- Vey eu viajo demais em ouvir ela fala,
vou entrando na onda. É muito bom estar chapado na aula dela... E por sinal, eu
tenho um bequinho aqui, vamo ali em cima fumar!
O engraçado é que eu tinha conseguido
recusar o beck que meu outro amigo havia me oferecido pela
manhã... A este, porém, não fui tão forte... Fumei a contragosto como tem sido
na maioria das últimas vezes... No fundo eu sei que estou fazendo isso para
amainar o vício... Conversamos um pouco sobre as minhas mudanças e falei a ele
um pouco sobre a minha necessidade de parar de beber, de fumar, de me entregar
às saídas tóxicas da vida... O Sol clareou nesse instante... Depois de me ouvir
ele perguntou o porquê eu precisava largar, porque achava que era isso que
estava me prejudicando... No fundo isso é muito difícil de explicar para as
outras pessoas, então eu resumi dizendo que estava me atrapalhando de fazer um
monte de coisas que sempre sonhei fazer e nunca fiz. Como dominar alguma arte
marcial, por exemplo. Quando disse isso ele desembestou a falar, é que Roberto
estuda Aikidô, já fez Judô e Karatê e tals... Sácomé...
Ouvi atentamente o que ele dizia, e fui
gradualmente pensando nos nove preceitos do Miamoto Musashi, sobretudo no
último, onde ele diz que é preciso tentar não fazer nada inútil... Mas como
posso eu, a mais inútil das pessoas, posso fazer qualquer coisa que tenha
alguma utilidade à voz do mundo? Como posso eu um poeta anônimo contribuir ao
melhoramento de um cosmo tão infinito? Com certeza não será destruindo ainda
mais o meu corpo e me afogando nas depressões cotidianas de um mundo louco como
este que inaugura o século XXI. É nessa parte que Roberto faz uma comparação
entre os rolamentos o Judô e o Aikidô.
- Não sei men, acho que no Aikidô tem
muito a onda da repetição do movimento, saca? É preciso treinar até sair
perfeito. Por exemplo, no Judô todo mundo fazia o rolamento, mas era aquele
rolamento de qualquer jeito, o importante era rolar entende? Já lá no Aikidô, é
preciso rolar sem fazer nenhum ruído, sem ter nenhum desgaste. O Judô vc se
jogava lá ou derrubava o cara, - reproduz com a boca o barulho de corpos caindo
no tatame - o importante era derrubar.
- Éh isso - disse eu. - É isso que estou
evitando, o desgaste. Quando estou sob o efeito de drogas, também fico muito
sensível, acho que abrem portas do meu subconsciente das quais não tenho muito
controle. É nesse ponto que acabo dizendo coisas que só deveriam existir dentro
da minha cabeça. Coisas que machucam as pessoas, que reverberam em outras pessoas
e que, em longo prazo, acaba causando grandes estragos na minha vida... Acho
que eu me culpo demais, por tudo...
- Porra, isso aí é foda, cara... - Roberto
irrompe e logo me seqüencia de perguntas. - Mas você acha que tudo isso que
você fez foi errado? Acha que estar aqui e não estar na aula é a coisa errada a
se fazer? Não dá pra conciliar os dois?
Digo a ele que realmente não me arrependo
das coisas que fiz, não acho que aja culpa quando não se sabia do erro... Fiz
tudo o que fiz porque foi a saída que me surgiu... De todas as coisas que fugi,
de todas as sensações desagradáveis que tentei evitar... Todas as que causei
por causa da decisão de evitá-las... Mas não acho que as pessoas estão nos
lugares que não deveriam estar... Estar alí, naquela hora, chapando com meu
amigo era tão produtivo e útil para minha vida... Para minhas reflexões... que
seria muito injusto dizer que valem menos do que as coisas "que tenho que
fazer"... Acho que as conciliações estão dentro de nós e “acendem-se em
medidas e apagam em medidas...” Esta é a chave para a compreensão do
Universo... Achar a conciliação, a redenção das coisas que constroem e
destroem... Afinal, é possível construir algo sem movimentar a matéria? Sem
decantar? Sem Fundir? Sem destruir??? Não meu amigo, estamos exatamente
onde deveríamos estar e transformamos o mundo deste jeito... Isso é
materializar o pensamento - Partir ou ficar, na minha vida, tem sido questão de
onde a luta me chama... O meu caminho... as asas quebradas das vozes da minha
cabeça...
Neste momento ficamos os dois em silêncio,
observando a linda vista do Mirante de São Lázaro... As nuvens se abriam, o Sol
brilhou divinamente, sorrindo entre as sombras da grande gameleira... Ao nos
darmos conta do passar do tempo, descobrimos que já era dez pro meio dia. Ele
precisou ir para a aula... eu... como sempre sigo os instintos que me dizem
para não ir... Resolvo adiantar meu lado para não chegar atrasado ao trabalho
de novo... Me despeço de Roberto e desço para pegar a trilha que me levará até
ondina... Nesse momento eu vi a silhueta ruiva que me perseguem as vistas...
Será que é ela mesmo? Quantas miragens num já vi este ano? Quantas vezes já não
vi o rosto dela nos vazios? Nos vãos da aurora ao parir atravessado das
madrugadas que insisto... Eu a vejo em todos os lugares onde a minha vontade
maltrata meu subconsciente...
Segui na ânsia sem saber se era ela... Os
pensamentos não fluem direito sobre o efeito destas drogas... É tudo muito
turvo... às vezes lento... às vezes devagar... Não se consegue focar em alguma
coisa por muito tempo, a menos que... Seja algo muito importante... Segui
acelerando o passo... Ainda em dúvida se descia o caminho ou seguia pela
estrada de São Lázaro... Nesse momento fui surpreendido por uma interlocução
inesperada:
-Entra ai Estado Islâmico... Agora que ta
parecendo o Estado Islâmico mesmo...
Era a voz de uma senhora muito
agradável.... Não sei direito como as coisas aconteceram, não conseguia pensar
direito, entrei no carro meio no automático. O carro seguiu pela estrada e lá
estava a criatura de cabelos vermelhos que não saí da minha cabeça... Estava
acompanhada de outra canceriana também muito importante para mim... A senhora
que me deu carona falou um montão de coisas nesse meio tempo e eu não ouvi
nada... Só me dei conta que não estava mesmo ali quando olhei para ela e
percebi que ela estava falando sozinha... Neste momento me bateu a tristeza...
Logo eu que me arrogo tanto de prestar atenção ao que as pessoas dizem? Perdi
completamente o áudio daqueles segundos que se passaram desde que entrei no
carro... Quando recobrei o controle de meus devaneios ela estava no meio da
frase:
- ... às vezes a gente se deixa ficar
triste por pequenas coisas, não eh? - Não sabia sobre o que ela estava falando,
mas neste momento o meu triste ar introspectivo revelou uma estranha sensação
de felicidade e então eu disse:
- Mas a felicidade também é feita de
pequenos momentos, pequenas coisas que podem nos deixar feliz. - Percebi que
por mais que eu estivesse triste e sem esperança da realização dos meus desejos
íntimos, a vida ainda me presenteava com certos calores, certas circularidades
sanguíneas irregulares que me fazem tremer as pernas, que me fazem suar frio,
gaguejar... ou algo até mais raro em se tratando de mim... me fazem ficar mudo,
sem palavras fiéis para descrever o que sinto... - Acho que tudo depende da
maneira como captamos as energias que envolvem as pequenas coisas... Nós temos
a oportunidade de transformar as situações em algo bom, sempre, desde que
prestemos a atenção nos pequenos detalhes.
Nesse momento ela parou de falar um pouco
e disse:
- É bem verdade, menino terrorista, é
verdade.
Nós nos aproximamos daquele monumento
ridículo da Avenida Garibalde, eu caminhava para o Restaurante Universitário,
por isso pedi que parasse ali... O Sol brilhava sobre nós quando eu saí do
carro e disse:
- Está uma linda manhã para se aproveitar
os pequenos momentos, os pequenos encontros da vida... Tenha um bom dia
professora, o Sol voltou a brilhar e está lindo... - Ela agradeceu com um
sorriso e singelas palavras de despedida... Segui...
https://www.youtube.com/watch?v=wo9KedPA8Z0
(O Livro de Colorir do Tio Brinquedo - Blockhead)
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