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| (Krishna) |
Foi assim, como as notas de uma canção dramática, quando me
percebi em um momento muitíssimo delicado desta minha existência, um lugar onde
nada parecia mais fazer sentido ou valer a pena. Chamar isso de o Jardim da
Desolação me faz lembrar deste período com uma sensação parecida à de Arjuna
frente ao campo de batalha onde todos os seus familiares haviam morrido, nada
mais parecia importar, o mundo parecia deserto e sem nenhuma possibilidade de
felicidade em parte alguma. E aí então, que aquele desejo de suicídio, já tão
presente durante praticamente a minha vida toda, se tornou muito mais
contundente. Os dias se passavam e essa vontade só crescia dentro de mim,
tentei de tudo, me afastei o máximo que pude das pessoas e busquei um caminho
de auto-compreensão, tentei entender o que estava acontecendo comigo e o porquê
de sentir aquele vazio tão grande me destroçar não só por dentro, como também
me vi fisicamente
debilitado.
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| (Batalha de Kurukshetra) |
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| (Arjuna Desolado) |
Já havia entrado em contato com algumas leituras e
filosofias orientais, mesmo que por alto, mas foi neste momento que algo me
direcionou para a yoga. Comecei a ler um livro que, embora não ensine a prática
da yoga propriamente, me transportou
para a possibilidade de talvez, um dia quem sabe, eu pudesse me compreender de
fato, me aceitar como sou, aceitar meus erros e a partir daí me permitir mudar
para algo melhor. Depois disso entrei em contato com outros textos, com a
religiosidade hindu, zen budista, taoísta. Com o tempo, percebi que aquelas
leituras faziam sentido para mim, fui me percebendo mais calmo aos poucos, mais
silencioso, e aí então eu perdi o medo e a preguiça de mudar. Antes, cheguei a
pensar que a meditação era algo impossível para mim, para minha mente inquieta,
parecia impossível vencer minha ansiedade, minha angústia e meus vícios. Foi no
final de 2015 que fiquei sabendo que no Palacete das Artes havia uma aula
quinzenal de graça, e como tinha interesse mas não tinha dinheiro, achei que
não custava nada ir até lá ver.
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| (Krishna e Arjuna) |
Me lembro do primeiro dia que fui, não fiz nenhum asana,
apenas me sentei em um dos bancos e observei, respirei, ouvi com atenção tudo o
que a professora dizia. No final, na hora da curta meditação onde todos se
deitaram, eu simplesmente fechei os meus olhos e, de repente, aquela pessoa que
não sabia meditar permitiu que os sons do espaço e os diversos silêncios
acolhidos ali lhe invadissem, e naquele momento eu senti uma paz e uma
felicidade cheia de vida e esperança.
Daí então comecei a frequentar mais vezes e a repetir os movimentos em
casa com a máxima dedicação que me foi possível, assisti muitos vídeos e
procurei outras pessoas que gostavam do assunto. Obvio que não foi mágico
assim, ainda passaria e passo por diversas dificuldades e crises que me afastam
da prática, porém, aquelas leituras, ambientes como aquele e a minha reabertura
para o mundo externo, para redescobrir à beleza das pessoas e do mundo, isso
tudo me trouxe de volta uma certa esperança que eu julgava perdida. A yoga, sem
dúvidas, se apresenta como verdadeira divisora de águas para mim.
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| (Krishna ensina a Yoga a Arjuna) |
A tradição hindu tem diversos mitos relacionados à yoga. Mas
de maneira geral os mitos de origem revelam a nossa ligação com o Eterno. Yoga
quer dizer "união", e os hindus acreditam que esta não é uma prática
inventada pela humanidade, é sim um dom dos deuses e está presente desde o
início de tudo. Desta forma a yoga é uma prática muito além dos asanas, é algo
que nos aproxima de novo deste Eterno e faz com que (no meu caso, por breves
momentos que parecem infinitos) não sintamos mais pressa, ansiedade ou cansaço.
A yoga me permite entender que por mais difícil que seja um movimento, eu sei
que posso resistir por mais uma respiração ou duas e entender que eu não sou
apenas o meu corpo e o que eu sinto, mas também sou outros corpos e também o
que estes corpos sentem. Percebi que era preciso me entender para entender os
outros, para poder amá-los e respeitá-los como são, com todas as minhas
limitações e excessos eu também aprendia a ver as pessoas como belas desta
mesma forma.
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| (Shiva, o Destruidor) |
No Bhagavad Gita, Krshna afirma que ensinou a yoga ao sol, e
dessa forma o ensinamento chega até nós. Ele ensinou esta prática ao seu aluno
Arjuna que pôde ver algo de bom depois da desastrosa Guerra de Kurukshetra. Outras lendas apontam
Shiva como o criador da yoga, sendo esta uma divindade relacionada diretamente
com as forças de mudança, o Fogo Destruidor e Regenerador. Enfim, não sei
detalhes sobre os mitos, apenas posso dizer que tudo isso faz sentido para mim.
Acredito que o mundo é sim um mar de lágrimas e lamentações quando estamos
acostumados a enxergá-lo com nossos sentidos e desejos mais primitivos, ou
seja, sem entendimento. Por isso, acho fácil para a vida de um ser humano se
encontrar na depressão, no fundo de um poço onde nada mais parece valioso, onde
tudo foi aparentemente destruído, e é nesse ponto onde a energia de Shiva me
consola. Eu posso dizer que sinto esta chama criadora dentro de mim e sei que
ela é parte da mesma força que me destruiu, ela me dá a esperança de que tudo
pode ser refeito e de que nada está totalmente perdido, ou que ainda assim,
tudo é aprendizado... E é por causa dessa energia de mudança que qualquer
floresta faz brotar novas flores depois do incêndio e daí então posso usar os
asanas para fortalecer o meu corpo e me preparar para sentar e meditar e me
entender e me aceitar e me amar tal como tudo o que existe, existiu ou
existirá.
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| (Arjuna e o Caminho da Iluminação) |
Pratiquem Yoga...