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domingo, 30 de julho de 2017

A Luz De Leão ou oãeL eD zuL Á





Acordei cedo embrulhado em outra cama... atravessei a cozinha da casa e fui acordar meu amigo... despedi-me da amiga que dormia também na sala... cumprimentei o homem que lavava a moto ao sorriso de sábado de manhã e rompi feito um feixe de luz pelo portão amarelo... Fazia frio mas o Sol reluzia um charme garboso e todo inflado como se nenhuma tempestade tivesse acontecido... Eu caminhava sob olhos do Leão.
A estrada até minha casa foi alegre... Travessia traçadora de planos... Calculando as matemáticas das imprevisibilidades porque no ontem não imprimi o poema que acompanharia a marmita de sonhos que embrulharia logo mais naquele pano de bolinhas... Hahaha!, Eu sei que as vezes o que eu digo não faz o menor sentido para vocês, meus maltratados leitores... É que não é pra fazer mesmo... Concluam qualquer coisa... Ou melhor... Imaginem porra! Vai ficar gostosa a imagem que vocês mesmos derem para esta cena...

Ao chegar em casa, após um banho termal delicioso, desembrulhei os melindres dos cuidados em que meus sentimentos envolveram aquele singelo presente... Uma máquina de escrever de mentira... Aquela que não dá vida a nomes de pessoa, mas que faz vibrar o seu nome na estrela mais distante na infinita noite do meu céu observável... Dei corda... Torci o máximo que pude o bichelenguinho para que a música tocasse infinitamente por alguns segundos... Torcendo também para que aquela porra não quebrasse... Pois seria o limiar do meu drama, ou início de outra tragédia que daria fim a toda civilidade clássica de meu pathernon exibido... Bom... Pela deusa, não quebrou ainda, eu acho...

Havia marcado ainda dez pras oito no relógio... Precisava fazer o corre da impressão... Mas primeiro, ainda dava para rapar um último camarão dos mais bonitos que havia guardado dentro da caixinha... Sobraria o suficiente para mandar para o alto a mensagem secreta de fumaça que dirá ainda no seu subconsciente tudo o que ainda sou capaz de fazer pra te convencer de que digo a verdade... Para você só a verdade... Pelo menos toda aquela que poderia proferir sem lhe causar nenhuma mágoa... (ah, minha pequena... Como queria realmente ser forte para não desejar te dizer mais nada... Mas seria mentira se dissesse que não quero... Pois quero gritar pra ver se tu me ouves daqui... Mas não vou... Não quero ser internado hoje...)

Bolei o beck pra fumar na estrada... Decidi tentar a Escola de Arquitetura, lá poderia ter uma impressora, neh? Negativo, tudo fechado, alunos não tiram xerox dia de sábado... Desci, me deparei com um gordinho subindo as escadas. – Você sabe por onde posso descer, aqui ta fechado o portão – Me pergunta ele. Antes que eu dissesse qualquer coisa, outro indivíduo me poupou alguns segundos. – Ah tem outra escada ali do lado. – Ouvia isso já descendo com uma voz quase satânica na minha cabeça, dizendo: - Esse portão não é NADA para você, meu lindo... Você pula em dois movimentos, com certeza... – Então eu pulei, na verdade dei uma escorregada no segundo movimento, o que me fez descer e repetir o primeiro e conseguir somente na segunda tentativa... Droga! Fico realmente chateado quando não consigo materializar meu pensamento perfeitamente... Mas enfim, tenho que respeitar também estas leis de Carne o Osso...

Bem... Passada a aventura, “o mar é o mesmo, já ninguém o tema”, e o meu sorriso secretamente leonino revela-me a hora exata de ascender o baseado... Ufhhhh... As árvores hoje gorjeiam mais bonitas... Não choveu e nem ameaçou... Em Ondina com certeza há uma xerox aberta...
O beck ia pela metade quando avistei de longe um amigo, o black entregava de longe a silhueta imprecisa que conheci pelo conjunto das características... Aquele cara ta de cara, pensei...

– E ai Rafa, vai? – Aponto o instrumento.

- Que é isso, um beck? Ele redargüiu.

- É sim...

Não preciso dizer mais nada... Logo fiquei sabendo que por ali não haveria nada aberto... Ele me contou da possibilidade de um lugar em frente a Arquitetura... Bem... Corri lá novamente para me dar de cara com o ócio merecido do final de semana sagrado de alguém... Bom... Pensei em inúmeras possibilidades de lugares longínquos onde poderia imprimir aquele poema... Mas concluí nos meus quiças atômicos que, talvez fosse melhor entregá-lo no ano que vem, ou sei lá, quando o deus que há em mim decidir que é a melhor hora... Talvez ainda poderei somá-los ao meu pretenso conjunto de obras para além da funerária (Eu bem que poderia dizer “obras póstumas”, mas isso não condiz com minha criatividade essencialmente dramática... Além do mais, tudo em mim é um evento histórico, ou porque nunca foi feito, ou porque tentei fazer melhor...)... Enfim, voltei pra casa...

Em casa o desafio era mais extremo... Como fazer caber o impossível dentro das fronteiras das possibilidades? Por alguma razão cósmica, as duas barras de chocolate que comprei não cabiam na gaveta daquele porta jóias inútil... O engraçado que eu calculei... Perguntei ao vendedor on-line o tamanho... O vendedor respondeu: 14 cm de largura, 11 cm de altura e 15 cm de profundidade... Caberia perfeitamente se ele não tivesse esquecido de me avisar da porcaria do parafuso que tem na porra do meio da gaveta que a impede de fechar quando está cheia... Bosta... Nem os camarões verdinhos que eu havia separado estavam dando, tive que customizá-los... Reduzi o mínimo que pude o efeito visual de sua beleza... Mas isso já era motivo o suficiente para inquietar minha alma perfeccionista... Enfim... Em outros tempos eu me estressaria, em vez disso fui trabalhar o bilhete...

Bem, não possuía nada parecido com papel cartão... Mas havia dois pequenos envelopes, um preto, outro rosa... Acho uma linda combinação... Logo, cortei o rosa em tamanho menor... Escrevi uma mensagem (que somente o destinatário poderá ler, me desculpem) e o coloquei no envelope negro... Bem, não preciso dizer que a merda da gaveta não gostou nada disso também neh? Fez o que pode pra enguiar... Mas me retei e fechei aquela porra com um ligeiro comportamento forçado... E... Rezei para que o seu jeitinho desastrado não quebrasse quando fosse abrir... Embrulhei... Já eram 9:30 da manhã.

Mas é óbvio que não poderia sair naquele estado, de gente que não dormiu (na verdade, quase sempre estou assim, mas é preciso às vezes disfarçar a cara), fui tomar banho... Fazer a barba... Escolher uma roupa que caiba bem numa memória... Colocar um perfume diferente para ver se causa algum estranhamento (o que também é importante para a memória)... Bom, desde o princípio pensei em deixar o presente na portaria... Mas a possibilidade de encontrá-la só de botar a cara na rua é risco consideravelmente grande... E todos já perceberam que não gosto de me colocar à mercê da Fortuna sem ter uma lista significativa de planos de fuga... Prefiro me sentir elegante, ou melhor, empertigado... (pra algumas pessoas é a mesma coisa, mas para mim a palavra “elegante” não traduz como eu gosto de me sentir). Finalmente, meti no bolso o chocolate que não coubera na caixinha... Talvez me servisse de um útil elemento surpresa... Em último caso eu mesmo o comeria (Era feito com pedaços de cacau... Vocês sabem que eu adoro cacau neh?)...

Hum, e por falar em comida... Por fim saí de casa, mas havia me lembrado que não tinha comido nada ainda... Juntei as moedas e passei na venda pra comprar dois reais e setenta e cinco centavos de castanhas de caju (altamente nutritivas e me forneceria energia o suficiente para uma empresa como esta)... Bom! Já se passavam das dez, e a conhecer a pessoa, conheço também as imensas probabilidades dela estar aproveitando este lindo dia de sol... Mesmo assim segui com minha sacolona de sonhos... Logo na rua, outro impasse... Que caminho devo tomar? O mais curto e perigoso? Ou o mais longo e mais seguro para a carga que trago comigo? ... Bem... Ninguém vai ousar me roubar hoje, hoje não... Fui pelo mais curto, na esperança de talvez, quem sabe, ganhar um abraço ainda hoje... De qualquer forma, tratei de segurar a sacola firmemente, mas não poderia ser tão firme que denotasse desespero (até pq não sou de me desesperar com tamanha facilidade). Tinha que segurar de uma forma que demonstrasse minha imensa tranqüilidade em estar passando por ali com aquilo na mão, ao passo que também mostre aos que me olham que ali não está nenhuma trouxa perdida num caminho deserto...

Cheguei na rua dela depois de uma caminhada agalopada... Parei um pouco antes do portão... Empavonei-me as roupas e segui... O porteiro me dá o sinal que torna a campainha desnecessária... Entrei e fiz a pergunta que me traz um nó quase imperceptível à garganta:

- Fulana de Tal está?

-Acabou de sair – disse ele.

- E a colega de quarto dela? (Sempre tenho medo que a encomenda se extravie, não confio cegamente em porteiros, ou melhor, em ninguém)
-Também saiu... ele disse.

- Tudo bem, posso deixar isso aos seus cuidados? – Ele respondeu afirmativamente. Fiz um sinal dramático e continuei – Mas tome cuidado, é frágil.
- Não, ta tranqüilo, vou colocar ali no cantinho.

Sorri, fiz um sinal de agradecimento juntando minhas duas mãos semicerradas como num abraço e, inclinando-me para frente, o reverenciei e me despedi... Na rua o Sol continua me fazendo sorrir radiantemente... Acho que está Sim na hora de fazer visita a Uma Outra pessoa muito especial... Fui até ao baluarte onde ela se esconde... Chegando lá, não havia ninguém na portaria, entrei em casa e não vi ninguém conhecido... Ou melhor, entrei naquela casa que foi meu parque de diversões por tantos anos, e me senti um completo estranho... Uma menina que estava na sala me fitou curiosamente... Perguntou quem eu desejava ver e eu disse que queria Sim ver a Uma... Prontamente a guria subiu até o quarto e verificou ... - Ela não está... Eh! Eu sabia que Ela também deveria estar aproveitando aquele lindo dia ensolarado... Ahhhhh... Gente com muita coisa em Capricórnio... Sempre leais ao imenso trabalho de ser feliz...

Decidi então passar em outra residência... Talvez receber um abraço de um amigo tão caloroso quanto o mar... Perguntei se meu guru de Escorpião estava em casa... O engraçado que neste lugar onde sempre me senti um tanto mal tratado, fui recebido por um segurança que nunca tinha visto... – Quer ver quem? – Perguntou ele. Disse o nome e ele: - Sabe onde é? – Sei, respondi. – Pronto, vá lá e pede pra ele vir assinar aqui... Simples assim... Fui no quarto dele e só João estava dormindo... Lavei o rosto no banheiro e saí... Fui comer minhas castanhas no Campo Grande de dar minha missão por encerrada...

Vagandiei entre as árvores da Vitória... Sentia a brisa sacudir as memórias de meus velhos cabelos por entre as folhas... Minha juba dissonante... Ao chegar no Campo Grande, antes de entrar na praça, observo uma corpa estendida no chão de um dos grandes portões da praça. Era um rosto conhecido, mas dei de ombros e preferi me sentar num local próximo para apreciar a cena... Vejo um grupo de velhinhas circundarem a corpa... Quase podia ouvir o que murmuravam... Ou pelo menos imaginava algo assim: “Tadinho! Será que surtou?”; ou qualquer coisa que denotasse a compaixão cristã que aprendemos nos bolsos da sociedade diante da loucura... O jovem ergueu a cabeça e tranqüilizou as senhorinhas... Era um experimento... Escreveu algo num papel e voltou à sua posição meditativa... Nesse momento...

-AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Bem grande como uma loba, Outra louca grita um estampido do outro lado da praça... kkkk... - Eh minha amiga. Até meu fígado que não tem ouvidos reconheceria o reverberar daquele grito... Enfim... Continuei comendo minhas castanhas, uma a uma, vagarosamente... Quando acabaram, peguei o chocolates, o despi de sua indumentária soberba e levei um naco até a boca... Tinha o gosto da eternidade... Quis dividi-lo com minha amiga e fui em direção do horizonte de onde partira o grito... Chegando perto, noto aquela figura sublime meditando acostada numa árvore... Ao me aproximar, um homem vem em minha direção e murmura alguma coisa que a catarse de estar diante de minha amiga meditativa não me permite deixar que complete... Olhando-o nos olhos, posiciono automaticamente o dedo indicado entre os lábios em sinal de silêncio e aponto para Ela... O homem, que era mais alto e mais forte do que eu, se encolhe e retrocede.

Aproximo-me, me sento em sua frente com o chocolate entre as mãos... Ponho minha espinha ereta e também eu me conecto à cena... Com os olhos semicerrados eu fico lá, me certificando que o homem foi embora (não confio em ninguém, às vezes reações como a minha podem gerar represálias ou vinganças que só encontram sentido na cabeça de quem se vinga...), felizmente não havia motivos para preocupações, ninguém aborreceria nossa conexão... Ficamos lá alguns minutos, até que alguns movimentos da pessoa em minha frente denunciava seu retorno... E ela finalmente abriu os olhos, eu ergui também os meus a tempo de ouvir sua gargalhada... Ela se levantou... Nos abraçamos bem apertado... Ofereci um pedaço do meu chocolate... Logo em seguida uma moça chegou com uma caralhada de papeis... Eram relatórios do experimento... Sim... era Ela também Uma cientista...

- Toma o seu relatório... Nos reunimos em 10 minutos. – Disse a moça.

Minha amiga pegou o papel e começou a ler concentradamente, eu sabia que ela se guiava pela mesma lua que a minha... Olhei um pouquinho admirando aquela juba castanha... Apaixonadamente eu sinto que meus amigos me revelam o sentido da vida... O caminho de fazer o nosso melhor... Sempre... Sempre... Sempre...

Eu por fim a abracei... Agradeci por ela existir também... E disse:

- Tchau amiga, eu só vim aqui te dar esse abraço... Este é apenas o primeiro dia de Leão... E o Sol está sorrindo sob nossas cabeças...


Inverno de MMXVII.


https://www.youtube.com/watch?v=zethvKil2m4
(Muito - Dentro da Estrela Azulada - Caetano Veloso, 1978)