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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A Escuridão Que Precede A Primavera, IV


IV



- E ai! Já vai botar seus óculos de sol?

É o que fazem as piadas a respeito do meu novo rosto... Coberto pela vergonha de não saber... De não fazer realizar minhas expectativas em relação ao mundo de que tento me esconder... Ando na rua e atraio a atenção desnecessária para mim... Aquela atenção que as pessoas dispensam de seus próprios egos, de suas próprias carências individuais, só para poder criticar os outros... Criticam porque alguém teve a coragem de andar fora da linha... De realizar o aparente impossível... Afinal, alguém tem que criar novos dragões...

De muito me perguntam... Perguntam se consigo enxergar... Se é alguma promessa... Qual é o objetivo disso tudo?

Ah! Se eu por um acaso mesmo soubesse! Seria tudo mais fácil...

A verdade mesmo é que não sei... Tenho raiva de quem sabe... Mas minha mente febril vive a fabricar explicações... Diz a alguns que é para treinar os reflexos... Me tornar mais ágil... Mais equilibrado... De fato a deficiência temporária da visão já me mostrou que é necessário redobrar a atenção deitada sobre os outro sentidos... Ou seja, não é que milagrosamente sua audição se expanda... Mas sim, você passa de um pobre ser humano distraído para alguém que presta mais atenção ao que escuta, cheira, pisa, alisa, sente... Deseja...

Como chegar em algum lugar, por exemplo...

- Aonde você quer chegar?

- Eu não consigo compreender!

Mas enfim...


Já pensou? Com todas essas árvores sendo destruídas... Com todos os pássaros que já entraram em extinção por causa do avanço incauto desta sociedade consumista e inconsequente?

Bom... Talvez, quem sabe, eu esteja apenas lançando uma nova moda para o futuro... Sem tantas árvores para nos fornecer sombra fresca... Só nos resta lambuzar-se de protetor solar... O que meleca tudo e é um horror... 

Ou podemos lançar um lenço fino sobre a cara e proteger nossos olhares do Sol escaldante... Podemos até transpirar um pouco sobre o tecido e assegurar que este suor não seja em vão... Que não evapore inutilmente ou sirva apenas de aderência da poeira e eventuais sujidades desta cidade tóxica...

Um pano que guarda este suor bendito do esforço que galgo a todo dia para me fazer valer a pena... Uma moda bonita, rica em nutrientes, sais minerais que ajudam a conservar a pele, refrescar, resfriar a máquina de pensamentos... 

Depois é só lavar no final do dia... Usar uma outra cor no dia seguinte...  E tudo fica de boa... Cool... Chill out...

Mas isso é claro... Apenas para um futuro nuclear que acabaria com os dias nublados... Que extinguiria as nuvens de chuva do ar... Que exageraria no calor escaldante... Ou nos presentearia com raios gama e ultra violeta da pior qualidade...

Não quero que esta moda pegue... Quero apenas me esconder um pouco de vocês enquanto peregrino pelas ruas em busca de mim mesmo...

Farewell...

XXX - VIII - MMXVII.


*Imagem: Davos Hanich : La Jetée (Chris Marker, 1962)