domingo, 30 de julho de 2017

A Luz De Leão ou oãeL eD zuL Á





Acordei cedo embrulhado em outra cama... atravessei a cozinha da casa e fui acordar meu amigo... despedi-me da amiga que dormia também na sala... cumprimentei o homem que lavava a moto ao sorriso de sábado de manhã e rompi feito um feixe de luz pelo portão amarelo... Fazia frio mas o Sol reluzia um charme garboso e todo inflado como se nenhuma tempestade tivesse acontecido... Eu caminhava sob olhos do Leão.
A estrada até minha casa foi alegre... Travessia traçadora de planos... Calculando as matemáticas das imprevisibilidades porque no ontem não imprimi o poema que acompanharia a marmita de sonhos que embrulharia logo mais naquele pano de bolinhas... Hahaha!, Eu sei que as vezes o que eu digo não faz o menor sentido para vocês, meus maltratados leitores... É que não é pra fazer mesmo... Concluam qualquer coisa... Ou melhor... Imaginem porra! Vai ficar gostosa a imagem que vocês mesmos derem para esta cena...

Ao chegar em casa, após um banho termal delicioso, desembrulhei os melindres dos cuidados em que meus sentimentos envolveram aquele singelo presente... Uma máquina de escrever de mentira... Aquela que não dá vida a nomes de pessoa, mas que faz vibrar o seu nome na estrela mais distante na infinita noite do meu céu observável... Dei corda... Torci o máximo que pude o bichelenguinho para que a música tocasse infinitamente por alguns segundos... Torcendo também para que aquela porra não quebrasse... Pois seria o limiar do meu drama, ou início de outra tragédia que daria fim a toda civilidade clássica de meu pathernon exibido... Bom... Pela deusa, não quebrou ainda, eu acho...

Havia marcado ainda dez pras oito no relógio... Precisava fazer o corre da impressão... Mas primeiro, ainda dava para rapar um último camarão dos mais bonitos que havia guardado dentro da caixinha... Sobraria o suficiente para mandar para o alto a mensagem secreta de fumaça que dirá ainda no seu subconsciente tudo o que ainda sou capaz de fazer pra te convencer de que digo a verdade... Para você só a verdade... Pelo menos toda aquela que poderia proferir sem lhe causar nenhuma mágoa... (ah, minha pequena... Como queria realmente ser forte para não desejar te dizer mais nada... Mas seria mentira se dissesse que não quero... Pois quero gritar pra ver se tu me ouves daqui... Mas não vou... Não quero ser internado hoje...)

Bolei o beck pra fumar na estrada... Decidi tentar a Escola de Arquitetura, lá poderia ter uma impressora, neh? Negativo, tudo fechado, alunos não tiram xerox dia de sábado... Desci, me deparei com um gordinho subindo as escadas. – Você sabe por onde posso descer, aqui ta fechado o portão – Me pergunta ele. Antes que eu dissesse qualquer coisa, outro indivíduo me poupou alguns segundos. – Ah tem outra escada ali do lado. – Ouvia isso já descendo com uma voz quase satânica na minha cabeça, dizendo: - Esse portão não é NADA para você, meu lindo... Você pula em dois movimentos, com certeza... – Então eu pulei, na verdade dei uma escorregada no segundo movimento, o que me fez descer e repetir o primeiro e conseguir somente na segunda tentativa... Droga! Fico realmente chateado quando não consigo materializar meu pensamento perfeitamente... Mas enfim, tenho que respeitar também estas leis de Carne o Osso...

Bem... Passada a aventura, “o mar é o mesmo, já ninguém o tema”, e o meu sorriso secretamente leonino revela-me a hora exata de ascender o baseado... Ufhhhh... As árvores hoje gorjeiam mais bonitas... Não choveu e nem ameaçou... Em Ondina com certeza há uma xerox aberta...
O beck ia pela metade quando avistei de longe um amigo, o black entregava de longe a silhueta imprecisa que conheci pelo conjunto das características... Aquele cara ta de cara, pensei...

– E ai Rafa, vai? – Aponto o instrumento.

- Que é isso, um beck? Ele redargüiu.

- É sim...

Não preciso dizer mais nada... Logo fiquei sabendo que por ali não haveria nada aberto... Ele me contou da possibilidade de um lugar em frente a Arquitetura... Bem... Corri lá novamente para me dar de cara com o ócio merecido do final de semana sagrado de alguém... Bom... Pensei em inúmeras possibilidades de lugares longínquos onde poderia imprimir aquele poema... Mas concluí nos meus quiças atômicos que, talvez fosse melhor entregá-lo no ano que vem, ou sei lá, quando o deus que há em mim decidir que é a melhor hora... Talvez ainda poderei somá-los ao meu pretenso conjunto de obras para além da funerária (Eu bem que poderia dizer “obras póstumas”, mas isso não condiz com minha criatividade essencialmente dramática... Além do mais, tudo em mim é um evento histórico, ou porque nunca foi feito, ou porque tentei fazer melhor...)... Enfim, voltei pra casa...

Em casa o desafio era mais extremo... Como fazer caber o impossível dentro das fronteiras das possibilidades? Por alguma razão cósmica, as duas barras de chocolate que comprei não cabiam na gaveta daquele porta jóias inútil... O engraçado que eu calculei... Perguntei ao vendedor on-line o tamanho... O vendedor respondeu: 14 cm de largura, 11 cm de altura e 15 cm de profundidade... Caberia perfeitamente se ele não tivesse esquecido de me avisar da porcaria do parafuso que tem na porra do meio da gaveta que a impede de fechar quando está cheia... Bosta... Nem os camarões verdinhos que eu havia separado estavam dando, tive que customizá-los... Reduzi o mínimo que pude o efeito visual de sua beleza... Mas isso já era motivo o suficiente para inquietar minha alma perfeccionista... Enfim... Em outros tempos eu me estressaria, em vez disso fui trabalhar o bilhete...

Bem, não possuía nada parecido com papel cartão... Mas havia dois pequenos envelopes, um preto, outro rosa... Acho uma linda combinação... Logo, cortei o rosa em tamanho menor... Escrevi uma mensagem (que somente o destinatário poderá ler, me desculpem) e o coloquei no envelope negro... Bem, não preciso dizer que a merda da gaveta não gostou nada disso também neh? Fez o que pode pra enguiar... Mas me retei e fechei aquela porra com um ligeiro comportamento forçado... E... Rezei para que o seu jeitinho desastrado não quebrasse quando fosse abrir... Embrulhei... Já eram 9:30 da manhã.

Mas é óbvio que não poderia sair naquele estado, de gente que não dormiu (na verdade, quase sempre estou assim, mas é preciso às vezes disfarçar a cara), fui tomar banho... Fazer a barba... Escolher uma roupa que caiba bem numa memória... Colocar um perfume diferente para ver se causa algum estranhamento (o que também é importante para a memória)... Bom, desde o princípio pensei em deixar o presente na portaria... Mas a possibilidade de encontrá-la só de botar a cara na rua é risco consideravelmente grande... E todos já perceberam que não gosto de me colocar à mercê da Fortuna sem ter uma lista significativa de planos de fuga... Prefiro me sentir elegante, ou melhor, empertigado... (pra algumas pessoas é a mesma coisa, mas para mim a palavra “elegante” não traduz como eu gosto de me sentir). Finalmente, meti no bolso o chocolate que não coubera na caixinha... Talvez me servisse de um útil elemento surpresa... Em último caso eu mesmo o comeria (Era feito com pedaços de cacau... Vocês sabem que eu adoro cacau neh?)...

Hum, e por falar em comida... Por fim saí de casa, mas havia me lembrado que não tinha comido nada ainda... Juntei as moedas e passei na venda pra comprar dois reais e setenta e cinco centavos de castanhas de caju (altamente nutritivas e me forneceria energia o suficiente para uma empresa como esta)... Bom! Já se passavam das dez, e a conhecer a pessoa, conheço também as imensas probabilidades dela estar aproveitando este lindo dia de sol... Mesmo assim segui com minha sacolona de sonhos... Logo na rua, outro impasse... Que caminho devo tomar? O mais curto e perigoso? Ou o mais longo e mais seguro para a carga que trago comigo? ... Bem... Ninguém vai ousar me roubar hoje, hoje não... Fui pelo mais curto, na esperança de talvez, quem sabe, ganhar um abraço ainda hoje... De qualquer forma, tratei de segurar a sacola firmemente, mas não poderia ser tão firme que denotasse desespero (até pq não sou de me desesperar com tamanha facilidade). Tinha que segurar de uma forma que demonstrasse minha imensa tranqüilidade em estar passando por ali com aquilo na mão, ao passo que também mostre aos que me olham que ali não está nenhuma trouxa perdida num caminho deserto...

Cheguei na rua dela depois de uma caminhada agalopada... Parei um pouco antes do portão... Empavonei-me as roupas e segui... O porteiro me dá o sinal que torna a campainha desnecessária... Entrei e fiz a pergunta que me traz um nó quase imperceptível à garganta:

- Fulana de Tal está?

-Acabou de sair – disse ele.

- E a colega de quarto dela? (Sempre tenho medo que a encomenda se extravie, não confio cegamente em porteiros, ou melhor, em ninguém)
-Também saiu... ele disse.

- Tudo bem, posso deixar isso aos seus cuidados? – Ele respondeu afirmativamente. Fiz um sinal dramático e continuei – Mas tome cuidado, é frágil.
- Não, ta tranqüilo, vou colocar ali no cantinho.

Sorri, fiz um sinal de agradecimento juntando minhas duas mãos semicerradas como num abraço e, inclinando-me para frente, o reverenciei e me despedi... Na rua o Sol continua me fazendo sorrir radiantemente... Acho que está Sim na hora de fazer visita a Uma Outra pessoa muito especial... Fui até ao baluarte onde ela se esconde... Chegando lá, não havia ninguém na portaria, entrei em casa e não vi ninguém conhecido... Ou melhor, entrei naquela casa que foi meu parque de diversões por tantos anos, e me senti um completo estranho... Uma menina que estava na sala me fitou curiosamente... Perguntou quem eu desejava ver e eu disse que queria Sim ver a Uma... Prontamente a guria subiu até o quarto e verificou ... - Ela não está... Eh! Eu sabia que Ela também deveria estar aproveitando aquele lindo dia ensolarado... Ahhhhh... Gente com muita coisa em Capricórnio... Sempre leais ao imenso trabalho de ser feliz...

Decidi então passar em outra residência... Talvez receber um abraço de um amigo tão caloroso quanto o mar... Perguntei se meu guru de Escorpião estava em casa... O engraçado que neste lugar onde sempre me senti um tanto mal tratado, fui recebido por um segurança que nunca tinha visto... – Quer ver quem? – Perguntou ele. Disse o nome e ele: - Sabe onde é? – Sei, respondi. – Pronto, vá lá e pede pra ele vir assinar aqui... Simples assim... Fui no quarto dele e só João estava dormindo... Lavei o rosto no banheiro e saí... Fui comer minhas castanhas no Campo Grande de dar minha missão por encerrada...

Vagandiei entre as árvores da Vitória... Sentia a brisa sacudir as memórias de meus velhos cabelos por entre as folhas... Minha juba dissonante... Ao chegar no Campo Grande, antes de entrar na praça, observo uma corpa estendida no chão de um dos grandes portões da praça. Era um rosto conhecido, mas dei de ombros e preferi me sentar num local próximo para apreciar a cena... Vejo um grupo de velhinhas circundarem a corpa... Quase podia ouvir o que murmuravam... Ou pelo menos imaginava algo assim: “Tadinho! Será que surtou?”; ou qualquer coisa que denotasse a compaixão cristã que aprendemos nos bolsos da sociedade diante da loucura... O jovem ergueu a cabeça e tranqüilizou as senhorinhas... Era um experimento... Escreveu algo num papel e voltou à sua posição meditativa... Nesse momento...

-AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Bem grande como uma loba, Outra louca grita um estampido do outro lado da praça... kkkk... - Eh minha amiga. Até meu fígado que não tem ouvidos reconheceria o reverberar daquele grito... Enfim... Continuei comendo minhas castanhas, uma a uma, vagarosamente... Quando acabaram, peguei o chocolates, o despi de sua indumentária soberba e levei um naco até a boca... Tinha o gosto da eternidade... Quis dividi-lo com minha amiga e fui em direção do horizonte de onde partira o grito... Chegando perto, noto aquela figura sublime meditando acostada numa árvore... Ao me aproximar, um homem vem em minha direção e murmura alguma coisa que a catarse de estar diante de minha amiga meditativa não me permite deixar que complete... Olhando-o nos olhos, posiciono automaticamente o dedo indicado entre os lábios em sinal de silêncio e aponto para Ela... O homem, que era mais alto e mais forte do que eu, se encolhe e retrocede.

Aproximo-me, me sento em sua frente com o chocolate entre as mãos... Ponho minha espinha ereta e também eu me conecto à cena... Com os olhos semicerrados eu fico lá, me certificando que o homem foi embora (não confio em ninguém, às vezes reações como a minha podem gerar represálias ou vinganças que só encontram sentido na cabeça de quem se vinga...), felizmente não havia motivos para preocupações, ninguém aborreceria nossa conexão... Ficamos lá alguns minutos, até que alguns movimentos da pessoa em minha frente denunciava seu retorno... E ela finalmente abriu os olhos, eu ergui também os meus a tempo de ouvir sua gargalhada... Ela se levantou... Nos abraçamos bem apertado... Ofereci um pedaço do meu chocolate... Logo em seguida uma moça chegou com uma caralhada de papeis... Eram relatórios do experimento... Sim... era Ela também Uma cientista...

- Toma o seu relatório... Nos reunimos em 10 minutos. – Disse a moça.

Minha amiga pegou o papel e começou a ler concentradamente, eu sabia que ela se guiava pela mesma lua que a minha... Olhei um pouquinho admirando aquela juba castanha... Apaixonadamente eu sinto que meus amigos me revelam o sentido da vida... O caminho de fazer o nosso melhor... Sempre... Sempre... Sempre...

Eu por fim a abracei... Agradeci por ela existir também... E disse:

- Tchau amiga, eu só vim aqui te dar esse abraço... Este é apenas o primeiro dia de Leão... E o Sol está sorrindo sob nossas cabeças...


Inverno de MMXVII.


https://www.youtube.com/watch?v=zethvKil2m4
(Muito - Dentro da Estrela Azulada - Caetano Veloso, 1978)

Cerração pt, III




Caminhei brincando com meu guarda-chuva já tão estropiado pelo efeito da gravidade que age diretamente sobre minhas inabilidades malabarísticas... Chegando ao RU eu encontrei a Querida... Uma mulher de barba e de paus como só o século vinte e um consegue produzir, com todos os direitos de se sentir mulher e de pensar livremente novos conceitos de gênero de acordo sua própria metafísica. Ela sorri ao me encontrar, eu lhe pergunto se vai almoçar, se quer me acompanhar. Ela aceita e vamos juntas, eu permaneço calado a maior parte do tempo, ocupado com meus próprios devaneios, sonhos e abstrações naturais das que compõem a cosmovisão de um genuíno teimoso...

- Você ficou muito bem assim de cabeça rapada, viu... Gostei mesmo, ta com a cara mais limpa, ficou muito bonito. - Ela diz.  Eu só consigo sorrir e agradecer de maneira discreta. 

Após alguns minutos eu me despeço, tenho que rumar para o trabalho, atrasado como o de costume. Na saída do restaurante encontrei uma das pessoas que mencionei anteriormente. A canceriana me viu e sorriu para mim... E então eu disse:

- Vi você na estrada de São Lázaro. Era pra ter te oferecido uma carona, mas eu tava chapado, não consegui reagir a tempo.

- Aff... É a sua cara fazer isso. Tive que andar isso tudo e eu tava morta de cólica... 

- Pois eh... Mas é isso neh? Você não vai conseguir me fazer sentir pior do que eu já me sinto horrível... - Eu disse com certo ar pesado e... depois de um breve reclinar de cabeça, ergui-me novamente e me despedi sorrindo... Saí dançando à luz do dia, rodopiando o guarda-chuva como uma criança que não se preocupa com o depois...

O restante do dia passou arrastado e utilizou de pouca energia para gravar as experiências na memória. Me lembro de uma parte da tarde onde um visitante do museu me agradeceu por ter realizado um bom trabalho, por ter sido atencioso, dedicado, por destilar os percalços da História do Brasil de maneira apaixonada... Eu fico feliz em poder estar nos lugares em que estou... Na hora em que estou... Esta é a minha imensa felicidade de viver, porque sei que só eu sinto o que sinto e que para isso preciso dar crédito aos mínimos sinais que me mandam sair... ou ficar... E é esse sentimento que me carregou até esta noite...

Esta noite me trouxe de volta a todo o caminho percorrido... Estava sozinho a saborear minha janta sem gosto quando vejo surgir no restaurante aquela figura que só de me aparecer no campo de visão modifica toda a atmosfera à minha volta... Ela sentou-se e jantou comigo... Mal conversamos, adotamos o hábito semi-inviolável de dialogarmos em silêncio... Pergunto se posso acompanhá-la até o ponto, tento ficar o máximo de tempo possível com ela... O tempo passa... Ela conversa pelas teclas do celular... Eu converso com os espíritos... Peço ajuda a um cigarro... Acendo e espero...

O ônibus chega... Nos sentamos lado a lado... Eu fecho meus olhos e sinto o seu perfume... É tudo calmo agora... Não há mais nada para esperar ou temer... Exceto o meu ponto que chega primeiro... Quando reabro os olhos ela esta cochilando... Ou fingindo... Nunca o saberei... Eu me despeço com um singelo toque em sua cabeça... Saio correndo como o de costume... Há sempre habitante em mim esse medo de chorar... Do lado de fora da janela eu a contemplo uma última vez e abro em seguida o meu guarda-chuva quebrado... E então eu sei que posso conservar por mais um pouquinho de tempo essa felicidade minúscula de vê-la mais uma vez, ainda que partindo... Hoje eu não preciso chorar porque sei que o céu faz isso por mim sempre que tento ser um bom garoto...










Inverno de MMXVII.



https://www.youtube.com/watch?v=BOO5ApAZlm4
(Quando Eu Olho O Mundo - U2)

*Legendas ativadas no Closed Caption do Video - CC.

sábado, 29 de julho de 2017

Cerração pt, II



O dia de hoje cresceu aninhado em névoas, caiu uma chuva miúda logo de manhã, já estava saindo de casa quando voltei para buscar meu cajado (guarda-chuva)... Fui até a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas com o intuito de chegar a tempo da aula de História Contemporânea. Chegando lá eu encontrei o Roberto, que estava fumando um cigarro embaixo de uma árvore antes de caminhar para sua aula chata sobre festas baianas, onde o professor passa grande parte da aula falando de novelas e inventando hipóteses e procurando nomes adequados para suas personagens, de comportamento fictícios, inventadas por uma emissora de Tv completamente fora da realidade de milhões de brasileiros ... Aff... Nisso já haviam se passado dez minutos do horário da minha aula... Conversamos um pouco sobre o fato de eu já estar saturado da universidade, das aulas, de estar novamente neste campus depois de ter abandonado o semestre anterior... Ele está já tão carregado de memórias do que não vivi que às vezes realmente tenho um sentimento estranho de angústia... É então que o Roberto fala que para ele é vantajoso estar chapado durante as aulas... Eu digo a ele que para mim é uma merda, pois eu viajo tanto em meus próprios pensamentos, são tantos os mundos que eu visito quando estou lombrado que chego a duvidar se aquilo não se trata de algum tipo de projeção astral ou sei lá o que... Acho que não nasci para o mundo acadêmico...

Roberto diz que com ele é o contrário, que consegue prestar atenção em tudo e viajar com os detalhes do que a professora gostosa fala. Ela assume uma postura tão sublime e fala com tanto domínio do assunto, que deixaria qualquer jovem intelectual excitado... É então que a conversa volta ao baseado e é nesse momento que ele se volta para mim e diz:

- Vey eu viajo demais em ouvir ela fala, vou entrando na onda. É muito bom estar chapado na aula dela... E por sinal, eu tenho um bequinho aqui, vamo ali em cima fumar!

O engraçado é que eu tinha conseguido recusar o beck que meu outro amigo havia me oferecido pela manhã... A este, porém, não fui tão forte... Fumei a contragosto como tem sido na maioria das últimas vezes... No fundo eu sei que estou fazendo isso para amainar o vício... Conversamos um pouco sobre as minhas mudanças e falei a ele um pouco sobre a minha necessidade de parar de beber, de fumar, de me entregar às saídas tóxicas da vida... O Sol clareou nesse instante... Depois de me ouvir ele perguntou o porquê eu precisava largar, porque achava que era isso que estava me prejudicando... No fundo isso é muito difícil de explicar para as outras pessoas, então eu resumi dizendo que estava me atrapalhando de fazer um monte de coisas que sempre sonhei fazer e nunca fiz. Como dominar alguma arte marcial, por exemplo. Quando disse isso ele desembestou a falar, é que Roberto estuda Aikidô, já fez Judô e Karatê e tals... Sácomé...

Ouvi atentamente o que ele dizia, e fui gradualmente pensando nos nove preceitos do Miamoto Musashi, sobretudo no último, onde ele diz que é preciso tentar não fazer nada inútil... Mas como posso eu, a mais inútil das pessoas, posso fazer qualquer coisa que tenha alguma utilidade à voz do mundo? Como posso eu um poeta anônimo contribuir ao melhoramento de um cosmo tão infinito? Com certeza não será destruindo ainda mais o meu corpo e me afogando nas depressões cotidianas de um mundo louco como este que inaugura o século XXI. É nessa parte que Roberto faz uma comparação entre os rolamentos o Judô e o Aikidô.

- Não sei men, acho que no Aikidô tem muito a onda da repetição do movimento, saca? É preciso treinar até sair perfeito. Por exemplo, no Judô todo mundo fazia o rolamento, mas era aquele rolamento de qualquer jeito, o importante era rolar entende? Já lá no Aikidô, é preciso rolar sem fazer nenhum ruído, sem ter nenhum desgaste. O Judô vc se jogava lá ou derrubava o cara, - reproduz com a boca o barulho de corpos caindo no tatame - o importante era derrubar.

- Éh isso - disse eu. - É isso que estou evitando, o desgaste. Quando estou sob o efeito de drogas, também fico muito sensível, acho que abrem portas do meu subconsciente das quais não tenho muito controle. É nesse ponto que acabo dizendo coisas que só deveriam existir dentro da minha cabeça. Coisas que machucam as pessoas, que reverberam em outras pessoas e que, em longo prazo, acaba causando grandes estragos na minha vida... Acho que eu me culpo demais, por tudo...

- Porra, isso aí é foda, cara... - Roberto irrompe e logo me seqüencia de perguntas. - Mas você acha que tudo isso que você fez foi errado? Acha que estar aqui e não estar na aula é a coisa errada a se fazer? Não dá pra conciliar os dois?

Digo a ele que realmente não me arrependo das coisas que fiz, não acho que aja culpa quando não se sabia do erro... Fiz tudo o que fiz porque foi a saída que me surgiu... De todas as coisas que fugi, de todas as sensações desagradáveis que tentei evitar... Todas as que causei por causa da decisão de evitá-las... Mas não acho que as pessoas estão nos lugares que não deveriam estar... Estar alí, naquela hora, chapando com meu amigo era tão produtivo e útil para minha vida... Para minhas reflexões... que seria muito injusto dizer que valem menos do que as coisas "que tenho que fazer"... Acho que as conciliações estão dentro de nós e “acendem-se em medidas e apagam em medidas...” Esta é a chave para a compreensão do Universo... Achar a conciliação, a redenção das coisas que constroem e destroem... Afinal, é possível construir algo sem movimentar a matéria? Sem decantar? Sem Fundir? Sem destruir??? Não meu amigo, estamos exatamente onde deveríamos estar e transformamos o mundo deste jeito... Isso é materializar o pensamento - Partir ou ficar, na minha vida, tem sido questão de onde a luta me chama... O meu caminho... as asas quebradas das vozes da minha cabeça...

Neste momento ficamos os dois em silêncio, observando a linda vista do Mirante de São Lázaro... As nuvens se abriam, o Sol brilhou divinamente, sorrindo entre as sombras da grande gameleira... Ao nos darmos conta do passar do tempo, descobrimos que já era dez pro meio dia. Ele precisou ir para a aula... eu... como sempre sigo os instintos que me dizem para não ir... Resolvo adiantar meu lado para não chegar atrasado ao trabalho de novo... Me despeço de Roberto e desço para pegar a trilha que me levará até ondina... Nesse momento eu vi a silhueta ruiva que me perseguem as vistas... Será que é ela mesmo? Quantas miragens num já vi este ano? Quantas vezes já não vi o rosto dela nos vazios? Nos vãos da aurora ao parir atravessado das madrugadas que insisto... Eu a vejo em todos os lugares onde a minha vontade maltrata meu subconsciente...

Segui na ânsia sem saber se era ela... Os pensamentos não fluem direito sobre o efeito destas drogas... É tudo muito turvo... às vezes lento... às vezes devagar... Não se consegue focar em alguma coisa por muito tempo, a menos que... Seja algo muito importante... Segui acelerando o passo... Ainda em dúvida se descia o caminho ou seguia pela estrada de São Lázaro... Nesse momento fui surpreendido por uma interlocução inesperada:

-Entra ai Estado Islâmico... Agora que ta parecendo o Estado Islâmico mesmo...

Era a voz de uma senhora muito agradável.... Não sei direito como as coisas aconteceram, não conseguia pensar direito, entrei no carro meio no automático. O carro seguiu pela estrada e lá estava a criatura de cabelos vermelhos que não saí da minha cabeça... Estava acompanhada de outra canceriana também muito importante para mim... A senhora que me deu carona falou um montão de coisas nesse meio tempo e eu não ouvi nada... Só me dei conta que não estava mesmo ali quando olhei para ela e percebi que ela estava falando sozinha... Neste momento me bateu a tristeza... Logo eu que me arrogo tanto de prestar atenção ao que as pessoas dizem? Perdi completamente o áudio daqueles segundos que se passaram desde que entrei no carro... Quando recobrei o controle de meus devaneios ela estava no meio da frase:

- ... às vezes a gente se deixa ficar triste por pequenas coisas, não eh? - Não sabia sobre o que ela estava falando, mas neste momento o meu triste ar introspectivo revelou uma estranha sensação de felicidade e então eu disse:

- Mas a felicidade também é feita de pequenos momentos, pequenas coisas que podem nos deixar feliz. - Percebi que por mais que eu estivesse triste e sem esperança da realização dos meus desejos íntimos, a vida ainda me presenteava com certos calores, certas circularidades sanguíneas irregulares que me fazem tremer as pernas, que me fazem suar frio, gaguejar... ou algo até mais raro em se tratando de mim... me fazem ficar mudo, sem palavras fiéis para descrever o que sinto... - Acho que tudo depende da maneira como captamos as energias que envolvem as pequenas coisas... Nós temos a oportunidade de transformar as situações em algo bom, sempre, desde que prestemos a atenção nos pequenos detalhes.

Nesse momento ela parou de falar um pouco e disse:

- É bem verdade, menino terrorista, é verdade.

Nós nos aproximamos daquele monumento ridículo da Avenida Garibalde, eu caminhava para o Restaurante Universitário, por isso pedi que parasse ali... O Sol brilhava sobre nós quando eu saí do carro e disse:


- Está uma linda manhã para se aproveitar os pequenos momentos, os pequenos encontros da vida... Tenha um bom dia professora, o Sol voltou a brilhar e está lindo... - Ela agradeceu com um sorriso e singelas palavras de despedida... Segui...



https://www.youtube.com/watch?v=wo9KedPA8Z0
(O Livro de Colorir do Tio Brinquedo - Blockhead)

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Cerração pt, I




Oi! Hoje eu acordei tarde, como tem sido comum nos últimos dias... É que durmo demais nesta época do ano, acho que pra compensar a parte do verão onde não durmo nada... Ontem raspei o cabelo... Tinha ido lá à Ponta de Humaitá, foi a primeira vez que voltei lá em mais de dois anos... Saímos em trio de lá da Boa Vista do Lobato num final de tarde (ou melhor, início de noite...) de domingo... Mal passava ônibus, um deles passou e não parou. A ida demorou mais do que imaginei, mas pude observar com calma uma Ribeira anoitecendo as lembranças que eu, como um perfeito nostálgico, agora revisitava religiosamente por detrás das janelas de minhas memórias...

A minha memória é um organismo vivo. Ela perpetua em mim inumeráveis imagens que se movem, falam, cheiram, transpiram e até escutam de maneira sempre atenta esta alma aberta a se ressignificar... Mesmo assim ainda me pego se perguntando se tudo o que vivi foram cálculos de grandes decisões importantes ou apenas conjuntos borrados de uma imensa perda de tempo(?) Estar ali depois de tanto tempo e poder refletir com maior clareza sobre as dores de um passado... Revisitar estas lembranças e poder refazê-las ao som destas ondas que ecoam os barulhos dos tantos beijos nunca dados que imaginei... Lembro-me dos meus olhos naqueles dias, lembro-me da distância que guardei de todos... com medo de minhas próprias lamúrias quando aquele amor me visitava... Aquele amor que ainda me doía, que surgia a mim como um veneno soprando em minhas veias, que corroía-me em todos os momentos, sem exceção, para me lembrar que eu ainda não estava sarado para viver dignamente... Vivi foi muitos comas, muitas febres e frios noturnos... Às vezes abria meus olhos e me esforçava para permanecer em vigília, mas logo logo minha frágil esfinge soçobrava sobre o castelo masculino de areia que havia erguido na esperança vã de me proteger do mundo...

Foi a primeira vez que fui até lá e não visitei os fundos... a área do farol, não fui até o lugar onde fora realizado o seu sarau... Ficamos no gramado perto da quadra... Estive a maior parte do tempo em silêncio... só assim poderia prestar atenção às pequenas coisas que pareço tanto negligenciar... as pequenas coisas que dão sentido a existência...  Enquanto os outros dois conversavam, eu buscava os arredores de meus pensamentos me recordando de todos os meus excessos... Todas as palavras que derramei a mais, mas também de todos os silêncios que guardei para mim esse tempo todo... E o pior de todos os excessos... O excesso de travar e não conseguir se decidir a tempo de fazer a coisa certa antes de se arrepender e se sentir culpado por isso pelo resto da vida... kkkkk


Um dos brothers que compunha o trio havia prometido uma session (sexón, em bom baianês), não fez por menos, acendeu três becks que me fizeram refletir pesadamente sobre quanto tempo mais eu estaria imerso naquele vício. Estava de estômago vazio quando os fumei, a fome foi piorando e se acumulando sobre todos os maltratados anos do meu corpo. Estou tentando me regenerar já faz um tempo, passo períodos de meditações intensas, de boa alimentação, de tentativas novas na arte de se de se auto disciplinar... Mas no fim, volto ao estado de desgraça que sempre estive... É que a dor da culpa que recai sobre mim é imensa... Às vezes pareço me sentir culpado pelo buraco da Camada de Ozônio, pela destruição do Agronegócio, pelo terrível holocausto de animais que alimentam um ser humano cada vez mais ridículo e superficial... Enfim... Às vezes me entrego ao pessimismo e tudo o que eu quero é morrer junto com o mundo... Explodir, enfartar, ver o quanto este corpo agüenta dos males que o próprio homem inventou para consumir o tédio de uma vida mesquinha que ele não consegue dar conta sem surtar ou sem bater em alguém... Bem, só me restava voltar pra casa par dormir mantendo firme na cabeça os rituais de despedida que sempre me repito... (Um dia eu paro, um dia eu não precisarei mais disso para sobreviver...)












https://www.youtube.com/watch?v=yB3XTWMXEgU - Nuvem Negra - Djavan/Chico/Gal

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Os Espinhos da Invídia - Terceira Parte

(Leviathan e Behemoth, William Blake, 1825)


III

MEDO



Impreterivelmente (...), acima de tudo, acho que tenho primeiramente que te agradecer, amiga, obrigado por ter sido durante esse tempo todo como um raio de luz; como um relâmpago a trovar nos céus de minhas tempestades. Toda vez que nos afastamos, levei um arcabouço cravejado de memórias, lembranças das coisas que vivemos, das coisas que você me disse, das coisas que eu disse pra você, e principalmente... das coisas que não dissemos... gestos, expressões faciais e olhares... Pensamentos ultra secretos e desconfiados... Tudo isso que me fez sentar inúmeras vezes para tencionar energicamente os músculos das horas, perscrutando respostas melhores para minhas próprias perguntas. Toda vez que você apareceu, eu chafurdava em crises existenciais muito diferentes umas das outras... De alguma forma, em todas elas você apareceu de formas diferentes também... Mas sempre de maneira mais intensa do que a anterior... Mais madura, mais forte... mais bonita... E cada vez mais foi me encantando e me fazendo refletir que tipo de homem eu era, e que tipo de homem eu quero ser... Que tipo de homem eu invejo? Bom, hoje eu posso dizer com experiência de causa que, certamente invejo um homem que pudesse, em qualquer realidade, ser chamado de seu... Invejo alguém que possa te amar do jeito que você merece e deseja ser amada...

Na infância, desejei uma mulher como você, que escondesse por detrás do olhar, sonhos tão infantis quanto os meus... Ao decorrer da vida, senti o terror endurecido emagrecendo a pureza dos meus sonhos... Ao que parece, as pessoas crescem neste mundo para pararem de sonhar... Porque o mundo e tudo o que há nele parece nos empurrar cada vez mais para o fosso por onde os mortos são consumidos... Onde a alma desaparece, perde o brilho e vira apenas parte de um exército sombrio aguardando o fim do mundo... O pior é que nem saberia dizer ao certo quando foi que deixei de ser criança... Não sei exatamente quando passei a ser chamado de tio pela pivetada da rua... Sei apenas que deixei com que meu brilho se apagasse no olhar do homem que pensei que era... Um homem que pensou encontrar no mundo masculino algum refúgio... Um refúgio ilusório por debaixo de uma casca de chumbo onde nenhum super-homem poderia olhar... E lá tranquei os sonhos que não cabiam neste lugar...

Mas eu me lembro perfeitamente daquela época remota... Me lembro dos meus dias de solidão infinda... agoniante... quando só queria alguém para contar as minhas estórias... Uma companheira... Me achava feio e relento, usava roupas usadas e pobres... gastas... Tinha inveja dos caras fortes e bonitos, os caras que tinham namoradas brancas e perfumadas - tsc! Me lembro como se fosse hoje o quanto eu gostava das ruivas, de pele bem alva, o porque exato não sei; podia ser o rock n' roll, poderia ser as convenções sociais de padrões de beleza, a verdade é que o meu pescoço acompanhava cada cabeleira vermelha a cruzar a rua de meus olhos, acho que apenas não sabia nada da vida, tsc - Tinha inveja também dos caras que dançavam break e faziam cover dos Garotos da Rua de Trás no colégio que eu estudava; tinha inveja dos caras que sabiam tocar violão. Tinha inveja dos que sabiam lutar e dar salto mortal, dos que eram astros do futebol ou qualquer outro esporte (garoto franzino, de alimentação precária, sabe?), tinha inveja dos mentecaptos populares e principalmente, dos que possuíam coisas bonitas que só o dinheiro poderia comprar...

Mas realmente tenho razões para acreditar que ninguém tinha inveja do garoto estranho que passava horas escondido na biblioteca, que andava cantando e falando sozinho o tempo todo... Que vivia brincando e criando personagens para um teatro de ninguém... Às vezes eu percebia um certo tipo de inveja que não lhes durava muito mais que 1 minuto... O tipo de inveja de quando os professores elogiam o seu 10 naquela prova do caralho, ou da cara perplexa da professora nova de inglês da 7ª série ao perceber que o garoto calado conseguia reproduzir com proficiência algumas frases complexas no idioma que ela lecionava numa escola onde, na opinião dela, só deveriam haver nécios fracassados... E nesses momentos, colaboradores de minha desgraça, eu juro que podia perceber os olhos brilhando enquanto olhavam para aquela criatura grotesca que só vestia preto, mas não conseguiam olhar nos meus olhos amargurados de loucura por mais de um segundo, e ao fim de um minuto, suas vidas de espuma voltavam a se fundir com a areia agitada de suas praias super badaladas... Ser inteligente parecia apenas mais um fetiche sem importância ou sem valer o esforço para todos ao meu redor...

Ninguém parecia querer saber de fato como é que este mundo funcionava... Como e por que as coisas eram como eram? Por que as pessoas morriam? Se havia realmente vida após a morte? Se a minha mãe realmente via e ouvia os espíritos, ou se Deus existia? Ninguém parecia realmente se importar com isso... Me lembro de ter me feito essa pergunta antes mesmo de ter dado o meu primeiro beijo, aos 11 anos de idade, numa menina que já tinha ficado com quase todos os caras da rua (Não preciso dizer que me apaixonei por ela, neh? Acho que sempre tive uma preferência pelas putas, e não me arrependo disso, pois sempre me foram as melhores professoras...)... Mas acho que essa insistência em querer saber das coisas é que foi a minha verdadeira ruína... Pois aonde cheguei é impossível retroceder, não há caminho de volta para a total ignorância, nem há fuga suficiente para levar embora toda a carga, toda a dor provocada pelas respostas que encontrei... e principalmente o vazio deixado pelas novas perguntas que são feitas a partir do rombo que alarga a borda da minha realidade... O medo de nunca saber um monte de coisas... Sobre as leis que governam tudo o que eu amo, a Natureza, o Universo, os átomos, as estruturas moleculares, os poemas... Tudo isso que foi atirado num imenso caldeirão de bruxa que irá cozer a sua cabeça até o fim dos tempos...

Na antiga Mitologia Nórdica havia uma Serpente, Níõhöggr é um dragão enorme que habita o mundo subterrâneo (Niflhein, o mais profundo dos 9 mundos), ela engole os corpos dos são enviados para o mundo dos mortos (não, não tentem comparar com inferno cristão, isso é um equivoco tosco e grosseiro), absorvendo suas almas que serão transformadas em soldados no dia do Ragnarok. Por volta do ano 1220, o poeta, historiador, político e legislador islandês, Snorri Sturluson, compilou uma série de narrações que juntamente com a Edda Poética (Edda em Verso, de autores desconhecidos) constituem a mais importante fonte da mitologia nórdica. Segundo a descrição de Snorri, o Níõhöggr,  também chamado de Nidhogg, ou Nidogue,  é um dragão sem asas e sem pernas que come as raízes da Yggdrasil, a árvore que sustenta os nove mundos da Mitologia Escandinava. Ela tem a missão de matar a Árvore e destruir o mundo conhecido para que outro novo surja em seu lugar. As raízes da Yggdrasil impedem que o Nidogue passe para os outros mundos, principalmente Midgard (onde nós habitamos).


(Ti fofa, ela...)

Nidhogg se alimenta dos pecadores, de todos aqueles que jamais entrarão no reino de Valhala, sobretudo os perjuros (quem quebra um juramento, uma promessa feita); o homicídio (quem mata fora de guerra); e o adultério (quando há infidelidade, mentira, enganação entre duas pessoas que supostamente se amam)... Estes são apontados como os mais graves delitos espirituais (sociais) da cultura nórdica medieval... Nidhogg também não é o único ser que habita a árvore, no seu topo reside Hraesvelgr , um gigante que transforma-se em águia sentado nos confins do mundo (extremo mais elevado). No tronco da Yggdrasil mora Ratatosk, um esquilo que troca insultos e palavras invejosas entre a Águia e a Serpente que guerrearão implacavelmente até se exterminarem no advento do fim do mundo nórdico (q.v.  Ragnarok).


Assim como Behemoth e Leviatã (q.v. capítulo anterior), estamos todos fadados à auto-sabotagem, à auto-destruição... Como se houvessem dois egos principais dentro de nós e um estivesse sempre tentando esconder do outro os planos secretos do amanhã; pois caso esse outro descubra, inventará mil motivos para não vê-los acontecer, para termos preguiça, para desistirmos de mudar, de ir, de seguir em frente... de tentar de novo... Neste dia, ouvi muito sobre a coragem de seguir com nossos sonhos, de buscar mundos diferentes, ou de destruir o velho mundo para criarmos algo completamente novo... Partir para podermos nos encontrar... Perder-se das ilusões do que acreditamos ser o Eu... E é por isso que o Medo nos apodera tanto... Pois tudo aquilo que acreditamos ser este Eu, está coberto de ilusão. Todas as suas memórias foram sabotadas, elas estão repletas de sentimentos novos, de novas leituras sobre as mesmas; amores mais intensos, coisas ditas (ou não) que revigoram ou destroem nosso ser... Tudo isso, amontoando os outros fardos que a sociedade nos impõe através desta realidade parca que consumimos... Tudo isso vai roendo as raízes profundos dos nossos mundos ocultos até que retornemos completamente para os braços do Universo, da Terra, do Sol... Aos átomos que daqui a anos inimagináveis constituirão outras galáxias (pois eh, você achou mesmo que a Terra e o nosso Sistema Solar... kkkkk... A Humanidade... Durariam para Sempre? Jura que pensou nisso? Sinto muito, o Universo não foi criado para nós! hahahha!)

Acho que nunca conseguirei acreditar de fato que os erros sejam irremediáveis... Que o tempo tenha passado para nós... Imaginar isso é me perceber exatamente como nossos pais... É que quando ouço aquela velha música do Belquior, tenho a impressão de que todos os nossos pais, nossos ídolos, nossos músicos, poetas, filósofos e personagens prediletos, todos eles discursaram sobre seus próprios erros para que nós talvez tivéssemos alguma possibilidade de salvação, de redenção, de mudança... De acerto... Portanto, aquela música é uma ode à tristeza... Uma ode às pessoas que desistiram umas das outras... E eu, bem... Eu trago este cansaço dolorido de velhas desistências... Ao que parece, eu não valho a pena para ninguém... Acho que ninguém que amei realmente tenha tido vontade de construir algo maior comigo... Bom, mas seria realmente injusto afirmar isso por outras pessoas, então eu só acho mesmo... Sei apenas que vai doer, ver o teu cabelo balançando ao vento, saber de toda a gente jovem reunida à sua volta e eu... Bem, o meu maior medo e nem sequer saber se ocuparei algum lugar especial nas suas lembranças... E da mesma forma que todos desistiram, tenho medo de nunca realizar meus sonhos maiores, tenho medo de desistir de invejar ser um homem que jamais fui... O homem que invejo é sem dúvida um homem pelo qual vale a pena lutar...

Bem, viajo daqui há pouco... Certamente visitarei um outro mundo... Lá tenho uma família que me aguarda como sou... Terei Irmãs... Terei Pais... Terei até um Tio-Avó muito querido... Gostaria mesmo de saber tudo o que me espera antes do meu próprio Ragnarok... Porém, o que é justo e não me falha... Tenho todas essas memórias sabotadas e gastas pelas dores do tempo... Mas apenas as tenho porque tive a coragem de seguir meu coração... Porque tive a coragem de partir ou de ficar quando ele me pediu... Tenho todas estas memórias maravilhosas dos amores que me transformaram em alguém melhor e mais forte para lutar esta minha guerra... Porque assim pude ficar de pé e caminhar em busca de meus sonhos... Tenho orgulho de ainda estar vivo por causa deles... E tenho Orgulho apenas porque sei que Vivi...


XIII - IV - MMXVII


https://www.youtube.com/watch?v=da5hGxi-W_U
(Como Nossos Pais - Belquior)

https://www.youtube.com/watch?v=IHtExPwC100
(Super Homem - A Canção - Caetano Veloso e Gilberto Gil)


domingo, 9 de abril de 2017

Os Espinhos da Invídia - Segunda Parte

(A Destruição de Leviatã - Gustave Doré, 1865)


II

CIÚME


Sabe que dia é hoje, amiga? Hoje é Domingo de Ramos, a comemoração do dia em que Jesus retornou à sua Sagrada Jerusalém depois de passar quarenta dias meditando no deserto. Lá ele se preparou para o combate que travaria contra um mundo antigo, contra tradições ultrapassadas de um judaísmo colapsante, contra o mal que afetava os seus contemporâneos... E certamente, contra o mal que habitava dentro de si mesmo, contra o medo de seguir a voz do Deus que clamava dentro de seu coração... Preciso confessar aqui que não concordo totalmente com Friedrich quando diz que o único cristão que de fato existiu foi o próprio nazareno. Acredito que Jesus Cristo era sobretudo um yogue, e acho que aqueles que estão dispostos a buscar o caminho da verdade dentro de si mesmo, chegarão a conclusões parecidas com o Messias no deserto... Fazer o bem e abdicar do próprio ego para ver o sorriso daqueles que amam... Para enfrentar a dor que é viver neste mundo e encontrar forças para lutar por um lugar melhor... Esse é o verdadeiro significado da compaixão... Creio que o mundo está cheio de pessoas assim...

Mas Nietzsche não odeia o Cristo, ele se repugna antes de tudo da Igreja, do Cristianismo, porque essa é uma instituição dos Homens, e pensada por homens que não seguiram o caminho do Jovem Galileu... Uma religião que deseja sobretudo o poder... Não preciso me lembrar que a entrada de Cristo em Jerusalém despertou a Inveja de muita gente poderosa... Afinal, o Domingo de Ramos representa a chegada da Esperança, onde os ramos das oliveiras sendo brandidas pelo povo trazem um novo alento àquelas pessoas assoladas pelas guerras, pelas formes, pela opressão do Império Romano e por toda a aridez da Terra Santa...  

Insegurança... Ciúme... Medo... O que os senhores do Judaísmo Ortodoxo naturalmente iriam dizer de um judeu que surge em meio ao caos para pregar uma mensagem de Amor, de perdão infinito, de cuidado com as pessoas? É claro que mataram, pois é assim que fazemos com tudo o que nos amedronta, que nos afronta, que nos mostra o quão errados estamos, que revela nossas fraquezas com palavras simples e carinhosas... A violência é um recurso de egos agonizantes tentando não morrer, pois cada vez que estamos errados, é preciso matar aquele eu que vivia tais crenças, pois ele não poderá coexistir com a nova pessoa que você precisará criar para habitar o mundo com um olhar completamente novo... Amar é difícil, meus amigos, e é por isso que desistimos nas primeiras pedradas que levamos no caminho... Nos esquecemos... Pois só há duas saídas possíveis: ou nos deixamos morrer junto com a nossa verdade imaculada... Ou precisamos nos afastar da mentira que nos mata lentamente todo dia...

Particularmente penso que Jesus é tão filho da Deusa quanto qualquer um de nós... Todos somos porta-vozes destes deuses que nos habitam... Alguns abrem melhor os seus chacras para poder ouvir, interpretar com mais clareza os sinais... Mas isso só faz Jesus parecer-se ainda mais conosco... Um humano, cheio de fraquezas, dúvidas, medos... E é por isso também que a Igreja queimou e negligenciou completamente inúmeros textos, inclusive o muito provável testemunho de Maria Madelena, que acompanhou o yogue no seu florescimento e cujas conversas certamente o ensinaram bastante, o tornaram um ser humano melhor... Pois não posso crer que nem o druida mais proeminente poderia ter aprendido tudo sozinho, meditando, sem se preocupar, sem ouvir o que os outros tinham a dizer; e se Ele pudia entender como Ela se sentia, é porque sabia escutar tudo o que Madalena lhe falava, porque a amava como uma igual... Então, pela primeira vez na História Ocidental, a Humanidade pôde eleger um deus que se sacrifica em prol dos outros, que sacrificou a sua própria vida para passar uma mensagem muito maior do que sua própria carne... Uma mensagem de amor...

Isso me faz lembrar uma estória mais antiga, quando Prometeu roubou dos céus o fogo dos deuses e ensinou a humanidade a caminhar sozinha, a se guiar pelas estrelas, deu-lhes a Astronomia, a Agricultura, a Astrologia, etc (Prometeu é foda!)... Quando o Todo-Poderoso Zeus (de onde vem a palavra Deus que os cristãos usam sem nem sequer refletir o significado) por pura inveja da empatia daquele Titã pelos humanos, uma raça fraca, inferior que merecia apenas ser castigada e subjugada para prestar homenagem aos seus superiores... Prometeu escolheu aguentar todo o castigo porque tinha esperança naquela humanidade, esperança que a conduziria lentamente à correção de tantos erros... Que talvez, um dia, muito distante, surgiria uma humanidade nobre, com homens e mulheres capazes de trabalhar juntos para corrigir os equivocos até mesmo desses tantos anos de dominação de deuses e religiões... Onde cada homem e cada mulher pudessem ser os sacerdotes e sacerdotisas de suas próprias casas, os alquimistas de suas próprias oficinas e ajudarem os próximos a forjarem lugares melhores para todos os habitantes deste paraíso que insistimos ainda em transformar num inferno...

Prometeu agonizou durante eras até que pudesse ser resgatado pelo filho do Onipotente que o prendera... Hércules, assim como Jesus, aparece para desfazer rancores antigos, para dizer ao mundo que ele precisa mudar, dizer a todos nós de que é preciso questionar as tradições, quebrar as correntes que nos prendem aos corvos que dilaceram nosso fígado... Para nos renovar a esperança nos heróis, nas pessoas que amamos, e por quem vale a pena continuar lutando para nos redimir de tantos pecados cometidos por nossos antepassados... A esperança de não cultivarmos uma vida tão sofrida (como nossos pais) para nós e para as futuras gerações...

Hércules foi sem dúvida o filho mais proeminente de Zeus, e de quem sua esposa mais teve ciúmes... Por isso ele foi consagrado a essa deusa... Hércules ( Ἥρα = Hera + κλέος = Gloria) em grego significa "A Glória de Hera", certamente Alcmena quis apaziguar a raiva da Mãe dos Deuses, porém, sabemos que não foi o bastante... Embora a Primeira Dama do Olimpo tenha atazanado a vida do herói durante toda a sua jornada, o trabalho que nos traz de volta a Leviatã é o Segundo... Lá o Filho de Zeus precisa liquidar a famigerada Hidra de Lerna... Uma serpente gigante que duplicava suas cabeças cada vez que o herói esmagava uma... É dona de um hálito venenoso que mata os homens apenas de abrir sua boca, até o cheiro que deixa em seu rastro é capaz de provocar uma enorme agonia. Segundo a tradição, esse monstro foi criado por Hera para matar Hércules, quando a Deusa percebeu que o herói iria finalmente vencer o veneno de sua inveja, mandou um pequeno caranguejo para ferir os calcanhares e distrair Hércules. Sabendo que o inimigo era muitíssimo maior e mais forte, o confuso caranguejo por amor a sua deusa (Hera, deusa da maternidade, portanto, mãe de todas as criaturas), irrompeu contra o herói e a distração quase custou a sua vida. A missão de matar Hércules é descrita com tristeza para o Caranguejo... Mas é assim que a Mitologia Grega da origem à Constelação de Câncer, pois Zeus, admirado com a coragem do crustáceo o elevou aos céus para sempre nos lembrarmos que um amor verdadeiro não maltrata, não deixa espaço para o ciúme doentio tomar conta (tudo bem que esse tal de Zeus era um escroto neh! não serve de exemplo pra nada aqui nesse blog), não se inflama de ódio, não machuca quem ama e não tenta destruir a vida das pessoas. Desde então, aqueles que nascem sob o signo desta constelação, nascem para amar além de tudo, amar e cuidar de tudo o que existe de bom sob esta terra...

(Vaso grego pra vocês não dizerem que é minha mintira, tsc)

Segundo tradições e lendas baseadas no Talmud, Yahweh teria criado o Leviathan juntamente com uma Fêmea no Quinto Dia; outras lendas ainda dizem que estes dois animais seriam duas das criaturas primevas, ou seja, que existiam antes da criação do Céu e da Terra (sim, os textos antigos sempre são contraditórios e abrem espaço para todo o tipo de devaneio). Segundo as mesmas lendas, Jeová teria matado a fêmea do Leviathan para que estes não procriassem e destruíssem o mundo (esse povo de Deus inventa cada coisa doida, neh?), deixando apenas o macho para nos infernizar, hahhaha! Na Bíblia também está descrito que Deus enviará outro de seus demônios para ajudar o Arcanjo Gabriel no Apocalipse, ou seja, na Batalha Final que decidirá o desfecho da Terra... Gabriel não conseguiria sozinho, por isso Javé mandará o Behemoth, um demônio que representa o poder do deserto, em antítese para o poder da água, do oculto, das profundezas do Oceano... Nessa batalha os dois demônios acabariam sendo destruídos, um anularia o outro... Por fim Deus servirá a carne do Leviatã aos justos, ou seja, aos que sobreviverem ao combate final... E com a pele ele fará uma grande tenda para servir o banquete... (Ainda bem que daqui pro final dos tempos a humanidade já terá percebido que não vale a pena comer carne, ainda mais a carne de um demônio que é descrito tão desgraçadamente, ói... acho que é melhor fazer jejum no Juízo Final vú... Vai por mim, vocês não vão querer comer esse troço... hhahah)

E é aqui onde os meus pensamentos se entrelaçam no embaraço de tanta confusão... Existe muita informação que se correlaciona neste imenso quebra-cabeças que é a vida... Não sabemos como e nem porque, mas ao que parece todas as coisas que lemos, que ouvimos, e fazemos parecem fazer parte de um imenso código que precisamos montar para dar sentido à nossa frágil existência... Não posso dizer que não tenho ciúmes de você, amiga... O que sei é que tenho ciúmes da sua meia calça nova... Tenho ciúmes de todas as suas bolsas de viagem às quais não poderei te acompanhar... Tenho ciúmes de seus cabelos esvoaçando em ventos que não trarão o teu perfume ao meu olfato tão sedento do teu cheiro... Mas certamente, não tenho medo de que isso consuma a minha alma... Tenho um Hércules que habita dentro de mim, lutando para me redimir de meus pecados mais antigos... Ostentando ainda uma esperança faminta de ser feliz...

Agora, arranco eu o meu ramo santo de oliveira... E sigo a procissão do domingo perene de minha alma... Para exterminar mais e mais bestas que me impedem de ter alguém especial como você, de ser de alguém tão especial quanto você... E nestas distâncias eu encontro muitas respostas para as perguntas que me afligem... Você me diz, mesmo sem o saberes, os versos que ainda faltam no meu imenso poema tortuoso... Aguardo agora a chegada da Páscoa, dos ovos de chocolate, dos coelhos felizes fornicando em celebração à vida... Uma época onde nenhum Medo poderá furtar qualquer coisa que ainda esteja guardado para quem tenta com todas as suas forças, se transformar a cada dia... Criar asas coloridas como as borboletas e sair voando por ai para amar o mundo sem nenhum impedimento...


IX - IV - MMXVII


https://www.youtube.com/watch?v=kTzrA7YgUi0
(Um Certo Galileu - Padre Zezinho...  Sim! É para vocês se lembrarem dos domingos de sua infância, quando a sua avó ou aquela vizinha ligava essa música de manhã pra fazer a comida... Garanto que se vocês abrirem o coração, vão sentir alguma coisa boa, um alento, uma esperança, ou quiça uma revolta contra a crueldade dos humanos... De qualquer forma... Não tenham medo... Não tenham medo de se permitir...)




quinta-feira, 6 de abril de 2017

Os Espinhos da Invídia - Primeira Parte


I

INSEGURANÇA


"Você consegue pescar com anzol o Leviatã, ou prender sua língua com uma corda? Consegue fazer passar um cordão pelo seu nariz, ou atravessar seu queixo com um gancho? Você imagina que ele vai lhe implorar misericórdia e falar-lhe palavras amáveis? Acha que ele vai fazer acordo com você, para que o tenha como escravo pelo resto da vida? Acaso você consegue fazer dele um bichinho de estimação, como se fosse um passarinho, ou pôr-lhe uma coleira para dá-lo às suas filhas? Poderão os negociantes vendê-lo? Ou reparti-lo entre os comerciantes? Você consegue encher de arpões o seu couro, e de lanças de pesca a sua cabeça? Se puser a mão nele, a luta ficará em sua memória, e nunca mais você tornará a fazê-lo. Esperar vencê-lo é ilusão; apenas vê-lo já é assustador. Ninguém é suficiente corajoso para querer desperta-lo." 
(Jó. Cap. 41; Versículos de 1 - 11)



A Inveja é um prato que não se come. É um prato que te devora, consome a sua alma e te empurra para um caminho de dor que machucará a todos que fizerem parte da longa trajetória da dor por onde sua fome cresce... E quanto mais você desejar algo que não é próprio de você, mais você se perceberá insuficiente, mais desejará o que é dos outros e... mais vazio se sentirá ao findar de tudo... Pois você não terá conquistado nada que possa realmente ser chamado de seu...

Há longas discussões entre Inveja Boa e Inveja Má... Mas no fim das contas, que cuidado tomamos para que isso não nos machuque, não nos persiga..? Quantas vezes paramos para nos perguntar se o que sentimos é de fato Admiração e não essa chamada Inveja Boa? Seja lá como for que vocês pensem, meus amigos distraídos, espero que ouçam as palavras de Jó ao menos uma vez na vida... A Inveja é sobretudo perigosa... Perigosa para todos... Embora o texto se alongue, é preciso continuar a descrevê-lo para que vocês possam demoniza-lo mais precisamente.

" Quando ele se ergue, os poderosos se apavoram; fogem com medo dos seus golpes.  A espada que o atinge nada lhe faz, nem a lança nem a flecha nem o dardo. Ferro ele trata como palha, e bronze como madeira podre. As flechas não o afugentam, as pedras das fundas são como cisco para ele. O bastão lhe parece fiapo de palha; o brandir da grande lança o faz rir. Seu ventre é como caco denteado, e deixa rastro na lama como o trilho de debulhar. Ele faz as profundezas se agitarem como caldeirão fervente, e revolve o mar como pote de unguento. Deixa atrás de si um rastro cintilante, como se fossem os cabelos brancos do abismo. Nada na terra se equipara a ele: criatura destemida! Com desdém olha todos os altivos; reina soberano sobre todos os orgulhosos."
(Jó. Ibid. Versículos de 25 - 34)

Desse modo, para um homem invejoso, nada está bom para ele, a tudo ele critica, e tudo o incomoda no seu íntimo... E é daí donde brotam os espinhos que machucarão tanto as suas mãos que, no final do dia, você estará completamente impossibilitado de realizar, por si só, qualquer trabalho belo por você e muito menos pelos outros... Sobrará apenas a Insegurança de não poder fazer nada sozinho; o Ciúmes por quem não precisa mais de você para ser feliz; e o Medo de que tudo conquistado pereça diante de seus olhos, enquanto a sua invejável capacidade de criticar lhe afoga mostrando à sua volta toda a felicidade que você não possui...

Quanto ao monstro descrito por Jó, sua origem remonta lendas e mitos fenícios, o que levou muita gente a crer que esta seria uma criatura pré-histórica que teria sido contemporâneo de uma humanidade primitiva (digo, ainda mais primitiva do que a nossa). Na Demonologia Cristã, o demônio Leviathan (do hebraico antigo, Serpente Tortuosa, mas foi muitas vezes traduzido como monstro marinho ou crocodilo), é considerado um dos quatro príncipes coroados do inferno, o que provavelmente o coloca como o quarto mais poderoso, depois de Lucifer, Beelzebu, Azazel. O demonologista Johannes Wier (1515 - 1588), em sua obra Pseudomonarchia Daemonum, denomina Leviatã como "O Grande Embusteiro", ou "O Grande Enganador", pois, segundo ele, este está presente e triunfa facilmente nos palcos políticos, nos tratados comerciais e nas intrigas palacianas (ixxe, então impera no Congresso Brasileiro, na Presidência da República e no Mercado Internacional, tsc). Talvez seja por isso que a obra renomada de Thomas Hobbes seja tão bem sucedida, hahahaha! O nome condiz perfeitamente com o estado atual da humanidade... Mesquinha, Egoísta e Gananciosa... A fórmula perfeita para a auto-destruíção...

Segundo Hobbes, o Homem em seu Estado Natural é instintivamente  egoísta, egocêntrico e inseguro. Ele não conhece leis e não possui conceito de justiça; ele apenas segue os ditames de suas paixões e desejos, temperados com algumas sugestões de sua razão natural, destreinada, primitiva e muitas vezes embrutecida. Assim Thomas Hobbes dá na cara da história a chave de uma guerra que vivemos a milênios... A Inveja é a verdadeira Guerra de Todos Contra Todos!

"Cada homem é inimigo de outro homem, então a vida do homem nesse estado é solitária, pobre, sórdida, brutal e curta." 
(HOBBES, Thomas. Leviatã: ou matéria, formas e poder de um estado eclesiástico e civil. 1651.)

Outrossim, o grande poeta místico inglês, William Blake (isso mesmo, aquele lá que inspirou o The Doors), dedicou sua atenção ao livro de Jó e em suas peregrinações espirituais (regadas de ópio e outras tantas coisas que os ingleses traficaram às custas de muitas vidas do oriente), onde faz uma descrição bastante imagética desta força representada na figura do Leviathan.

" Debaixo de nós nada mais se via senão uma tempestade negra, até que, olhando para oriente, entre as nuvens e as vagas, divisamos uma cascata de sangue misturada com fogo, e próximo de nós emergiu e afundou-se de novo o vulto escamoso de uma serpente volumosa. Por fim, a três graus de distância, na direção do oriente, apareceu sobre as ondas uma crista incendiada: lentamente elevou-se como um recife de ouro, até avistarmos dois globos de fogo carmesim, dos quais o mar se escapa em nuvens de fumo. Vimos então que se tratava da cabeça do Leviatã a sua fronte, tal como a do tigre, era sulcada por listras verdes e púrpuras. Em breve vimos a boca e as guelras pendendo sobre a espuma enfurecida, tingindo o negro abismo com raios de sangue, avançando para nós com toda a fúria de uma existência espiritual."
(BLAKE, William. O Casamento do Céu e do Inferno. 1794.)

Não, meus senhores! Não estamos seguros diante da humanidade enquanto ainda precisamos possuir as coisas, as pessoas, as mentes das pessoas, os corações das pessoas, a atenção das pessoas... No final das contas, tudo se trata de ter... Mais conforto, mais sexo, mais pessoas trabalhando pra você, bajulando você, dizendo o quanto você é grande e bonito e é tudo da vida delas... No final das contas, a maioria das pessoas querem alguém para diminuir... Para inferiorizar... Menosprezar... Reduzir sua companheira a quase nada para que assim você... Macho Escroto do Caralho... possa ser o soberano senhor de tudo, dono de uma mulher submissa, de auto-estima baixa, ignorante... e assim você, que nada conquistou de grandioso à sua própria custa, pode agora se vangloriar de ser um cara fodão pra caralho e se sentir seguro no seu trono de madeira roubada...

É igualmente por esse motivo que as nações colecionam tanques, ogivas nucleares, submarinos e navios ultramodernos para suas guerras intermináveis... Para ostentar aos seus vizinhos o quanto são poderosos... Para intimidar, para invadir lugares menores e mais fracos... Para oprimir a sua população, para reprimir as liberdades individuais... Tudo isso em nome de uma segurança tola, vã... Frágil... Uma segurança baseada no medo, na força bruta, nas armas de fogo... Mas esse tipo de segurança só trará rancores acumulados, sangue, morte, destruição e mais motivos para ter medo. Do mesmo modo, o machismo moderno se engendra na sociedade... Um homem aprende desde cedo que sua mulher só deve dedicar atenção a ele... Aprendemos que é inconveniente quando outro homem interessante cumprimenta ou puxa assunto com nossas namoradas, ficamos desconfortáveis na presença de outros homens (porque sabemos o quanto homens são escrotos... e perigosos); sabemos o quanto os homens são provocadores (não! isso não é nem coisa de bixa e nem de mulheres, o mundo masculino é cheio de artimanhas para machucar e essa também é uma delas), o quanto eles querem mostrar que exercem poder sobre as pessoas, sobre as namoradas de outrem. E é ai que um homem não muito experiente, ou um homem que não é dado a pensar exaustivamente sobre suas atitudes, se entrega ao pessimismo de uma insegurança destruidora que trará ruína ao relacionamento.

Me lembro de todas as vezes, amiga, todas as vezes que briguei por esse motivo. Por não ter certeza do que a outra pessoa pensava, por sentir a admiração que ela tinha por essa ou aquela pessoa; pelo encantamento como falava de fulano de tal... Essas coisas me desconfortavam, revelavam desejo, probabilidades... e mesmo lutando para controlar o ciúme... é doloroso sentir-se impotente, sentir-se falho, sentir-se insuficiente perante o mundo... Porque no fundo você quer ser tudo para a outra pessoa, o mundo nos ensina isso tanto que acabamos por nos esquecer de ser o melhor para nós mesmos... Essa insegurança nos conduz por um caminho sem volta... O caminho do ciúme cego; o caminho das perguntas e da desconfiança intermináveis; o caminho da paranoia; da investigação desmedida (ou melhor, invasão de privacidade); das brigas inconsequentes; das coisas dilacerantes que são ditas durante esse processo... E no fim, já estão todos tão machucados que é impossível para os membros deste conjunto se re-apaixonarem um pelo outro...

Tenho certeza que poderia me re-apaixonar por qualquer uma das mulheres por quem já fui apaixonado uma vez... Primeiro porque não sou de exercitar as mágoas... Segundo porque realmente acredito que as pessoas mudam... E terceiro, quem seria eu para subestimar uma vontade intumescida de ser feliz? Depois, ninguém desama alguém... Se alguém lhe fez bem um dia... No fundo... Bem lá escondido estará algum amor perdido, esperando poder ser resgatado ainda. Isso explica, amiga, o fato de ter participado de um relacionamento de 7 anos, nos idos da adolescência, durante as vacas gordas de minha juventude... Agora, ao fim dos anos de vacas magras, de fome intensa, de desespero, de erros e lágrimas cansadas; eu creio que posso enxergar tudo o que passou com maior clarividência... Hoje eu vejo que minha insistência não era apenas por insegurança quanto ao futuro... Eu realmente sei que me re-apaixonei muitas vezes por todas as pessoas que amei... Que tentei ao máximo conquistá-las no dia-a-dia... Tentei conquistá-las com o que há de mais esperançoso no meu lado bom e com o que há de mais criativo no meu lado ruim... Mas estes ambos desdobramentos de mim são repletos de falhas e limitações... Não são suficientes para interpretar os códigos do tempo; do silêncio; ou da angústia provocada por meus erros... E ainda que fossem aptos para tal computação, temos que considerar que as pessoas desistem, fogem, mudam, escolhem não querer a responsabilidade de ajudar um homem a se tornar alguém melhor (ou não fazem a mínima ideia de como fazer isso acontecer). No fim, todas as pessoas fizeram de mim alguém melhor... mais sério... muito mais calado... e mais solitário do que nunca antes na minha vida... 

E se esse post é imenso, é porque a insegurança é imensa... Ainda há muito o que se falar dela até que estejamos realmente seguros... Porque ninguém nunca está... Homem, mulher, viado, sapatão... Todos eles moram em um mar de insegurança chamado Mundo... Onde todos têm razão para temer, odiar, desejar, trair, beber demais, ficar muito doido e fazer merda... Todos têm seus motivos e justificativas para tal... E infelizmente levamos muito tempo para descobrir as ilusões todas que nos rodeiam... As ilusões que fortalecem todos os nossos demônios internos... A insegurança nos faz surtar quando não sabemos nada sobre o futuro... Ela mostra que não estamos tão tranquilos quanto achamos que estávamos... Ela revela o menino inseguro chorando em público pela impossibilidade de calcular o próximo passo, a próxima coisa a ser dita... Descobre que talvez não seja ainda tão paciente quanto pensava que era... E no fim, diz a coisa errada por estar assustado e sozinho tempo demais para querer correr o risco de ser desprezado... Desacreditado... Ou apenas tornar-se um amigo quando o desejo ainda corre célere no peito de um garoto sonhador...

Já não sei quanto a você, amiga. Mas eu estou bem, oh, chuva deliciosa que me faz companhia! Eu estou cada vez mais em paz com a minha decisão de continuar o show... Continuar vivendo e ajudando no que me for possível para que as esquifes desses medos possam ser superadas e destruídas... Para que o amanhã de um novo ser humano possa vir acompanhado de bondade, paz, esperança e entendimento... Onde a posse, a propriedade privada, as armas e a insegurança não significarão muito mais do que uma concha encontrada na praia... Você poderá carregá-la de um lado para o outro, mas no fundo terá o sentimento de que aquilo, tão bonito e especial, é na verdade pertencente a todos os seres que partilham conosco esse planeta... E assim também deve ser o coração de um homem e de uma mulher... Livre para amar...


VI - IV - MMXVII




https://www.youtube.com/watch?v=C7FS5sgSt5c
(Leviatã, animação - Inspirada na obra de Thomas Hobbes... Recomendo D+)

https://www.youtube.com/watch?v=ywMJEu8dddA
(1º de Julho - Cassia Eller -Vale a pena conferir a letra do Renato Russo...)


https://www.youtube.com/watch?v=PlrW9SUCINo
(Ulver - Themes from William Blake's The Marriage of Heaven and Hell - Full Album)