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quinta-feira, 13 de abril de 2017

Os Espinhos da Invídia - Terceira Parte

(Leviathan e Behemoth, William Blake, 1825)


III

MEDO



Impreterivelmente (...), acima de tudo, acho que tenho primeiramente que te agradecer, amiga, obrigado por ter sido durante esse tempo todo como um raio de luz; como um relâmpago a trovar nos céus de minhas tempestades. Toda vez que nos afastamos, levei um arcabouço cravejado de memórias, lembranças das coisas que vivemos, das coisas que você me disse, das coisas que eu disse pra você, e principalmente... das coisas que não dissemos... gestos, expressões faciais e olhares... Pensamentos ultra secretos e desconfiados... Tudo isso que me fez sentar inúmeras vezes para tencionar energicamente os músculos das horas, perscrutando respostas melhores para minhas próprias perguntas. Toda vez que você apareceu, eu chafurdava em crises existenciais muito diferentes umas das outras... De alguma forma, em todas elas você apareceu de formas diferentes também... Mas sempre de maneira mais intensa do que a anterior... Mais madura, mais forte... mais bonita... E cada vez mais foi me encantando e me fazendo refletir que tipo de homem eu era, e que tipo de homem eu quero ser... Que tipo de homem eu invejo? Bom, hoje eu posso dizer com experiência de causa que, certamente invejo um homem que pudesse, em qualquer realidade, ser chamado de seu... Invejo alguém que possa te amar do jeito que você merece e deseja ser amada...

Na infância, desejei uma mulher como você, que escondesse por detrás do olhar, sonhos tão infantis quanto os meus... Ao decorrer da vida, senti o terror endurecido emagrecendo a pureza dos meus sonhos... Ao que parece, as pessoas crescem neste mundo para pararem de sonhar... Porque o mundo e tudo o que há nele parece nos empurrar cada vez mais para o fosso por onde os mortos são consumidos... Onde a alma desaparece, perde o brilho e vira apenas parte de um exército sombrio aguardando o fim do mundo... O pior é que nem saberia dizer ao certo quando foi que deixei de ser criança... Não sei exatamente quando passei a ser chamado de tio pela pivetada da rua... Sei apenas que deixei com que meu brilho se apagasse no olhar do homem que pensei que era... Um homem que pensou encontrar no mundo masculino algum refúgio... Um refúgio ilusório por debaixo de uma casca de chumbo onde nenhum super-homem poderia olhar... E lá tranquei os sonhos que não cabiam neste lugar...

Mas eu me lembro perfeitamente daquela época remota... Me lembro dos meus dias de solidão infinda... agoniante... quando só queria alguém para contar as minhas estórias... Uma companheira... Me achava feio e relento, usava roupas usadas e pobres... gastas... Tinha inveja dos caras fortes e bonitos, os caras que tinham namoradas brancas e perfumadas - tsc! Me lembro como se fosse hoje o quanto eu gostava das ruivas, de pele bem alva, o porque exato não sei; podia ser o rock n' roll, poderia ser as convenções sociais de padrões de beleza, a verdade é que o meu pescoço acompanhava cada cabeleira vermelha a cruzar a rua de meus olhos, acho que apenas não sabia nada da vida, tsc - Tinha inveja também dos caras que dançavam break e faziam cover dos Garotos da Rua de Trás no colégio que eu estudava; tinha inveja dos caras que sabiam tocar violão. Tinha inveja dos que sabiam lutar e dar salto mortal, dos que eram astros do futebol ou qualquer outro esporte (garoto franzino, de alimentação precária, sabe?), tinha inveja dos mentecaptos populares e principalmente, dos que possuíam coisas bonitas que só o dinheiro poderia comprar...

Mas realmente tenho razões para acreditar que ninguém tinha inveja do garoto estranho que passava horas escondido na biblioteca, que andava cantando e falando sozinho o tempo todo... Que vivia brincando e criando personagens para um teatro de ninguém... Às vezes eu percebia um certo tipo de inveja que não lhes durava muito mais que 1 minuto... O tipo de inveja de quando os professores elogiam o seu 10 naquela prova do caralho, ou da cara perplexa da professora nova de inglês da 7ª série ao perceber que o garoto calado conseguia reproduzir com proficiência algumas frases complexas no idioma que ela lecionava numa escola onde, na opinião dela, só deveriam haver nécios fracassados... E nesses momentos, colaboradores de minha desgraça, eu juro que podia perceber os olhos brilhando enquanto olhavam para aquela criatura grotesca que só vestia preto, mas não conseguiam olhar nos meus olhos amargurados de loucura por mais de um segundo, e ao fim de um minuto, suas vidas de espuma voltavam a se fundir com a areia agitada de suas praias super badaladas... Ser inteligente parecia apenas mais um fetiche sem importância ou sem valer o esforço para todos ao meu redor...

Ninguém parecia querer saber de fato como é que este mundo funcionava... Como e por que as coisas eram como eram? Por que as pessoas morriam? Se havia realmente vida após a morte? Se a minha mãe realmente via e ouvia os espíritos, ou se Deus existia? Ninguém parecia realmente se importar com isso... Me lembro de ter me feito essa pergunta antes mesmo de ter dado o meu primeiro beijo, aos 11 anos de idade, numa menina que já tinha ficado com quase todos os caras da rua (Não preciso dizer que me apaixonei por ela, neh? Acho que sempre tive uma preferência pelas putas, e não me arrependo disso, pois sempre me foram as melhores professoras...)... Mas acho que essa insistência em querer saber das coisas é que foi a minha verdadeira ruína... Pois aonde cheguei é impossível retroceder, não há caminho de volta para a total ignorância, nem há fuga suficiente para levar embora toda a carga, toda a dor provocada pelas respostas que encontrei... e principalmente o vazio deixado pelas novas perguntas que são feitas a partir do rombo que alarga a borda da minha realidade... O medo de nunca saber um monte de coisas... Sobre as leis que governam tudo o que eu amo, a Natureza, o Universo, os átomos, as estruturas moleculares, os poemas... Tudo isso que foi atirado num imenso caldeirão de bruxa que irá cozer a sua cabeça até o fim dos tempos...

Na antiga Mitologia Nórdica havia uma Serpente, Níõhöggr é um dragão enorme que habita o mundo subterrâneo (Niflhein, o mais profundo dos 9 mundos), ela engole os corpos dos são enviados para o mundo dos mortos (não, não tentem comparar com inferno cristão, isso é um equivoco tosco e grosseiro), absorvendo suas almas que serão transformadas em soldados no dia do Ragnarok. Por volta do ano 1220, o poeta, historiador, político e legislador islandês, Snorri Sturluson, compilou uma série de narrações que juntamente com a Edda Poética (Edda em Verso, de autores desconhecidos) constituem a mais importante fonte da mitologia nórdica. Segundo a descrição de Snorri, o Níõhöggr,  também chamado de Nidhogg, ou Nidogue,  é um dragão sem asas e sem pernas que come as raízes da Yggdrasil, a árvore que sustenta os nove mundos da Mitologia Escandinava. Ela tem a missão de matar a Árvore e destruir o mundo conhecido para que outro novo surja em seu lugar. As raízes da Yggdrasil impedem que o Nidogue passe para os outros mundos, principalmente Midgard (onde nós habitamos).


(Ti fofa, ela...)

Nidhogg se alimenta dos pecadores, de todos aqueles que jamais entrarão no reino de Valhala, sobretudo os perjuros (quem quebra um juramento, uma promessa feita); o homicídio (quem mata fora de guerra); e o adultério (quando há infidelidade, mentira, enganação entre duas pessoas que supostamente se amam)... Estes são apontados como os mais graves delitos espirituais (sociais) da cultura nórdica medieval... Nidhogg também não é o único ser que habita a árvore, no seu topo reside Hraesvelgr , um gigante que transforma-se em águia sentado nos confins do mundo (extremo mais elevado). No tronco da Yggdrasil mora Ratatosk, um esquilo que troca insultos e palavras invejosas entre a Águia e a Serpente que guerrearão implacavelmente até se exterminarem no advento do fim do mundo nórdico (q.v.  Ragnarok).


Assim como Behemoth e Leviatã (q.v. capítulo anterior), estamos todos fadados à auto-sabotagem, à auto-destruição... Como se houvessem dois egos principais dentro de nós e um estivesse sempre tentando esconder do outro os planos secretos do amanhã; pois caso esse outro descubra, inventará mil motivos para não vê-los acontecer, para termos preguiça, para desistirmos de mudar, de ir, de seguir em frente... de tentar de novo... Neste dia, ouvi muito sobre a coragem de seguir com nossos sonhos, de buscar mundos diferentes, ou de destruir o velho mundo para criarmos algo completamente novo... Partir para podermos nos encontrar... Perder-se das ilusões do que acreditamos ser o Eu... E é por isso que o Medo nos apodera tanto... Pois tudo aquilo que acreditamos ser este Eu, está coberto de ilusão. Todas as suas memórias foram sabotadas, elas estão repletas de sentimentos novos, de novas leituras sobre as mesmas; amores mais intensos, coisas ditas (ou não) que revigoram ou destroem nosso ser... Tudo isso, amontoando os outros fardos que a sociedade nos impõe através desta realidade parca que consumimos... Tudo isso vai roendo as raízes profundos dos nossos mundos ocultos até que retornemos completamente para os braços do Universo, da Terra, do Sol... Aos átomos que daqui a anos inimagináveis constituirão outras galáxias (pois eh, você achou mesmo que a Terra e o nosso Sistema Solar... kkkkk... A Humanidade... Durariam para Sempre? Jura que pensou nisso? Sinto muito, o Universo não foi criado para nós! hahahha!)

Acho que nunca conseguirei acreditar de fato que os erros sejam irremediáveis... Que o tempo tenha passado para nós... Imaginar isso é me perceber exatamente como nossos pais... É que quando ouço aquela velha música do Belquior, tenho a impressão de que todos os nossos pais, nossos ídolos, nossos músicos, poetas, filósofos e personagens prediletos, todos eles discursaram sobre seus próprios erros para que nós talvez tivéssemos alguma possibilidade de salvação, de redenção, de mudança... De acerto... Portanto, aquela música é uma ode à tristeza... Uma ode às pessoas que desistiram umas das outras... E eu, bem... Eu trago este cansaço dolorido de velhas desistências... Ao que parece, eu não valho a pena para ninguém... Acho que ninguém que amei realmente tenha tido vontade de construir algo maior comigo... Bom, mas seria realmente injusto afirmar isso por outras pessoas, então eu só acho mesmo... Sei apenas que vai doer, ver o teu cabelo balançando ao vento, saber de toda a gente jovem reunida à sua volta e eu... Bem, o meu maior medo e nem sequer saber se ocuparei algum lugar especial nas suas lembranças... E da mesma forma que todos desistiram, tenho medo de nunca realizar meus sonhos maiores, tenho medo de desistir de invejar ser um homem que jamais fui... O homem que invejo é sem dúvida um homem pelo qual vale a pena lutar...

Bem, viajo daqui há pouco... Certamente visitarei um outro mundo... Lá tenho uma família que me aguarda como sou... Terei Irmãs... Terei Pais... Terei até um Tio-Avó muito querido... Gostaria mesmo de saber tudo o que me espera antes do meu próprio Ragnarok... Porém, o que é justo e não me falha... Tenho todas essas memórias sabotadas e gastas pelas dores do tempo... Mas apenas as tenho porque tive a coragem de seguir meu coração... Porque tive a coragem de partir ou de ficar quando ele me pediu... Tenho todas estas memórias maravilhosas dos amores que me transformaram em alguém melhor e mais forte para lutar esta minha guerra... Porque assim pude ficar de pé e caminhar em busca de meus sonhos... Tenho orgulho de ainda estar vivo por causa deles... E tenho Orgulho apenas porque sei que Vivi...


XIII - IV - MMXVII


https://www.youtube.com/watch?v=da5hGxi-W_U
(Como Nossos Pais - Belquior)

https://www.youtube.com/watch?v=IHtExPwC100
(Super Homem - A Canção - Caetano Veloso e Gilberto Gil)