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domingo, 9 de abril de 2017

Os Espinhos da Invídia - Segunda Parte

(A Destruição de Leviatã - Gustave Doré, 1865)


II

CIÚME


Sabe que dia é hoje, amiga? Hoje é Domingo de Ramos, a comemoração do dia em que Jesus retornou à sua Sagrada Jerusalém depois de passar quarenta dias meditando no deserto. Lá ele se preparou para o combate que travaria contra um mundo antigo, contra tradições ultrapassadas de um judaísmo colapsante, contra o mal que afetava os seus contemporâneos... E certamente, contra o mal que habitava dentro de si mesmo, contra o medo de seguir a voz do Deus que clamava dentro de seu coração... Preciso confessar aqui que não concordo totalmente com Friedrich quando diz que o único cristão que de fato existiu foi o próprio nazareno. Acredito que Jesus Cristo era sobretudo um yogue, e acho que aqueles que estão dispostos a buscar o caminho da verdade dentro de si mesmo, chegarão a conclusões parecidas com o Messias no deserto... Fazer o bem e abdicar do próprio ego para ver o sorriso daqueles que amam... Para enfrentar a dor que é viver neste mundo e encontrar forças para lutar por um lugar melhor... Esse é o verdadeiro significado da compaixão... Creio que o mundo está cheio de pessoas assim...

Mas Nietzsche não odeia o Cristo, ele se repugna antes de tudo da Igreja, do Cristianismo, porque essa é uma instituição dos Homens, e pensada por homens que não seguiram o caminho do Jovem Galileu... Uma religião que deseja sobretudo o poder... Não preciso me lembrar que a entrada de Cristo em Jerusalém despertou a Inveja de muita gente poderosa... Afinal, o Domingo de Ramos representa a chegada da Esperança, onde os ramos das oliveiras sendo brandidas pelo povo trazem um novo alento àquelas pessoas assoladas pelas guerras, pelas formes, pela opressão do Império Romano e por toda a aridez da Terra Santa...  

Insegurança... Ciúme... Medo... O que os senhores do Judaísmo Ortodoxo naturalmente iriam dizer de um judeu que surge em meio ao caos para pregar uma mensagem de Amor, de perdão infinito, de cuidado com as pessoas? É claro que mataram, pois é assim que fazemos com tudo o que nos amedronta, que nos afronta, que nos mostra o quão errados estamos, que revela nossas fraquezas com palavras simples e carinhosas... A violência é um recurso de egos agonizantes tentando não morrer, pois cada vez que estamos errados, é preciso matar aquele eu que vivia tais crenças, pois ele não poderá coexistir com a nova pessoa que você precisará criar para habitar o mundo com um olhar completamente novo... Amar é difícil, meus amigos, e é por isso que desistimos nas primeiras pedradas que levamos no caminho... Nos esquecemos... Pois só há duas saídas possíveis: ou nos deixamos morrer junto com a nossa verdade imaculada... Ou precisamos nos afastar da mentira que nos mata lentamente todo dia...

Particularmente penso que Jesus é tão filho da Deusa quanto qualquer um de nós... Todos somos porta-vozes destes deuses que nos habitam... Alguns abrem melhor os seus chacras para poder ouvir, interpretar com mais clareza os sinais... Mas isso só faz Jesus parecer-se ainda mais conosco... Um humano, cheio de fraquezas, dúvidas, medos... E é por isso também que a Igreja queimou e negligenciou completamente inúmeros textos, inclusive o muito provável testemunho de Maria Madelena, que acompanhou o yogue no seu florescimento e cujas conversas certamente o ensinaram bastante, o tornaram um ser humano melhor... Pois não posso crer que nem o druida mais proeminente poderia ter aprendido tudo sozinho, meditando, sem se preocupar, sem ouvir o que os outros tinham a dizer; e se Ele pudia entender como Ela se sentia, é porque sabia escutar tudo o que Madalena lhe falava, porque a amava como uma igual... Então, pela primeira vez na História Ocidental, a Humanidade pôde eleger um deus que se sacrifica em prol dos outros, que sacrificou a sua própria vida para passar uma mensagem muito maior do que sua própria carne... Uma mensagem de amor...

Isso me faz lembrar uma estória mais antiga, quando Prometeu roubou dos céus o fogo dos deuses e ensinou a humanidade a caminhar sozinha, a se guiar pelas estrelas, deu-lhes a Astronomia, a Agricultura, a Astrologia, etc (Prometeu é foda!)... Quando o Todo-Poderoso Zeus (de onde vem a palavra Deus que os cristãos usam sem nem sequer refletir o significado) por pura inveja da empatia daquele Titã pelos humanos, uma raça fraca, inferior que merecia apenas ser castigada e subjugada para prestar homenagem aos seus superiores... Prometeu escolheu aguentar todo o castigo porque tinha esperança naquela humanidade, esperança que a conduziria lentamente à correção de tantos erros... Que talvez, um dia, muito distante, surgiria uma humanidade nobre, com homens e mulheres capazes de trabalhar juntos para corrigir os equivocos até mesmo desses tantos anos de dominação de deuses e religiões... Onde cada homem e cada mulher pudessem ser os sacerdotes e sacerdotisas de suas próprias casas, os alquimistas de suas próprias oficinas e ajudarem os próximos a forjarem lugares melhores para todos os habitantes deste paraíso que insistimos ainda em transformar num inferno...

Prometeu agonizou durante eras até que pudesse ser resgatado pelo filho do Onipotente que o prendera... Hércules, assim como Jesus, aparece para desfazer rancores antigos, para dizer ao mundo que ele precisa mudar, dizer a todos nós de que é preciso questionar as tradições, quebrar as correntes que nos prendem aos corvos que dilaceram nosso fígado... Para nos renovar a esperança nos heróis, nas pessoas que amamos, e por quem vale a pena continuar lutando para nos redimir de tantos pecados cometidos por nossos antepassados... A esperança de não cultivarmos uma vida tão sofrida (como nossos pais) para nós e para as futuras gerações...

Hércules foi sem dúvida o filho mais proeminente de Zeus, e de quem sua esposa mais teve ciúmes... Por isso ele foi consagrado a essa deusa... Hércules ( Ἥρα = Hera + κλέος = Gloria) em grego significa "A Glória de Hera", certamente Alcmena quis apaziguar a raiva da Mãe dos Deuses, porém, sabemos que não foi o bastante... Embora a Primeira Dama do Olimpo tenha atazanado a vida do herói durante toda a sua jornada, o trabalho que nos traz de volta a Leviatã é o Segundo... Lá o Filho de Zeus precisa liquidar a famigerada Hidra de Lerna... Uma serpente gigante que duplicava suas cabeças cada vez que o herói esmagava uma... É dona de um hálito venenoso que mata os homens apenas de abrir sua boca, até o cheiro que deixa em seu rastro é capaz de provocar uma enorme agonia. Segundo a tradição, esse monstro foi criado por Hera para matar Hércules, quando a Deusa percebeu que o herói iria finalmente vencer o veneno de sua inveja, mandou um pequeno caranguejo para ferir os calcanhares e distrair Hércules. Sabendo que o inimigo era muitíssimo maior e mais forte, o confuso caranguejo por amor a sua deusa (Hera, deusa da maternidade, portanto, mãe de todas as criaturas), irrompeu contra o herói e a distração quase custou a sua vida. A missão de matar Hércules é descrita com tristeza para o Caranguejo... Mas é assim que a Mitologia Grega da origem à Constelação de Câncer, pois Zeus, admirado com a coragem do crustáceo o elevou aos céus para sempre nos lembrarmos que um amor verdadeiro não maltrata, não deixa espaço para o ciúme doentio tomar conta (tudo bem que esse tal de Zeus era um escroto neh! não serve de exemplo pra nada aqui nesse blog), não se inflama de ódio, não machuca quem ama e não tenta destruir a vida das pessoas. Desde então, aqueles que nascem sob o signo desta constelação, nascem para amar além de tudo, amar e cuidar de tudo o que existe de bom sob esta terra...

(Vaso grego pra vocês não dizerem que é minha mintira, tsc)

Segundo tradições e lendas baseadas no Talmud, Yahweh teria criado o Leviathan juntamente com uma Fêmea no Quinto Dia; outras lendas ainda dizem que estes dois animais seriam duas das criaturas primevas, ou seja, que existiam antes da criação do Céu e da Terra (sim, os textos antigos sempre são contraditórios e abrem espaço para todo o tipo de devaneio). Segundo as mesmas lendas, Jeová teria matado a fêmea do Leviathan para que estes não procriassem e destruíssem o mundo (esse povo de Deus inventa cada coisa doida, neh?), deixando apenas o macho para nos infernizar, hahhaha! Na Bíblia também está descrito que Deus enviará outro de seus demônios para ajudar o Arcanjo Gabriel no Apocalipse, ou seja, na Batalha Final que decidirá o desfecho da Terra... Gabriel não conseguiria sozinho, por isso Javé mandará o Behemoth, um demônio que representa o poder do deserto, em antítese para o poder da água, do oculto, das profundezas do Oceano... Nessa batalha os dois demônios acabariam sendo destruídos, um anularia o outro... Por fim Deus servirá a carne do Leviatã aos justos, ou seja, aos que sobreviverem ao combate final... E com a pele ele fará uma grande tenda para servir o banquete... (Ainda bem que daqui pro final dos tempos a humanidade já terá percebido que não vale a pena comer carne, ainda mais a carne de um demônio que é descrito tão desgraçadamente, ói... acho que é melhor fazer jejum no Juízo Final vú... Vai por mim, vocês não vão querer comer esse troço... hhahah)

E é aqui onde os meus pensamentos se entrelaçam no embaraço de tanta confusão... Existe muita informação que se correlaciona neste imenso quebra-cabeças que é a vida... Não sabemos como e nem porque, mas ao que parece todas as coisas que lemos, que ouvimos, e fazemos parecem fazer parte de um imenso código que precisamos montar para dar sentido à nossa frágil existência... Não posso dizer que não tenho ciúmes de você, amiga... O que sei é que tenho ciúmes da sua meia calça nova... Tenho ciúmes de todas as suas bolsas de viagem às quais não poderei te acompanhar... Tenho ciúmes de seus cabelos esvoaçando em ventos que não trarão o teu perfume ao meu olfato tão sedento do teu cheiro... Mas certamente, não tenho medo de que isso consuma a minha alma... Tenho um Hércules que habita dentro de mim, lutando para me redimir de meus pecados mais antigos... Ostentando ainda uma esperança faminta de ser feliz...

Agora, arranco eu o meu ramo santo de oliveira... E sigo a procissão do domingo perene de minha alma... Para exterminar mais e mais bestas que me impedem de ter alguém especial como você, de ser de alguém tão especial quanto você... E nestas distâncias eu encontro muitas respostas para as perguntas que me afligem... Você me diz, mesmo sem o saberes, os versos que ainda faltam no meu imenso poema tortuoso... Aguardo agora a chegada da Páscoa, dos ovos de chocolate, dos coelhos felizes fornicando em celebração à vida... Uma época onde nenhum Medo poderá furtar qualquer coisa que ainda esteja guardado para quem tenta com todas as suas forças, se transformar a cada dia... Criar asas coloridas como as borboletas e sair voando por ai para amar o mundo sem nenhum impedimento...


IX - IV - MMXVII


https://www.youtube.com/watch?v=kTzrA7YgUi0
(Um Certo Galileu - Padre Zezinho...  Sim! É para vocês se lembrarem dos domingos de sua infância, quando a sua avó ou aquela vizinha ligava essa música de manhã pra fazer a comida... Garanto que se vocês abrirem o coração, vão sentir alguma coisa boa, um alento, uma esperança, ou quiça uma revolta contra a crueldade dos humanos... De qualquer forma... Não tenham medo... Não tenham medo de se permitir...)




segunda-feira, 27 de março de 2017

As Rosas do Cólera - Terceira Parte


III

VAZIO



O ódio é a chama descontrolada que devasta a floresta... É o descuido do caçador de primeira viagem; ou da colonia imatura de férias, que espalha seu lixo por todo o mundo selvagem, sem se preocupar em quantas vidas irá queimar com o descuido de atirar seu cigarro aceso sem pensar... E assim, sem refletir seus próprios erros, sem rever suas ações, você permite que essa raiva queime tudo, toda a floresta de suas palavras tornam-se a aflição de uma fumaça negra que trará a próxima chuva tóxica... E você será o último sobrevivente de um lugar deserto, pois terá afastado de você todos os seres que ainda não matou... E lá permanecerá por milênios, sentado sozinho sobre o vazio cinza do mundo que o seu ódio cego destruiu...

O pior deste vazio é não ter mais nada nem mesmo para poder odiar... E no fim vem o pior de todos os ódios... O ódio que você sente por si mesmo... O ódio que te impede de sentir amor pela célula de ligação mais importante com o todo... Sua alma... A única individualidade que lhe permite perceber o amor existente em todas as coisas do Universo... E ai o seu ódio se derrama na necessidade de possuir... De ver no outro a salvação para o seu imenso nada queimado... E ai tudo te irrita, passa mal nos ônibus lotados e xinga o motorista; deixa a gula tomar conta do mal humor de um estômago dolorido; ou a preguiça que não te permite saltar da cama para enfrentar um mundo que agora você acha horrível... Começa a perder a empatia pelos outros seres vivos... Quer odiar até as formigas que te impediram de dar mais um abraço na pessoa que você gosta... Centenas de formigas penetram a casca da sua blusa e te picam vorazmente até você chegar ao banheiro e querer matá-las todas... Mas ainda há esperança, meus amores... Você ainda pode escolher o certo e respirar mais um pouquinho, enquanto tira todas elas com o máximo de cuidado para que possam ter a chance de viver mais um tantinho e ajudar sua floresta a crescer de novo...

Consigo me lembrar de todas as vezes que senti uma cólera extrema crescer como uma rosa de fogo devorando minhas entranhas... Me lembro de três ou quatro dos narizes que sangrei; da pedrada quebrando dois dedos da mão do meu amigo; me lembro de pisar na cabeça de outros meninos tão frágeis quanto eu... Me lembro gloriosamente de todos os caras mais velhos, mais altos e mais fortes e robustos do que eu... Me lembro de ver a cara de desespero deles todas as vezes que o meu ódio revelou minha loucura e eu quase os matei... Me lembro do carinha repetente da oitava série que vinha me perturbar na 6ª série de um verdadeiro inferno em escola pública; quando me bateu com seus braços musculosos e eu só pude apanhar indefeso enquanto esperava o primeiro vacilo para libertar os cães da minha Vingança... Levantei a sangue frio do chão onde ele me chutou, esperei que me desse as costas, vitorioso... Lembro-me com um certo êxtase que até hoje ainda me arranca um sorriso... A tábua da carteira solta que eu já conhecia, havia o lado do parafuso e o lado liso...(sim, eu tive tempo para escolher...)... Ele se sentou para conversar com as "novinhas" da minha sala... Houve rapidamente um giro de pelo menos uns 190º, onde usei a rotação do meu torso para desferir um golpe que eu sabia que não seria fatal, (sim, eu poderia tê-lo matado se tivesse escolhido bater com quina da madeira) mas eu bati com a parte lisa, bem chapado no lado direito da cara dele! Ele caiu no chão atordoado, permanecendo lá enquanto desfrutávamos de um silêncio sepulcral; nesse momento ele olhou para mim e tenho certeza que viu nos meus olhos um ódio vivo que só se apagaria se ele me matasse naquela hora...Hahaha! Como não teve coragem, preferiu me caguetar para a diretoria...

Assim é quando penso nos dias de minha infância solitária... Cheio de glórias e fracassos, tantos que parecem ter me ocorrido em outra vida... Mas a criança também carrega milhares de traumas... E o ódio ao mundo dos adultos... Quando não tínhamos dinheiro suficiente e minha mãe deixava o meu cabelo crescer bastante antes de mandar cortar... Houve uma época onde eu cortava no sindicado dos rodoviários daquela cidade... Lá, um dia sem mais nem menos, o cara que cortava cabelo resolveu acariciar o pau de uma criança indefesa que nada sabia ou se interessava por essas coisas... Não posso descrever o horror, o medo, a vergonha daquele ato grotesco que certamente ficaria impune... Pois eu jamais teria revelado isso se não fosse pela insistência de vocês, senhores... De todas vocês também, senhoras malvadas que não escutaram meus silenciosos gritos de socorro... Que não deram a mínima para tentar entender como o bêbado e louco se equilibravam na corda bamba de tudo o que sentiam por dentro...

Talvez vocês nunca venham a saber o que significou pra mim... Ter aquela mão magra e infecta sobre o meu nervo miúdo... A eternidade que durou aquele corte de cabelo, enquanto ele roçava os dedos maliciosamente no meu rosto, pousava o pente sobre o meu colo para disfarçar o que realmente estava fazendo... As pessoas as vezes apareciam do lado de fora da sala, mas eu não pude fazer nada, não tive reação sobre aquele ato vil... Ninguém viu a minha cara de sofrimento... E depois a corrida, a fuga, o ódio descarregado naquela poça de lama, sozinho na rua de barro atrás do Centro Comercial de Itabuna... Um lugar horrível onde a urbanização desorganizada coloniza as pessoas... Lá eu senti um ódio  inominável contra a humanidade... Naquele momento eu odiei todas as pessoas que existiam no mundo, porque ali eu sabia que não poderia confiar a ninguém o segredo daquele meu ódio... Todos, absolutamente todos teriam reações que me magoariam enormemente... Ririam de mim, me chamariam de viado, baitolinha, diriam que eu gostei de ter sido molestado... Mas o pior, eu temia ainda mais a minha mãe; eu temia que ela realmente matasse o cara... Mas confesso que temia mais por ela, porque eu sabia que muito provavelmente ela seria encarcerada como louca pelo resto da vida... E depois, sempre teria vergonha de olhar nos olhos caprinos dela... Ao mesmo tempo em que me enchem de ternura e amor, me enchem também de medo... Um medo terrível, como se ela pudesse ler toda a angústia em minha alma...

Eu posso jurar que quis matá-lo eu mesmo, pensei que se tivesse pelo menos uns 17 anos, teria força o suficiente para perfurar o coração dele com uma faca... Era verão, eu tinha acabado de completar 09 anos, achava o mundo infinitamente mais lindo do que acho agora... Mas eu conhecia os caras de 17 anos... Eles eram mais fortes e mais ágeis do que eu, era difícil xingá-los e sair ileso... Eles também tinham uma malícia muitíssimo aguçada... Eram traiçoeiros e vingativos e preferiam nos emboscar na surdina... Mas eu era rápido e inteligente... O segundo mais veloz da minha rua... Pensei então que uma facada pelas costas, mais ou menos na região do pâncreas (sim! eu lia os livros do Ensino Médio de meus irmãos) serviria para que ele nunca mais fizesse aquilo com ninguém... Afinal... por todos os demônios, eu tinha forças para perfurar a carne de um homem por baixo das costelas... hahahahahah! Eu só teria que descer até a feira e roubar uma faca grande de um dos barraqueiros da rua das facas... Essa era a parte mais difícil, pois eu iria tomar surras inimagináveis se fosse pego roubando (por isso eu era muito cauteloso nos meus planos de roubos)... Então eu escolhi comer calado aquele ódio ignorante, passei a odiar a mim mesmo por aquela impotência, aquela impotência desastrosa de não poder mudar nada sobre aquele sentimento... E daí, o ódio pela sociedade só me tornou um cara mal, auto-destrutivo, machista, homofóbico e muito, mas muito nocivo às pessoas que tentaram se aproximar de mim... E aqui estou, oh leitores iluminados, vagabundos de toda a sorte, venho lhes pedir essa ajuda!!!

Gostaria mesmo de poder explicar melhor a você, amiga, a razão de toda a minha calma ao caminhar sozinho pela rua hoje em dia... Mas além da minha vontade oculta de desafiar a vida, de querer encontrar a morte e olhá-la tete a tete... Existe também em mim o orgulho soberbo de um sobrevivente... Na hora que você subestima a minha força, até penso em te dizer como parte de mim se sente feliz em saber que derrotei muitas vezes a macheza e a brutalidade do mundo masculino... Que enfrentei valentões maiores do que eu e os venci com a minha sagacidade, e um pouco da ajuda da natureza, é claro! (Sim! Estou falando de pedras, paus, um ou dois punhados de areia, água; ou qualquer outra coisa que a Mãe proveu para que este moleque franzino pudesse maximizar os danos infligidos na maquinaria da masculinidade...)...  Mas quase que imediatamente, outras partes de mim sentem vergonha e dor ao pensar em todas as pessoas que já machuquei... Nas mães, pais, irmãos e namoradas dos garotos que chegaram em casa depois de uma briga comigo... Fico pensando no ódio refletindo a cara inchada frente ao espelho, tentando compreender ainda os erros cometidos na noite passada... Eu sei... Porque também passei por isso... Também passei pela humilhação de perder inúmeras brigas; de levar chute na cara, de estar indefeso no chão; de quase morrer por uma pedrada que raspou de perto a tintura do meu crânio; de ter que esconder as escoriações da minha mãe para que ela não se intrometesse nas minhas batalhas... Da impotência de nada poder fazer para mudar a minha situação a não ser engolir a humilhação e esperar o corpo sarar... E ai então, esfriar a cabeça e tentar preencher aquele vazio aprendendo novas e melhores maneiras de continuar lutando...

Todo esse fogo consumiu os meus dias como um dragão sem rumo... Num mundo onde as guerras e os caçadores mataram todos os outros dragões que pudessem me fazer companhia neste céu onde eu voo sozinho... E eu sinto esse amor tão imenso e me calo... Sou sempre obrigado a deixar de amar quem me interessa... E o meu Vazio me diz que é porque eu sou amaldiçoado... Ninguém deveria ser obrigado a deixar de gostar de alguém... Principalmente eu, que sei que o meu amor é um Dragão Alado! O último do meu mundo... (Triste! Como naquele filme que o Dragão tem a voz do Miguel Farabella, rs)... Ele vagará este céu nublado à procura de alguém que o compreenda... Que o aceite como é... Está farto de ser considerado um monstro, de ser caçado, de ser desajeitado, de destruir, de queimar as pessoas que ama... Por isso ele voa sempre para mais longe, ele vai em busca de sua Ávalon eterna... No momento, enquanto não acha esse caminho secreto, ele apenas voa! Quem sabe ainda na esperança de tornar-se uma estrela dourada a navegar o negrume da Constelação de Câncer? A verdade é que, no íntimo de suas escamas, este Dragão se sente perdido, fugindo de uma humanidade monstruosa que insiste em ignorar a face de seus próprios vazios no espelho...


XVI - III - MMXVII.



Por muito tempo houve segredos em minha mente
Por muito tempo houve coisas que eu deveria ter dito
Na escuridão eu estava cambaleando até a porta

Para encontrar uma razão para achar o tempo, o lugar, a hora

Esperando pelo sol de inverno e pela fria luz do dia
Os nebulosos fantasmas dos medos da infância
A pressão está se formando e eu não consigo me afastar


(Refrão) Me jogo para dentro do mar
Libero a onda, deixo ela me levar
Para encarar o medo, certa vez acreditei
Que as lágrimas do dragão eram para mim e para você


Onde eu estava, eu tinha asas que não conseguiam voar
Onde eu estava, eu tinha lágrimas que não podiam chorar
Minhas emoções congeladas num lago de gelo
Eu não conseguia senti-las, até que o gelo começou a quebrar
Eu não tenho poder sobre isso, você sabe que tenho medo
As paredes que construí estão rachando, a água está se movendo
Estou sendo levado


(Refrão) ...

Lentamente eu acordo, lentamente me levanto
As paredes que construí estão rachando
A água está se movendo
Estou sendo levado

(Refrão 2x) Me jogo para dentro do mar
Libero a onda, deixo ela me levar

Para encarar o medo, certa vez acreditei
Que as lágrimas do dragão eram para mim e para você...

(Tears of the Dragon - Bruce Dickinson, Balls to Picasso, 1994.)
https://www.youtube.com/watch?v=D_8epbz-qZ8




Ps: Para quem tiver mais interesses em traumas infantis decorrentes de abusos sexuais. Queiram ver este documentário... Os Monstros de Minha Casa... É com legendas em espanhol mas garanto que não será menos chocante e revoltante por isso...

https://www.youtube.com/watch?v=nq_i0uLyoOQ