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domingo, 30 de julho de 2017

A Luz De Leão ou oãeL eD zuL Á





Acordei cedo embrulhado em outra cama... atravessei a cozinha da casa e fui acordar meu amigo... despedi-me da amiga que dormia também na sala... cumprimentei o homem que lavava a moto ao sorriso de sábado de manhã e rompi feito um feixe de luz pelo portão amarelo... Fazia frio mas o Sol reluzia um charme garboso e todo inflado como se nenhuma tempestade tivesse acontecido... Eu caminhava sob olhos do Leão.
A estrada até minha casa foi alegre... Travessia traçadora de planos... Calculando as matemáticas das imprevisibilidades porque no ontem não imprimi o poema que acompanharia a marmita de sonhos que embrulharia logo mais naquele pano de bolinhas... Hahaha!, Eu sei que as vezes o que eu digo não faz o menor sentido para vocês, meus maltratados leitores... É que não é pra fazer mesmo... Concluam qualquer coisa... Ou melhor... Imaginem porra! Vai ficar gostosa a imagem que vocês mesmos derem para esta cena...

Ao chegar em casa, após um banho termal delicioso, desembrulhei os melindres dos cuidados em que meus sentimentos envolveram aquele singelo presente... Uma máquina de escrever de mentira... Aquela que não dá vida a nomes de pessoa, mas que faz vibrar o seu nome na estrela mais distante na infinita noite do meu céu observável... Dei corda... Torci o máximo que pude o bichelenguinho para que a música tocasse infinitamente por alguns segundos... Torcendo também para que aquela porra não quebrasse... Pois seria o limiar do meu drama, ou início de outra tragédia que daria fim a toda civilidade clássica de meu pathernon exibido... Bom... Pela deusa, não quebrou ainda, eu acho...

Havia marcado ainda dez pras oito no relógio... Precisava fazer o corre da impressão... Mas primeiro, ainda dava para rapar um último camarão dos mais bonitos que havia guardado dentro da caixinha... Sobraria o suficiente para mandar para o alto a mensagem secreta de fumaça que dirá ainda no seu subconsciente tudo o que ainda sou capaz de fazer pra te convencer de que digo a verdade... Para você só a verdade... Pelo menos toda aquela que poderia proferir sem lhe causar nenhuma mágoa... (ah, minha pequena... Como queria realmente ser forte para não desejar te dizer mais nada... Mas seria mentira se dissesse que não quero... Pois quero gritar pra ver se tu me ouves daqui... Mas não vou... Não quero ser internado hoje...)

Bolei o beck pra fumar na estrada... Decidi tentar a Escola de Arquitetura, lá poderia ter uma impressora, neh? Negativo, tudo fechado, alunos não tiram xerox dia de sábado... Desci, me deparei com um gordinho subindo as escadas. – Você sabe por onde posso descer, aqui ta fechado o portão – Me pergunta ele. Antes que eu dissesse qualquer coisa, outro indivíduo me poupou alguns segundos. – Ah tem outra escada ali do lado. – Ouvia isso já descendo com uma voz quase satânica na minha cabeça, dizendo: - Esse portão não é NADA para você, meu lindo... Você pula em dois movimentos, com certeza... – Então eu pulei, na verdade dei uma escorregada no segundo movimento, o que me fez descer e repetir o primeiro e conseguir somente na segunda tentativa... Droga! Fico realmente chateado quando não consigo materializar meu pensamento perfeitamente... Mas enfim, tenho que respeitar também estas leis de Carne o Osso...

Bem... Passada a aventura, “o mar é o mesmo, já ninguém o tema”, e o meu sorriso secretamente leonino revela-me a hora exata de ascender o baseado... Ufhhhh... As árvores hoje gorjeiam mais bonitas... Não choveu e nem ameaçou... Em Ondina com certeza há uma xerox aberta...
O beck ia pela metade quando avistei de longe um amigo, o black entregava de longe a silhueta imprecisa que conheci pelo conjunto das características... Aquele cara ta de cara, pensei...

– E ai Rafa, vai? – Aponto o instrumento.

- Que é isso, um beck? Ele redargüiu.

- É sim...

Não preciso dizer mais nada... Logo fiquei sabendo que por ali não haveria nada aberto... Ele me contou da possibilidade de um lugar em frente a Arquitetura... Bem... Corri lá novamente para me dar de cara com o ócio merecido do final de semana sagrado de alguém... Bom... Pensei em inúmeras possibilidades de lugares longínquos onde poderia imprimir aquele poema... Mas concluí nos meus quiças atômicos que, talvez fosse melhor entregá-lo no ano que vem, ou sei lá, quando o deus que há em mim decidir que é a melhor hora... Talvez ainda poderei somá-los ao meu pretenso conjunto de obras para além da funerária (Eu bem que poderia dizer “obras póstumas”, mas isso não condiz com minha criatividade essencialmente dramática... Além do mais, tudo em mim é um evento histórico, ou porque nunca foi feito, ou porque tentei fazer melhor...)... Enfim, voltei pra casa...

Em casa o desafio era mais extremo... Como fazer caber o impossível dentro das fronteiras das possibilidades? Por alguma razão cósmica, as duas barras de chocolate que comprei não cabiam na gaveta daquele porta jóias inútil... O engraçado que eu calculei... Perguntei ao vendedor on-line o tamanho... O vendedor respondeu: 14 cm de largura, 11 cm de altura e 15 cm de profundidade... Caberia perfeitamente se ele não tivesse esquecido de me avisar da porcaria do parafuso que tem na porra do meio da gaveta que a impede de fechar quando está cheia... Bosta... Nem os camarões verdinhos que eu havia separado estavam dando, tive que customizá-los... Reduzi o mínimo que pude o efeito visual de sua beleza... Mas isso já era motivo o suficiente para inquietar minha alma perfeccionista... Enfim... Em outros tempos eu me estressaria, em vez disso fui trabalhar o bilhete...

Bem, não possuía nada parecido com papel cartão... Mas havia dois pequenos envelopes, um preto, outro rosa... Acho uma linda combinação... Logo, cortei o rosa em tamanho menor... Escrevi uma mensagem (que somente o destinatário poderá ler, me desculpem) e o coloquei no envelope negro... Bem, não preciso dizer que a merda da gaveta não gostou nada disso também neh? Fez o que pode pra enguiar... Mas me retei e fechei aquela porra com um ligeiro comportamento forçado... E... Rezei para que o seu jeitinho desastrado não quebrasse quando fosse abrir... Embrulhei... Já eram 9:30 da manhã.

Mas é óbvio que não poderia sair naquele estado, de gente que não dormiu (na verdade, quase sempre estou assim, mas é preciso às vezes disfarçar a cara), fui tomar banho... Fazer a barba... Escolher uma roupa que caiba bem numa memória... Colocar um perfume diferente para ver se causa algum estranhamento (o que também é importante para a memória)... Bom, desde o princípio pensei em deixar o presente na portaria... Mas a possibilidade de encontrá-la só de botar a cara na rua é risco consideravelmente grande... E todos já perceberam que não gosto de me colocar à mercê da Fortuna sem ter uma lista significativa de planos de fuga... Prefiro me sentir elegante, ou melhor, empertigado... (pra algumas pessoas é a mesma coisa, mas para mim a palavra “elegante” não traduz como eu gosto de me sentir). Finalmente, meti no bolso o chocolate que não coubera na caixinha... Talvez me servisse de um útil elemento surpresa... Em último caso eu mesmo o comeria (Era feito com pedaços de cacau... Vocês sabem que eu adoro cacau neh?)...

Hum, e por falar em comida... Por fim saí de casa, mas havia me lembrado que não tinha comido nada ainda... Juntei as moedas e passei na venda pra comprar dois reais e setenta e cinco centavos de castanhas de caju (altamente nutritivas e me forneceria energia o suficiente para uma empresa como esta)... Bom! Já se passavam das dez, e a conhecer a pessoa, conheço também as imensas probabilidades dela estar aproveitando este lindo dia de sol... Mesmo assim segui com minha sacolona de sonhos... Logo na rua, outro impasse... Que caminho devo tomar? O mais curto e perigoso? Ou o mais longo e mais seguro para a carga que trago comigo? ... Bem... Ninguém vai ousar me roubar hoje, hoje não... Fui pelo mais curto, na esperança de talvez, quem sabe, ganhar um abraço ainda hoje... De qualquer forma, tratei de segurar a sacola firmemente, mas não poderia ser tão firme que denotasse desespero (até pq não sou de me desesperar com tamanha facilidade). Tinha que segurar de uma forma que demonstrasse minha imensa tranqüilidade em estar passando por ali com aquilo na mão, ao passo que também mostre aos que me olham que ali não está nenhuma trouxa perdida num caminho deserto...

Cheguei na rua dela depois de uma caminhada agalopada... Parei um pouco antes do portão... Empavonei-me as roupas e segui... O porteiro me dá o sinal que torna a campainha desnecessária... Entrei e fiz a pergunta que me traz um nó quase imperceptível à garganta:

- Fulana de Tal está?

-Acabou de sair – disse ele.

- E a colega de quarto dela? (Sempre tenho medo que a encomenda se extravie, não confio cegamente em porteiros, ou melhor, em ninguém)
-Também saiu... ele disse.

- Tudo bem, posso deixar isso aos seus cuidados? – Ele respondeu afirmativamente. Fiz um sinal dramático e continuei – Mas tome cuidado, é frágil.
- Não, ta tranqüilo, vou colocar ali no cantinho.

Sorri, fiz um sinal de agradecimento juntando minhas duas mãos semicerradas como num abraço e, inclinando-me para frente, o reverenciei e me despedi... Na rua o Sol continua me fazendo sorrir radiantemente... Acho que está Sim na hora de fazer visita a Uma Outra pessoa muito especial... Fui até ao baluarte onde ela se esconde... Chegando lá, não havia ninguém na portaria, entrei em casa e não vi ninguém conhecido... Ou melhor, entrei naquela casa que foi meu parque de diversões por tantos anos, e me senti um completo estranho... Uma menina que estava na sala me fitou curiosamente... Perguntou quem eu desejava ver e eu disse que queria Sim ver a Uma... Prontamente a guria subiu até o quarto e verificou ... - Ela não está... Eh! Eu sabia que Ela também deveria estar aproveitando aquele lindo dia ensolarado... Ahhhhh... Gente com muita coisa em Capricórnio... Sempre leais ao imenso trabalho de ser feliz...

Decidi então passar em outra residência... Talvez receber um abraço de um amigo tão caloroso quanto o mar... Perguntei se meu guru de Escorpião estava em casa... O engraçado que neste lugar onde sempre me senti um tanto mal tratado, fui recebido por um segurança que nunca tinha visto... – Quer ver quem? – Perguntou ele. Disse o nome e ele: - Sabe onde é? – Sei, respondi. – Pronto, vá lá e pede pra ele vir assinar aqui... Simples assim... Fui no quarto dele e só João estava dormindo... Lavei o rosto no banheiro e saí... Fui comer minhas castanhas no Campo Grande de dar minha missão por encerrada...

Vagandiei entre as árvores da Vitória... Sentia a brisa sacudir as memórias de meus velhos cabelos por entre as folhas... Minha juba dissonante... Ao chegar no Campo Grande, antes de entrar na praça, observo uma corpa estendida no chão de um dos grandes portões da praça. Era um rosto conhecido, mas dei de ombros e preferi me sentar num local próximo para apreciar a cena... Vejo um grupo de velhinhas circundarem a corpa... Quase podia ouvir o que murmuravam... Ou pelo menos imaginava algo assim: “Tadinho! Será que surtou?”; ou qualquer coisa que denotasse a compaixão cristã que aprendemos nos bolsos da sociedade diante da loucura... O jovem ergueu a cabeça e tranqüilizou as senhorinhas... Era um experimento... Escreveu algo num papel e voltou à sua posição meditativa... Nesse momento...

-AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Bem grande como uma loba, Outra louca grita um estampido do outro lado da praça... kkkk... - Eh minha amiga. Até meu fígado que não tem ouvidos reconheceria o reverberar daquele grito... Enfim... Continuei comendo minhas castanhas, uma a uma, vagarosamente... Quando acabaram, peguei o chocolates, o despi de sua indumentária soberba e levei um naco até a boca... Tinha o gosto da eternidade... Quis dividi-lo com minha amiga e fui em direção do horizonte de onde partira o grito... Chegando perto, noto aquela figura sublime meditando acostada numa árvore... Ao me aproximar, um homem vem em minha direção e murmura alguma coisa que a catarse de estar diante de minha amiga meditativa não me permite deixar que complete... Olhando-o nos olhos, posiciono automaticamente o dedo indicado entre os lábios em sinal de silêncio e aponto para Ela... O homem, que era mais alto e mais forte do que eu, se encolhe e retrocede.

Aproximo-me, me sento em sua frente com o chocolate entre as mãos... Ponho minha espinha ereta e também eu me conecto à cena... Com os olhos semicerrados eu fico lá, me certificando que o homem foi embora (não confio em ninguém, às vezes reações como a minha podem gerar represálias ou vinganças que só encontram sentido na cabeça de quem se vinga...), felizmente não havia motivos para preocupações, ninguém aborreceria nossa conexão... Ficamos lá alguns minutos, até que alguns movimentos da pessoa em minha frente denunciava seu retorno... E ela finalmente abriu os olhos, eu ergui também os meus a tempo de ouvir sua gargalhada... Ela se levantou... Nos abraçamos bem apertado... Ofereci um pedaço do meu chocolate... Logo em seguida uma moça chegou com uma caralhada de papeis... Eram relatórios do experimento... Sim... era Ela também Uma cientista...

- Toma o seu relatório... Nos reunimos em 10 minutos. – Disse a moça.

Minha amiga pegou o papel e começou a ler concentradamente, eu sabia que ela se guiava pela mesma lua que a minha... Olhei um pouquinho admirando aquela juba castanha... Apaixonadamente eu sinto que meus amigos me revelam o sentido da vida... O caminho de fazer o nosso melhor... Sempre... Sempre... Sempre...

Eu por fim a abracei... Agradeci por ela existir também... E disse:

- Tchau amiga, eu só vim aqui te dar esse abraço... Este é apenas o primeiro dia de Leão... E o Sol está sorrindo sob nossas cabeças...


Inverno de MMXVII.


https://www.youtube.com/watch?v=zethvKil2m4
(Muito - Dentro da Estrela Azulada - Caetano Veloso, 1978)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Os Espinhos da Invídia - Terceira Parte

(Leviathan e Behemoth, William Blake, 1825)


III

MEDO



Impreterivelmente (...), acima de tudo, acho que tenho primeiramente que te agradecer, amiga, obrigado por ter sido durante esse tempo todo como um raio de luz; como um relâmpago a trovar nos céus de minhas tempestades. Toda vez que nos afastamos, levei um arcabouço cravejado de memórias, lembranças das coisas que vivemos, das coisas que você me disse, das coisas que eu disse pra você, e principalmente... das coisas que não dissemos... gestos, expressões faciais e olhares... Pensamentos ultra secretos e desconfiados... Tudo isso que me fez sentar inúmeras vezes para tencionar energicamente os músculos das horas, perscrutando respostas melhores para minhas próprias perguntas. Toda vez que você apareceu, eu chafurdava em crises existenciais muito diferentes umas das outras... De alguma forma, em todas elas você apareceu de formas diferentes também... Mas sempre de maneira mais intensa do que a anterior... Mais madura, mais forte... mais bonita... E cada vez mais foi me encantando e me fazendo refletir que tipo de homem eu era, e que tipo de homem eu quero ser... Que tipo de homem eu invejo? Bom, hoje eu posso dizer com experiência de causa que, certamente invejo um homem que pudesse, em qualquer realidade, ser chamado de seu... Invejo alguém que possa te amar do jeito que você merece e deseja ser amada...

Na infância, desejei uma mulher como você, que escondesse por detrás do olhar, sonhos tão infantis quanto os meus... Ao decorrer da vida, senti o terror endurecido emagrecendo a pureza dos meus sonhos... Ao que parece, as pessoas crescem neste mundo para pararem de sonhar... Porque o mundo e tudo o que há nele parece nos empurrar cada vez mais para o fosso por onde os mortos são consumidos... Onde a alma desaparece, perde o brilho e vira apenas parte de um exército sombrio aguardando o fim do mundo... O pior é que nem saberia dizer ao certo quando foi que deixei de ser criança... Não sei exatamente quando passei a ser chamado de tio pela pivetada da rua... Sei apenas que deixei com que meu brilho se apagasse no olhar do homem que pensei que era... Um homem que pensou encontrar no mundo masculino algum refúgio... Um refúgio ilusório por debaixo de uma casca de chumbo onde nenhum super-homem poderia olhar... E lá tranquei os sonhos que não cabiam neste lugar...

Mas eu me lembro perfeitamente daquela época remota... Me lembro dos meus dias de solidão infinda... agoniante... quando só queria alguém para contar as minhas estórias... Uma companheira... Me achava feio e relento, usava roupas usadas e pobres... gastas... Tinha inveja dos caras fortes e bonitos, os caras que tinham namoradas brancas e perfumadas - tsc! Me lembro como se fosse hoje o quanto eu gostava das ruivas, de pele bem alva, o porque exato não sei; podia ser o rock n' roll, poderia ser as convenções sociais de padrões de beleza, a verdade é que o meu pescoço acompanhava cada cabeleira vermelha a cruzar a rua de meus olhos, acho que apenas não sabia nada da vida, tsc - Tinha inveja também dos caras que dançavam break e faziam cover dos Garotos da Rua de Trás no colégio que eu estudava; tinha inveja dos caras que sabiam tocar violão. Tinha inveja dos que sabiam lutar e dar salto mortal, dos que eram astros do futebol ou qualquer outro esporte (garoto franzino, de alimentação precária, sabe?), tinha inveja dos mentecaptos populares e principalmente, dos que possuíam coisas bonitas que só o dinheiro poderia comprar...

Mas realmente tenho razões para acreditar que ninguém tinha inveja do garoto estranho que passava horas escondido na biblioteca, que andava cantando e falando sozinho o tempo todo... Que vivia brincando e criando personagens para um teatro de ninguém... Às vezes eu percebia um certo tipo de inveja que não lhes durava muito mais que 1 minuto... O tipo de inveja de quando os professores elogiam o seu 10 naquela prova do caralho, ou da cara perplexa da professora nova de inglês da 7ª série ao perceber que o garoto calado conseguia reproduzir com proficiência algumas frases complexas no idioma que ela lecionava numa escola onde, na opinião dela, só deveriam haver nécios fracassados... E nesses momentos, colaboradores de minha desgraça, eu juro que podia perceber os olhos brilhando enquanto olhavam para aquela criatura grotesca que só vestia preto, mas não conseguiam olhar nos meus olhos amargurados de loucura por mais de um segundo, e ao fim de um minuto, suas vidas de espuma voltavam a se fundir com a areia agitada de suas praias super badaladas... Ser inteligente parecia apenas mais um fetiche sem importância ou sem valer o esforço para todos ao meu redor...

Ninguém parecia querer saber de fato como é que este mundo funcionava... Como e por que as coisas eram como eram? Por que as pessoas morriam? Se havia realmente vida após a morte? Se a minha mãe realmente via e ouvia os espíritos, ou se Deus existia? Ninguém parecia realmente se importar com isso... Me lembro de ter me feito essa pergunta antes mesmo de ter dado o meu primeiro beijo, aos 11 anos de idade, numa menina que já tinha ficado com quase todos os caras da rua (Não preciso dizer que me apaixonei por ela, neh? Acho que sempre tive uma preferência pelas putas, e não me arrependo disso, pois sempre me foram as melhores professoras...)... Mas acho que essa insistência em querer saber das coisas é que foi a minha verdadeira ruína... Pois aonde cheguei é impossível retroceder, não há caminho de volta para a total ignorância, nem há fuga suficiente para levar embora toda a carga, toda a dor provocada pelas respostas que encontrei... e principalmente o vazio deixado pelas novas perguntas que são feitas a partir do rombo que alarga a borda da minha realidade... O medo de nunca saber um monte de coisas... Sobre as leis que governam tudo o que eu amo, a Natureza, o Universo, os átomos, as estruturas moleculares, os poemas... Tudo isso que foi atirado num imenso caldeirão de bruxa que irá cozer a sua cabeça até o fim dos tempos...

Na antiga Mitologia Nórdica havia uma Serpente, Níõhöggr é um dragão enorme que habita o mundo subterrâneo (Niflhein, o mais profundo dos 9 mundos), ela engole os corpos dos são enviados para o mundo dos mortos (não, não tentem comparar com inferno cristão, isso é um equivoco tosco e grosseiro), absorvendo suas almas que serão transformadas em soldados no dia do Ragnarok. Por volta do ano 1220, o poeta, historiador, político e legislador islandês, Snorri Sturluson, compilou uma série de narrações que juntamente com a Edda Poética (Edda em Verso, de autores desconhecidos) constituem a mais importante fonte da mitologia nórdica. Segundo a descrição de Snorri, o Níõhöggr,  também chamado de Nidhogg, ou Nidogue,  é um dragão sem asas e sem pernas que come as raízes da Yggdrasil, a árvore que sustenta os nove mundos da Mitologia Escandinava. Ela tem a missão de matar a Árvore e destruir o mundo conhecido para que outro novo surja em seu lugar. As raízes da Yggdrasil impedem que o Nidogue passe para os outros mundos, principalmente Midgard (onde nós habitamos).


(Ti fofa, ela...)

Nidhogg se alimenta dos pecadores, de todos aqueles que jamais entrarão no reino de Valhala, sobretudo os perjuros (quem quebra um juramento, uma promessa feita); o homicídio (quem mata fora de guerra); e o adultério (quando há infidelidade, mentira, enganação entre duas pessoas que supostamente se amam)... Estes são apontados como os mais graves delitos espirituais (sociais) da cultura nórdica medieval... Nidhogg também não é o único ser que habita a árvore, no seu topo reside Hraesvelgr , um gigante que transforma-se em águia sentado nos confins do mundo (extremo mais elevado). No tronco da Yggdrasil mora Ratatosk, um esquilo que troca insultos e palavras invejosas entre a Águia e a Serpente que guerrearão implacavelmente até se exterminarem no advento do fim do mundo nórdico (q.v.  Ragnarok).


Assim como Behemoth e Leviatã (q.v. capítulo anterior), estamos todos fadados à auto-sabotagem, à auto-destruição... Como se houvessem dois egos principais dentro de nós e um estivesse sempre tentando esconder do outro os planos secretos do amanhã; pois caso esse outro descubra, inventará mil motivos para não vê-los acontecer, para termos preguiça, para desistirmos de mudar, de ir, de seguir em frente... de tentar de novo... Neste dia, ouvi muito sobre a coragem de seguir com nossos sonhos, de buscar mundos diferentes, ou de destruir o velho mundo para criarmos algo completamente novo... Partir para podermos nos encontrar... Perder-se das ilusões do que acreditamos ser o Eu... E é por isso que o Medo nos apodera tanto... Pois tudo aquilo que acreditamos ser este Eu, está coberto de ilusão. Todas as suas memórias foram sabotadas, elas estão repletas de sentimentos novos, de novas leituras sobre as mesmas; amores mais intensos, coisas ditas (ou não) que revigoram ou destroem nosso ser... Tudo isso, amontoando os outros fardos que a sociedade nos impõe através desta realidade parca que consumimos... Tudo isso vai roendo as raízes profundos dos nossos mundos ocultos até que retornemos completamente para os braços do Universo, da Terra, do Sol... Aos átomos que daqui a anos inimagináveis constituirão outras galáxias (pois eh, você achou mesmo que a Terra e o nosso Sistema Solar... kkkkk... A Humanidade... Durariam para Sempre? Jura que pensou nisso? Sinto muito, o Universo não foi criado para nós! hahahha!)

Acho que nunca conseguirei acreditar de fato que os erros sejam irremediáveis... Que o tempo tenha passado para nós... Imaginar isso é me perceber exatamente como nossos pais... É que quando ouço aquela velha música do Belquior, tenho a impressão de que todos os nossos pais, nossos ídolos, nossos músicos, poetas, filósofos e personagens prediletos, todos eles discursaram sobre seus próprios erros para que nós talvez tivéssemos alguma possibilidade de salvação, de redenção, de mudança... De acerto... Portanto, aquela música é uma ode à tristeza... Uma ode às pessoas que desistiram umas das outras... E eu, bem... Eu trago este cansaço dolorido de velhas desistências... Ao que parece, eu não valho a pena para ninguém... Acho que ninguém que amei realmente tenha tido vontade de construir algo maior comigo... Bom, mas seria realmente injusto afirmar isso por outras pessoas, então eu só acho mesmo... Sei apenas que vai doer, ver o teu cabelo balançando ao vento, saber de toda a gente jovem reunida à sua volta e eu... Bem, o meu maior medo e nem sequer saber se ocuparei algum lugar especial nas suas lembranças... E da mesma forma que todos desistiram, tenho medo de nunca realizar meus sonhos maiores, tenho medo de desistir de invejar ser um homem que jamais fui... O homem que invejo é sem dúvida um homem pelo qual vale a pena lutar...

Bem, viajo daqui há pouco... Certamente visitarei um outro mundo... Lá tenho uma família que me aguarda como sou... Terei Irmãs... Terei Pais... Terei até um Tio-Avó muito querido... Gostaria mesmo de saber tudo o que me espera antes do meu próprio Ragnarok... Porém, o que é justo e não me falha... Tenho todas essas memórias sabotadas e gastas pelas dores do tempo... Mas apenas as tenho porque tive a coragem de seguir meu coração... Porque tive a coragem de partir ou de ficar quando ele me pediu... Tenho todas estas memórias maravilhosas dos amores que me transformaram em alguém melhor e mais forte para lutar esta minha guerra... Porque assim pude ficar de pé e caminhar em busca de meus sonhos... Tenho orgulho de ainda estar vivo por causa deles... E tenho Orgulho apenas porque sei que Vivi...


XIII - IV - MMXVII


https://www.youtube.com/watch?v=da5hGxi-W_U
(Como Nossos Pais - Belquior)

https://www.youtube.com/watch?v=IHtExPwC100
(Super Homem - A Canção - Caetano Veloso e Gilberto Gil)


segunda-feira, 13 de março de 2017

Glutoneria

"
Gente que maltrata o corpo com o sedentarismo, os vícios, a glutoneria, os tormentos da paixão, a irritação, a visão pessimista da existência.."



Não! Não estou aqui para tentar explicar os versos acima... Certamente foi algo que, em minha gula tremenda e minha insônia esfomeada, descobri por acaso quando coloquei a dita palavra no buscador da internet... Além do mais, é frase de autor muito imprecisa... Nada encontro sobre a lápide do individuo maldito que disse isso para me flagelar ainda mais com o peso desta palavra maldita apodrecendo em minha cabeça...

Mas ela te acomete bem no centro do fígado... Te paralisando a porcaria do sistema nervoso quando a sua fome nada tem a ver com a carne apodrecida que as moscas resolvem visitar antes mesmo que você tropece tumbadora na selva selvagem... Ela é a fome de tudo que me carcome... A vontade mesmo de florescer ainda que sem saber os caminhos e ter a certeza de que viver, no meu caso, talvez seja de fato crescer como a grama daninha que deseja ter flores mas só consegue cobrir tudo com palavras e gestos inúteis que destroem tudo... Tudo mesmo...

E é em vias do terceiro paragrafo que o Unplugged do Nirvana acaba... Mas infelizmente Deus ainda está de mal comigo depois de tudo que eu aprontei ontem... Não vai mais me agraciar hoje abrindo-me a porta dourada de seus templos... Logo eu, infame pecador moribundo... Eu... Que não mereço nem teria porque pedir a ninguém sinceridade... Logo eu... Que nunca durmo nem tenho quem dormir comigo... E se tivesse, de que adiantaria se a impressão que tenho é que também devoraria esta pessoa como faço com tudo por onde passo? Como um buraco negro altivo e infame que suga as estrelas imortais para dentro de si, mas ainda não descobriu o caminho de sair debaixo da sua capa invisível sem machucar os outros... E quando arranco a minha capa sempre apareço nu e sem pelos, como um garotinho assustado sentado sozinho numa escadaria chuvosa...

É como tentar jejuar Quarenta Dias como um Gólgota no deserto de minha alma... E descobrir que no 6º dia Belzebu não me deixaria em paz... Mandou para minha madrugada insone uma fatia imunda de suas pizzas de frango industrializadas... E então minha alma conspurcada escarra no resto de face limpa que ainda conservava... No outro dia eu me drogo mais... Cheiro a agonia que emporcalha o que ainda tinha dos meus chacras semicerrados na escuridão... Sim... Belzebu tem um diabo reservado pra mim... Ele dança em meu quadril... Ele me puxa para as encruzilhadas todas as noites... Ele não me deixa dormir... Ele me faz querer morrer e faz com que  as pessoas à minha volta acreditem que nada realmente importa para mim... Até a ponto de eu mesmo quase acreditar nisso... Sim... Belzebu tem um demônio reservado para mim...

Existem muitas coisas a dizer sobre este ser... É tido como o segundo na hierarquia do inferno... Algumas lendas dizem que conduziu uma rebelião bem sucedida contra Lucifer... Demonologistas medievais o enquadraram no que chamam de Profana Trindade (uma antítese para a Santíssima)... Assim ele é comandante, sendo responsável por centenas de casos de possessões no decorrer da História... Como no caso de uma certa freira que foi possuída na região francesa de Aix-en-Provence, caso que deu um problema da porra pra outras 8 freiras de um convento nas mãos da inquisição do século XVII... Outro caso relacionado com o seu nome está no episódio da caça às bruxas de Salém... Enfim... Não interessa... Belzebu ainda tem um demônio pra todo mundo...

Outras tradições também contam que este era, na verdade, dois deuses do antigo testamento (ou melhor, de alguns daqueles milhares de povos esquisitos que aparecem na Bíblia)... Baal e Zebul teriam guerreado numa batalha épica desta cosmovisão e teriam sido sugados pelo buraco negro de sua própria destruição... Ambos foram parar no que é descrito como o poço do inferno... Uma lama onde teriam passado anos e anos até terem se fundido e serem resgatados por outro demônio (ora aparece como Lucifer, ora com diversos outros nomes) e passaria a ser o mais poderoso de todos, obedecendo diretamente ao Primeiro Decaído... Blá, Blá, Blá... Bismilah... We Will Never Let You Go... LET ME GO... OH, Baby!!! Can't you this to me, baby... Just gotta get right outta here!!!


Tarde demais? Talvez para mim tenha de continuar assim... Tenho a estranha impressão de que já ouvi isso vezes demais... Não importa quanto eu acorde cedo (ou não durma), mas sempre chego atrasado no trabalho... Perco a chamada nas aulas... Faço ainda poesias sem nunca ter amado direito... Como um Midas da carniça, tudo aquilo em que ponho os olhos apodrece um pouco junto comigo... É possível ver os olhos de dor me pedindo pra ir embora... Para deixá-los em paz...

E o pior é que... Sempre cumpro minhas promessas... (De certa forma... Mesmo sendo contraditórias... Tento cumprí-las todas... Sem pressa... Uma de cada vez... )

Mas eu também sei desistir... Sei abrir mão... Não gosto de ver ninguém sofrer pelos demônios que são meus...

E acabou de amanhecer por aqui... Nenhum galo cocoricou esta manhã... OU mais uma vez estava com o ouvido no cú e não pude perceber a sua voz oculta tentar me dizer alguma coisa que eu não consigo entender... Mas sempre tento o máximo que posso... E não me arrependo... Sou um errante por natureza... Covarde, não... Bem, talvez um pouco... Mas no fundo sou apenas um desesperado e nada posso...

Agora o youtube me levou até The Show Must Go On... Acho que Deus está aos poucos voltando a sorrir pra mim... Ou da minha cara... Sempre fico nessa dúvida terrível e nunca... nunca... Nunca sei o que realmente devo fazer depois... Apenas quero amá-la por mais 5 minutos... Meus eternos cinco minutos... O para sempre de quando posso fechar os meus olhos e me perceber infinito... Sem corpo, sem sexo... Sem acima ou abaixo... Um reino sem muros, sem castelos, sem trincheiras ou fortalezas de guerras intermináveis... Um mundo místico e bonito onde infelizmente só eu entro... E onde você também mora comigo... Nos meus sonhos... Onde tudo é infinitamente possível... Onde o tempo não passou e onde o tarde demais jamais existe... Cheio de música, de canções impronunciáveis e poemas inacabados...


There's no time for us
There's no place for us
What is this thing that builds our dreams
Yet slips away from us
Who wants to live forever?
Who wants to live forever?
There's no chance for us
It's all decided for us
This world has only one sweet moment
Set aside for us
Who wants to live forever?
Who wants to live forever?
Who dares to love forever?
When love must die
But touch my tears with your lips
Touch my world with your fingertips
And we can have forever
And we can love forever
Forever is our today
Who wants to live forever?
Who wants to live forever?
Forever is our today
Who waits forever anyway?

(Quem quer viver para sempre? - Rainha)


XIII - III - MMXVII ... 6:03 da manhã de segunda-feira... (Agradecimentos especiais ao Queen e à todos aqueles que me ensinam a sonhar todos os dias... Mesmo que quase sempre acordado, tolo, cego... Ou errado... Eu vos amo do fundo do meu coração...)

Ps: Não se esqueçam dos links para trilha sonora legendada do filme...kkk

https://www.youtube.com/watch?v=hCyqnrYrls8 (O show deve continuar - Rainha, 1990...)

https://www.youtube.com/watch?v=Ytxj3JFcQZE (Who wants to live forever - Com cenas do genial Highlander de 1986, estrelado por Christopher Lambert...)