sábado, 26 de agosto de 2017

A Cegueira Da Terra




I



No meio do terreiro a figura mascarada dança... Os olhos cerrados por detrás da máscara se familiarizam com todo o espaço... Tem por extensão de sua retina, os pés... Os vultos tortuosos que pode observar com rápidas aberturas das pálpebras... Confia no movimento interno de suas estrelas... Tudo o que lhe possa permitir que dance sem prejudicar ninguém... Mas sempre na defensiva... Existe um índio louco querendo lhe atrair pro meio da roda... Ele é um grande guerreiro... E sua pesada pode ser fatal... É preciso fazer com que ele dance... Que esqueça que aqui dentro de mim há também um espírito pronto para a luta... Não gosto de brigar... Prefiro usar toda a minha destreza para a dança... Para não machucar ninguém... A dor não pode permanecer no mesmo conjunto das belezas cultiváveis... Dor não pode mais rimar com o tipo de amor que ainda sonho para mim...

A roda... A fumaça... A brasa... Doce encanto dos batuques fechando a Mata Inteira... Todos os sons que sibilam revelando a revolta intensa sacudida em meus maracás... Precisa se controlar Índio Guerreiro... Se contenha pra não falar bobagem...

Mas sabe o que é pior?

Acho que te deixo aflita, pequenina, porque sabes que posso até falar demais, mas não abro a boca para proferir palavras aleatórias da boca pra fora... Tudo que transa nos meus lábios são pensamentos remoídos dentro da escuridão da noite e do raiar de muitos dias de inquietude e filosofia solitária...

Como esta... Como aquela... Como tudo que deitei em vão aos olhos de quem não me queria... Tudo o que não posso agarrar com a mão porque o destino fez voar para longe deste ninho amaldiçoado que ofereço ao léu das ondas fugidias... Não corram de mim, não fujam assim passarinhos... Sou apenas uma pedra cega atirada na noite... 

Já não posso acertar ninguém...

XXVI - VIII - MMXVII 


Nenhum comentário:

Postar um comentário