sábado, 29 de julho de 2017

Cerração pt, II



O dia de hoje cresceu aninhado em névoas, caiu uma chuva miúda logo de manhã, já estava saindo de casa quando voltei para buscar meu cajado (guarda-chuva)... Fui até a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas com o intuito de chegar a tempo da aula de História Contemporânea. Chegando lá eu encontrei o Roberto, que estava fumando um cigarro embaixo de uma árvore antes de caminhar para sua aula chata sobre festas baianas, onde o professor passa grande parte da aula falando de novelas e inventando hipóteses e procurando nomes adequados para suas personagens, de comportamento fictícios, inventadas por uma emissora de Tv completamente fora da realidade de milhões de brasileiros ... Aff... Nisso já haviam se passado dez minutos do horário da minha aula... Conversamos um pouco sobre o fato de eu já estar saturado da universidade, das aulas, de estar novamente neste campus depois de ter abandonado o semestre anterior... Ele está já tão carregado de memórias do que não vivi que às vezes realmente tenho um sentimento estranho de angústia... É então que o Roberto fala que para ele é vantajoso estar chapado durante as aulas... Eu digo a ele que para mim é uma merda, pois eu viajo tanto em meus próprios pensamentos, são tantos os mundos que eu visito quando estou lombrado que chego a duvidar se aquilo não se trata de algum tipo de projeção astral ou sei lá o que... Acho que não nasci para o mundo acadêmico...

Roberto diz que com ele é o contrário, que consegue prestar atenção em tudo e viajar com os detalhes do que a professora gostosa fala. Ela assume uma postura tão sublime e fala com tanto domínio do assunto, que deixaria qualquer jovem intelectual excitado... É então que a conversa volta ao baseado e é nesse momento que ele se volta para mim e diz:

- Vey eu viajo demais em ouvir ela fala, vou entrando na onda. É muito bom estar chapado na aula dela... E por sinal, eu tenho um bequinho aqui, vamo ali em cima fumar!

O engraçado é que eu tinha conseguido recusar o beck que meu outro amigo havia me oferecido pela manhã... A este, porém, não fui tão forte... Fumei a contragosto como tem sido na maioria das últimas vezes... No fundo eu sei que estou fazendo isso para amainar o vício... Conversamos um pouco sobre as minhas mudanças e falei a ele um pouco sobre a minha necessidade de parar de beber, de fumar, de me entregar às saídas tóxicas da vida... O Sol clareou nesse instante... Depois de me ouvir ele perguntou o porquê eu precisava largar, porque achava que era isso que estava me prejudicando... No fundo isso é muito difícil de explicar para as outras pessoas, então eu resumi dizendo que estava me atrapalhando de fazer um monte de coisas que sempre sonhei fazer e nunca fiz. Como dominar alguma arte marcial, por exemplo. Quando disse isso ele desembestou a falar, é que Roberto estuda Aikidô, já fez Judô e Karatê e tals... Sácomé...

Ouvi atentamente o que ele dizia, e fui gradualmente pensando nos nove preceitos do Miamoto Musashi, sobretudo no último, onde ele diz que é preciso tentar não fazer nada inútil... Mas como posso eu, a mais inútil das pessoas, posso fazer qualquer coisa que tenha alguma utilidade à voz do mundo? Como posso eu um poeta anônimo contribuir ao melhoramento de um cosmo tão infinito? Com certeza não será destruindo ainda mais o meu corpo e me afogando nas depressões cotidianas de um mundo louco como este que inaugura o século XXI. É nessa parte que Roberto faz uma comparação entre os rolamentos o Judô e o Aikidô.

- Não sei men, acho que no Aikidô tem muito a onda da repetição do movimento, saca? É preciso treinar até sair perfeito. Por exemplo, no Judô todo mundo fazia o rolamento, mas era aquele rolamento de qualquer jeito, o importante era rolar entende? Já lá no Aikidô, é preciso rolar sem fazer nenhum ruído, sem ter nenhum desgaste. O Judô vc se jogava lá ou derrubava o cara, - reproduz com a boca o barulho de corpos caindo no tatame - o importante era derrubar.

- Éh isso - disse eu. - É isso que estou evitando, o desgaste. Quando estou sob o efeito de drogas, também fico muito sensível, acho que abrem portas do meu subconsciente das quais não tenho muito controle. É nesse ponto que acabo dizendo coisas que só deveriam existir dentro da minha cabeça. Coisas que machucam as pessoas, que reverberam em outras pessoas e que, em longo prazo, acaba causando grandes estragos na minha vida... Acho que eu me culpo demais, por tudo...

- Porra, isso aí é foda, cara... - Roberto irrompe e logo me seqüencia de perguntas. - Mas você acha que tudo isso que você fez foi errado? Acha que estar aqui e não estar na aula é a coisa errada a se fazer? Não dá pra conciliar os dois?

Digo a ele que realmente não me arrependo das coisas que fiz, não acho que aja culpa quando não se sabia do erro... Fiz tudo o que fiz porque foi a saída que me surgiu... De todas as coisas que fugi, de todas as sensações desagradáveis que tentei evitar... Todas as que causei por causa da decisão de evitá-las... Mas não acho que as pessoas estão nos lugares que não deveriam estar... Estar alí, naquela hora, chapando com meu amigo era tão produtivo e útil para minha vida... Para minhas reflexões... que seria muito injusto dizer que valem menos do que as coisas "que tenho que fazer"... Acho que as conciliações estão dentro de nós e “acendem-se em medidas e apagam em medidas...” Esta é a chave para a compreensão do Universo... Achar a conciliação, a redenção das coisas que constroem e destroem... Afinal, é possível construir algo sem movimentar a matéria? Sem decantar? Sem Fundir? Sem destruir??? Não meu amigo, estamos exatamente onde deveríamos estar e transformamos o mundo deste jeito... Isso é materializar o pensamento - Partir ou ficar, na minha vida, tem sido questão de onde a luta me chama... O meu caminho... as asas quebradas das vozes da minha cabeça...

Neste momento ficamos os dois em silêncio, observando a linda vista do Mirante de São Lázaro... As nuvens se abriam, o Sol brilhou divinamente, sorrindo entre as sombras da grande gameleira... Ao nos darmos conta do passar do tempo, descobrimos que já era dez pro meio dia. Ele precisou ir para a aula... eu... como sempre sigo os instintos que me dizem para não ir... Resolvo adiantar meu lado para não chegar atrasado ao trabalho de novo... Me despeço de Roberto e desço para pegar a trilha que me levará até ondina... Nesse momento eu vi a silhueta ruiva que me perseguem as vistas... Será que é ela mesmo? Quantas miragens num já vi este ano? Quantas vezes já não vi o rosto dela nos vazios? Nos vãos da aurora ao parir atravessado das madrugadas que insisto... Eu a vejo em todos os lugares onde a minha vontade maltrata meu subconsciente...

Segui na ânsia sem saber se era ela... Os pensamentos não fluem direito sobre o efeito destas drogas... É tudo muito turvo... às vezes lento... às vezes devagar... Não se consegue focar em alguma coisa por muito tempo, a menos que... Seja algo muito importante... Segui acelerando o passo... Ainda em dúvida se descia o caminho ou seguia pela estrada de São Lázaro... Nesse momento fui surpreendido por uma interlocução inesperada:

-Entra ai Estado Islâmico... Agora que ta parecendo o Estado Islâmico mesmo...

Era a voz de uma senhora muito agradável.... Não sei direito como as coisas aconteceram, não conseguia pensar direito, entrei no carro meio no automático. O carro seguiu pela estrada e lá estava a criatura de cabelos vermelhos que não saí da minha cabeça... Estava acompanhada de outra canceriana também muito importante para mim... A senhora que me deu carona falou um montão de coisas nesse meio tempo e eu não ouvi nada... Só me dei conta que não estava mesmo ali quando olhei para ela e percebi que ela estava falando sozinha... Neste momento me bateu a tristeza... Logo eu que me arrogo tanto de prestar atenção ao que as pessoas dizem? Perdi completamente o áudio daqueles segundos que se passaram desde que entrei no carro... Quando recobrei o controle de meus devaneios ela estava no meio da frase:

- ... às vezes a gente se deixa ficar triste por pequenas coisas, não eh? - Não sabia sobre o que ela estava falando, mas neste momento o meu triste ar introspectivo revelou uma estranha sensação de felicidade e então eu disse:

- Mas a felicidade também é feita de pequenos momentos, pequenas coisas que podem nos deixar feliz. - Percebi que por mais que eu estivesse triste e sem esperança da realização dos meus desejos íntimos, a vida ainda me presenteava com certos calores, certas circularidades sanguíneas irregulares que me fazem tremer as pernas, que me fazem suar frio, gaguejar... ou algo até mais raro em se tratando de mim... me fazem ficar mudo, sem palavras fiéis para descrever o que sinto... - Acho que tudo depende da maneira como captamos as energias que envolvem as pequenas coisas... Nós temos a oportunidade de transformar as situações em algo bom, sempre, desde que prestemos a atenção nos pequenos detalhes.

Nesse momento ela parou de falar um pouco e disse:

- É bem verdade, menino terrorista, é verdade.

Nós nos aproximamos daquele monumento ridículo da Avenida Garibalde, eu caminhava para o Restaurante Universitário, por isso pedi que parasse ali... O Sol brilhava sobre nós quando eu saí do carro e disse:


- Está uma linda manhã para se aproveitar os pequenos momentos, os pequenos encontros da vida... Tenha um bom dia professora, o Sol voltou a brilhar e está lindo... - Ela agradeceu com um sorriso e singelas palavras de despedida... Segui...



https://www.youtube.com/watch?v=wo9KedPA8Z0
(O Livro de Colorir do Tio Brinquedo - Blockhead)

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