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quinta-feira, 6 de abril de 2017

Os Espinhos da Invídia - Primeira Parte


I

INSEGURANÇA


"Você consegue pescar com anzol o Leviatã, ou prender sua língua com uma corda? Consegue fazer passar um cordão pelo seu nariz, ou atravessar seu queixo com um gancho? Você imagina que ele vai lhe implorar misericórdia e falar-lhe palavras amáveis? Acha que ele vai fazer acordo com você, para que o tenha como escravo pelo resto da vida? Acaso você consegue fazer dele um bichinho de estimação, como se fosse um passarinho, ou pôr-lhe uma coleira para dá-lo às suas filhas? Poderão os negociantes vendê-lo? Ou reparti-lo entre os comerciantes? Você consegue encher de arpões o seu couro, e de lanças de pesca a sua cabeça? Se puser a mão nele, a luta ficará em sua memória, e nunca mais você tornará a fazê-lo. Esperar vencê-lo é ilusão; apenas vê-lo já é assustador. Ninguém é suficiente corajoso para querer desperta-lo." 
(Jó. Cap. 41; Versículos de 1 - 11)



A Inveja é um prato que não se come. É um prato que te devora, consome a sua alma e te empurra para um caminho de dor que machucará a todos que fizerem parte da longa trajetória da dor por onde sua fome cresce... E quanto mais você desejar algo que não é próprio de você, mais você se perceberá insuficiente, mais desejará o que é dos outros e... mais vazio se sentirá ao findar de tudo... Pois você não terá conquistado nada que possa realmente ser chamado de seu...

Há longas discussões entre Inveja Boa e Inveja Má... Mas no fim das contas, que cuidado tomamos para que isso não nos machuque, não nos persiga..? Quantas vezes paramos para nos perguntar se o que sentimos é de fato Admiração e não essa chamada Inveja Boa? Seja lá como for que vocês pensem, meus amigos distraídos, espero que ouçam as palavras de Jó ao menos uma vez na vida... A Inveja é sobretudo perigosa... Perigosa para todos... Embora o texto se alongue, é preciso continuar a descrevê-lo para que vocês possam demoniza-lo mais precisamente.

" Quando ele se ergue, os poderosos se apavoram; fogem com medo dos seus golpes.  A espada que o atinge nada lhe faz, nem a lança nem a flecha nem o dardo. Ferro ele trata como palha, e bronze como madeira podre. As flechas não o afugentam, as pedras das fundas são como cisco para ele. O bastão lhe parece fiapo de palha; o brandir da grande lança o faz rir. Seu ventre é como caco denteado, e deixa rastro na lama como o trilho de debulhar. Ele faz as profundezas se agitarem como caldeirão fervente, e revolve o mar como pote de unguento. Deixa atrás de si um rastro cintilante, como se fossem os cabelos brancos do abismo. Nada na terra se equipara a ele: criatura destemida! Com desdém olha todos os altivos; reina soberano sobre todos os orgulhosos."
(Jó. Ibid. Versículos de 25 - 34)

Desse modo, para um homem invejoso, nada está bom para ele, a tudo ele critica, e tudo o incomoda no seu íntimo... E é daí donde brotam os espinhos que machucarão tanto as suas mãos que, no final do dia, você estará completamente impossibilitado de realizar, por si só, qualquer trabalho belo por você e muito menos pelos outros... Sobrará apenas a Insegurança de não poder fazer nada sozinho; o Ciúmes por quem não precisa mais de você para ser feliz; e o Medo de que tudo conquistado pereça diante de seus olhos, enquanto a sua invejável capacidade de criticar lhe afoga mostrando à sua volta toda a felicidade que você não possui...

Quanto ao monstro descrito por Jó, sua origem remonta lendas e mitos fenícios, o que levou muita gente a crer que esta seria uma criatura pré-histórica que teria sido contemporâneo de uma humanidade primitiva (digo, ainda mais primitiva do que a nossa). Na Demonologia Cristã, o demônio Leviathan (do hebraico antigo, Serpente Tortuosa, mas foi muitas vezes traduzido como monstro marinho ou crocodilo), é considerado um dos quatro príncipes coroados do inferno, o que provavelmente o coloca como o quarto mais poderoso, depois de Lucifer, Beelzebu, Azazel. O demonologista Johannes Wier (1515 - 1588), em sua obra Pseudomonarchia Daemonum, denomina Leviatã como "O Grande Embusteiro", ou "O Grande Enganador", pois, segundo ele, este está presente e triunfa facilmente nos palcos políticos, nos tratados comerciais e nas intrigas palacianas (ixxe, então impera no Congresso Brasileiro, na Presidência da República e no Mercado Internacional, tsc). Talvez seja por isso que a obra renomada de Thomas Hobbes seja tão bem sucedida, hahahaha! O nome condiz perfeitamente com o estado atual da humanidade... Mesquinha, Egoísta e Gananciosa... A fórmula perfeita para a auto-destruíção...

Segundo Hobbes, o Homem em seu Estado Natural é instintivamente  egoísta, egocêntrico e inseguro. Ele não conhece leis e não possui conceito de justiça; ele apenas segue os ditames de suas paixões e desejos, temperados com algumas sugestões de sua razão natural, destreinada, primitiva e muitas vezes embrutecida. Assim Thomas Hobbes dá na cara da história a chave de uma guerra que vivemos a milênios... A Inveja é a verdadeira Guerra de Todos Contra Todos!

"Cada homem é inimigo de outro homem, então a vida do homem nesse estado é solitária, pobre, sórdida, brutal e curta." 
(HOBBES, Thomas. Leviatã: ou matéria, formas e poder de um estado eclesiástico e civil. 1651.)

Outrossim, o grande poeta místico inglês, William Blake (isso mesmo, aquele lá que inspirou o The Doors), dedicou sua atenção ao livro de Jó e em suas peregrinações espirituais (regadas de ópio e outras tantas coisas que os ingleses traficaram às custas de muitas vidas do oriente), onde faz uma descrição bastante imagética desta força representada na figura do Leviathan.

" Debaixo de nós nada mais se via senão uma tempestade negra, até que, olhando para oriente, entre as nuvens e as vagas, divisamos uma cascata de sangue misturada com fogo, e próximo de nós emergiu e afundou-se de novo o vulto escamoso de uma serpente volumosa. Por fim, a três graus de distância, na direção do oriente, apareceu sobre as ondas uma crista incendiada: lentamente elevou-se como um recife de ouro, até avistarmos dois globos de fogo carmesim, dos quais o mar se escapa em nuvens de fumo. Vimos então que se tratava da cabeça do Leviatã a sua fronte, tal como a do tigre, era sulcada por listras verdes e púrpuras. Em breve vimos a boca e as guelras pendendo sobre a espuma enfurecida, tingindo o negro abismo com raios de sangue, avançando para nós com toda a fúria de uma existência espiritual."
(BLAKE, William. O Casamento do Céu e do Inferno. 1794.)

Não, meus senhores! Não estamos seguros diante da humanidade enquanto ainda precisamos possuir as coisas, as pessoas, as mentes das pessoas, os corações das pessoas, a atenção das pessoas... No final das contas, tudo se trata de ter... Mais conforto, mais sexo, mais pessoas trabalhando pra você, bajulando você, dizendo o quanto você é grande e bonito e é tudo da vida delas... No final das contas, a maioria das pessoas querem alguém para diminuir... Para inferiorizar... Menosprezar... Reduzir sua companheira a quase nada para que assim você... Macho Escroto do Caralho... possa ser o soberano senhor de tudo, dono de uma mulher submissa, de auto-estima baixa, ignorante... e assim você, que nada conquistou de grandioso à sua própria custa, pode agora se vangloriar de ser um cara fodão pra caralho e se sentir seguro no seu trono de madeira roubada...

É igualmente por esse motivo que as nações colecionam tanques, ogivas nucleares, submarinos e navios ultramodernos para suas guerras intermináveis... Para ostentar aos seus vizinhos o quanto são poderosos... Para intimidar, para invadir lugares menores e mais fracos... Para oprimir a sua população, para reprimir as liberdades individuais... Tudo isso em nome de uma segurança tola, vã... Frágil... Uma segurança baseada no medo, na força bruta, nas armas de fogo... Mas esse tipo de segurança só trará rancores acumulados, sangue, morte, destruição e mais motivos para ter medo. Do mesmo modo, o machismo moderno se engendra na sociedade... Um homem aprende desde cedo que sua mulher só deve dedicar atenção a ele... Aprendemos que é inconveniente quando outro homem interessante cumprimenta ou puxa assunto com nossas namoradas, ficamos desconfortáveis na presença de outros homens (porque sabemos o quanto homens são escrotos... e perigosos); sabemos o quanto os homens são provocadores (não! isso não é nem coisa de bixa e nem de mulheres, o mundo masculino é cheio de artimanhas para machucar e essa também é uma delas), o quanto eles querem mostrar que exercem poder sobre as pessoas, sobre as namoradas de outrem. E é ai que um homem não muito experiente, ou um homem que não é dado a pensar exaustivamente sobre suas atitudes, se entrega ao pessimismo de uma insegurança destruidora que trará ruína ao relacionamento.

Me lembro de todas as vezes, amiga, todas as vezes que briguei por esse motivo. Por não ter certeza do que a outra pessoa pensava, por sentir a admiração que ela tinha por essa ou aquela pessoa; pelo encantamento como falava de fulano de tal... Essas coisas me desconfortavam, revelavam desejo, probabilidades... e mesmo lutando para controlar o ciúme... é doloroso sentir-se impotente, sentir-se falho, sentir-se insuficiente perante o mundo... Porque no fundo você quer ser tudo para a outra pessoa, o mundo nos ensina isso tanto que acabamos por nos esquecer de ser o melhor para nós mesmos... Essa insegurança nos conduz por um caminho sem volta... O caminho do ciúme cego; o caminho das perguntas e da desconfiança intermináveis; o caminho da paranoia; da investigação desmedida (ou melhor, invasão de privacidade); das brigas inconsequentes; das coisas dilacerantes que são ditas durante esse processo... E no fim, já estão todos tão machucados que é impossível para os membros deste conjunto se re-apaixonarem um pelo outro...

Tenho certeza que poderia me re-apaixonar por qualquer uma das mulheres por quem já fui apaixonado uma vez... Primeiro porque não sou de exercitar as mágoas... Segundo porque realmente acredito que as pessoas mudam... E terceiro, quem seria eu para subestimar uma vontade intumescida de ser feliz? Depois, ninguém desama alguém... Se alguém lhe fez bem um dia... No fundo... Bem lá escondido estará algum amor perdido, esperando poder ser resgatado ainda. Isso explica, amiga, o fato de ter participado de um relacionamento de 7 anos, nos idos da adolescência, durante as vacas gordas de minha juventude... Agora, ao fim dos anos de vacas magras, de fome intensa, de desespero, de erros e lágrimas cansadas; eu creio que posso enxergar tudo o que passou com maior clarividência... Hoje eu vejo que minha insistência não era apenas por insegurança quanto ao futuro... Eu realmente sei que me re-apaixonei muitas vezes por todas as pessoas que amei... Que tentei ao máximo conquistá-las no dia-a-dia... Tentei conquistá-las com o que há de mais esperançoso no meu lado bom e com o que há de mais criativo no meu lado ruim... Mas estes ambos desdobramentos de mim são repletos de falhas e limitações... Não são suficientes para interpretar os códigos do tempo; do silêncio; ou da angústia provocada por meus erros... E ainda que fossem aptos para tal computação, temos que considerar que as pessoas desistem, fogem, mudam, escolhem não querer a responsabilidade de ajudar um homem a se tornar alguém melhor (ou não fazem a mínima ideia de como fazer isso acontecer). No fim, todas as pessoas fizeram de mim alguém melhor... mais sério... muito mais calado... e mais solitário do que nunca antes na minha vida... 

E se esse post é imenso, é porque a insegurança é imensa... Ainda há muito o que se falar dela até que estejamos realmente seguros... Porque ninguém nunca está... Homem, mulher, viado, sapatão... Todos eles moram em um mar de insegurança chamado Mundo... Onde todos têm razão para temer, odiar, desejar, trair, beber demais, ficar muito doido e fazer merda... Todos têm seus motivos e justificativas para tal... E infelizmente levamos muito tempo para descobrir as ilusões todas que nos rodeiam... As ilusões que fortalecem todos os nossos demônios internos... A insegurança nos faz surtar quando não sabemos nada sobre o futuro... Ela mostra que não estamos tão tranquilos quanto achamos que estávamos... Ela revela o menino inseguro chorando em público pela impossibilidade de calcular o próximo passo, a próxima coisa a ser dita... Descobre que talvez não seja ainda tão paciente quanto pensava que era... E no fim, diz a coisa errada por estar assustado e sozinho tempo demais para querer correr o risco de ser desprezado... Desacreditado... Ou apenas tornar-se um amigo quando o desejo ainda corre célere no peito de um garoto sonhador...

Já não sei quanto a você, amiga. Mas eu estou bem, oh, chuva deliciosa que me faz companhia! Eu estou cada vez mais em paz com a minha decisão de continuar o show... Continuar vivendo e ajudando no que me for possível para que as esquifes desses medos possam ser superadas e destruídas... Para que o amanhã de um novo ser humano possa vir acompanhado de bondade, paz, esperança e entendimento... Onde a posse, a propriedade privada, as armas e a insegurança não significarão muito mais do que uma concha encontrada na praia... Você poderá carregá-la de um lado para o outro, mas no fundo terá o sentimento de que aquilo, tão bonito e especial, é na verdade pertencente a todos os seres que partilham conosco esse planeta... E assim também deve ser o coração de um homem e de uma mulher... Livre para amar...


VI - IV - MMXVII




https://www.youtube.com/watch?v=C7FS5sgSt5c
(Leviatã, animação - Inspirada na obra de Thomas Hobbes... Recomendo D+)

https://www.youtube.com/watch?v=ywMJEu8dddA
(1º de Julho - Cassia Eller -Vale a pena conferir a letra do Renato Russo...)


https://www.youtube.com/watch?v=PlrW9SUCINo
(Ulver - Themes from William Blake's The Marriage of Heaven and Hell - Full Album)