quarta-feira, 2 de junho de 2021

Os Três Pinos: Cap III, pt 1

 

Terceiro Pino – NineNine I : Caprinos e Ovinos

 

Me despedi de todas aquelas pessoas queridas e saí daquele singelo templo perdido entre as ruas do Pelourinho. Ao sair, me deparei com um concerto de violeiros ao pé do Cruzeiro de São Francisco. Encontrei um amigo que não via há algum tempo. Um ariano de carteira assinada, com certeza, do tipo que vive todos os momentos da vida queimando ao máximo a chama que arde ainda em sua juventude alucinada. 

- E ai Dois Nomes, tudo beleza? – Me cumprimenta ele.

- To ai vivendo. O Pelourinho está meio sombrio hoje, não? Vazio, estou aqui decidindo se vou para casa ou não. Você tem um trevo ai?

Eu sabia que ele sempre tinha trevo e, toda vez que me retiro daquele lugar tão calmo, me sinto tão sufocado em minha própria sujeira espiritual que ela novamente me toca para as ruas maculadas por todo o ódio colonial que abateu a história deste país em desgraça, vício, qualquer tipo de fuga que permitisse ao seu povo oprimido encontrar outros motivos para continuar vivendo... Nem que fosse apenas mais uma festa, mais um sorriso de uma preta... Mais um porre para acalentar esse vazio imenso que trazemos na alma.

Ficamos ali um tempo ouvindo as violas e o pandeiro. Logo percebi uma preta dançando, ela carregava um sorriso conhecido. Cheguei até ela e cumprimentei-a, não vale a pena rememorar o que conversamos, não foi nada demais, até porque ela desde pronto botou os olhos no meu amigo e, para variar, eu era apenas mais um esquecido caindo no colo da noite. Conversamos os três, enquanto os amigos dela estavam sentados. Mas ela queria dançar, e eu ainda não tinha bebido nada, nenhum combustível forte o suficiente para me transportar de volta para minha terra onde tudo posso, onde sou o rei louco que nada teme. Ali, naquele Pelourinho sombrio eu era apenas mais um errante viciado em emoções fortes e drogas baratas da pior espécie.

Nos despedimos da moça e de seus amigos, provavelmente nos encontraríamos de novo logo, o Pelourinho acaba por ser um lugar pequeno, habitado por milhares de fantasmas de todas as espécies. Descemos o Largo onde os escravos eram castigados, como bem relembra aquela música do Cae... Subimos a Ladeira do Carmo e rumamos para a Escadaria do Paço. Lá encontramos uma trupe de artistas mambembes, viajantes de diversos lugares. Conversamos um pouco, mas nenhuma droga foi oferecida. Estávamos ávidos pela busca de algo quando resolvemos subir a escada e ir no Buk Porão Bar. Ao subirmos, notei singelamente meu amigo se abaixar e retirar do chão alguma coisa que sabia no ato que era preciosa para dois errantes notívagos como nós. Ele encontrará um tíquete da felicidade:

- Você viu isso cara? – Perguntou-me

- Sim! Quanto era?

- Dez reais. Vamos na tia.

- Mas é claro.

Rumamos em silêncio por algum tempo quando ele retomou a fala de maneira um tanto pesarosa.

- Poxa, eu acho que essa grana era daquele cara que saiu do bar logo quando eu achei a grana. Estou com um pouco de remorso. Eu vi que ele saiu olhando pro chão, deve ter tirado alguma coisa do bolso e a grana caiu. Deve ter tentado pagar a entrada e percebeu que tava sem a grana e voltou pra procurar, sei lá.

De fato um sujeito saiu mesmo do bar na hora em que ele pegou a grana. O cara meio que viu ele se levantando com algo na mão e notei um certo olhar inquiridor e meio desapontado. Talvez tenha tido até a vontade de dizer alguma coisa do tipo, hey cara, esse dinheiro é meu. No entanto não disse nada, talvez tenha pensado que vacilou, ou talvez ainda tenha trepidado frente à dúvida de ser mesmo o dinheiro dele o que meu amigo tinha na mão. Na pior das hipóteses teria evitado o mal estar de uma confusão. Bom, eu não duvido nenhum pouco de que, se tivesse pedido na moral, meu amigo não teria hesitado em devolvê-lo. De qualquer forma, logo o ariano chegaria à conclusão mais consoladora para aquele momento:

- É, mas agora já era também neh? Já foi. Poderia ter perguntado se era dele, talvez fosse a última grana e tals, não queria ser responsável pela bad de ninguém. Mas essa grana também era o que a gente tava precisando, então, vamos usar isso de maneira que valha a pena. Vou comprar uma dolinha de cinco e podemos comprar um São Jorge de três e ainda sobra dois reais. – Refletiu.

- É! Acho que achamos a grana por algum motivo, não acho que nada aconteça a toa. Talvez o cara tenha perdido a grana porque tinha que perder, e nós achamos porque tínhamos que achar. Todas as experiências são válidas para vida. Ganhar e perder são duas faces da mesma moeda. E eu ainda tenho umas moedas aqui, somando tudo devem dar uns três reais. – Foi o que eu disse a ele.

Então fomos até o ponto de venda do narcótico que precisávamos para acalentar aquela noite. O lugar é simples, uma casa grande, pra muita gente, de aparência normal. Quem comanda tudo é uma matriarca, velhinha, de cabelos brancos, com vários dentes faltando. Ela demonstra um olhar frio e sério, de quem já sofreu um monte na vida, mas faz o que precisa fazer para manter o que tem e permanecer neste mundo, aprendendo, ensinando, vivendo. Ela nos vende uma prensada,ou “emprensada” como alguns costumam chamar. É uma maconha quase de mentira, dessas que socam todo tipo de coisa para conservar; ácido de bateria, amônia, gasolina, às vezes vai até um pipizinho pra dar um sabor. Um lixo de péssima qualidade que o nosso tempo fabricou para que nós acreditássemos que era necessário para a nossa felicidade. Algo que o mar de confusão e desespero no qual fomos jogados nos faz acreditar facilmente de que esta necessidade é real...

Voltamos para a escadaria, mas antes disso resolvemos passar no Alex e comprar aquele saboroso coquetel de merda que só serve para entorpecer o que já há de pior no raciocínio dos homens. Assim não temos tempo para pensar no real potencial do espírito humano, não sobra força o suficiente para que sequer acreditemos na existência da alma, e então nos perdemos, jogados ser corda no posso vazio do esquecimento de quem realmente somos. Luz e Estrelas dispersas na noite sombria da carne e no frio dos ossos... Nada mais do que corpos vagando em busca de anestésicos pros nervos... Sem esperança de poder ainda em vida encontrar o caminho de volta para a casa eterna da felicidade... Lá onde habita o Verdadeiro Eu... O Eu Superior... Aquele e Aquela que não tem nomes, porque simplesmente É Tudo o que Existe, Existiu e Sempre Existirá... Assim fechamos os olhos ainda mais, perdemos a conexão e nos perdemos nos ópios ébrios de uma cidade repleta de corações despedaçados...

Conversamos um pouco sobre coisas da vida, sobre nossa idade, sobre objetivos, felicidade, até chegarmos por fim em amores. Eu tinha então vinte e sete anos, meu amigo tinha trinta e dois. Falei a ele de minha constante vontade de abandonar aquele estilo de vida, meus excessos com as drogas, a busca constante por uma costela. Ele discordava, pensava mesmo que um homem tinha que aproveitar sua juventude, para ele não havia nada mais gostoso do que estar com uma gata nova sempre que podia. Por esta razão ele sempre ia ao Pelourinho, ia à caça, e como era rasta, para ele não era difícil chamar atenção de uma gringa. Eu disse então que estava à procura de me aquietar, encontrar alguém que me fizesse parar de rastejar sob as sombras da noite e pudesse começar a ficar em casa, em paz com minhas razões para escrever.

Ele me disse que foi muito apaixonado uma vez, por uma capricorniana, ele não sabia meu signo e por isso começou a falar os males de Capricórnio. Percebi logo que ele, como a maioria das pessoas, não sabia muita coisa sobre esse povo. Disse muitas coisas que superficialmente é verdade, porém concentrou-se na parte de que ela gostava de dinheiro, que queria alguém que lhe proporcionasse essa segurança. Enfim, não sei nada dela, não há conheço, mas não acredito que os capricornianos achem sua segurança real na grana. Acho realmente que ela o deixou por outras razões.

- Pois eh, ela foi embora e nunca mais me deu um oi. Sumiu! Desapareceu! Vi uma vez na rua, mas eu não era ninguém para ela. – Ele me confessou!

E nesse momento eu pensei em todas as pessoas que eu deixei. Acredito que sempre as vejo na rua através de minha visão mais periférica. Quase sempre as vejo, ou as procuro no facebook, as namoro em segredo. Mas por alguma razão acabo sempre guardando o melhor dentro de mim, porque o pior delas ainda me maltrata muito e já não tenho razões para cavucar as minhas dores, elas, ao que parece, gostam de se coçar sozinhas, sem o menor dos meus comandos. Acho mesmo que ela se decepcionou com ele de alguma forma muito além do material. Mas isso é algo que ele nunca saberá. O povo do Bode Expiatório que foi enviado sozinho para o deserto é um povo muito sentimental e ressentido no fundo. Acho que na verdade temos medo de continuar sofrendo por alguém que não merece, tal como o povo de Israel, Isaac e Jacó, é verdade, está na Bíblia, pode olhar, hahaha. Eles Tiveram todos os seus pecados perdoados depois de mandarem o seu Bode para morrer e mesmo assim ainda continuam destruindo, enganando e matando em nome do seu Deus.  

Sei que nada disso parece fazer nenhum sentido mesmo... Hahahahaha!... Mas se escrevo em enigmas... é certamente porque tenho medo do infinito... E o infinito, minha cara... É tudo o que é de mais sagrado que consigo ver quando olho o fundo dos teus olhos castanhos... Vejo um mundo nobre e altivo, tão lindo que me enche de um terror maravilhoso... Não sei mesmo o que fazer diante de tanta imensidão...

- Eu também sou de Capricórnio. – Disse pra ele por fim.

- Ah! Poxa, você é de Capricórnio, poderia me falar algumas coisas disso. – E ficamos algum tempo lá, falando sobre signos essas coisas. Infelizmente não sabia muita coisa sobre mim mesmo.

Estávamos chapados, resolvemos descer a escada e tomar um litrão de Cristal no bar do Alex... Já não me lembro de todas as coisas que conversamos, lembro-me apenas de ter ficado observando a rua, os bêbados. Havia gente lá que estava naquela penumbra há anos. Vi um coroa de cabelos e barbas longas, desgrenhadas, brancas, maltratadas pelo tempo. Ele tinha um olhar sério e um semblante esvaziando junto com o copo. Amarguras, talvez? Ou indiferença frente à opressão imposta pela vida? Não sei, para mim me parece que é impossível haver genuína indiferença com ajuda da cachaça. Para mim, não há plenitude se ainda existe o desejo de se entorpecer... Para mim ainda são apenas personagens sendo representados neste teatro de mentira... Só não sabemos como escapar disso tudo.

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