Terceiro Pino – NineNine I
: Caprinos e Ovinos
Me
despedi de todas aquelas pessoas queridas e saí daquele singelo templo perdido
entre as ruas do Pelourinho. Ao sair, me deparei com um concerto de violeiros
ao pé do Cruzeiro de São Francisco. Encontrei um amigo que não via há algum
tempo. Um ariano de carteira assinada, com certeza, do tipo que vive todos os
momentos da vida queimando ao máximo a chama que arde ainda em sua juventude
alucinada.
-
E ai Dois Nomes, tudo beleza? – Me cumprimenta ele.
-
To ai vivendo. O Pelourinho está meio sombrio hoje, não? Vazio, estou aqui
decidindo se vou para casa ou não. Você tem um trevo ai?
Eu
sabia que ele sempre tinha trevo e, toda vez que me retiro daquele lugar tão
calmo, me sinto tão sufocado em minha própria sujeira espiritual que ela
novamente me toca para as ruas maculadas por todo o ódio colonial que abateu a
história deste país em desgraça, vício, qualquer tipo de fuga que permitisse ao
seu povo oprimido encontrar outros motivos para continuar vivendo... Nem que
fosse apenas mais uma festa, mais um sorriso de uma preta... Mais um porre para
acalentar esse vazio imenso que trazemos na alma.
Ficamos
ali um tempo ouvindo as violas e o pandeiro. Logo percebi uma preta dançando,
ela carregava um sorriso conhecido. Cheguei até ela e cumprimentei-a, não vale
a pena rememorar o que conversamos, não foi nada demais, até porque ela desde
pronto botou os olhos no meu amigo e, para variar, eu era apenas mais um
esquecido caindo no colo da noite. Conversamos os três, enquanto os amigos dela
estavam sentados. Mas ela queria dançar, e eu ainda não tinha bebido nada,
nenhum combustível forte o suficiente para me transportar de volta para minha
terra onde tudo posso, onde sou o rei louco que nada teme. Ali, naquele
Pelourinho sombrio eu era apenas mais um errante viciado em emoções fortes e
drogas baratas da pior espécie.
Nos
despedimos da moça e de seus amigos, provavelmente nos encontraríamos de novo
logo, o Pelourinho acaba por ser um lugar pequeno, habitado por milhares de
fantasmas de todas as espécies. Descemos o Largo onde os escravos eram
castigados, como bem relembra aquela música do Cae... Subimos a Ladeira do
Carmo e rumamos para a Escadaria do Paço. Lá encontramos uma trupe de artistas
mambembes, viajantes de diversos lugares. Conversamos um pouco, mas nenhuma
droga foi oferecida. Estávamos ávidos pela busca de algo quando resolvemos
subir a escada e ir no Buk Porão Bar. Ao subirmos, notei singelamente meu amigo
se abaixar e retirar do chão alguma coisa que sabia no ato que era preciosa
para dois errantes notívagos como nós. Ele encontrará um tíquete da felicidade:
-
Você viu isso cara? – Perguntou-me
-
Sim! Quanto era?
-
Dez reais. Vamos na tia.
-
Mas é claro.
Rumamos
em silêncio por algum tempo quando ele retomou a fala de maneira um tanto
pesarosa.
-
Poxa, eu acho que essa grana era daquele cara que saiu do bar logo quando eu
achei a grana. Estou com um pouco de remorso. Eu vi que ele saiu olhando pro
chão, deve ter tirado alguma coisa do bolso e a grana caiu. Deve ter tentado
pagar a entrada e percebeu que tava sem a grana e voltou pra procurar, sei lá.
De
fato um sujeito saiu mesmo do bar na hora em que ele pegou a grana. O cara meio
que viu ele se levantando com algo na mão e notei um certo olhar inquiridor e
meio desapontado. Talvez tenha tido até a vontade de dizer alguma coisa do
tipo, hey cara, esse dinheiro é meu. No entanto não disse nada, talvez tenha
pensado que vacilou, ou talvez ainda tenha trepidado frente à dúvida de ser
mesmo o dinheiro dele o que meu amigo tinha na mão. Na pior das hipóteses teria
evitado o mal estar de uma confusão. Bom, eu não duvido nenhum pouco de que, se
tivesse pedido na moral, meu amigo não teria hesitado em devolvê-lo. De
qualquer forma, logo o ariano chegaria à conclusão mais consoladora para aquele
momento:
-
É, mas agora já era também neh? Já foi. Poderia ter perguntado se era dele,
talvez fosse a última grana e tals, não queria ser responsável pela bad de
ninguém. Mas essa grana também era o que a gente tava precisando, então, vamos
usar isso de maneira que valha a pena. Vou comprar uma dolinha de cinco e
podemos comprar um São Jorge de três e ainda sobra dois reais. – Refletiu.
-
É! Acho que achamos a grana por algum motivo, não acho que nada aconteça a toa.
Talvez o cara tenha perdido a grana porque tinha que perder, e nós achamos
porque tínhamos que achar. Todas as experiências são válidas para vida. Ganhar
e perder são duas faces da mesma moeda. E eu ainda tenho umas moedas aqui,
somando tudo devem dar uns três reais. – Foi o que eu disse a ele.
Então
fomos até o ponto de venda do narcótico que precisávamos para acalentar aquela
noite. O lugar é simples, uma casa grande, pra muita gente, de aparência
normal. Quem comanda tudo é uma matriarca, velhinha, de cabelos brancos, com
vários dentes faltando. Ela demonstra um olhar frio e sério, de quem já sofreu
um monte na vida, mas faz o que precisa fazer para manter o que tem e
permanecer neste mundo, aprendendo, ensinando, vivendo. Ela nos vende uma
prensada,ou “emprensada” como alguns costumam chamar. É uma maconha quase de
mentira, dessas que socam todo tipo de coisa para conservar; ácido de bateria,
amônia, gasolina, às vezes vai até um pipizinho pra dar um sabor. Um lixo de
péssima qualidade que o nosso tempo fabricou para que nós acreditássemos que
era necessário para a nossa felicidade. Algo que o mar de confusão e desespero no
qual fomos jogados nos faz acreditar facilmente de que esta necessidade é
real...
Voltamos
para a escadaria, mas antes disso resolvemos passar no Alex e comprar aquele
saboroso coquetel de merda que só serve para entorpecer o que já há de pior no
raciocínio dos homens. Assim não temos tempo para pensar no real potencial do
espírito humano, não sobra força o suficiente para que sequer acreditemos na
existência da alma, e então nos perdemos, jogados ser corda no posso vazio do
esquecimento de quem realmente somos. Luz e Estrelas dispersas na noite sombria
da carne e no frio dos ossos... Nada mais do que corpos vagando em busca de
anestésicos pros nervos... Sem esperança de poder ainda em vida encontrar o
caminho de volta para a casa eterna da felicidade... Lá onde habita o
Verdadeiro Eu... O Eu Superior... Aquele e Aquela que não tem nomes, porque
simplesmente É Tudo o que Existe, Existiu e Sempre Existirá... Assim fechamos
os olhos ainda mais, perdemos a conexão e nos perdemos nos ópios ébrios de uma
cidade repleta de corações despedaçados...
Conversamos
um pouco sobre coisas da vida, sobre nossa idade, sobre objetivos, felicidade,
até chegarmos por fim em amores. Eu tinha então vinte e sete anos, meu amigo
tinha trinta e dois. Falei a ele de minha constante vontade de abandonar aquele
estilo de vida, meus excessos com as drogas, a busca constante por uma costela.
Ele discordava, pensava mesmo que um homem tinha que aproveitar sua juventude,
para ele não havia nada mais gostoso do que estar com uma gata nova sempre que
podia. Por esta razão ele sempre ia ao Pelourinho, ia à caça, e como era rasta,
para ele não era difícil chamar atenção de uma gringa. Eu disse então que
estava à procura de me aquietar, encontrar alguém que me fizesse parar de
rastejar sob as sombras da noite e pudesse começar a ficar em casa, em paz com
minhas razões para escrever.
Ele
me disse que foi muito apaixonado uma vez, por uma capricorniana, ele não sabia
meu signo e por isso começou a falar os males de Capricórnio. Percebi logo que
ele, como a maioria das pessoas, não sabia muita coisa sobre esse povo. Disse
muitas coisas que superficialmente é verdade, porém concentrou-se na parte de
que ela gostava de dinheiro, que queria alguém que lhe proporcionasse essa
segurança. Enfim, não sei nada dela, não há conheço, mas não acredito que os
capricornianos achem sua segurança real na grana. Acho realmente que ela o
deixou por outras razões.
-
Pois eh, ela foi embora e nunca mais me deu um oi. Sumiu! Desapareceu! Vi uma
vez na rua, mas eu não era ninguém para ela. – Ele me confessou!
E
nesse momento eu pensei em todas as pessoas que eu deixei. Acredito que sempre
as vejo na rua através de minha visão mais periférica. Quase sempre as vejo, ou
as procuro no facebook, as namoro em segredo. Mas por alguma razão acabo sempre
guardando o melhor dentro de mim, porque o pior delas ainda me maltrata muito e
já não tenho razões para cavucar as minhas dores, elas, ao que parece, gostam
de se coçar sozinhas, sem o menor dos meus comandos. Acho mesmo que ela se
decepcionou com ele de alguma forma muito além do material. Mas isso é algo que
ele nunca saberá. O povo do Bode Expiatório que foi enviado sozinho para o
deserto é um povo muito sentimental e ressentido no fundo. Acho que na verdade
temos medo de continuar sofrendo por alguém que não merece, tal como o povo de
Israel, Isaac e Jacó, é verdade, está na Bíblia, pode olhar, hahaha. Eles
Tiveram todos os seus pecados perdoados depois de mandarem o seu Bode para
morrer e mesmo assim ainda continuam destruindo, enganando e matando em nome do
seu Deus.
Sei
que nada disso parece fazer nenhum sentido mesmo... Hahahahaha!... Mas se
escrevo em enigmas... é certamente porque tenho medo do infinito... E o
infinito, minha cara... É tudo o que é de mais sagrado que consigo ver quando
olho o fundo dos teus olhos castanhos... Vejo um mundo nobre e altivo, tão
lindo que me enche de um terror maravilhoso... Não sei mesmo o que fazer diante
de tanta imensidão...
-
Eu também sou de Capricórnio. – Disse pra ele por fim.
-
Ah! Poxa, você é de Capricórnio, poderia me falar algumas coisas disso. – E
ficamos algum tempo lá, falando sobre signos essas coisas. Infelizmente não
sabia muita coisa sobre mim mesmo.
Estávamos
chapados, resolvemos descer a escada e tomar um litrão de Cristal no bar do
Alex... Já não me lembro de todas as coisas que conversamos, lembro-me apenas
de ter ficado observando a rua, os bêbados. Havia gente lá que estava naquela
penumbra há anos. Vi um coroa de cabelos e barbas longas, desgrenhadas,
brancas, maltratadas pelo tempo. Ele tinha um olhar sério e um semblante
esvaziando junto com o copo. Amarguras, talvez? Ou indiferença frente à
opressão imposta pela vida? Não sei, para mim me parece que é impossível haver genuína
indiferença com ajuda da cachaça. Para mim, não há plenitude se ainda existe o
desejo de se entorpecer... Para mim ainda são apenas personagens sendo
representados neste teatro de mentira... Só não sabemos como escapar disso
tudo.
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