sábado, 2 de março de 2019

Os Três Pinos Cap I, pt 1


Primeiro Pino – Carreira Um : Trópico de Câncer

       
        Acabei de despertar, olho e vejo minha amiga tentando fazer o trabalho que dissera que faria na noite anterior (mas óbvio, eu atrapalhei, como sempre tenho a impressão que é só o que faço na vida de todos à minha volta); olho pra ela e não consigo conter minhas afobações de estar sempre ativo, de acordar já querendo dançar, falar, cantar, ouvir música, limpar a casa, de interagir com o mundo e compartilhar minhas visões... Ou fazer uma porção de outras coisas que me façam esquecer do fato de que eu não consegui dormir quase nada...
         Enfim... Rompi o silêncio...
- Advinha com quem acabei de sonhar agora?
         Ela olhou pra minha cara e fez uma expressão de tédio... - Aff! Sério?
- Pode crer... Mas depois a gente conversa, não quero te atrapalhar... – Perguntei se tinha café, ela disse que sim, então levantei... alonguei o meu corpo amaldiçoado e fui lavar os pratos...
     Durante mais este ato de meditação, pensei em tudo o que acontecera na noite anterior... Das revelações que contei à minha amiga no bar... Algumas coisas que nunca contei pra ninguém... Nem mesmo para o meu melhor amigo mais azuado por quem essa minha amiga é apaixonada... É porque as esquinas sem saída dos bares são assim mesmo... Elas reúnem a rejeição no canto de ninar que é velado no colo da noite... É ali onde os abandonados se podem encontrar e trocar as carícias que outro alguém jogou no lixo... E lá estávamos nós... Falando de demônios de nossas infâncias... Das tantas brigas, do sangue, do charco... Da maldição de não ter conseguido morrer apesar de já ter desafiado a morte tantas vezes...
       Em meio ao esforço cataclísmico de arear uma frigideira, eu penso também em todas as horas que estive em claro esta noite... Aqui nesta casa em que você esteve ontem, junto com as bixa tudo, nem sei mesmo se sequer passou pela sua cabeça que talvez fosse legal que eu estivesse também... Se pensou que talvez pudesse ter sido divertido, engraçado... Sei lá, qualquer coisa que me tirasse desse buraco onde agora eu escrevo, onde ainda penso em você... E onde eu sofro por pensar que a minha companhia pra você é dispensável... Como a de qualquer outro macho que você topa pela rua... Eu sou qualquer um pra você e isso acaba comigo... demais...
      Fiquei zanzando entre o quarto e a sala e a área de serviço... Fumando repetidos cigarros e esperando que o tempo passasse e algum cansaço chegasse para me destronar deste governo de rei da angústia em que a minha insônia me coroou... Ando rápido e na ponta do pé, com a maior precisão possível, para não fazer nenhum ruído que incomodasse os vizinhos de baixo, e nem minha amiga que dorme tranquilamente quando está cansada, como só alguém do seu signo consegue fazer...
        Durante a madrugada eu senti frio... Mas como não podia mais insistir em ficar deitado sem conseguir dormir, já estava muito inquieto de estar a horas ali sem se mexer pra não acordá-la... Por mais que eu a ame como uma amiga maravilhosa, eu entendo o que é não gostar de uma pessoa daquela forma especial... Que te faz sentir-se a pessoa mais incrível do planeta, apenas por sentir um amor tão intenso por alguém que te faz pensar que pode galgar os percalços das estrelas para poder estar com a pessoa amada... Estou falando daquele amor que nos paralisa as veias... Os músculos... As pernas... Tudo...  E por mais à vontade que tenha me sentido ao fazer amor com aquela pessoa... Eu sinto no meu íntimo que isso só aumenta a minha dor... Fazer amor com alguém que não é Você... E que no fim das contas me lembra tanto a Ti... Enfim... Eu deixo todas essas coisas a cargo mesmo das estrelas... E tento fazer o melhor que posso para não machucar a ela e nem a Você... Porque eu já tenho tantas marcas não cicatrizadas que uma a mais não fará a mínima diferença para o meu orgulho já tão maltratado...
      Levantei, me cobri com um cobertor, como aqueles mendigos místicos da geração beat... hahahaha! Só que com um estilo tropical que só eu possuo... Me sentei à frente do computador, não queria fazer isso... Mas é mais forte do que eu... Passei a noite desbotando algumas das suas postagens... Reli mais de 10 vezes as nossas conversas do último mês (que não era muita coisa, por sinal), mas meditei sobretudo na última coisa que Te disse... Fiquei ali pensando... Será que fui rude demais com Ela?... Será que A machuquei por ter revelado essa minha amargura íntima? Como será que Ela está se sentindo agora?... A verdade é que eu nunca vou saber... Ela nunca me dirá... Mas aquele horário da visualização já me dizia tudo o que eu precisava saber... “Visualizado – Qui 22:41”... Isso não me diz absolutamente porra nenhuma... Ela diz que não consegue me compreender... Compreender minhas atitudes... Porque ajo da maneira que ajo... Quer saber o porquê? Porque esse silêncio só me diz que essa história ainda não acabou... Que ainda vai doer em mim por muito tempo... Como um pulso aberto que curei sem engessar e que me doerá ainda pelos próximos três ou quarto invernos dos anos que se seguirão. (acreditem, já passei por isso, o frio faz mesmo esta porra doer...).
       Fiz café... Fui comprar pão... Tentei fazer com que aquilo parecesse mais um dia normal da minha vida... Aleatório... Preto e Branco... Até algum passarinho jovem me sorrir e apresentar seu vôo rasante, seus músculos fortes, seu canto novo... E o Sol sempre dá um jeito de me sorrir por entre as nuvens... Tudo isso... Todos esses fenômenos incríveis do Cosmos à minha volta, me dão os sinais de para onde devo ir e onde devo estar a cada momento... E acreditem ou não... Eles me guiam sempre para os lugares certos para que eu possa mudar o mundo com a beleza de minha tragicidade... Ou o meu sorriso descartável... Eh, aparentemente, sou um homem que traz os sorrisos que contagia as pessoas... que traz alegria aos desconhecidos do caixa, fazendo uma palhaçada, ou algo que aquele ser humano aprendeu que é errado de se fazer em público... Como demonstrar afetos, amor, loucura, sinônimos desgarrados para dizer a mesma coisa... Dizer que sinto algo imenso dentro de mim que grita e me faz querer compartilhar um pouco disso com as pessoas... Mas...
             Mas...

          Acontece que quando perco essa função... Quando sou novamente sugado para os abismos de meus pensamentos... Torno a me sentir o ser humano mais solitário do Universo... Pois tenho um inferno de informações na cabeça e sei que não existe nenhuma pessoa com quem eu pudesse conversar sobre eles... Porque são duras demais... Porque são intensas demais... Porque parecem falsas... fantasiosas... mentirosas... egoístas... obcecadas... possessivas... infantis... incompreensíveis... ridículas... românticas... sinceras talvez... terríveis... ou loucura... Demais... Demais... Demais... Ali eu descubro o meu último medo em existir... O medo de que não exista ninguém no mundo disposto a me ajudar... Não há ninguém que possa suportar este monstro tão grande que trago aqui dentro... Eu afasto Todos os Amores... Sem exceção... Não há mais ninguém interessado nas camadas mais profundas das minhas peles... Ninguém vai passar daquele muro que foi erguido nos meus mundos... Sob trezentas pétalas encouraçadas de veludo que compõem as multifárias cascas de minhas cebolas... Ninguém que possa ver aquela beleza que guardei para quando encontrasse a pessoa mais especial do mundo... Um outro ser humano que pudesse sentir algo por mim que me fortalecesse... Que me fizesse sentir-se um pouco menos sozinho...

        Voltei... À mesa do café, contei o pedaço que lembrava do sonho para a minha amiga... Já não lembrava muita coisa... Como tenho uma mente estranha de se compreender... Não consegui começar a contar o sonho sem falar de um livro ou dois que li em alguns lugares... Não me lembro exatamente em quais (ou talvez eu tenha inventado uma coisa ou duas, a verdade é que vocês não querem saber... porque as verdades doem... E vocês, meus queridos... Vocês sempre preferiram que eu mentisse... Porque as coisas que sinto, ao que parece apenas destroem tudo)... (Enfim...) O(s) livro(s) dizia(m) que os sonhos não são lembrados porque geralmente usam um nível muito reduzido de energia para fixar as memórias no cérebro... A parte relativa à memória fica geralmente desligada...


      Porém, assim como os traumas, as grandes sensações de prazer, as grandes decepções... Todas essas coisas que resultam em grande experiência para nossa ruína ou nosso mais glorioso bem estar... Todas essas substâncias que danificam o nosso sistema (dor, raiva, angústia, solidão)... Ou todas àquelas que causam sensações de prazer e conexão a toda a infinita beleza do Universo (como o carinho que vai crescendo por alguém só porque você a considera a pessoa mais especial que já conheceu; ou a sensação que sentimos ao ver o sorriso dela destruir todos os fantasmas dos ambientes assombrados com sua ausência; aquela pura sensação de se sentir eterno só por poder olhar para ela por mais alguns segundos...)... Assim como isso tudo, os sonhos também contribuem para gravar experiências que ajudam os indivíduos a não cometerem os mesmos erros de novo... (ou tentarem cometer menos aqueles outros que geramos por causa deles)... O importante é que essas informações é que garantem a experiência da vida como um todo... Pois todas as sensações e acontecimentos reverberam do macro ao micro e movem os corpos infinitamente para novos lugares...
       Sem falar de todo o seguimento da matéria que ainda não conseguimos compreender... Pois energia não se dissocia da matéria... Então todos os sonhos são infinitos e perpassam tudo... Porque todos são feitos de energia... Como as estrelas... Como nossos corpos... Como nossos desejos... E por isso é também infinita... Talvez eu tenha sido condenado a sonhar as impossibilidades que movem todas as espécies a realizar façanhas consideradas impossíveis para poder dar o melhor de si para o futuro deste mundo... Talvez eu esteja condenado a amar demais as pessoas porque só esse amor pode ensinar um homem como eu a querer sempre ser alguém melhor... Para que possa merecer a cada raiar do Sol, a companhia da mulher a quem escolhi doar esta loucura que arrasto comigo há tantos anos... Aquele desejo intumescido de lhe poder sorrir todos os dias e saber que vai ficar tudo bem... Que quando partirmos o mundo será um lugar melhor... Porque aquele amor impossível tornou-se possível através do resultado de todo o carinho dedicado para que as flores pudessem brotar... Os sonhos que fazem homens como eu esperarem por tempo indeterminado... São esses que fazem a cada dia eu envenenar novas células do meu ego... E mesmo que eu jamais encontre alguém... Ou mesmo que alguma outra duende suja me descubra... Até se outra vez conseguir amar alguém totalmente diferente... Eu ainda sinto no meu íntimo que continuarei procurando no fundo de meus pensamentos se por algum milagre ainda poderia ser Você... A pessoa mais especial do meu mundo até agora...
              (Não acredita? Eu te disse que era intenso demais debaixo das minhas camadas... Eu te disse que tinha medo de Ti porque sabia que Você entraria me rasgando como uma faca por baixo dos panos... Eu disse... Não atravesse as minhas máscaras porque por dentro eu sou mais um Monstro de Amor... Eu não posso mostrar meu verdadeiro rosto sem causar dor... Por favor... Se puder um dia, tente ao menos acreditar nisso)...
            E depois de todo esse devaneio... Volto à minha amiga para contar o que lembrei (se é que essa minha amiga existe mesmo ou é só outra invenção da minha cabeça alucinada...)... Lembrei da parte que Você estava presente o tempo inteiro... Que era algum lugar de uma Itabuna fictícia (vivo me perguntando porque essa maldita cidade ainda me prende tanto... Será que ainda tenho tantos traumas assim pra resolver?)... Você queria pegar um ônibus pra Bom Despacho (não perguntei porquê)... Você não pareceu me desejar em nenhum momento do sonho... Mas o que eu queria era, pelo menos, saber o porquê de Você ter desistido de mim tão fácil... Porquê eu não mereci em momento algum saber se Você teve alguma vontade verdadeira de tentar ser feliz comigo... Ou se em algum momento consideraste que eu talvez pudesse valer à pena... Que eu pudesse ser alguém que merecesse o seu amor... Enfim... Estas não são apenas perguntas que eu reservei para os meus sonhos...
            As lembranças são mais nítidas a partir desse momento... Nós nos sentamos na madrugada de uma estrada deserta (sinistra por sinal, um lugar onde eu tentaria parecer tranquilo por fora para tentar Te tranqüilizar, mas por dentro estaria tremendo de medo de que algo ruim pudesse acontecer com Você, minha pequena... Mas entenda, meu amor, ao que parece, no sonho, não havia outro lugar para me sentar com você... Aquele já era o fim do mundo... Não haveria mais para onde ir depois que Você fosse embora... Por isso nos sentamos lá... E Você me disse seus porquês, não sei se correspondem com seus porquês reais... Mas foram tão tristes e convincentes que me fizeram acreditar que tudo mesmo não passava de mais um sonho ilusoriamente construído para que eu superasse mais um sofrimento de um coração remendado... No sonho Você veio para completar as marteladas que haviam feito trincar minha realidade nos últimos meses...
        É nesta parte do sonho... Depois de ter ouvido tudo o que me disseste... Sem pestanejar... Tentando gravar cada expressão oculta do teu rosto para tentar especular a respeito de não estares me escondendo nada... Eh! Ainda tenho dúvida de tuas certezas  em relação ao que pode vir de nós dois no futuro... Às vezes me parecem mais incertezas do que qualquer outra coisa... Depois de ouvir tudo, quando estava prestes a aceitar tudo de uma maneira que pelo menos me possibilitasse lhe sorrir e lhe desejar uma boa viagem... Nesse momento apareceu um cara estranho... Muito estranho... E ficou olhando fixamente para nós dois... Ele não tinha cara triste... Nem alegre... Ele era uma interrogação... Ele era O Desconhecido... Não pude me conter... Me levantei e briguei com ele... Acertei-lhe dezenas de golpes até que ele caiu com a cara numa poça de lama... Você tentou acudi-lo para que não se afogasse... Mas por alguma razão eu não deixei... Você ficou brava comigo... Não queria que eu brigasse com ele por sua causa... Foi então que uma velhinha parou para socorrê-lo... Só que logo em seguida ela foi atropelada por um automóvel velho que também atolou na poça... A velhinha morreu na hora... Nós presenciamos o seu último suspiro e um murmurar de palavras que queria dizer alguma coisa que não pude compreender... Pouco tempo depois O Desconhecido levantou da poça onde pensamos que ele jazia morto... Olhou para nós dois... E sorriu...
- Depois disso eu acordei e não consegui dormir mais, seja bem-vinda aos meus pesadelos. – Encerro a minha transmissão...

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