quinta-feira, 15 de abril de 2021

Os Três Pinos: Cap II, pt 2

 

Segundo Pino - Raio II: Os Olhos do Macaco Ancestral



Subimos até a loja onde a apresentação acontecerá... Já podemos observar algumas pessoas festejando... Uma pequena roda de capoeira exibe a vontade e a alegria daquelas pessoas em fantasiar a suprema beleza do mundo... As crianças sorriem e por um momento eu finjo me esquecer de todo o tormento que passo por me sentir tão solitário no universo... De ser uma criança sempre em busca da sensação de completude e que sempre voltou em vão a si mesmo para chorar o mar de incompreensão que todos percebem em minhas palavras confusas... Tal como estas que proferi agora... Tal como toda sensação que tento partilhar ao mundo... Ninguém soube, sabe, ou saberá a sensação que tive ao ver aquelas crianças brincando... Quis poder me transformar no mais sublime e pomposo macaco, para que pudesse dar a elas uma tarde inesquecível e que pudesse somar-se a todas as tardes que passei em vão procurando algum propósito por insistir em continuar vivendo...

Felipe ainda não havia chegado... Cumprimentei outras pessoas que me eram familiares... Pessoas que também compunham aquele teatro, mas nunca brinquei com eles porque sou de visitações mais antigas... Alguém que se afastou desta função porque não é nada agradável, ou melhor, não é suportável brincar com as crianças ao passo que destruo todas as noites o meu corpo e meu espírito com todos os meus excessos... A verdade é que sou uma pessoa atormentada, que às vezes, somente às vezes consegue se equilibrar o suficiente e se manter limpo por alguns dias... A menina me sorri... Ela é linda... Não vou dizer o nome dela... Só posso dizer que é atriz... Vegetariana... E que tenho boas lembranças dela de vários lugares... Embora tenha a grave impressão de que ela não se lembra direito dos acontecimentos... hahahhaha! Sigamos...

Então Felipe chega... Temos que buscar os bois no estacionamento... O problema é que não podemos chamar atenção dentro de um Shopping tão sofisticado... Não podemos transitar todos juntos com bois tão amáveis e coloridos... Enfim... Nos dividimos... Dois para cada elevador... E as pessoas nos encaram como figuras alienígenas ali... Enfim... Conseguiram um camarim para nós... Os fundos da loja... Mas não podemos trocar de roupa ali... Ao que parece, os humanos não conseguem mais recuperar a naturalidade de ver o corpo do outro sem temê-lo ou desejá-lo... E é pra isso que existem os provadores... Para que ninguém veja as vergonhas de ninguém... Haha!... Ahh! Como eu queria que minhas vergonhas ficassem assim todas expostas como minha careca ou como uma cicatriz mal curada de uma queimadura... Mas minhas vergonhas são outras marcas que só eu vejo... Que não tenho ninguém com quem dividir... Que não posso falar... As coisas que me assustam... Que me fazer querer ainda, depois de tanto tempo... Acabar com esta minha existência impúbere que me impede de viver livremente no tempo presente... Eu visto a pele do macaco por cima da minha roupa... Não tirei minhas vergonhas... Permaneço com elas o tempo todo na esperança que exista por ai algum elixir que pudesse purgá-las...

Enquanto todos estão nos provadores, se vestindo, se maquiando, passando argila nas caras... Eu me sento, só, no camarim improvisado... Visto finalmente a máscara pesada... A outra, que eu usava antigamente, era mais leve, mais ágil, feita de pano e de borracha, era perfeita para meus saltos e giros e piruetas de peralta crescido... Esta não, era grande, dura, difícil de respirar, difícil de enxergar e muito... muito mais quente do que a outra... Mas era o meu fardo... Minha parcela de sacrifício do dia para o raiar do mundo melhor que tanto sonho...

Me sentei lá... Ereto... E meditei por alguns minutos...

Até que alguém entrou na sala e disse alguma coisa sobre minha postura fixa, ereta e concentrada... “Ta entrando no personagem”... Coisas assim... Enfim... São frases tão comuns que às vezes eu não as ouço direito... Logo todos começam a se aquecer (quase todos utilizando a capoeira angola para tal)... Eu faço também, meio sem gosto, sem vontade... Sou claramente um macaco trágico... Brinco, perturbo, mas me canso sempre e me sento e faço o que quero... Como um bom macaco peralta que não vê muito sentido na lógica insincera dos humanos...

Finalmente fomos pra a frente da loja fazer o show... No começo as pessoas ficaram acanhadas, olhando de longe... O boiadeiro canta... Ehhh boiada! Ehh boi! O Macaco investiga o espaço, observa as peças que estão à venda... Para do lado de uma moça que via uma caricatura do Gilberto Gil... Ahhh! Gilberto Gil... Se tu soubesse o que se esconde por dentro do coração deste macaco!!! Se tu pudesses dizer a ela tudo o que eu sinto quando ouço as tuas músicas... Mas eu não posso dizer... O Macaco Ancestral é uma figura muda... Ele brinca sem o direito de proferir a verdade do que sente... Pois a verdade causa dano demasiado... E isso Ele deixa a cargo dos humanos...

As crianças logo chegam e interagem com o Macaco... Algumas têm medo... Outras querem tocar na máscara... O macaco finge que espirra toda vez que tocam na sua cara... Não preciso dizer que teve uma menininha que adorou esta façanha de fazê-lo espirar... hahaha! Outra até arrancou os dentes do macaco... Outra criança adorava lhe bater na cabeça... Mas o Macaco é paciente... Sabe que algumas coisas só precisam de tempo... Que uma hora os tapas não doerão mais... Nunca mais... Sua alma já calejou da violência e agora espera calmo a hora do amor... Se não vier... Não faz mal... Ele já apanhou tanto que prefere esperar assim mesmo...

Às vezes Ele se divertia... Brincava, dançava... Convencia a todos de sua alegria... Pois lá também havia uma Burrinha... A linda atriz que já conhecia se metamorfoseara e de vez em quando vinha pedir a companhia daquele macaco louco para uma dança... O macaco adorava sua companhia... A maneira como ela bailava e rodopiava sorrindo... Uma certa vez o Macaco enlouqueceu e saiu rodopiando... Uma criança tropeçou no rabo do Macaco e caiu... A Burrinha então lhe disse!

- Tuidado! Macaco! Tuidado! Dança com tuidado, viu!

O Macaco envergonhou-se... Só queria ser livre como o vento... Mas esqueceu-se de que o vento também traz ruína... Sobretudo para o próprio vento, pois depois que se arrasta tudo... Não sobra nada para sentir o perfume... Nenhuma fragrância... Só poeira e entulho... E pedra sobre pedregulho... Metáforas inconstantes de uma solidão inacabável...

Como inacabável também parecia aquele negócio... Foi difícil ficar atrás daquela máscara por tanto tempo... Neste dia mais do que nunca... Por dentro da boca se podia ver os olhos tristes que habitavam aquele macaco... Às vezes estes olhos paravam em frente ao espelho e davam uma boa fitada no universo por dentro daquelas retinas cansadas... É muito difícil manter esse esforço de ser feliz... A felicidade cobra um preço muito alto para quem não tem par nisto tudo neste mundo... Ninguém! Nem uma única pessoa viva parece entender a grandiosidade das loucuras que sinto... Das idéias que tenho... Ou de como o amor, este sentimento tão negligenciado por todos, invade o meu coração e me arrebenta sempre com motivos de impossibilidades... E é este impossível que me desafia a continuar acreditando que algo deve ser feito... Mas o que? Pelo amor de qualquer deus ou demônio jamais inventado... O Que Posso Eu Fazer Diante Disso Tudo?

Nada! Eu nada posso! Nada sou! E nada significo para ninguém que tenha experimentado este meu amor incompreensível...

Se fosse o meu ódio... Se fosse o meu desprezo... Ou se fosse minha maldade...

Ah! Ai sim eu sei que teria algum efeito... Já senti o efeito disso tudo... As pessoas não esquecem... As pessoas nunca deixam de denunciar os seus sintomas quando passam por mim... Ainda está presente nos olhos... Elas ainda cheiram aos sentimentos pérfidos que derramei sobre elas durante minhas outras vidas... Mas é só... É só o que se pode ficar de mim atados nas almas daquelas que de fato amei...

Torno agora e engulo estes olhos pela boca do macaco... o show acabou... A senhora da loja pede para tirar uma foto com... Quem é esse mesmo?

- É o Macaco Ancestral! - Responde um amigo.

- Ah! Que jóia! Vem família toda! Vem tirar foto com o Macaco Ancestral...

A foto deve ter saído bonita... Pois eu fechei aquela boca de onde só saia tristeza... Ninguém pôde ver os olhos onde brilhavam aquela dor de uma solidão tão antiga quanto o Tempo...

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