segunda-feira, 15 de abril de 2019

Looking For Ghosts



 I

Esta tarde visitei o centro da cidade depois de muitos dias sem sequer sair de casa... Por força maior, algo que talvez insistamos em chamar de destino ou sei lá o que, não era qualquer lugar do centro, era um museu... Mas não qualquer museu de velharias arqueológicas esquecidas, se é que isso exista para a cabeça de um místico apaixonado... Era um museu que partilhara parte da minha história, era um lugar repleto de paredes centenárias, com a minha energia vital impregnada, com a energia de milhares de outros seres que como eu passaram pela vida curiosos, temerários, machucados, cheio de dúvidas e conflitos, cheios de incertezas sobre sua própria luta ou suas possibilidades reais de escolha... Penso tanto na obra que meus deuses reservam para mim que é impossível não passar pela minha cabeça a questão de como tantos povos escravizados se sentiram frente aos desafios psicológicos impostos pela violência de uma colonização diabolizante que viria a transformar toda uma civilização em fantasmas de uma história nacional fajuta...

Quando fecho os olhos posso ver as vitrines deste museu humano que carrego nos meus genes e na minha forma de ver o mundo... Mas também vejo um vazio imenso de não conseguir acreditar em nada... De pensar que todos à minha volta partilham das mesmas mentiras que eu e que algumas delas estão felizes com isso... Contentas com o fato de que nossa sociedade mata o amor, a compaixão, a vontade de compreender realmente as necessidades e limitações dos outros; tudo isso ao passo que nos convence do medo, da intolerância e do desconforto que é não ter a genuína certeza de absolutamente nada. É comum aprendermos a ter medo de ruas pobres porque é na pobreza onde os ladrões parecem mais bárbaros, onde o crack, o açúcar, o café, o álcool e o tabaco revelam os mais evidentes vícios deixados pela colonização...
...

Ainda bem que não terminei de escrever este texto há dois meses atrás, quando iniciei o primeiro parágrafo... Tive tempo para reexperenciar a vida... Dessa forma eu posso vir e escrever algo menos mórbido e melancólico do que as agonias que se passavam pela minha cabeça na época da visita aos museus das ruas de meu passado... Um passado tão recente mas com uma pontada tão profunda que parece ter sido em vidas passadas...

Como um rompante de coragem eu resolvi encarar o centro... Resolvi tentar mais uma vez enfrentar minhas lembranças e combater meus próprios fantasmas... Fui convidado a uma visita ao MAE-UFBA... E como todos os meus leitores invisíveis bem sabem, este lugar é um tanto especial para mim... Em três anos os seres daquelas paredes me viram chorar, sorrir, proferir conjurações de amor... Dormir de exaustão ou de tédio deitado no chão gelado daquelas galerias... Roubei beijos de paixões passageiras que me visitaram como visitam a uma peça arqueológica que lá pertencia... Alguns anos atrás eu até poderia encarar tais lembranças como parte de um passado heroico, mas hoje eu vejo apenas como um apanágio de pertences alheios a mim... Me sinto um índio fugido da obra almofadinha de José de Alencar... Ou pior... Um mero conquistador barato que via nessas aventuras parte grandiosa de sua razão de existir... whatever...

II

Chegando lá já tenho que lidar com pessoas que eu conheço, sabia que tinha que dizer qualquer coisa com meu ex-museologo-chefe... Sabia que teria a menina Roberta da portaria e provavelmente uma monitora nova... Mais uma série de pessoas que eu desconheceria a partir daquele momento... Um grande infortúnio para mim que tanto adoro sorrir... Não é falsidade sorrir sem querer sorrir nestes momentos... É que sorrir e usar a cara que eu uso para sair na rua me custa demais... É preciso se conectar a uma fonte inesgotável de energia, mas naquele caso esta fonte estava perdida para mim... Bloqueada... Intoxicada por esta cidade febril e dopada de informações...

A professora chegou... Por alguma razão ela contava com a minha presença... Não vou esquecer disso... Foi gentil e acolhedor demais da parte dela... Seguimos pelo museu e ela usava um estranho aparelho sonoro... Aquilo era sem dúvida peculiar de acordo com os arquivos da minha cabeça... Com certeza não era uma visão comum... A visita seguiu até chegarmos às urnas funerárias onde o estranho aparelho reagiu com o lugar... E foi aí então que eu pensei... Caraca... A minha professora é uma Ghostbuster... kkkkk... Bem... Não sei se é o caso de exterminação de fantasmas... Talvez um caçador de fantasmas brasileiro e do século XXI precise entender que estes fantasmas todos já foram caçados e exterminados enquanto eram vivos... Não faz mais sentido querer destruí-los... Precisamos nos ritualizar e nos espiritualizar ainda mais para quem sabe, se for possível, ajudá-los a concluir sua passagem seja lá para onde forem... Ainda que seja para um lugar de maior prestígio nos nossos corações...

Nós vivemos em um país onde os mortos tem mais o valor do esquecimento do que da lembrança... Os vivos talvez ainda menos... Vide as grandes filas de desempregados e da mendicância alarmante que denunciam novos fantasmas fantasmagorando pelas ruas em carne e osso em plena luz do dia...

O resultado foi um sucesso... A visita foi mó legal... Saí de lá sorrindo e encontrei coragem o suficiente para passear os ladrilhos de outras lembranças pelo resto do Pelourinho... É claro que desta vez eu tinha uma escolta de uma dúzia de estudantes cheios de preocupações tão dispares que eles não me perceberiam ali... Bem... Pelo menos não por baixo deste disfarce com barba e bigode onde me visto atualmente... A cada rua que olho vejo um novo fantasma... Meu... Do Passado... Da história nacional... De tudo... Paramos na ladeira para conversar com uma galera de Arquiterua e Urbanismo... Bem, não disse nada a eles... Notei no canto a figura de um garoto velho conhecido meu... Na real ele é muito conhecido naquelas ruas... É um garoto negro, simpático e conversador... Esperto... Com a sagacidade suficiente pra sobreviver em ruas tão hostis quanto as nossas... Já fez uns corres de umas paradas pra mim algumas vezes... Algumas vezes é lógico que ele não voltou com minhas drogas... Mas eu entendo... Provavelmente, no lugar dele, eu também não voltaria algumas vezes... Quiça nunca... Às vezes nem quero voltar aos lugares ou às pessoas que cabem dentro desta minha vida tão privilegiada... Imaginem só como é... Ele me disse o nome dele naquela ocasião... E por ter vergonha de não saber ao certo... Prefiro preservar de mim mesmo o risco de registrar o nome erroneamente... Mas acho que ele é esperto o suficiente para não ser exorcizado daquelas ruas cristãs... Cheias de igrejas e gente caridosa... Sobreviveremos para que talvez tenhamos tempo para decorar o nome um do outro... Duvido também que ele se lembre do meu... De qualquer modo... O meu nome pouco importa... Eu não sou esta pessoa que escreve, nem a carne, nem a ideia que se aponta de responde o nome para quem pergunta... Nem nada dessas bobagens que inventei de pensar agora... O que me realmente me incomoda é:

Será que isso que estou fazendo não se trata de uma digressão completamente inútil?

Qual é o objetivo deste emaranhado confuso de palavras?

Não sabendo de nada dessas respostas e de milhares de outras que assombram minha cabeça... Por fim eu continuo... Talvez seja a minha maneira de exorcizar um pouco dessas assombrações, quem sabe? Descemos pelas ruas da cracolândia do Pelourinho... Um menino começou a entrar em pânico por estarmos em ruas perigosas... Debateu com a professora a respeito disso... Bem... Ele até que tem uma certa razão... Mas é que me sinto tão seguro em lugares como aquele... Lugares onde cresci longe das vistas da minha própria mãe... Nossa... Minha mãe... Até ela me surge agora como uma reminiscência tão distante que mal consigo acreditar que ainda tenho uma... Graças à Deusa e todas as forças inexplicáveis do Universo...

III

A visita seguiu por uma igrejinha que eu não conhecia por dentro... Soube lá que algumas de suas obras tinham ligação com as que são expostas no Museu de Arte Sacra da UFBA... Outro logradouro onde deposito os fantasmas de momentos tão melancólicos quanto aquele... Mas enfim... Isso não tem nada a ver com o objetivo da minha visita ou do meu texto... Mas aí eu me lembro que não tenho mesmo nenhum objetivo com isso... Já desisti de querer me entender como um menino normal, como um aluno normal, em busca de uma nota normal, de um emprego normal, uma carreira, um INSS ladrão, de ser um artista respeitado, qualquer coisa que me faça parecer uma pessoa normal neste mundo descartável... Porque de perto minha loucura parece tão evidente que o que eu penso não parece fazer sentido nem mesmo para os fantasmas em minha cabeça... No fundo me sinto isolado em qualquer cortejo...

Seguimos para a praça Castro Alves onde um pedaço da alma do poeta me ilumina por cima das nuvens como um condor alvissareiro que me lembra quantas vezes bradei em alto e bom som os meus afetos, minhas indignações, meu extenso amor mal compreendido... Para quê? Um dia eu o saberei (ou não) com certeza... Huahhahahahhahaha!

O grupo se dissipou no topo do Espaço Glauber Rocha de Cinema... E eu sentia-me exausto... Não sei o porquê exato... Tenho neste momento que escrevo, meses depois do ocorrido, alguns palpites... Mas palpites não forjam documentos... E assim se vai mais alguns minutos tentando fazer sentido para mim mesmo... Pois se eu não me ler com coerência quem mais poderá fazê-lo??? E é aí então que se dá razão ao título deste enunciado...

Dizem que a gente usa a língua também para sentir... Ou que sentimos com a nossa língua... Sei lá... Algo assim... Talvez tenha sido por isso que preferi colocar este título em inglês... Imagino que tal mistura seja de revirar suassuanas, mas é assim que eu vejo o mundo de hoje... Já fomos tão colonizados que, até eu, um pobre maldito, nascido e criado perto da BR de uma periferia do interior, me possibilito agora sentir em outros idiomas... Dou título a esses parágrafos em inglês por que é assim que eu me sinto ao passear por este centro, por estas ruas... Porque tudo no centro me parece sempre tão familiar e ao mesmo tempo estrangeiro... Bem como todo o mundo se me permitirem devanear mais profundamente...

Quando conjuro estas três palavras em inglês... Looking for Ghosts... Elas não surgem em negrito ou itálico convencionais para distingui-las de algo que não me é próprio... Elas soam na minha cabeça como ecos de sussurros... Como se espíritos sibilassem direto de urnas funerárias esquecidas, denunciando esta frieza e esta melancolia que herdei depois de tantos massacres, de tantas injustiças e da violência que carregamos como um soluço engasgado no corpo de nossas ações...

Deixo para vocês um pequeno relato de minhas assombrações...

Majhoo. Salvador-BA, 14 de Dezembro de 2018.

sexta-feira, 8 de março de 2019

As Máscaras Ocultas da Fantasia




"No Carnaval, esperança... Deixei a dor em casa me esperando... E brinquei e brinquei e fui... Vestido de reis... Quarta-feira... Sempre desce o pano..." (Chico Buarque de Holanda)


Quero iniciar este pequeno devaneio, pequena, só pra te dizer que entendi... Entendi que busco um fluxo etéreo do imaginário... Algo único e impossível de conceber no mundo falho das palavras... Mas desse jeito... Falho é que eu fui mais uma vez desbravando as multidões só para ver se te enxergo por aí... Mesmo sabendo que talvez existas apenas dentro da minha cabeça... Ahhhh... E por isso mesmo te tornas infinitamente conhecível nos rostos de todas as mulheres... É justamente por este amor infinito que ensinas morada a dentro de mim que posso hoje ver também o amor refletido através das faces mascaradas que, assim como eu, também te buscam entre as contravenções dos carnavais da vida...

Eu sei pequena que às vezes não faço o menor sentido... Acredite isso também vale para o que penso a respeito de mim... Mas acompanhe comigo... Tenho tudo para achar os carnavais as festas mais solitárias do mundo... Milhões de pessoas... Todas elas juntas em frenesi... No auge do verão... Quando todos têm tanto pra dizer mas não sabem o que falar... É então que o calor e a natureza nos cobre de desejos... Desejos exacerbados... Desejos intumescidos e inflamados por convenções culturais, consumo, extravagancias... etc...

Mesmo sem nexo as coisas que escrevo... Cheia de três pontinhos por conter tantas coisas ocultas que não poderão ser ditas devido ao curto espaço de tempo e paciência que falta ao mundo da escrita e dos leitores... Ainda assim eu insisto neste relato sobre todas as pessoas que revelaram a mim algum sofrimento por detrás de tantos sorrisos atraentes e drogas consumidas... Todas as brigas... Todos os empurrões... Discussões... Todos os gritos de vá tomar no cú (seja o do Bozo ou não)... As ameaças de morte... Os ciúmes... Ai ai ai ai ai... Tudo isso revelando por debaixo das fantasias de carnaval o seu lado mais obscuro de infelicidade...

Para o povo pobre o Carnaval de Salvador também é multifacetado... Têm aqueles que aproveitam esta data como uma oportunidade para ganhar uma grana... Eles acampam no centro da cidade, ficam dias em condições péssimas, dormindo o quanto podem sob as poucas horas da manhã onde os foliões se utilizam para se curar da ressaca... Bem... Acho que esse povo todo também se diverte um pouco fazendo isso... Acho que esse é o pensamento que sustenta toda a classe patronal... Onde o lógico é dar um prato de comida ao escravo e esperar que ele se sinta grato pela benevolência de seu Senhor... Vocês por acaso já viram a fila de cordeiros como é? Nunca refletiram a face da nossa Escravidão estampada nela? Centenas de pessoas negras, raramente a gente acha um sarará... Em suma negros abalroados em busca de míseros 50 reais para impedir que outros pobres cruzem as linhas da segregação disfarçada sob a palavra segurança...

Depois... Pra que que servem os camarotes então? Servem exclusivamente  para uma sociedade cristã exibir o seu poder de consumo e diferenciação... Onde a fantasia das pessoas é sustentarem sua ilusão de que são melhores do que os que não podem pagar tão caro... Para mostrar que podem beber algo diferente da urina que monopoliza todo o circuito onde movem-se as massas... Tudo... Tudo no carnaval se fantasia de felicidade... Beijos na boca... Transas com desconhecidos... Traição de namorados... Tentativas de agarramento por parte dos machões bombados... Tem também os pescadores de briga que se utilizam de suas próprias companheiras (pra eles meras fêmeas) à espera do primeiro idiota que mexer com ela para que tenham o pretexto de dar porrada nos oto...


Sim... o Carnaval é uma época de muita beleza... Pobre ou rico, é certo de que as pessoas que o desfrutam deixam suas tristezas em casa à sua espera... Mas ''quarta-feira sempre desse o pano" não é mesmo? E este texto serve apenas para nos advertir de que esta beleza está na aceitação de nossas fragilidades e na lembrança de que devemos trabalha-las em vez de ignora-las... Pois na Quarta-Feira de Cinzas vem o dia de Exú, abrindo os caminhos para um novo ano e Provações e Penitências (início da Quaresma Cristã)... É na Quarta de Cinzas que as ilusões se dissolvem para os apaixonados que não se verão mais... É lá onde Maria se transforma em samba de dor e morre com seu véu ainda lhe cobrindo o rosto... Certamente o carnaval é o desengano... É a lembrança de que estamos cada vez mais fadados à forma e à aparência e que nos esquecemos de vez da substância... Quem quer cuidar do espírito sente vontade de se afastar do carnaval e das outras festas por conta disso... Do consumo... Da materialidade... Do vício... E da desesperança de um mundo onde não fazer uso disso significa dar sinais claros para que os outros lhe chamem de "INFELIZ"

E é por isso, pequena, que eu sei que tu não estás lá... Tu estás dentro de mim e quando encontrá-la poderei dedicar-me a ti em qualquer outro ser humano... Pois jamais tratarei outro indivíduo desrespeitosamente, ou jamais direi algo grosseiro a uma companheira... Porque tu és o verdadeiro Espirito Santo... Esta força que me faz buscar em toda parte algo que me complete... Uma musa maior para aliviar as minhas dores... E esse amor que somente tu tem para ensinar, servirá depois para ser dado a qualquer pessoa de minha escolha ou para me livrar de vez deste Vale Carne que nossa Civilização vende como a felicidade mais esperada do ano...

"Morreu Maria quando a folia
Na quarta feira também morria
E foi de cinzas seu enxoval
Viveu apenas um Carnaval
Que fosse chamada
Então como tantas
Marias de santas
Marias de flor, em vez de Maria
Maria somente, Maria semente
De samba e de dor
Não era noite, não era dia
Somente restos de fantasia
Somente cinzas, pobre Maria
Jamais a vida lhe sorriria
E nunca viria de
Porta-estandarte
Sambando com arte
Puxando cordões
E não estaria em plena folia
Nos olhos e sonhos
De mil foliões"


(Roberto Carlos)





https://www.youtube.com/watch?v=W0TeyjjKNXA
(Um Sonho de Carnaval, Chico Buarque,1966 . Perform by Paulinho da Viola.)

https://www.youtube.com/watch?v=D6MB_Ndxo6I
(Maria, Carnaval e Cinzas, Roberto Carlos, 1967.)

sábado, 2 de março de 2019

Os Três Pinos Cap I, pt 1


Primeiro Pino – Carreira Um : Trópico de Câncer

       
        Acabei de despertar, olho e vejo minha amiga tentando fazer o trabalho que dissera que faria na noite anterior (mas óbvio, eu atrapalhei, como sempre tenho a impressão que é só o que faço na vida de todos à minha volta); olho pra ela e não consigo conter minhas afobações de estar sempre ativo, de acordar já querendo dançar, falar, cantar, ouvir música, limpar a casa, de interagir com o mundo e compartilhar minhas visões... Ou fazer uma porção de outras coisas que me façam esquecer do fato de que eu não consegui dormir quase nada...
         Enfim... Rompi o silêncio...
- Advinha com quem acabei de sonhar agora?
         Ela olhou pra minha cara e fez uma expressão de tédio... - Aff! Sério?
- Pode crer... Mas depois a gente conversa, não quero te atrapalhar... – Perguntei se tinha café, ela disse que sim, então levantei... alonguei o meu corpo amaldiçoado e fui lavar os pratos...
     Durante mais este ato de meditação, pensei em tudo o que acontecera na noite anterior... Das revelações que contei à minha amiga no bar... Algumas coisas que nunca contei pra ninguém... Nem mesmo para o meu melhor amigo mais azuado por quem essa minha amiga é apaixonada... É porque as esquinas sem saída dos bares são assim mesmo... Elas reúnem a rejeição no canto de ninar que é velado no colo da noite... É ali onde os abandonados se podem encontrar e trocar as carícias que outro alguém jogou no lixo... E lá estávamos nós... Falando de demônios de nossas infâncias... Das tantas brigas, do sangue, do charco... Da maldição de não ter conseguido morrer apesar de já ter desafiado a morte tantas vezes...
       Em meio ao esforço cataclísmico de arear uma frigideira, eu penso também em todas as horas que estive em claro esta noite... Aqui nesta casa em que você esteve ontem, junto com as bixa tudo, nem sei mesmo se sequer passou pela sua cabeça que talvez fosse legal que eu estivesse também... Se pensou que talvez pudesse ter sido divertido, engraçado... Sei lá, qualquer coisa que me tirasse desse buraco onde agora eu escrevo, onde ainda penso em você... E onde eu sofro por pensar que a minha companhia pra você é dispensável... Como a de qualquer outro macho que você topa pela rua... Eu sou qualquer um pra você e isso acaba comigo... demais...
      Fiquei zanzando entre o quarto e a sala e a área de serviço... Fumando repetidos cigarros e esperando que o tempo passasse e algum cansaço chegasse para me destronar deste governo de rei da angústia em que a minha insônia me coroou... Ando rápido e na ponta do pé, com a maior precisão possível, para não fazer nenhum ruído que incomodasse os vizinhos de baixo, e nem minha amiga que dorme tranquilamente quando está cansada, como só alguém do seu signo consegue fazer...
        Durante a madrugada eu senti frio... Mas como não podia mais insistir em ficar deitado sem conseguir dormir, já estava muito inquieto de estar a horas ali sem se mexer pra não acordá-la... Por mais que eu a ame como uma amiga maravilhosa, eu entendo o que é não gostar de uma pessoa daquela forma especial... Que te faz sentir-se a pessoa mais incrível do planeta, apenas por sentir um amor tão intenso por alguém que te faz pensar que pode galgar os percalços das estrelas para poder estar com a pessoa amada... Estou falando daquele amor que nos paralisa as veias... Os músculos... As pernas... Tudo...  E por mais à vontade que tenha me sentido ao fazer amor com aquela pessoa... Eu sinto no meu íntimo que isso só aumenta a minha dor... Fazer amor com alguém que não é Você... E que no fim das contas me lembra tanto a Ti... Enfim... Eu deixo todas essas coisas a cargo mesmo das estrelas... E tento fazer o melhor que posso para não machucar a ela e nem a Você... Porque eu já tenho tantas marcas não cicatrizadas que uma a mais não fará a mínima diferença para o meu orgulho já tão maltratado...
      Levantei, me cobri com um cobertor, como aqueles mendigos místicos da geração beat... hahahaha! Só que com um estilo tropical que só eu possuo... Me sentei à frente do computador, não queria fazer isso... Mas é mais forte do que eu... Passei a noite desbotando algumas das suas postagens... Reli mais de 10 vezes as nossas conversas do último mês (que não era muita coisa, por sinal), mas meditei sobretudo na última coisa que Te disse... Fiquei ali pensando... Será que fui rude demais com Ela?... Será que A machuquei por ter revelado essa minha amargura íntima? Como será que Ela está se sentindo agora?... A verdade é que eu nunca vou saber... Ela nunca me dirá... Mas aquele horário da visualização já me dizia tudo o que eu precisava saber... “Visualizado – Qui 22:41”... Isso não me diz absolutamente porra nenhuma... Ela diz que não consegue me compreender... Compreender minhas atitudes... Porque ajo da maneira que ajo... Quer saber o porquê? Porque esse silêncio só me diz que essa história ainda não acabou... Que ainda vai doer em mim por muito tempo... Como um pulso aberto que curei sem engessar e que me doerá ainda pelos próximos três ou quarto invernos dos anos que se seguirão. (acreditem, já passei por isso, o frio faz mesmo esta porra doer...).
       Fiz café... Fui comprar pão... Tentei fazer com que aquilo parecesse mais um dia normal da minha vida... Aleatório... Preto e Branco... Até algum passarinho jovem me sorrir e apresentar seu vôo rasante, seus músculos fortes, seu canto novo... E o Sol sempre dá um jeito de me sorrir por entre as nuvens... Tudo isso... Todos esses fenômenos incríveis do Cosmos à minha volta, me dão os sinais de para onde devo ir e onde devo estar a cada momento... E acreditem ou não... Eles me guiam sempre para os lugares certos para que eu possa mudar o mundo com a beleza de minha tragicidade... Ou o meu sorriso descartável... Eh, aparentemente, sou um homem que traz os sorrisos que contagia as pessoas... que traz alegria aos desconhecidos do caixa, fazendo uma palhaçada, ou algo que aquele ser humano aprendeu que é errado de se fazer em público... Como demonstrar afetos, amor, loucura, sinônimos desgarrados para dizer a mesma coisa... Dizer que sinto algo imenso dentro de mim que grita e me faz querer compartilhar um pouco disso com as pessoas... Mas...
             Mas...

          Acontece que quando perco essa função... Quando sou novamente sugado para os abismos de meus pensamentos... Torno a me sentir o ser humano mais solitário do Universo... Pois tenho um inferno de informações na cabeça e sei que não existe nenhuma pessoa com quem eu pudesse conversar sobre eles... Porque são duras demais... Porque são intensas demais... Porque parecem falsas... fantasiosas... mentirosas... egoístas... obcecadas... possessivas... infantis... incompreensíveis... ridículas... românticas... sinceras talvez... terríveis... ou loucura... Demais... Demais... Demais... Ali eu descubro o meu último medo em existir... O medo de que não exista ninguém no mundo disposto a me ajudar... Não há ninguém que possa suportar este monstro tão grande que trago aqui dentro... Eu afasto Todos os Amores... Sem exceção... Não há mais ninguém interessado nas camadas mais profundas das minhas peles... Ninguém vai passar daquele muro que foi erguido nos meus mundos... Sob trezentas pétalas encouraçadas de veludo que compõem as multifárias cascas de minhas cebolas... Ninguém que possa ver aquela beleza que guardei para quando encontrasse a pessoa mais especial do mundo... Um outro ser humano que pudesse sentir algo por mim que me fortalecesse... Que me fizesse sentir-se um pouco menos sozinho...

        Voltei... À mesa do café, contei o pedaço que lembrava do sonho para a minha amiga... Já não lembrava muita coisa... Como tenho uma mente estranha de se compreender... Não consegui começar a contar o sonho sem falar de um livro ou dois que li em alguns lugares... Não me lembro exatamente em quais (ou talvez eu tenha inventado uma coisa ou duas, a verdade é que vocês não querem saber... porque as verdades doem... E vocês, meus queridos... Vocês sempre preferiram que eu mentisse... Porque as coisas que sinto, ao que parece apenas destroem tudo)... (Enfim...) O(s) livro(s) dizia(m) que os sonhos não são lembrados porque geralmente usam um nível muito reduzido de energia para fixar as memórias no cérebro... A parte relativa à memória fica geralmente desligada...


      Porém, assim como os traumas, as grandes sensações de prazer, as grandes decepções... Todas essas coisas que resultam em grande experiência para nossa ruína ou nosso mais glorioso bem estar... Todas essas substâncias que danificam o nosso sistema (dor, raiva, angústia, solidão)... Ou todas àquelas que causam sensações de prazer e conexão a toda a infinita beleza do Universo (como o carinho que vai crescendo por alguém só porque você a considera a pessoa mais especial que já conheceu; ou a sensação que sentimos ao ver o sorriso dela destruir todos os fantasmas dos ambientes assombrados com sua ausência; aquela pura sensação de se sentir eterno só por poder olhar para ela por mais alguns segundos...)... Assim como isso tudo, os sonhos também contribuem para gravar experiências que ajudam os indivíduos a não cometerem os mesmos erros de novo... (ou tentarem cometer menos aqueles outros que geramos por causa deles)... O importante é que essas informações é que garantem a experiência da vida como um todo... Pois todas as sensações e acontecimentos reverberam do macro ao micro e movem os corpos infinitamente para novos lugares...
       Sem falar de todo o seguimento da matéria que ainda não conseguimos compreender... Pois energia não se dissocia da matéria... Então todos os sonhos são infinitos e perpassam tudo... Porque todos são feitos de energia... Como as estrelas... Como nossos corpos... Como nossos desejos... E por isso é também infinita... Talvez eu tenha sido condenado a sonhar as impossibilidades que movem todas as espécies a realizar façanhas consideradas impossíveis para poder dar o melhor de si para o futuro deste mundo... Talvez eu esteja condenado a amar demais as pessoas porque só esse amor pode ensinar um homem como eu a querer sempre ser alguém melhor... Para que possa merecer a cada raiar do Sol, a companhia da mulher a quem escolhi doar esta loucura que arrasto comigo há tantos anos... Aquele desejo intumescido de lhe poder sorrir todos os dias e saber que vai ficar tudo bem... Que quando partirmos o mundo será um lugar melhor... Porque aquele amor impossível tornou-se possível através do resultado de todo o carinho dedicado para que as flores pudessem brotar... Os sonhos que fazem homens como eu esperarem por tempo indeterminado... São esses que fazem a cada dia eu envenenar novas células do meu ego... E mesmo que eu jamais encontre alguém... Ou mesmo que alguma outra duende suja me descubra... Até se outra vez conseguir amar alguém totalmente diferente... Eu ainda sinto no meu íntimo que continuarei procurando no fundo de meus pensamentos se por algum milagre ainda poderia ser Você... A pessoa mais especial do meu mundo até agora...
              (Não acredita? Eu te disse que era intenso demais debaixo das minhas camadas... Eu te disse que tinha medo de Ti porque sabia que Você entraria me rasgando como uma faca por baixo dos panos... Eu disse... Não atravesse as minhas máscaras porque por dentro eu sou mais um Monstro de Amor... Eu não posso mostrar meu verdadeiro rosto sem causar dor... Por favor... Se puder um dia, tente ao menos acreditar nisso)...
            E depois de todo esse devaneio... Volto à minha amiga para contar o que lembrei (se é que essa minha amiga existe mesmo ou é só outra invenção da minha cabeça alucinada...)... Lembrei da parte que Você estava presente o tempo inteiro... Que era algum lugar de uma Itabuna fictícia (vivo me perguntando porque essa maldita cidade ainda me prende tanto... Será que ainda tenho tantos traumas assim pra resolver?)... Você queria pegar um ônibus pra Bom Despacho (não perguntei porquê)... Você não pareceu me desejar em nenhum momento do sonho... Mas o que eu queria era, pelo menos, saber o porquê de Você ter desistido de mim tão fácil... Porquê eu não mereci em momento algum saber se Você teve alguma vontade verdadeira de tentar ser feliz comigo... Ou se em algum momento consideraste que eu talvez pudesse valer à pena... Que eu pudesse ser alguém que merecesse o seu amor... Enfim... Estas não são apenas perguntas que eu reservei para os meus sonhos...
            As lembranças são mais nítidas a partir desse momento... Nós nos sentamos na madrugada de uma estrada deserta (sinistra por sinal, um lugar onde eu tentaria parecer tranquilo por fora para tentar Te tranqüilizar, mas por dentro estaria tremendo de medo de que algo ruim pudesse acontecer com Você, minha pequena... Mas entenda, meu amor, ao que parece, no sonho, não havia outro lugar para me sentar com você... Aquele já era o fim do mundo... Não haveria mais para onde ir depois que Você fosse embora... Por isso nos sentamos lá... E Você me disse seus porquês, não sei se correspondem com seus porquês reais... Mas foram tão tristes e convincentes que me fizeram acreditar que tudo mesmo não passava de mais um sonho ilusoriamente construído para que eu superasse mais um sofrimento de um coração remendado... No sonho Você veio para completar as marteladas que haviam feito trincar minha realidade nos últimos meses...
        É nesta parte do sonho... Depois de ter ouvido tudo o que me disseste... Sem pestanejar... Tentando gravar cada expressão oculta do teu rosto para tentar especular a respeito de não estares me escondendo nada... Eh! Ainda tenho dúvida de tuas certezas  em relação ao que pode vir de nós dois no futuro... Às vezes me parecem mais incertezas do que qualquer outra coisa... Depois de ouvir tudo, quando estava prestes a aceitar tudo de uma maneira que pelo menos me possibilitasse lhe sorrir e lhe desejar uma boa viagem... Nesse momento apareceu um cara estranho... Muito estranho... E ficou olhando fixamente para nós dois... Ele não tinha cara triste... Nem alegre... Ele era uma interrogação... Ele era O Desconhecido... Não pude me conter... Me levantei e briguei com ele... Acertei-lhe dezenas de golpes até que ele caiu com a cara numa poça de lama... Você tentou acudi-lo para que não se afogasse... Mas por alguma razão eu não deixei... Você ficou brava comigo... Não queria que eu brigasse com ele por sua causa... Foi então que uma velhinha parou para socorrê-lo... Só que logo em seguida ela foi atropelada por um automóvel velho que também atolou na poça... A velhinha morreu na hora... Nós presenciamos o seu último suspiro e um murmurar de palavras que queria dizer alguma coisa que não pude compreender... Pouco tempo depois O Desconhecido levantou da poça onde pensamos que ele jazia morto... Olhou para nós dois... E sorriu...
- Depois disso eu acordei e não consegui dormir mais, seja bem-vinda aos meus pesadelos. – Encerro a minha transmissão...

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Só a Água Não Apaga



"Sobrado de mamãe é debaixo d'água... Tem Ouro, Tem Prata... Tem Diamante Que Nos Alumeia" 

Vultos e sombras ao pé disforme que a nossa realidade disfarça... Movimentos de formas exuberantes florescendo na friagem de um mês nublado... Por aqui navegam muitas informações... Ônibus que bem poderiam ser naus a navegar por inúmeros rios de petróleo... O Sonho Americano se realizou... Isso aqui tudo é o Velho Oeste e estamos nos matando uns aos outros somente para provar a nós mesmos que entendemos alguma coisa lógica desta Realidade... Nós matamos por puro medo de estarmos errados... De termos interpretado equivocadamente alguma coisa... De ter confiado demais nos olhos e nos ouvidos e mais ainda pelas sensações (que por sinal são tão confusas em meio a essa enxurrada suicida de excessos de tudo)... Nós desistimos das pessoas por que é mais fácil...

Entro no ônibus e começo a falar de amor... Alí penso nos meus amigos... Naonde poderiam estar neste momento e como... Se ainda pensam em mim com afeto e ternura ao ler ou presenciar algo que os fazem lembrar a mim... Penso que eles estão comigo o tempo todo... E choro de verdade ao declamar o poema... Alí... Naufragando junto com aqueles versos que nem eram meus... Mas eram também... Antes de me afogar eu ainda posso ver o lampejo de milhares de universos brilhantes lacrimejando junto comigo... Falo tudo aquilo que gostaria de dizer a ouvidos que agora navegam em mares muitos distantes de mim... Numa realidade tão distinta que ao passar do meu lado parece ser uma figura pertencida à outra dimensão... Fora do tempo e do espaço onde vivo tantas aventuras incompartilháveis, limitadas pela inextensão das palavras... Pela elasticidade ridícula de um nada tão enorme que eu o poderia até apelidar de Deus... Nestes momentos sempre sou o monstro mais refém das fogueiras inquisitoriais do silêncio... Não tenho nada para dizer que poderia ser considerado verdade em parte alguma neste mundo tão concentrado nos assuntos do agora... Tudo o que digo talvez seja só para fazer sentido nestante... Nestante no sentido de daqui há pouco... Cinco minutos talvez? O que seriam cinco minutos numa escala maior que a Via Lactea inteira?

Todos lutamos por causas tão específicas que nos esquecemos frequentemente do todo... De que no final precisaremos de mais outros bilhões de seres para juntar os pedaços de nosso sofrimento escorrido entre as cachoeiras dos dias... Tudo escondido por detrás de águas turvas que passam destruindo tudo como uma maré imensa pondo abaixo prédios caríssimos... sacudindo automóveis... Este é o verdadeiro câncer que nós bebemos todos os dias... ignorância... e ignoramos porque estamos ávidos para explicar tudo... Me pergunto... Quantas coisas estou ignorando neste exato momento? Quantas coisas estou deixando de ver para ter o privilégio alucinante de refletir aqui sobre todas estas coisas? A verdade é que nunca saberei... Mas disso eu sei... E isso talvez me salve um pouco da cilada do ódio, do rancor e da falta de compreensão... Vocês me ensinaram, amigos... Me ensinaram novas formas de fazer um esforço enorme para não julgar ninguém...

Ainda no ônibus, perto de terminar a apresentação, um cara entra e me interrompe... Diz que precisa falar uma coisa séria... O motorista o repreende dizendo que é para deixar o poeta trabalhar... As pessoas também parecem achar ruim... Eu apenas digo a ele que já estou acabando... Fico triste por ele e por mim... Fico pensando em quantas pessoas devem ter desistido dele no momento em que ele mais precisava... E... Quantas vezes ele deve ter desistido das pessoas também? Quantas vezes ele desistiu de si mesmo desta forma como me da tanta vontade de fazer quando resolvo beber, ficar doidão... passar o dia chorando na cama? Terminei minha apresentação e sentei-me no fundo do ônibus... Ao me dar conta havia uma voz dizendo que era astrólogo... Mandando um mafioso se orientar... Que metáfora é essa agora, oh divindade? Como se o maremoto não bastasse... Estou aqui e sei que isso tudo aconteceu por algum motivo justificável... Essa água é a morte... A morte representada nas estrelas... E se ela te toca apaga quem você foi... Ela só não apaga o seu próprio rastro de destruição e fica perdida... Perdida sem saber qual é a verdade depois de tanta bagunça interpretada com suas ondas furiosas...

Majho 20/07/2018


(Atropelado Por Uma Onda - Raul Seixas)
https://www.youtube.com/watch?v=Z8WvET6pJOM

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Do Jardim da Desolação ao Fogo Restaurador


(Krishna)




Foi assim, como as notas de uma canção dramática, quando me percebi em um momento muitíssimo delicado desta minha existência, um lugar onde nada parecia mais fazer sentido ou valer a pena. Chamar isso de o Jardim da Desolação me faz lembrar deste período com uma sensação parecida à de Arjuna frente ao campo de batalha onde todos os seus familiares haviam morrido, nada mais parecia importar, o mundo parecia deserto e sem nenhuma possibilidade de felicidade em parte alguma. E aí então, que aquele desejo de suicídio, já tão presente durante praticamente a minha vida toda, se tornou muito mais contundente. Os dias se passavam e essa vontade só crescia dentro de mim, tentei de tudo, me afastei o máximo que pude das pessoas e busquei um caminho de auto-compreensão, tentei entender o que estava acontecendo comigo e o porquê de sentir aquele vazio tão grande me destroçar não só por dentro, como também me vi fisicamente
debilitado.

                                   
(Batalha de Kurukshetra)

(Arjuna Desolado)
                                                                                                            
Já havia entrado em contato com algumas leituras e filosofias orientais, mesmo que por alto, mas foi neste momento que algo me direcionou para a yoga. Comecei a ler um livro que, embora não ensine a prática da yoga propriamente,  me transportou para a possibilidade de talvez, um dia quem sabe, eu pudesse me compreender de fato, me aceitar como sou, aceitar meus erros e a partir daí me permitir mudar para algo melhor. Depois disso entrei em contato com outros textos, com a religiosidade hindu, zen budista, taoísta. Com o tempo, percebi que aquelas leituras faziam sentido para mim, fui me percebendo mais calmo aos poucos, mais silencioso, e aí então eu perdi o medo e a preguiça de mudar. Antes, cheguei a pensar que a meditação era algo impossível para mim, para minha mente inquieta, parecia impossível vencer minha ansiedade, minha angústia e meus vícios. Foi no final de 2015 que fiquei sabendo que no Palacete das Artes havia uma aula quinzenal de graça, e como tinha interesse mas não tinha dinheiro, achei que não custava nada ir até lá ver.


(Krishna e Arjuna)


 Me lembro do primeiro dia que fui, não fiz nenhum asana, apenas me sentei em um dos bancos e observei, respirei, ouvi com atenção tudo o que a professora dizia. No final, na hora da curta meditação onde todos se deitaram, eu simplesmente fechei os meus olhos e, de repente, aquela pessoa que não sabia meditar permitiu que os sons do espaço e os diversos silêncios acolhidos ali lhe invadissem, e naquele momento eu senti uma paz e uma felicidade cheia de vida e esperança.  Daí então comecei a frequentar mais vezes e a repetir os movimentos em casa com a máxima dedicação que me foi possível, assisti muitos vídeos e procurei outras pessoas que gostavam do assunto. Obvio que não foi mágico assim, ainda passaria e passo por diversas dificuldades e crises que me afastam da prática, porém, aquelas leituras, ambientes como aquele e a minha reabertura para o mundo externo, para redescobrir à beleza das pessoas e do mundo, isso tudo me trouxe de volta uma certa esperança que eu julgava perdida. A yoga, sem dúvidas, se apresenta como verdadeira divisora de águas para mim.

(Krishna ensina a Yoga a Arjuna)


A tradição hindu tem diversos mitos relacionados à yoga. Mas de maneira geral os mitos de origem revelam a nossa ligação com o Eterno. Yoga quer dizer "união", e os hindus acreditam que esta não é uma prática inventada pela humanidade, é sim um dom dos deuses e está presente desde o início de tudo. Desta forma a yoga é uma prática muito além dos asanas, é algo que nos aproxima de novo deste Eterno e faz com que (no meu caso, por breves momentos que parecem infinitos) não sintamos mais pressa, ansiedade ou cansaço. A yoga me permite entender que por mais difícil que seja um movimento, eu sei que posso resistir por mais uma respiração ou duas e entender que eu não sou apenas o meu corpo e o que eu sinto, mas também sou outros corpos e também o que estes corpos sentem. Percebi que era preciso me entender para entender os outros, para poder amá-los e respeitá-los como são, com todas as minhas limitações e excessos eu também aprendia a ver as pessoas como belas desta mesma forma.



(Shiva, o Destruidor)




No Bhagavad Gita, Krshna afirma que ensinou a yoga ao sol, e dessa forma o ensinamento chega até nós. Ele ensinou esta prática ao seu aluno Arjuna que pôde ver algo de bom depois da desastrosa  Guerra de Kurukshetra. Outras lendas apontam Shiva como o criador da yoga, sendo esta uma divindade relacionada diretamente com as forças de mudança, o Fogo Destruidor e Regenerador. Enfim, não sei detalhes sobre os mitos, apenas posso dizer que tudo isso faz sentido para mim. Acredito que o mundo é sim um mar de lágrimas e lamentações quando estamos acostumados a enxergá-lo com nossos sentidos e desejos mais primitivos, ou seja, sem entendimento. Por isso, acho fácil para a vida de um ser humano se encontrar na depressão, no fundo de um poço onde nada mais parece valioso, onde tudo foi aparentemente destruído, e é nesse ponto onde a energia de Shiva me consola. Eu posso dizer que sinto esta chama criadora dentro de mim e sei que ela é parte da mesma força que me destruiu, ela me dá a esperança de que tudo pode ser refeito e de que nada está totalmente perdido, ou que ainda assim, tudo é aprendizado... E é por causa dessa energia de mudança que qualquer floresta faz brotar novas flores depois do incêndio e daí então posso usar os asanas para fortalecer o meu corpo e me preparar para sentar e meditar e me entender e me aceitar e me amar tal como tudo o que existe, existiu ou existirá.


(Arjuna e o Caminho da Iluminação)



 Pratiquem Yoga...

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A Escuridão Que Precede A Primavera, IV


IV



- E ai! Já vai botar seus óculos de sol?

É o que fazem as piadas a respeito do meu novo rosto... Coberto pela vergonha de não saber... De não fazer realizar minhas expectativas em relação ao mundo de que tento me esconder... Ando na rua e atraio a atenção desnecessária para mim... Aquela atenção que as pessoas dispensam de seus próprios egos, de suas próprias carências individuais, só para poder criticar os outros... Criticam porque alguém teve a coragem de andar fora da linha... De realizar o aparente impossível... Afinal, alguém tem que criar novos dragões...

De muito me perguntam... Perguntam se consigo enxergar... Se é alguma promessa... Qual é o objetivo disso tudo?

Ah! Se eu por um acaso mesmo soubesse! Seria tudo mais fácil...

A verdade mesmo é que não sei... Tenho raiva de quem sabe... Mas minha mente febril vive a fabricar explicações... Diz a alguns que é para treinar os reflexos... Me tornar mais ágil... Mais equilibrado... De fato a deficiência temporária da visão já me mostrou que é necessário redobrar a atenção deitada sobre os outro sentidos... Ou seja, não é que milagrosamente sua audição se expanda... Mas sim, você passa de um pobre ser humano distraído para alguém que presta mais atenção ao que escuta, cheira, pisa, alisa, sente... Deseja...

Como chegar em algum lugar, por exemplo...

- Aonde você quer chegar?

- Eu não consigo compreender!

Mas enfim...


Já pensou? Com todas essas árvores sendo destruídas... Com todos os pássaros que já entraram em extinção por causa do avanço incauto desta sociedade consumista e inconsequente?

Bom... Talvez, quem sabe, eu esteja apenas lançando uma nova moda para o futuro... Sem tantas árvores para nos fornecer sombra fresca... Só nos resta lambuzar-se de protetor solar... O que meleca tudo e é um horror... 

Ou podemos lançar um lenço fino sobre a cara e proteger nossos olhares do Sol escaldante... Podemos até transpirar um pouco sobre o tecido e assegurar que este suor não seja em vão... Que não evapore inutilmente ou sirva apenas de aderência da poeira e eventuais sujidades desta cidade tóxica...

Um pano que guarda este suor bendito do esforço que galgo a todo dia para me fazer valer a pena... Uma moda bonita, rica em nutrientes, sais minerais que ajudam a conservar a pele, refrescar, resfriar a máquina de pensamentos... 

Depois é só lavar no final do dia... Usar uma outra cor no dia seguinte...  E tudo fica de boa... Cool... Chill out...

Mas isso é claro... Apenas para um futuro nuclear que acabaria com os dias nublados... Que extinguiria as nuvens de chuva do ar... Que exageraria no calor escaldante... Ou nos presentearia com raios gama e ultra violeta da pior qualidade...

Não quero que esta moda pegue... Quero apenas me esconder um pouco de vocês enquanto peregrino pelas ruas em busca de mim mesmo...

Farewell...

XXX - VIII - MMXVII.


*Imagem: Davos Hanich : La Jetée (Chris Marker, 1962)

domingo, 27 de agosto de 2017

A Cegueira da Terra, II



II


Hoje foi um dia meio apagado... Apesar de tanta luz lá fora... Habitando outros corpos... Sorrindo... Hoje foi um dia que só quis mesmo dormir... Me entorpecer... Desligar a parte racional do Cérebro... Rir de qualquer coisa... De nada... De tudo... Da minha desgraça... Da desgraça humana... Dos equívocos humanos... Das tentativas de ser feliz... De fazer tudo o que quer... Sem impedimento... Sem ameaças de loucura... Sem lembrar da gravidade... Tudo isso junto concentrando a vontade de fazer direito... De usar a única chance que tenho por garantia... A vida...

Pois eh... A vida! Talvez seja uma única cartada atirada sobre o tabuleiro...

A única chance de tentar um Az... Sobre O Blefe... A seta atirada contra aquilo que tenta a todo custo nos fazer desistir e não acreditar mais nas ciladas que muitas vezes nós mesmos cavamos pra si... Pra nos resgatar a nós mesmos do buraco das acomodações... Dos medos... Pra nos tirar daquela zona de conforto que construímos para evitar sofrer ainda mais... Mas que pobre garantia nós temos de não estarmos construindo outras prisões?

Ou Você Também Pode...

Acreditar, por exemplo... Que talvez aja uma pessoa que seja inesquecível. Sabe, daquele jeito? Tipo... Daquele jeito que te faça, apesar de todo sofrimento, sentir um alívio de pensar que talvez ela proporcione algo tão gigantesco (um sentimento) que te polparia de passar aquilo de novo por outra pessoa... Que exista algo tão forte que te cegue ao ponto de você precisar descobrir dentro de si um olho ainda maior... Um olho invisível que te permita perceber que tudo é infinito do jeito que é... Infinito ao ponto de gritar dentro de si dizendo... 

A busca acabou! Hoje eu senti o Infinito ardendo dentro de mim...

Sim! Eu sou um pregador do Evangelho do Infinito!

Um Evangelho que manda dizer aos mais altos pontífices que reconheçam a suprema humanidade de Jesus... Que reconheçam que também Mohamed, Sidarta, Lao-Tse e tantos outros são igualmente outras células finitas deste Deus Infiníto que, mesmo possuindo todos, não há nenhum nome que um mero ser humano poderia dar...

E tampouco fala conosco exclusivamente por meio de signos tão frágeis quanto as palavras... Pois... Se digo todas estas blasfêmias pela inspiração do Diabo (Quem criou o Diabo se não este mesmo Deus Infinito e Onipotente?), então por que todos os infames adoradores do medo não me entendem? Acho que Deus fala através de mecanismos diferentes, para células diferentes de seu maravilhoso e inimaginável corpo... 

Perdoe-me Mãe, pois pequei...

Só queria dormir e me esquecer de tudo isso... E este é o meu maior pecado... Renegar toda a dor que me permite recriar estas coisas... Estes sonhos... Estes deuses... Estas explicações para angústias tão transformadoras quanto as minhas...

Perdoe-me Mãe, pois pequei...

Não sabia que a senhora era a paridora de todas as estrelas do Universo... Não sabia que era esta força que me amparava no sorriso das flores que pouco a pouco começam a despertar com as canções vibrantes dos passarinhos... Estes jovens passarinhos que voam em rasantes tão poderosos que, até um pobre homem ignorante como eu, consigo ouvi-los quando fecho os olhos por muito tempo e penso... 

Quem sou eu senão isso tudo que está acontecendo agora?

XXVI - VIII - MMXVII