quinta-feira, 22 de julho de 2021

Terceiro Pino: Cap III, pt 2

Terceiro Pino – Ninenine II: Jean Paul Jones 


No bar do Alex eu já percebia minhas faculdades mentais perfeitamente atrofiadas, levantei para ir ao banheiro e percebi que estava bêbado, me lembrei que não havia comido nada, mas já não interessava, pois ali nenhuma fome me visitaria mais. Fui admirar a podridão daquele banheiro sujo, inscrições de todo tipo, ofensas, palavrões, comentários desnecessariamente machistas. É incrível que homens adultos sejam capazes de tanta idiotice. É nojento ter apenas uma mínima ideia do que se passa nas nossas cabeças nestas horas de profundo escuro e vazio de alma. Me despedi do vaso e saí.

- E ai? Vamo lá em cima? Preciso ver se arranjo uma gata hoje. – Me diz ele.

- É, vamos nessa!

No caminho paramos para observar um batuque daqueles habituais do pelourinho, onde as gringas param para admirar a beleza nativa e ficam encantadas com o talento selvagem dos afros tambores ancestrais (até nos faz esquecer de que esse batuque militarizado é muito mais do colonizador do que africano, nos faz até esquecer dos milhares de instrumentos de corda e de sopro oriundos da África, enfim, nos faz esquecer de tudo). Ficamos ali, meu amigo cercando as gringas e eu tentando entender o que cabe a mim naquele furdunço todo. Nessa hora, um cara bem chato, destes poetas de rua meio malandro, aproximou-se de muleta e colou na gente, falou horas de besteiras que não prestei muita atenção. Acabamos indo os três para uma daquelas ruas encruzilhadas do Pêlo, ali onde tem um bar velhinho que fica socado de gente.

Lá nos encontramos de novo com aquela minha amiga. Ela nos convidou para dançar. Meu amigo não quis, é bem tímido ao que parece. Ela ficou desapontada, é claro. Eu aceitei o convite. Entrei lá e comecei a sambar loucamente, com uns passos esquisitos e uns giros malucos que só a contemporaneidade, a falta de noção, a desimportância favorita que guardo para a opinião dos outros e o néctar da embriaguês conseguem produzir. As pessoas olhavam, davam risadas, talvez até criticassem, mas por alguma razão, no fundo sabia que elas me invejavam. Talvez invejassem meu trabalho corporal, minha desenvoltura, talvez invejassem o balançar de minhas roupas coloridas, ou talvez apenas invejassem a minha coragem de estar ali, dançando para mim, sem nenhuma intenção de agradar ninguém além de mim mesmo.

Saí, meu amigo admirou:

- Porra, você dança mesmo heim?

- Não posso evitar, é que quando bebo, ao que parece me torno leonino demais. – Disse a ele. Neste momento percebi que ele estava com uma gata do lado, uma francesa majestosa, parecendo realmente que havia sido feita com as mãos por um artífice divino.

- Oui. – Ela me cumprimentou com um oi afrancesado que me permitiu logo saber sua nacionalidade.

Estendeu a mão e pude sentir a maciez sublime daquela mão sedosa e alva, quase de mentira. Dava para perceber logo que aquela mão jamais pegou numa atividade pesada, era a mão de alguém da elite francesa. Ela voltou a conversar euforicamente com o meu amigo. Enquanto isso eu continuei ali como se não estivesse, apenas admirando aquela beleza fenomenal. De repente aparece o marido dela com algumas cervejas na mão. Ele ofereceu a todos e ficou faltando a minha, obviamente não tinha contado comigo. Logo meu amigo se apressou a me apresentar.

- Gente esse aqui é o Dois Nomes, é um poeta daqui.

- Ah! Muito prazer. – Disse ele com seu sotaque.

Ele então me ofereceu um copo de sua própria cerveja e então eu resolvi voltar para dançar. Fui dançar com aquela minha amiga do início da noite. Conversei um pouco com ela e, depois de um tempo, acabei perguntando qual era o seu signo. E ai ela me disse.

- Ah... Adivinha! Aquele com S.

Hahaha! De imediato comecei pensar uma porção de coisas e continuei a conversa crente que se tratava de alguém de Escorpião. Não sei porque isso veio tão forte na minha cabeça louca. Escorpião só é com s em inglês. Hoje está muito mais claro para mim o quanto o álcool atrapalha em muito o meu raciocínio. Só depois de muitos minutos de conversa e de algumas gafes charlatanescas sobre o zodíaco é que vim me dar conta do meu imenso equívoco interpretativo. Somente quando ela de novo não parava de olhar pro meu amigo e perguntar coisas sobre ele. Enfim, ela não era mesmo para mim aquela noite. Eu definitivamente não tenho mais paciência para chavecações, portanto, encerrei aquela conversa mui amigavelmente.

Voltei para fora do bar, desta vez o gringo me comprou uma cerveja. Eles estavam agora acompanhados também de uma chilena, muito bonita também. Todos conversavam alegremente e sorriam muito. Descobri que haviam se conhecido dias antes. Todos eles tinham amanhecido o dia na Escadaria do Paço, lugar de bastante frequência do meu amigo. Nossa, bebemos muito neste lugar até que a francesa, saudosa dos acordes do meu amigo, o convenceu de irmos até a Escadaria para que ele tocasse pra ela.

- Vamo lá! Eu compro mais bebida pra gente. – Disse ela tentando convencê-lo a tocar, acontece que ele é meio tímido, não gosta de tocar pra muita gente. Só quando realmente vale a pena.

Chegamos ao Paço e tinha uma galera de hippies lá fazendo a maior algazarra. A maioria se conhecia e meu amigo conheceu muitos deles nas noites passadas.  A francesa logo mandou seu marido ir comprar bebidas. Ele veio com uns dez latões de Skin e umas quatro garrafas de São Jorge. Meu amigo pegou o violão e a gringa não parava de pedir uma música atrás da outra. Queria ouvir o repertório da música brasileira mais vendida entre o alto escalão internacional. Músicas de Tom Jobim que boa parte dos brasileiros não conhecem: Baden Powell, Vinícius de Moraes, Toquinho. Para mim, ficava claro que meu amigo enjoou logo daquelas músicas, toda hora ele trazia outra música pra quebrar o clima.

Nesse momento, um homem de meia idade vem subindo as escadas. Meu amigo para de tocar e grita entusiasmado:

- Grande Jean Paul Jones! Chegue mais meu velho.

Fiquei por um tempo fitando o cara que levava o apelido do mundialmente famoso baixista do Led Zeppelin. Jean Paul Jones se aproximou e cumprimentou todo mundo cortesmente. Ele tinha um falar muito gentil, um tanto rouco e pra dentro, muito parecido com o Mutley do desenho animando. Era alguém que demonstrava gentileza e boas intenções em todos seus movimentos. Sentou-se e ficou também curtindo a música e bebendo junto conosco.

Não tardou e escutei um cochicho entre meu amigo, ele e a chilena. Alguma coisa sobre cocaína. Levantaram e foram subindo as escadas. Eu, como um viciado compulsivo olhava aquela cena com um olhar de cachorro pidão. Meu amigo, em determinado momento da escada olhou para mim e fez um singelo sinal com a cabeça. Me aproximei, meu amigo disse a Jean Paul:

- Esse daí é brodão, já curti várias aventuras com esse cara, no Rio, em Góias também e no Rio Grande do Sul. Já cheiramos várias cocaínas junto.

- Pode crer! Amigo nosso então! – Disse Jean Paul com sua voz rouca e um singelo sorriso com suas rugas de canto de boca.

A gringa preparou os quatro raios. Jean Paul havia dado a ela um grande pino, deu pra fazer quatro carreiras bem servidas. Eu esperei que todos cheirassem. Ela foi a primeira, meu amigo depois, Jean Paul pediu para que eu fosse, eu insisti que era a vez dele. Então, eu cheirei... Nossa! A divina picada do diabo... A sensação pura da autodestruição tomava conta de mim... O pó é mesmo fantástico para quem se dá com ele... Manda a locomotiva vapor da mente vibrar aos mil orifícios que nos embalam ao Hades... Rimos, ficamos criativos, falantes, e a noite vibra solta como uma criança solta num parque de dimensões de desenho animado... Quando vimos já estávamos cantando sucessos antigos do axé...

Mas o que mais me intrigava era a figura alegre e animada do Jean Paul... Sempre com um singelo sorriso enrugado... Contente, conversador... Contando casos... Cantando as músicas... Bebendo mais... Animando a galera... Correndo na carruagem da noite como se tentasse retrocedê-la a fim de que a manhã nunca chegasse...

A francesa se divertia, o marido dela não percebia os olhares de desejo secretos que ela lançava ao rapaz alto de dreads que tocava o violão... Também, ela permaneceu toda a noite bebendo pouco, fumando muitos Marlboro Vermelhos e mantendo sua discrição impecável... Ela jamais passaria daquilo, singelos olhares de admiração por aquele ariano bonito... O gringo, seu marido, também era um amor de pessoa, tratava todos bem, mas não falava nada, aparentemente não entendia as músicas também... Apenas ficava lá se balançando e bebendo... Conversei um pouco com ele em inglês, eles vinham de Lyon e estavam casados há dois meses e resolveram vir conhecer o Brasil.

Não demorou muito até que fossemos novamente ao topo da escadaria esvaziar o primeiro pino. Desta vez o meu amigo preparou... pediu meus cartões emprestado. Jean Paul Jones realmente parecia muito feliz de estar ali conosco, como se fossemos todos velhos amigos, eu olhava intrigado bem fundo no semblante dele e percebia uma solidão amuada... Daquelas que se apegam tão fundo na gente que é quase impossível se imaginar sem ela... E eu me perguntava, quem é esse cara? Qual é o seu verdadeiro nome? Por que ele mexe tanto comigo? Nossa, ele me lembra tanto alguém que eu conheço, mas não consigo de forma alguma me lembrar quem...

Bem, eu, como sempre prefiro ser o último, com certeza para poder passar o cigarro no que sobrar na superfície do cartão... Acho que andei vendo filmes demais... Me lembra um pouco a primeira temporada de Californication também... Às vezes é isso... Sinto que se a vida não serve para nada, talvez possamos pelo menos nos inspirar em outros solitários fictícios que também desperdiçam suas vidas tentando fazer alguma coisa... Nem que seja ficar doidão e tentar aproveitar a juventude, como quer fazer o meu amigo... Acho que cheirei cocaína a primeira vez porque achava isso glamuroso, charmoso. Queria saber a sensação que dava... Como o cigarro também... Fumei apenas porque achava lindo ver o Solid Snake fumando... Queria ser como ele... Hoje, depois de ter zerado o Metal Gear Solid 4, percebo que talvez eu não queira me tornar um velho calado e solitário depois de ter sofrido tanto como ele... e pior ainda, fumando dois maços de cigarro por dia. Não! Definitivamente não quero isso para mim.

Voltamos ao meio da algazarra, os hippies já estavam aloprados ao máximo. Em um dado momento alguém começou a dedilhar Bohemian Rhapsody, eu eu, como sempre, no auge de minha loucura não me contive, e cantei, e gritei, como se cada verso expulsasse de mim um demônio diferente. Dancei como um louco, girando entre os combustores da escadaria numa eterna coreografia ensaiada para a minha entrada triunfal nos portões do inferno. Neste momento passou um velho de silhueta ranzinza, passou quieto e nada disse, porém meu amigo que tocava, se encucou por causa de que havia tomado regulagem por ter tocado até de manhã na terça passada.

Neste momento, Jean Paul mandou um garoto ir ao esconderijo compra mais da ninenine. Um dos hippies era amigo da chilena, creio que era chileno também. O cara começou a gastar horrores, ele estava tomando bombinha desde cedo. Ele começou a tocar várias músicas e gritar bem auto. Comecei a perturbá-lo um pouco, achei divertido fazê-lo, porém quando o chamei de Manu Chiao ele não gostou nem um pouco.

- Manu Ciao? Porra veio! – Disse ele.

Ali parei de gastar com ele. Não queria arrumar briga uma hora daquelas, ainda mais estando cheirado. Nesse momento o moleque voltou com a outra capsula. Subimos novamente a escada. Mais uma vez, Jean Paul Jones patrocinava a alegria da galera, ele realmente tinha prazer em fazer isso. Embora eu me mantenha sempre desconfiado quando alguém banca drogas, eu observava com bastante atenção as expressões de Jean Paul e não notava nele nenhuma malícia em relação a nós. Ele realmente emanava uma aura pura de bondade, eu olhava e via alguém em busca de redenção, sei lá... Me lembrava tanto alguém que eu conhecia e esta lembrança começava a me incomodar...

A madrugada já ia se acentuando, a gringa continuava pedindo música atrás de música: Chega de Saudade, Tristeza e Solidão, O Canto de Yemanjá... Já estava me cansando de tanta lamúria... Perguntei então a ele se ele sabia tocar Refazenda... Ele disse que sim... Em meio àquela gringaiada toda ninguém acompanhou a música... Ficamos só eu e ele cantando baixinho enquanto todos faziam barulho e prestavam atenção em outras coisas. Neste momento eu pensava em você com todo o meu coração... Me lembrei que há poucos dias você postara uma fotografia do meu livro ao lado de um abacate miúdo, que aberto formava a imagem de um coração. Até hoje não sei o que significava aquela foto em concomitância com a frase da canção... Mas isso parece que é outro dos segredos perpétuos de tua provocante sedução... Ao fim da música me dou conta que será mesmo impossível esquecer você... Minha amiga mais especial...

Lá para as duas da madrugada cheiramos a quarta carreirinha. A minha mente funcionava alucinadamente rápida. Já tinha bebido além do meu limite talvez, mas eu queria mais, muito mais... Queria mais uma vez desafiar os limites deste corpo mortal. Queria ver se aquele entorpecente seria capaz de me carregar para as estrelas... Um doce envenenamento que minha ilusão me proporcionava. Os franceses infelizmente tiveram que se despedir. Porém o marido dela foi até Alex e comprou mais cinco latões de Skin e nos deu. Os hippies já estavam todos muito loucos, já havíamos fumado tantos baseados que eu já tinha perdido a conta. O cara que estava tomando bombinha já estava vomitando também. Tinha perdido o dom da fala, bem, pelo menos a parte inteligível desta. A francesa então se despediu cantando e subiu a Ladeira do Carmo e nunca mais foi vista.

Vendo a animação do renovar de suprimentos, Jean Paul Jones resolveu ir pegar mais uma cápsula. Era por volta das duas e quarenta quando cheiramos a quinta carreirinha daquele pó, talvez o melhor que cheirei no Pelourinho. Já estávamos todos muito loucos, mas Jean Paul não perdia aquele nobre semblante que procurava a todo custo estar perto de pessoas. Ele então começou a repetir coisas que me delineavam a silhueta de sua imensa solidão. Falou alguma coisa sobre o lugar onde ele está dormindo e sobre ele não ter preocupações para amanhã, só o que importa é o agora. E este agora precisava parecer infinito o máximo possível.

A essa altura já havia conversado bastante com a chilena. Comecei então a recitar um poema do Neruda, o problema que o poema era imenso e acho que sua atenção dispersou em algum momento do poema. Então passei a aumentar o volume e, como o de costume acabei gritando pra caralho. Meu amigo quase teve um surto.

-Oh vey! Não grita, não! O coroa vai se retar porra e esse coroa é brabo!

Eu não havia percebido que o velho havia passado novamente rumo a casa dele, que era do lado. E certamente não só ele, mais toda a vizinhança, se sentiria furiosa se tivesse uma trupe bêbada e drogada fazendo farra sob suas sacadas às três horas da manhã. Pouco tempo depois meu amigo largou definitivamente o violão, não sei se porque se cansou de tocar ou se porque sua musa principal tinha ido embora, talvez um pouco dos dois. Ele passou o violão para a chilena, que começou a tocar divinamente.

Saí para urinar e quando voltei eles estavam preparando a última carreira Só fizeram três, o que significava que eu ia ficar de fora desta vez. Porém Jean Paul resolveu dividir a dele comigo, algo que talvez eu nunca tenha visto numa roda de cheiradores de pó. Nós cheiramos então... devemos ter curtido também a última cerveja, foi o tempo da minha solidão apertar tanto que tentei queixar a chilena... Em vão por fim... Ela não tinha interesse... Nesse momento o amigo dela ficou realmente muito mal e saiu como um louco descendo rumo à Ladeira do Taboão. Fomos atrás dele para evitar que algum mal acontecesse. O encontramos largado no chão, vomitando e se deitando por cima do próprio vômito. Uma cena deplorável para um ser humano, uma cena que eu já estava tão acostumado em fazer parte que já não me comovia mais...

Ela então decidiu leva-lo para casa, a noite havia acabado para ela, e ao que tudo indicava para nós também. Meu amigo resolveu que era hora de partir, pois com ela ia talvez a sua chance de acabar na cama com uma gata. Não sei, naquele momento me pareceu que podia ter rolado um clima entre os dois e eu não havia me dado conta. De qualquer forma, achei também que já era hora de partir. Jean Paul Jones insistiu para que ela não fosse embora, mesmo assim ela foi, mas quando meu amigo me perguntou se íamos nos sair, Jean Paul Jones deu uma singela coçada na barba e disse:

- Poxa, vamos ficar mais um pouco caras! Ainda tá cedo! E eu não vou conseguir dormir agora mesmo. Não tenho nada para fazer até de manhã, podemos comprar outra daquela e ficar de boa por aí.

- Não, Jean Paul. Acho que já deu cara, eu to cansado já. – Disse meu amigo.

Eu estava indeciso, uma parte de mim queria cheirar mais, comecei a ficar com pena de Jean Paul. Fomos subindo o Largo do Pelourinho. Jean Paul se ofereceu então para ir conosco até o Terreiro de Jesus. Veio conversando o caminho todo enquanto eu e meu amigo permanecíamos em quase silêncio absoluto. Estávamos mesmo cansados. A encruzilhada do Benín estava como sempre, abarrotada de moradores de rua, signo máximo de nossa derrota civilizatória, onde a desigualdade e o descaso gritam mais profundamente o seu silencioso brado... Ninguém está nas ruas a este horário para ver os horrores pelos quais somos ainda responsáveis... Onde a Colonização nos fez pagar um alto preço. Onde a miséria, o abandono e a morte certa nos faz querer drogar-se ainda mais.

Jean Paul não parava de falar numa voz melancólica de despedida. Não sei, já faz muito tempo que isso aconteceu, não consigo mais me lembrar do que ele disse exatamente, porém, sei que aquilo me marcou profundamente porque as imagens se gravaram muito fortemente em minha cabeça. Ali, naquele momento eu finalmente pude saber quem ele me lembrava. Ele me lembrava a mim... Era a imagem escarrada da solidão envelhecida que eu trazia aqui por dentro... Era a imagem do medo que eu carrego de terminar minha vida como ele... Ou de pelo menos atingir a meia idade com o coração carcomido de tanto vazio... Terminando minhas noites sem ninguém, sem nenhum abraço ou consolo... Nada! Apenas um corpo entorpecido agonizando por qualquer companhia que fosse... Afinal, porque eu ainda estava ali naquele horário? Correndo riscos, tentando fugir da minha dor, tentando esquecer alguém que não vai se apagar da minha cabeça só porque bebi demais, ou me droguei demais... Não... Eu não posso continuar assim...

Quando chegamos perto do Terreiro, aquele outro poeta doido de muletas apareceu. Não sei da onde veio, sei apenas que encontrou conosco e assim Jean Paul Jones e ele se uniram para continuar a noite. Ao despedir-nos, olhei bem profundamente nos olhos de Jean Paul Jones uma última vez, dei-lhe um abraço apertado e disse:

- Obrigado por tudo, cara! Você é realmente um sujeito bastante especial. Sua aura é muito bonita, de verdade.

Seguimos para casa. A rua vazia, só a miséria e a malandragem a habitam a essa hora da noite. Mas nós não temíamos isso... Éramos parte, causa e efeito disso tudo... Éramos tão miseráveis como aquela noite... Não havia mais espaço para temermos a morte... O que poderia ser pior do que desejar uma vida inteira assim? Pelo menos isso era o que passava pela minha cabeça autodestrutiva. Não sei, acho que meu amigo pensava diferente, mas preferi ficar em silêncio o caminho quase todo. Ao passarmos na Carlos Gomes sempre preferimos quebrar na ladeira que dá pra Rua do Sodré. Passamos pelo Museu de Arte Sacra e quebramos na rua da Casa Preta. Ali, precisamente ali um vagabundo apareceu. Vinha marrento olhando pra gente, como numa cena de Velho Oeste, nossos olhos se apertaram e ele nos parou:

- Colé playboizada, vai representar a família ou não?

- Rapaz, a gente ta vindo de pé, de boa, você acha que a gente tem alguma coisa pra você? – Disse o meu amigo, eu permaneci calado observando e imaginando possibilidades de ação, mas de alguma forma, eu sabia que aquele cara estava armado. Talvez pelo olhar, não sei direito, a postura, o horário de ele estar na rua com aquela marra toda, não é para qualquer vagabundo... E de alguma forma, já tinha vivido muito tempo na rua pra saber disso.

- E se eu meter a mão? – Disse ele.

- Eu lhe dou uma broca! – Disse meu amigo.

Momento de tensão, o cara levou a mão à cintura, e os dois ficaram se olhando um tempo, alguns segundos que pareceram muito mais tempo. E então o meu amigo disse:

- Rapaz, você não vai me deixar ir pra casa hoje não é?

O cara parou, pensou um pouco, descansou a mão e disse:

- Nenhuma, vá lá rasta!

Nós enfim seguimos em silêncio absoluto. O resto do caminho só serviu para eu observar pela milésima vez na minha vida! Como aquela vida era sinistra... Quantos riscos eu corria por quase nada... Apenas para ser mais um registrador deste mundo que ninguém quer realmente ver ou saber como é... Um mundo de homens com tão pouco a perder que já não dão mais nenhum valor à vida...

Ao chegarmos no Campo Grande, meu amigo e eu nos despedimos. Ele seguiu para o Corredor da Vitória. Eu ainda enfrentaria uma longa jornada até a Federação... De longe eu ainda olhei pra ele. Esguio, altivo, parecia um gigante caminhando tranquilo entre um Jardim das Hespérides noturno, rumo à árvore dos frutos dourados do amanhã... Para tentar de novo, tentar novamente galgar algumas mordidas na carne da maçã proibida da felicidade...

Quanto a mim... Me esqueci de mim durante o resto do caminho... Não havia nenhuma escuridão que me apavorasse mais do que aquela que há tantos anos já trazia comigo... Se eu desisti? Não! De certa forma ardia em meu peito uma esperançazinha vã... Um certo grito... Um amor guardado para alguém... Uma coisa que crescia e era mais forte do que aquela escuridão maldita... Alguma força motriz que gritava e dizia para mim...

Já não quero ser assim...

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