quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A Escuridão Que Precede A Primavera, IV


IV



- E ai! Já vai botar seus óculos de sol?

É o que fazem as piadas a respeito do meu novo rosto... Coberto pela vergonha de não saber... De não fazer realizar minhas expectativas em relação ao mundo de que tento me esconder... Ando na rua e atraio a atenção desnecessária para mim... Aquela atenção que as pessoas dispensam de seus próprios egos, de suas próprias carências individuais, só para poder criticar os outros... Criticam porque alguém teve a coragem de andar fora da linha... De realizar o aparente impossível... Afinal, alguém tem que criar novos dragões...

De muito me perguntam... Perguntam se consigo enxergar... Se é alguma promessa... Qual é o objetivo disso tudo?

Ah! Se eu por um acaso mesmo soubesse! Seria tudo mais fácil...

A verdade mesmo é que não sei... Tenho raiva de quem sabe... Mas minha mente febril vive a fabricar explicações... Diz a alguns que é para treinar os reflexos... Me tornar mais ágil... Mais equilibrado... De fato a deficiência temporária da visão já me mostrou que é necessário redobrar a atenção deitada sobre os outro sentidos... Ou seja, não é que milagrosamente sua audição se expanda... Mas sim, você passa de um pobre ser humano distraído para alguém que presta mais atenção ao que escuta, cheira, pisa, alisa, sente... Deseja...

Como chegar em algum lugar, por exemplo...

- Aonde você quer chegar?

- Eu não consigo compreender!

Mas enfim...


Já pensou? Com todas essas árvores sendo destruídas... Com todos os pássaros que já entraram em extinção por causa do avanço incauto desta sociedade consumista e inconsequente?

Bom... Talvez, quem sabe, eu esteja apenas lançando uma nova moda para o futuro... Sem tantas árvores para nos fornecer sombra fresca... Só nos resta lambuzar-se de protetor solar... O que meleca tudo e é um horror... 

Ou podemos lançar um lenço fino sobre a cara e proteger nossos olhares do Sol escaldante... Podemos até transpirar um pouco sobre o tecido e assegurar que este suor não seja em vão... Que não evapore inutilmente ou sirva apenas de aderência da poeira e eventuais sujidades desta cidade tóxica...

Um pano que guarda este suor bendito do esforço que galgo a todo dia para me fazer valer a pena... Uma moda bonita, rica em nutrientes, sais minerais que ajudam a conservar a pele, refrescar, resfriar a máquina de pensamentos... 

Depois é só lavar no final do dia... Usar uma outra cor no dia seguinte...  E tudo fica de boa... Cool... Chill out...

Mas isso é claro... Apenas para um futuro nuclear que acabaria com os dias nublados... Que extinguiria as nuvens de chuva do ar... Que exageraria no calor escaldante... Ou nos presentearia com raios gama e ultra violeta da pior qualidade...

Não quero que esta moda pegue... Quero apenas me esconder um pouco de vocês enquanto peregrino pelas ruas em busca de mim mesmo...

Farewell...

XXX - VIII - MMXVII.


*Imagem: Davos Hanich : La Jetée (Chris Marker, 1962)

domingo, 27 de agosto de 2017

A Cegueira da Terra, II



II


Hoje foi um dia meio apagado... Apesar de tanta luz lá fora... Habitando outros corpos... Sorrindo... Hoje foi um dia que só quis mesmo dormir... Me entorpecer... Desligar a parte racional do Cérebro... Rir de qualquer coisa... De nada... De tudo... Da minha desgraça... Da desgraça humana... Dos equívocos humanos... Das tentativas de ser feliz... De fazer tudo o que quer... Sem impedimento... Sem ameaças de loucura... Sem lembrar da gravidade... Tudo isso junto concentrando a vontade de fazer direito... De usar a única chance que tenho por garantia... A vida...

Pois eh... A vida! Talvez seja uma única cartada atirada sobre o tabuleiro...

A única chance de tentar um Az... Sobre O Blefe... A seta atirada contra aquilo que tenta a todo custo nos fazer desistir e não acreditar mais nas ciladas que muitas vezes nós mesmos cavamos pra si... Pra nos resgatar a nós mesmos do buraco das acomodações... Dos medos... Pra nos tirar daquela zona de conforto que construímos para evitar sofrer ainda mais... Mas que pobre garantia nós temos de não estarmos construindo outras prisões?

Ou Você Também Pode...

Acreditar, por exemplo... Que talvez aja uma pessoa que seja inesquecível. Sabe, daquele jeito? Tipo... Daquele jeito que te faça, apesar de todo sofrimento, sentir um alívio de pensar que talvez ela proporcione algo tão gigantesco (um sentimento) que te polparia de passar aquilo de novo por outra pessoa... Que exista algo tão forte que te cegue ao ponto de você precisar descobrir dentro de si um olho ainda maior... Um olho invisível que te permita perceber que tudo é infinito do jeito que é... Infinito ao ponto de gritar dentro de si dizendo... 

A busca acabou! Hoje eu senti o Infinito ardendo dentro de mim...

Sim! Eu sou um pregador do Evangelho do Infinito!

Um Evangelho que manda dizer aos mais altos pontífices que reconheçam a suprema humanidade de Jesus... Que reconheçam que também Mohamed, Sidarta, Lao-Tse e tantos outros são igualmente outras células finitas deste Deus Infiníto que, mesmo possuindo todos, não há nenhum nome que um mero ser humano poderia dar...

E tampouco fala conosco exclusivamente por meio de signos tão frágeis quanto as palavras... Pois... Se digo todas estas blasfêmias pela inspiração do Diabo (Quem criou o Diabo se não este mesmo Deus Infinito e Onipotente?), então por que todos os infames adoradores do medo não me entendem? Acho que Deus fala através de mecanismos diferentes, para células diferentes de seu maravilhoso e inimaginável corpo... 

Perdoe-me Mãe, pois pequei...

Só queria dormir e me esquecer de tudo isso... E este é o meu maior pecado... Renegar toda a dor que me permite recriar estas coisas... Estes sonhos... Estes deuses... Estas explicações para angústias tão transformadoras quanto as minhas...

Perdoe-me Mãe, pois pequei...

Não sabia que a senhora era a paridora de todas as estrelas do Universo... Não sabia que era esta força que me amparava no sorriso das flores que pouco a pouco começam a despertar com as canções vibrantes dos passarinhos... Estes jovens passarinhos que voam em rasantes tão poderosos que, até um pobre homem ignorante como eu, consigo ouvi-los quando fecho os olhos por muito tempo e penso... 

Quem sou eu senão isso tudo que está acontecendo agora?

XXVI - VIII - MMXVII

sábado, 26 de agosto de 2017

A Cegueira Da Terra




I



No meio do terreiro a figura mascarada dança... Os olhos cerrados por detrás da máscara se familiarizam com todo o espaço... Tem por extensão de sua retina, os pés... Os vultos tortuosos que pode observar com rápidas aberturas das pálpebras... Confia no movimento interno de suas estrelas... Tudo o que lhe possa permitir que dance sem prejudicar ninguém... Mas sempre na defensiva... Existe um índio louco querendo lhe atrair pro meio da roda... Ele é um grande guerreiro... E sua pesada pode ser fatal... É preciso fazer com que ele dance... Que esqueça que aqui dentro de mim há também um espírito pronto para a luta... Não gosto de brigar... Prefiro usar toda a minha destreza para a dança... Para não machucar ninguém... A dor não pode permanecer no mesmo conjunto das belezas cultiváveis... Dor não pode mais rimar com o tipo de amor que ainda sonho para mim...

A roda... A fumaça... A brasa... Doce encanto dos batuques fechando a Mata Inteira... Todos os sons que sibilam revelando a revolta intensa sacudida em meus maracás... Precisa se controlar Índio Guerreiro... Se contenha pra não falar bobagem...

Mas sabe o que é pior?

Acho que te deixo aflita, pequenina, porque sabes que posso até falar demais, mas não abro a boca para proferir palavras aleatórias da boca pra fora... Tudo que transa nos meus lábios são pensamentos remoídos dentro da escuridão da noite e do raiar de muitos dias de inquietude e filosofia solitária...

Como esta... Como aquela... Como tudo que deitei em vão aos olhos de quem não me queria... Tudo o que não posso agarrar com a mão porque o destino fez voar para longe deste ninho amaldiçoado que ofereço ao léu das ondas fugidias... Não corram de mim, não fujam assim passarinhos... Sou apenas uma pedra cega atirada na noite... 

Já não posso acertar ninguém...

XXVI - VIII - MMXVII 


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Escuridão Que Precede A Primavera, III





III




- Oi! É pesquisa social?

- Hã?

- Queria saber se você está usando isso para perceber a reação das pessoas...

- Ahhhh!

Hoje eu senti como se tivesse nascido com isso... Parece que a escuridão cobre o meu rosto desde o dia em que fui concebido... Passo pelas ruas e o espanto dos dias anteriores parece não se repetir com a frequência habitual... Ao que parece... As pessoas também se acostumam com a loucura dos outros... Afinal... Toda loucura é absolutamente normal... E eu... Com uma porcentagem de vista muitíssimo reduzida... Pareço parte da escuridão que me acompanha... Meus reflexos estão melhores... Minha audição está mais atenta... E meu propósito está cada vez mais claro neste mundo... Eu preciso experimentar as coisas que outras pessoas não se darão ao trabalho de fazer... Os meus olhos arrancados tem sua própria importância no mundo...  São os olhos que estão por trás deste texto simples... E tenta dizer ao mundo o seu propósito desproposital...

A verdade é que talvez... Talvez eu esteja usando essa tarja preta apenas para me esconder do mundo... Para que apenas alguns poucos saibam que por debaixo dos panos se escondem os olhos que não quero mostrar a ninguém... Se esconde um garoto muito especial... Muito encantador... Mas de olhos tristes... Tristes de não ter jeito... Por aqui eu reflito todas as coisas que parecem não ter solução... Aqui eu viajo através dos anos que já se passaram... E talvez dos que virão... Será que alguma coisa vai mudar??? Será que há alguma chance de entender o que está acontecendo??? Por quê??? Gostaria de entender porquê fui considerado insuficiente... Porquê fui rejeitado... Porquê tudo o que tinha aqui dentro foi escorrendo e se misturando junto com o chorume da lixeira... 

Me sinto uma peça descartável que não cabe na parede da memória de ninguém...

Mas nem tudo é esse drama todo... Ao passar na rua... Há dezenas de pessoas que não me conhecem, mas se intrigam com aquela figura calada e solitária... Alguns dão risada... Alguns me amaldiçoam... Mas sou igualmente significativo para todos... Porque sou eu que ponho aquele véu que a sociedade renegou...

E no fim das contas... Hoje eu fui visto por uma criança... Um pequeno garotinho... Que disse da maneira mais maravilhosa do mundo o quão sou importante para alguém... Ao me ver de perto ele disse num grande fôlego:

- UÁAAAUUUUU!. - E só...

Isso me bastou para saber que no fundo daquele coraçãozinho eu sou o Super-Herói que sempre sonhei... Pois eu realizo em mim meus pequenos sonhos infantis e continuo lutando conta o mundo inteiro para tornar real meus sonhos de gente grande... 

Obrigado a você, pequenino, por me fazer acreditar que eu sou real... 





XXIV - VIII - MMXVII

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A Escuridão Que Precede A Primavera, II



II



Ontem eu quase torci o tornozelo... Hoje eu dei em cheio com a cara em um poste... Mas não tem revolta não... Tenho tido mais tempo para olhar para dentro de mim mesmo... Tenho passado mais tempo com as pálpebras cerradas...  E tenho mais forte a certeza que as pessoas não estão de fato interessadas em entender as outras pessoas... O que elas pensam ou sentem... Acho que a maioria das pessoas da Terra só querem ver o outro como uma extensão de si... No pior sentido da coisa... Elas não querem ver no outro aquilo que não teriam coragem de fazer... Elas não querem ver no outro aquilo que julgam supérfluo ou tolo... Elas definitivamente não querem ver no outro a verdadeira face da incerteza e da incompletude que também carregam...

Às vezes ouço:

- É cada viadagem viu!

ou:

- Vou dar um pau na cara dele pra ver se ele enxerga!


Tenho vontade de gritar!!! - Vocês já pensaram como seria se amanhã vocês acordassem completamente cegos? Já pararam para pensar que não conseguiriam se virar enquanto não aceitassem suas novas limitações? Que não conseguiriam andar um palmo a frente do próprio nariz sem perceber com calma a existência dos outros sentidos? 

- Seus tolos, covardes! Vocês vivem numa cidade de merda, num país de merda, num mundo de mentira... Onde todos fingem tanto não enxergar tudo de errado que está a nossa volta... Fingem tanto que acabam acreditando de verdade em toda essa babaquice que os Homens do poder enfiam através de nossos orifícios globulares todos os dias...  Nós estamos sendo escravizados pelos nossos sentidos e estamos sentido pouco porque não sabemos o real potencial do sentir... Somos pobres empobrecendo ainda mais nossa infinita capacidade de amar...

Mas não consigo dizer nada porque nada disso faria sentido...

O nome disso tudo é medo... Temos medo de nossa imperfeição... De nossa irresponsabilidade para com o outro... Temos medo de amar as decisões dos outros como se fossem nossas... Temos medo de aceitar, porque aceitar as coisas, na maioria das vezes, prova que estamos errados, ou que estivemos errados em relação a determinados assuntos... E o Ego se prende a toda certeza só porque ele acha que estar errado é o mesmo que morrer...

Mas o que é morrer? Você sabe? Alguém sabe?

Talvez morrer seja apenas mudar de perspectiva...

Talvez seja apenas enxergar o mundo de outra forma...

Talvez seja apenas voltar os olhos para a Terra...

E não depender mais de algo tão frágil para ver...


XXIII - VIII - MMXVII

terça-feira, 22 de agosto de 2017

A Escuridão Que Precede A Primavera








I


Já te ocorreu alguma vez que tudo o que existe surgiu da mais completa escuridão? Não? Mas como, se nos esquecemos que as coisas funcionam como um grande relógio inacreditável que não conseguimos ver? Nós temos infra-vermelhos, temos ultra-violetas... Mas não podemos sonhar de ter todas as outras infinitas cores que nem sequer poderíamos imaginar... E sendo assim que meus olhos se tornam mundos inabitados... O inverno foi tão frio e calado que meus olhos adormeceram e quiseram desistir de poder ver qualquer coisa... Hahaha! Mas isso certamente é impossível... Pois se existem infinitas cores... Saibamos que há também outras infinitas formas de ver...

Do mesmo modo, antes de tudo havia o Caos... E muito antes da incrível invenção de nossa tão soberba Sabedoria Humana (Ciência; Magia; Religião; Espiritualidade; Astrologia; História; Arte... Quer Infinitas que Sejam...), este mundo que demos o nome de Terra foi criado, por alguma razão, para ser um planeta (errante como os gregos e todos os outros antes e depois de nós, seres humanos). 
E se meu olho é um planeta... Não adianta eu abri-los para errar antes de visitar o que há por dentro... Antes da massa ígnea que ilumina cada centro de gravidade... Cada vestígio de luz que se condensara em matéria... Tudo isso precisa de uma luz que vem de dentro... E que é preciso muito exercício para que possamos ver... Irradiar... Iluminar...

Já lhe ocorreu que vivemos o tempo todo muito distraídos??? Como se o deserto de flores venenosas que plantam a nossa volta já não nos afetasse mais... Como se todas as árvores e flores que purificam um pouco nossa visão ...

(.) já tão judiada do dia-a-dia e da escravidão do nosso tempo (.)

                                                                                                          ...estão sendo exterminadas??? E nós fingimos que não somos loucos só porque não imitamos os mendigos, as crianças, os loucos, os personagens de desenho animado??? Por quê? Por que nos julgamos humanos melhores do que eles??? Do que estas representações mais máximas da pureza e da sinceridade dos sentimentos humanos?

Que tipo de Louco é Você?

XXII - VIII - MMXVII

domingo, 30 de julho de 2017

A Luz De Leão ou oãeL eD zuL Á





Acordei cedo embrulhado em outra cama... atravessei a cozinha da casa e fui acordar meu amigo... despedi-me da amiga que dormia também na sala... cumprimentei o homem que lavava a moto ao sorriso de sábado de manhã e rompi feito um feixe de luz pelo portão amarelo... Fazia frio mas o Sol reluzia um charme garboso e todo inflado como se nenhuma tempestade tivesse acontecido... Eu caminhava sob olhos do Leão.
A estrada até minha casa foi alegre... Travessia traçadora de planos... Calculando as matemáticas das imprevisibilidades porque no ontem não imprimi o poema que acompanharia a marmita de sonhos que embrulharia logo mais naquele pano de bolinhas... Hahaha!, Eu sei que as vezes o que eu digo não faz o menor sentido para vocês, meus maltratados leitores... É que não é pra fazer mesmo... Concluam qualquer coisa... Ou melhor... Imaginem porra! Vai ficar gostosa a imagem que vocês mesmos derem para esta cena...

Ao chegar em casa, após um banho termal delicioso, desembrulhei os melindres dos cuidados em que meus sentimentos envolveram aquele singelo presente... Uma máquina de escrever de mentira... Aquela que não dá vida a nomes de pessoa, mas que faz vibrar o seu nome na estrela mais distante na infinita noite do meu céu observável... Dei corda... Torci o máximo que pude o bichelenguinho para que a música tocasse infinitamente por alguns segundos... Torcendo também para que aquela porra não quebrasse... Pois seria o limiar do meu drama, ou início de outra tragédia que daria fim a toda civilidade clássica de meu pathernon exibido... Bom... Pela deusa, não quebrou ainda, eu acho...

Havia marcado ainda dez pras oito no relógio... Precisava fazer o corre da impressão... Mas primeiro, ainda dava para rapar um último camarão dos mais bonitos que havia guardado dentro da caixinha... Sobraria o suficiente para mandar para o alto a mensagem secreta de fumaça que dirá ainda no seu subconsciente tudo o que ainda sou capaz de fazer pra te convencer de que digo a verdade... Para você só a verdade... Pelo menos toda aquela que poderia proferir sem lhe causar nenhuma mágoa... (ah, minha pequena... Como queria realmente ser forte para não desejar te dizer mais nada... Mas seria mentira se dissesse que não quero... Pois quero gritar pra ver se tu me ouves daqui... Mas não vou... Não quero ser internado hoje...)

Bolei o beck pra fumar na estrada... Decidi tentar a Escola de Arquitetura, lá poderia ter uma impressora, neh? Negativo, tudo fechado, alunos não tiram xerox dia de sábado... Desci, me deparei com um gordinho subindo as escadas. – Você sabe por onde posso descer, aqui ta fechado o portão – Me pergunta ele. Antes que eu dissesse qualquer coisa, outro indivíduo me poupou alguns segundos. – Ah tem outra escada ali do lado. – Ouvia isso já descendo com uma voz quase satânica na minha cabeça, dizendo: - Esse portão não é NADA para você, meu lindo... Você pula em dois movimentos, com certeza... – Então eu pulei, na verdade dei uma escorregada no segundo movimento, o que me fez descer e repetir o primeiro e conseguir somente na segunda tentativa... Droga! Fico realmente chateado quando não consigo materializar meu pensamento perfeitamente... Mas enfim, tenho que respeitar também estas leis de Carne o Osso...

Bem... Passada a aventura, “o mar é o mesmo, já ninguém o tema”, e o meu sorriso secretamente leonino revela-me a hora exata de ascender o baseado... Ufhhhh... As árvores hoje gorjeiam mais bonitas... Não choveu e nem ameaçou... Em Ondina com certeza há uma xerox aberta...
O beck ia pela metade quando avistei de longe um amigo, o black entregava de longe a silhueta imprecisa que conheci pelo conjunto das características... Aquele cara ta de cara, pensei...

– E ai Rafa, vai? – Aponto o instrumento.

- Que é isso, um beck? Ele redargüiu.

- É sim...

Não preciso dizer mais nada... Logo fiquei sabendo que por ali não haveria nada aberto... Ele me contou da possibilidade de um lugar em frente a Arquitetura... Bem... Corri lá novamente para me dar de cara com o ócio merecido do final de semana sagrado de alguém... Bom... Pensei em inúmeras possibilidades de lugares longínquos onde poderia imprimir aquele poema... Mas concluí nos meus quiças atômicos que, talvez fosse melhor entregá-lo no ano que vem, ou sei lá, quando o deus que há em mim decidir que é a melhor hora... Talvez ainda poderei somá-los ao meu pretenso conjunto de obras para além da funerária (Eu bem que poderia dizer “obras póstumas”, mas isso não condiz com minha criatividade essencialmente dramática... Além do mais, tudo em mim é um evento histórico, ou porque nunca foi feito, ou porque tentei fazer melhor...)... Enfim, voltei pra casa...

Em casa o desafio era mais extremo... Como fazer caber o impossível dentro das fronteiras das possibilidades? Por alguma razão cósmica, as duas barras de chocolate que comprei não cabiam na gaveta daquele porta jóias inútil... O engraçado que eu calculei... Perguntei ao vendedor on-line o tamanho... O vendedor respondeu: 14 cm de largura, 11 cm de altura e 15 cm de profundidade... Caberia perfeitamente se ele não tivesse esquecido de me avisar da porcaria do parafuso que tem na porra do meio da gaveta que a impede de fechar quando está cheia... Bosta... Nem os camarões verdinhos que eu havia separado estavam dando, tive que customizá-los... Reduzi o mínimo que pude o efeito visual de sua beleza... Mas isso já era motivo o suficiente para inquietar minha alma perfeccionista... Enfim... Em outros tempos eu me estressaria, em vez disso fui trabalhar o bilhete...

Bem, não possuía nada parecido com papel cartão... Mas havia dois pequenos envelopes, um preto, outro rosa... Acho uma linda combinação... Logo, cortei o rosa em tamanho menor... Escrevi uma mensagem (que somente o destinatário poderá ler, me desculpem) e o coloquei no envelope negro... Bem, não preciso dizer que a merda da gaveta não gostou nada disso também neh? Fez o que pode pra enguiar... Mas me retei e fechei aquela porra com um ligeiro comportamento forçado... E... Rezei para que o seu jeitinho desastrado não quebrasse quando fosse abrir... Embrulhei... Já eram 9:30 da manhã.

Mas é óbvio que não poderia sair naquele estado, de gente que não dormiu (na verdade, quase sempre estou assim, mas é preciso às vezes disfarçar a cara), fui tomar banho... Fazer a barba... Escolher uma roupa que caiba bem numa memória... Colocar um perfume diferente para ver se causa algum estranhamento (o que também é importante para a memória)... Bom, desde o princípio pensei em deixar o presente na portaria... Mas a possibilidade de encontrá-la só de botar a cara na rua é risco consideravelmente grande... E todos já perceberam que não gosto de me colocar à mercê da Fortuna sem ter uma lista significativa de planos de fuga... Prefiro me sentir elegante, ou melhor, empertigado... (pra algumas pessoas é a mesma coisa, mas para mim a palavra “elegante” não traduz como eu gosto de me sentir). Finalmente, meti no bolso o chocolate que não coubera na caixinha... Talvez me servisse de um útil elemento surpresa... Em último caso eu mesmo o comeria (Era feito com pedaços de cacau... Vocês sabem que eu adoro cacau neh?)...

Hum, e por falar em comida... Por fim saí de casa, mas havia me lembrado que não tinha comido nada ainda... Juntei as moedas e passei na venda pra comprar dois reais e setenta e cinco centavos de castanhas de caju (altamente nutritivas e me forneceria energia o suficiente para uma empresa como esta)... Bom! Já se passavam das dez, e a conhecer a pessoa, conheço também as imensas probabilidades dela estar aproveitando este lindo dia de sol... Mesmo assim segui com minha sacolona de sonhos... Logo na rua, outro impasse... Que caminho devo tomar? O mais curto e perigoso? Ou o mais longo e mais seguro para a carga que trago comigo? ... Bem... Ninguém vai ousar me roubar hoje, hoje não... Fui pelo mais curto, na esperança de talvez, quem sabe, ganhar um abraço ainda hoje... De qualquer forma, tratei de segurar a sacola firmemente, mas não poderia ser tão firme que denotasse desespero (até pq não sou de me desesperar com tamanha facilidade). Tinha que segurar de uma forma que demonstrasse minha imensa tranqüilidade em estar passando por ali com aquilo na mão, ao passo que também mostre aos que me olham que ali não está nenhuma trouxa perdida num caminho deserto...

Cheguei na rua dela depois de uma caminhada agalopada... Parei um pouco antes do portão... Empavonei-me as roupas e segui... O porteiro me dá o sinal que torna a campainha desnecessária... Entrei e fiz a pergunta que me traz um nó quase imperceptível à garganta:

- Fulana de Tal está?

-Acabou de sair – disse ele.

- E a colega de quarto dela? (Sempre tenho medo que a encomenda se extravie, não confio cegamente em porteiros, ou melhor, em ninguém)
-Também saiu... ele disse.

- Tudo bem, posso deixar isso aos seus cuidados? – Ele respondeu afirmativamente. Fiz um sinal dramático e continuei – Mas tome cuidado, é frágil.
- Não, ta tranqüilo, vou colocar ali no cantinho.

Sorri, fiz um sinal de agradecimento juntando minhas duas mãos semicerradas como num abraço e, inclinando-me para frente, o reverenciei e me despedi... Na rua o Sol continua me fazendo sorrir radiantemente... Acho que está Sim na hora de fazer visita a Uma Outra pessoa muito especial... Fui até ao baluarte onde ela se esconde... Chegando lá, não havia ninguém na portaria, entrei em casa e não vi ninguém conhecido... Ou melhor, entrei naquela casa que foi meu parque de diversões por tantos anos, e me senti um completo estranho... Uma menina que estava na sala me fitou curiosamente... Perguntou quem eu desejava ver e eu disse que queria Sim ver a Uma... Prontamente a guria subiu até o quarto e verificou ... - Ela não está... Eh! Eu sabia que Ela também deveria estar aproveitando aquele lindo dia ensolarado... Ahhhhh... Gente com muita coisa em Capricórnio... Sempre leais ao imenso trabalho de ser feliz...

Decidi então passar em outra residência... Talvez receber um abraço de um amigo tão caloroso quanto o mar... Perguntei se meu guru de Escorpião estava em casa... O engraçado que neste lugar onde sempre me senti um tanto mal tratado, fui recebido por um segurança que nunca tinha visto... – Quer ver quem? – Perguntou ele. Disse o nome e ele: - Sabe onde é? – Sei, respondi. – Pronto, vá lá e pede pra ele vir assinar aqui... Simples assim... Fui no quarto dele e só João estava dormindo... Lavei o rosto no banheiro e saí... Fui comer minhas castanhas no Campo Grande de dar minha missão por encerrada...

Vagandiei entre as árvores da Vitória... Sentia a brisa sacudir as memórias de meus velhos cabelos por entre as folhas... Minha juba dissonante... Ao chegar no Campo Grande, antes de entrar na praça, observo uma corpa estendida no chão de um dos grandes portões da praça. Era um rosto conhecido, mas dei de ombros e preferi me sentar num local próximo para apreciar a cena... Vejo um grupo de velhinhas circundarem a corpa... Quase podia ouvir o que murmuravam... Ou pelo menos imaginava algo assim: “Tadinho! Será que surtou?”; ou qualquer coisa que denotasse a compaixão cristã que aprendemos nos bolsos da sociedade diante da loucura... O jovem ergueu a cabeça e tranqüilizou as senhorinhas... Era um experimento... Escreveu algo num papel e voltou à sua posição meditativa... Nesse momento...

-AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Bem grande como uma loba, Outra louca grita um estampido do outro lado da praça... kkkk... - Eh minha amiga. Até meu fígado que não tem ouvidos reconheceria o reverberar daquele grito... Enfim... Continuei comendo minhas castanhas, uma a uma, vagarosamente... Quando acabaram, peguei o chocolates, o despi de sua indumentária soberba e levei um naco até a boca... Tinha o gosto da eternidade... Quis dividi-lo com minha amiga e fui em direção do horizonte de onde partira o grito... Chegando perto, noto aquela figura sublime meditando acostada numa árvore... Ao me aproximar, um homem vem em minha direção e murmura alguma coisa que a catarse de estar diante de minha amiga meditativa não me permite deixar que complete... Olhando-o nos olhos, posiciono automaticamente o dedo indicado entre os lábios em sinal de silêncio e aponto para Ela... O homem, que era mais alto e mais forte do que eu, se encolhe e retrocede.

Aproximo-me, me sento em sua frente com o chocolate entre as mãos... Ponho minha espinha ereta e também eu me conecto à cena... Com os olhos semicerrados eu fico lá, me certificando que o homem foi embora (não confio em ninguém, às vezes reações como a minha podem gerar represálias ou vinganças que só encontram sentido na cabeça de quem se vinga...), felizmente não havia motivos para preocupações, ninguém aborreceria nossa conexão... Ficamos lá alguns minutos, até que alguns movimentos da pessoa em minha frente denunciava seu retorno... E ela finalmente abriu os olhos, eu ergui também os meus a tempo de ouvir sua gargalhada... Ela se levantou... Nos abraçamos bem apertado... Ofereci um pedaço do meu chocolate... Logo em seguida uma moça chegou com uma caralhada de papeis... Eram relatórios do experimento... Sim... era Ela também Uma cientista...

- Toma o seu relatório... Nos reunimos em 10 minutos. – Disse a moça.

Minha amiga pegou o papel e começou a ler concentradamente, eu sabia que ela se guiava pela mesma lua que a minha... Olhei um pouquinho admirando aquela juba castanha... Apaixonadamente eu sinto que meus amigos me revelam o sentido da vida... O caminho de fazer o nosso melhor... Sempre... Sempre... Sempre...

Eu por fim a abracei... Agradeci por ela existir também... E disse:

- Tchau amiga, eu só vim aqui te dar esse abraço... Este é apenas o primeiro dia de Leão... E o Sol está sorrindo sob nossas cabeças...


Inverno de MMXVII.


https://www.youtube.com/watch?v=zethvKil2m4
(Muito - Dentro da Estrela Azulada - Caetano Veloso, 1978)