domingo, 30 de julho de 2017

A Luz De Leão ou oãeL eD zuL Á





Acordei cedo embrulhado em outra cama... atravessei a cozinha da casa e fui acordar meu amigo... despedi-me da amiga que dormia também na sala... cumprimentei o homem que lavava a moto ao sorriso de sábado de manhã e rompi feito um feixe de luz pelo portão amarelo... Fazia frio mas o Sol reluzia um charme garboso e todo inflado como se nenhuma tempestade tivesse acontecido... Eu caminhava sob olhos do Leão.
A estrada até minha casa foi alegre... Travessia traçadora de planos... Calculando as matemáticas das imprevisibilidades porque no ontem não imprimi o poema que acompanharia a marmita de sonhos que embrulharia logo mais naquele pano de bolinhas... Hahaha!, Eu sei que as vezes o que eu digo não faz o menor sentido para vocês, meus maltratados leitores... É que não é pra fazer mesmo... Concluam qualquer coisa... Ou melhor... Imaginem porra! Vai ficar gostosa a imagem que vocês mesmos derem para esta cena...

Ao chegar em casa, após um banho termal delicioso, desembrulhei os melindres dos cuidados em que meus sentimentos envolveram aquele singelo presente... Uma máquina de escrever de mentira... Aquela que não dá vida a nomes de pessoa, mas que faz vibrar o seu nome na estrela mais distante na infinita noite do meu céu observável... Dei corda... Torci o máximo que pude o bichelenguinho para que a música tocasse infinitamente por alguns segundos... Torcendo também para que aquela porra não quebrasse... Pois seria o limiar do meu drama, ou início de outra tragédia que daria fim a toda civilidade clássica de meu pathernon exibido... Bom... Pela deusa, não quebrou ainda, eu acho...

Havia marcado ainda dez pras oito no relógio... Precisava fazer o corre da impressão... Mas primeiro, ainda dava para rapar um último camarão dos mais bonitos que havia guardado dentro da caixinha... Sobraria o suficiente para mandar para o alto a mensagem secreta de fumaça que dirá ainda no seu subconsciente tudo o que ainda sou capaz de fazer pra te convencer de que digo a verdade... Para você só a verdade... Pelo menos toda aquela que poderia proferir sem lhe causar nenhuma mágoa... (ah, minha pequena... Como queria realmente ser forte para não desejar te dizer mais nada... Mas seria mentira se dissesse que não quero... Pois quero gritar pra ver se tu me ouves daqui... Mas não vou... Não quero ser internado hoje...)

Bolei o beck pra fumar na estrada... Decidi tentar a Escola de Arquitetura, lá poderia ter uma impressora, neh? Negativo, tudo fechado, alunos não tiram xerox dia de sábado... Desci, me deparei com um gordinho subindo as escadas. – Você sabe por onde posso descer, aqui ta fechado o portão – Me pergunta ele. Antes que eu dissesse qualquer coisa, outro indivíduo me poupou alguns segundos. – Ah tem outra escada ali do lado. – Ouvia isso já descendo com uma voz quase satânica na minha cabeça, dizendo: - Esse portão não é NADA para você, meu lindo... Você pula em dois movimentos, com certeza... – Então eu pulei, na verdade dei uma escorregada no segundo movimento, o que me fez descer e repetir o primeiro e conseguir somente na segunda tentativa... Droga! Fico realmente chateado quando não consigo materializar meu pensamento perfeitamente... Mas enfim, tenho que respeitar também estas leis de Carne o Osso...

Bem... Passada a aventura, “o mar é o mesmo, já ninguém o tema”, e o meu sorriso secretamente leonino revela-me a hora exata de ascender o baseado... Ufhhhh... As árvores hoje gorjeiam mais bonitas... Não choveu e nem ameaçou... Em Ondina com certeza há uma xerox aberta...
O beck ia pela metade quando avistei de longe um amigo, o black entregava de longe a silhueta imprecisa que conheci pelo conjunto das características... Aquele cara ta de cara, pensei...

– E ai Rafa, vai? – Aponto o instrumento.

- Que é isso, um beck? Ele redargüiu.

- É sim...

Não preciso dizer mais nada... Logo fiquei sabendo que por ali não haveria nada aberto... Ele me contou da possibilidade de um lugar em frente a Arquitetura... Bem... Corri lá novamente para me dar de cara com o ócio merecido do final de semana sagrado de alguém... Bom... Pensei em inúmeras possibilidades de lugares longínquos onde poderia imprimir aquele poema... Mas concluí nos meus quiças atômicos que, talvez fosse melhor entregá-lo no ano que vem, ou sei lá, quando o deus que há em mim decidir que é a melhor hora... Talvez ainda poderei somá-los ao meu pretenso conjunto de obras para além da funerária (Eu bem que poderia dizer “obras póstumas”, mas isso não condiz com minha criatividade essencialmente dramática... Além do mais, tudo em mim é um evento histórico, ou porque nunca foi feito, ou porque tentei fazer melhor...)... Enfim, voltei pra casa...

Em casa o desafio era mais extremo... Como fazer caber o impossível dentro das fronteiras das possibilidades? Por alguma razão cósmica, as duas barras de chocolate que comprei não cabiam na gaveta daquele porta jóias inútil... O engraçado que eu calculei... Perguntei ao vendedor on-line o tamanho... O vendedor respondeu: 14 cm de largura, 11 cm de altura e 15 cm de profundidade... Caberia perfeitamente se ele não tivesse esquecido de me avisar da porcaria do parafuso que tem na porra do meio da gaveta que a impede de fechar quando está cheia... Bosta... Nem os camarões verdinhos que eu havia separado estavam dando, tive que customizá-los... Reduzi o mínimo que pude o efeito visual de sua beleza... Mas isso já era motivo o suficiente para inquietar minha alma perfeccionista... Enfim... Em outros tempos eu me estressaria, em vez disso fui trabalhar o bilhete...

Bem, não possuía nada parecido com papel cartão... Mas havia dois pequenos envelopes, um preto, outro rosa... Acho uma linda combinação... Logo, cortei o rosa em tamanho menor... Escrevi uma mensagem (que somente o destinatário poderá ler, me desculpem) e o coloquei no envelope negro... Bem, não preciso dizer que a merda da gaveta não gostou nada disso também neh? Fez o que pode pra enguiar... Mas me retei e fechei aquela porra com um ligeiro comportamento forçado... E... Rezei para que o seu jeitinho desastrado não quebrasse quando fosse abrir... Embrulhei... Já eram 9:30 da manhã.

Mas é óbvio que não poderia sair naquele estado, de gente que não dormiu (na verdade, quase sempre estou assim, mas é preciso às vezes disfarçar a cara), fui tomar banho... Fazer a barba... Escolher uma roupa que caiba bem numa memória... Colocar um perfume diferente para ver se causa algum estranhamento (o que também é importante para a memória)... Bom, desde o princípio pensei em deixar o presente na portaria... Mas a possibilidade de encontrá-la só de botar a cara na rua é risco consideravelmente grande... E todos já perceberam que não gosto de me colocar à mercê da Fortuna sem ter uma lista significativa de planos de fuga... Prefiro me sentir elegante, ou melhor, empertigado... (pra algumas pessoas é a mesma coisa, mas para mim a palavra “elegante” não traduz como eu gosto de me sentir). Finalmente, meti no bolso o chocolate que não coubera na caixinha... Talvez me servisse de um útil elemento surpresa... Em último caso eu mesmo o comeria (Era feito com pedaços de cacau... Vocês sabem que eu adoro cacau neh?)...

Hum, e por falar em comida... Por fim saí de casa, mas havia me lembrado que não tinha comido nada ainda... Juntei as moedas e passei na venda pra comprar dois reais e setenta e cinco centavos de castanhas de caju (altamente nutritivas e me forneceria energia o suficiente para uma empresa como esta)... Bom! Já se passavam das dez, e a conhecer a pessoa, conheço também as imensas probabilidades dela estar aproveitando este lindo dia de sol... Mesmo assim segui com minha sacolona de sonhos... Logo na rua, outro impasse... Que caminho devo tomar? O mais curto e perigoso? Ou o mais longo e mais seguro para a carga que trago comigo? ... Bem... Ninguém vai ousar me roubar hoje, hoje não... Fui pelo mais curto, na esperança de talvez, quem sabe, ganhar um abraço ainda hoje... De qualquer forma, tratei de segurar a sacola firmemente, mas não poderia ser tão firme que denotasse desespero (até pq não sou de me desesperar com tamanha facilidade). Tinha que segurar de uma forma que demonstrasse minha imensa tranqüilidade em estar passando por ali com aquilo na mão, ao passo que também mostre aos que me olham que ali não está nenhuma trouxa perdida num caminho deserto...

Cheguei na rua dela depois de uma caminhada agalopada... Parei um pouco antes do portão... Empavonei-me as roupas e segui... O porteiro me dá o sinal que torna a campainha desnecessária... Entrei e fiz a pergunta que me traz um nó quase imperceptível à garganta:

- Fulana de Tal está?

-Acabou de sair – disse ele.

- E a colega de quarto dela? (Sempre tenho medo que a encomenda se extravie, não confio cegamente em porteiros, ou melhor, em ninguém)
-Também saiu... ele disse.

- Tudo bem, posso deixar isso aos seus cuidados? – Ele respondeu afirmativamente. Fiz um sinal dramático e continuei – Mas tome cuidado, é frágil.
- Não, ta tranqüilo, vou colocar ali no cantinho.

Sorri, fiz um sinal de agradecimento juntando minhas duas mãos semicerradas como num abraço e, inclinando-me para frente, o reverenciei e me despedi... Na rua o Sol continua me fazendo sorrir radiantemente... Acho que está Sim na hora de fazer visita a Uma Outra pessoa muito especial... Fui até ao baluarte onde ela se esconde... Chegando lá, não havia ninguém na portaria, entrei em casa e não vi ninguém conhecido... Ou melhor, entrei naquela casa que foi meu parque de diversões por tantos anos, e me senti um completo estranho... Uma menina que estava na sala me fitou curiosamente... Perguntou quem eu desejava ver e eu disse que queria Sim ver a Uma... Prontamente a guria subiu até o quarto e verificou ... - Ela não está... Eh! Eu sabia que Ela também deveria estar aproveitando aquele lindo dia ensolarado... Ahhhhh... Gente com muita coisa em Capricórnio... Sempre leais ao imenso trabalho de ser feliz...

Decidi então passar em outra residência... Talvez receber um abraço de um amigo tão caloroso quanto o mar... Perguntei se meu guru de Escorpião estava em casa... O engraçado que neste lugar onde sempre me senti um tanto mal tratado, fui recebido por um segurança que nunca tinha visto... – Quer ver quem? – Perguntou ele. Disse o nome e ele: - Sabe onde é? – Sei, respondi. – Pronto, vá lá e pede pra ele vir assinar aqui... Simples assim... Fui no quarto dele e só João estava dormindo... Lavei o rosto no banheiro e saí... Fui comer minhas castanhas no Campo Grande de dar minha missão por encerrada...

Vagandiei entre as árvores da Vitória... Sentia a brisa sacudir as memórias de meus velhos cabelos por entre as folhas... Minha juba dissonante... Ao chegar no Campo Grande, antes de entrar na praça, observo uma corpa estendida no chão de um dos grandes portões da praça. Era um rosto conhecido, mas dei de ombros e preferi me sentar num local próximo para apreciar a cena... Vejo um grupo de velhinhas circundarem a corpa... Quase podia ouvir o que murmuravam... Ou pelo menos imaginava algo assim: “Tadinho! Será que surtou?”; ou qualquer coisa que denotasse a compaixão cristã que aprendemos nos bolsos da sociedade diante da loucura... O jovem ergueu a cabeça e tranqüilizou as senhorinhas... Era um experimento... Escreveu algo num papel e voltou à sua posição meditativa... Nesse momento...

-AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Bem grande como uma loba, Outra louca grita um estampido do outro lado da praça... kkkk... - Eh minha amiga. Até meu fígado que não tem ouvidos reconheceria o reverberar daquele grito... Enfim... Continuei comendo minhas castanhas, uma a uma, vagarosamente... Quando acabaram, peguei o chocolates, o despi de sua indumentária soberba e levei um naco até a boca... Tinha o gosto da eternidade... Quis dividi-lo com minha amiga e fui em direção do horizonte de onde partira o grito... Chegando perto, noto aquela figura sublime meditando acostada numa árvore... Ao me aproximar, um homem vem em minha direção e murmura alguma coisa que a catarse de estar diante de minha amiga meditativa não me permite deixar que complete... Olhando-o nos olhos, posiciono automaticamente o dedo indicado entre os lábios em sinal de silêncio e aponto para Ela... O homem, que era mais alto e mais forte do que eu, se encolhe e retrocede.

Aproximo-me, me sento em sua frente com o chocolate entre as mãos... Ponho minha espinha ereta e também eu me conecto à cena... Com os olhos semicerrados eu fico lá, me certificando que o homem foi embora (não confio em ninguém, às vezes reações como a minha podem gerar represálias ou vinganças que só encontram sentido na cabeça de quem se vinga...), felizmente não havia motivos para preocupações, ninguém aborreceria nossa conexão... Ficamos lá alguns minutos, até que alguns movimentos da pessoa em minha frente denunciava seu retorno... E ela finalmente abriu os olhos, eu ergui também os meus a tempo de ouvir sua gargalhada... Ela se levantou... Nos abraçamos bem apertado... Ofereci um pedaço do meu chocolate... Logo em seguida uma moça chegou com uma caralhada de papeis... Eram relatórios do experimento... Sim... era Ela também Uma cientista...

- Toma o seu relatório... Nos reunimos em 10 minutos. – Disse a moça.

Minha amiga pegou o papel e começou a ler concentradamente, eu sabia que ela se guiava pela mesma lua que a minha... Olhei um pouquinho admirando aquela juba castanha... Apaixonadamente eu sinto que meus amigos me revelam o sentido da vida... O caminho de fazer o nosso melhor... Sempre... Sempre... Sempre...

Eu por fim a abracei... Agradeci por ela existir também... E disse:

- Tchau amiga, eu só vim aqui te dar esse abraço... Este é apenas o primeiro dia de Leão... E o Sol está sorrindo sob nossas cabeças...


Inverno de MMXVII.


https://www.youtube.com/watch?v=zethvKil2m4
(Muito - Dentro da Estrela Azulada - Caetano Veloso, 1978)

Cerração pt, III




Caminhei brincando com meu guarda-chuva já tão estropiado pelo efeito da gravidade que age diretamente sobre minhas inabilidades malabarísticas... Chegando ao RU eu encontrei a Querida... Uma mulher de barba e de paus como só o século vinte e um consegue produzir, com todos os direitos de se sentir mulher e de pensar livremente novos conceitos de gênero de acordo sua própria metafísica. Ela sorri ao me encontrar, eu lhe pergunto se vai almoçar, se quer me acompanhar. Ela aceita e vamos juntas, eu permaneço calado a maior parte do tempo, ocupado com meus próprios devaneios, sonhos e abstrações naturais das que compõem a cosmovisão de um genuíno teimoso...

- Você ficou muito bem assim de cabeça rapada, viu... Gostei mesmo, ta com a cara mais limpa, ficou muito bonito. - Ela diz.  Eu só consigo sorrir e agradecer de maneira discreta. 

Após alguns minutos eu me despeço, tenho que rumar para o trabalho, atrasado como o de costume. Na saída do restaurante encontrei uma das pessoas que mencionei anteriormente. A canceriana me viu e sorriu para mim... E então eu disse:

- Vi você na estrada de São Lázaro. Era pra ter te oferecido uma carona, mas eu tava chapado, não consegui reagir a tempo.

- Aff... É a sua cara fazer isso. Tive que andar isso tudo e eu tava morta de cólica... 

- Pois eh... Mas é isso neh? Você não vai conseguir me fazer sentir pior do que eu já me sinto horrível... - Eu disse com certo ar pesado e... depois de um breve reclinar de cabeça, ergui-me novamente e me despedi sorrindo... Saí dançando à luz do dia, rodopiando o guarda-chuva como uma criança que não se preocupa com o depois...

O restante do dia passou arrastado e utilizou de pouca energia para gravar as experiências na memória. Me lembro de uma parte da tarde onde um visitante do museu me agradeceu por ter realizado um bom trabalho, por ter sido atencioso, dedicado, por destilar os percalços da História do Brasil de maneira apaixonada... Eu fico feliz em poder estar nos lugares em que estou... Na hora em que estou... Esta é a minha imensa felicidade de viver, porque sei que só eu sinto o que sinto e que para isso preciso dar crédito aos mínimos sinais que me mandam sair... ou ficar... E é esse sentimento que me carregou até esta noite...

Esta noite me trouxe de volta a todo o caminho percorrido... Estava sozinho a saborear minha janta sem gosto quando vejo surgir no restaurante aquela figura que só de me aparecer no campo de visão modifica toda a atmosfera à minha volta... Ela sentou-se e jantou comigo... Mal conversamos, adotamos o hábito semi-inviolável de dialogarmos em silêncio... Pergunto se posso acompanhá-la até o ponto, tento ficar o máximo de tempo possível com ela... O tempo passa... Ela conversa pelas teclas do celular... Eu converso com os espíritos... Peço ajuda a um cigarro... Acendo e espero...

O ônibus chega... Nos sentamos lado a lado... Eu fecho meus olhos e sinto o seu perfume... É tudo calmo agora... Não há mais nada para esperar ou temer... Exceto o meu ponto que chega primeiro... Quando reabro os olhos ela esta cochilando... Ou fingindo... Nunca o saberei... Eu me despeço com um singelo toque em sua cabeça... Saio correndo como o de costume... Há sempre habitante em mim esse medo de chorar... Do lado de fora da janela eu a contemplo uma última vez e abro em seguida o meu guarda-chuva quebrado... E então eu sei que posso conservar por mais um pouquinho de tempo essa felicidade minúscula de vê-la mais uma vez, ainda que partindo... Hoje eu não preciso chorar porque sei que o céu faz isso por mim sempre que tento ser um bom garoto...










Inverno de MMXVII.



https://www.youtube.com/watch?v=BOO5ApAZlm4
(Quando Eu Olho O Mundo - U2)

*Legendas ativadas no Closed Caption do Video - CC.

sábado, 29 de julho de 2017

Cerração pt, II



O dia de hoje cresceu aninhado em névoas, caiu uma chuva miúda logo de manhã, já estava saindo de casa quando voltei para buscar meu cajado (guarda-chuva)... Fui até a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas com o intuito de chegar a tempo da aula de História Contemporânea. Chegando lá eu encontrei o Roberto, que estava fumando um cigarro embaixo de uma árvore antes de caminhar para sua aula chata sobre festas baianas, onde o professor passa grande parte da aula falando de novelas e inventando hipóteses e procurando nomes adequados para suas personagens, de comportamento fictícios, inventadas por uma emissora de Tv completamente fora da realidade de milhões de brasileiros ... Aff... Nisso já haviam se passado dez minutos do horário da minha aula... Conversamos um pouco sobre o fato de eu já estar saturado da universidade, das aulas, de estar novamente neste campus depois de ter abandonado o semestre anterior... Ele está já tão carregado de memórias do que não vivi que às vezes realmente tenho um sentimento estranho de angústia... É então que o Roberto fala que para ele é vantajoso estar chapado durante as aulas... Eu digo a ele que para mim é uma merda, pois eu viajo tanto em meus próprios pensamentos, são tantos os mundos que eu visito quando estou lombrado que chego a duvidar se aquilo não se trata de algum tipo de projeção astral ou sei lá o que... Acho que não nasci para o mundo acadêmico...

Roberto diz que com ele é o contrário, que consegue prestar atenção em tudo e viajar com os detalhes do que a professora gostosa fala. Ela assume uma postura tão sublime e fala com tanto domínio do assunto, que deixaria qualquer jovem intelectual excitado... É então que a conversa volta ao baseado e é nesse momento que ele se volta para mim e diz:

- Vey eu viajo demais em ouvir ela fala, vou entrando na onda. É muito bom estar chapado na aula dela... E por sinal, eu tenho um bequinho aqui, vamo ali em cima fumar!

O engraçado é que eu tinha conseguido recusar o beck que meu outro amigo havia me oferecido pela manhã... A este, porém, não fui tão forte... Fumei a contragosto como tem sido na maioria das últimas vezes... No fundo eu sei que estou fazendo isso para amainar o vício... Conversamos um pouco sobre as minhas mudanças e falei a ele um pouco sobre a minha necessidade de parar de beber, de fumar, de me entregar às saídas tóxicas da vida... O Sol clareou nesse instante... Depois de me ouvir ele perguntou o porquê eu precisava largar, porque achava que era isso que estava me prejudicando... No fundo isso é muito difícil de explicar para as outras pessoas, então eu resumi dizendo que estava me atrapalhando de fazer um monte de coisas que sempre sonhei fazer e nunca fiz. Como dominar alguma arte marcial, por exemplo. Quando disse isso ele desembestou a falar, é que Roberto estuda Aikidô, já fez Judô e Karatê e tals... Sácomé...

Ouvi atentamente o que ele dizia, e fui gradualmente pensando nos nove preceitos do Miamoto Musashi, sobretudo no último, onde ele diz que é preciso tentar não fazer nada inútil... Mas como posso eu, a mais inútil das pessoas, posso fazer qualquer coisa que tenha alguma utilidade à voz do mundo? Como posso eu um poeta anônimo contribuir ao melhoramento de um cosmo tão infinito? Com certeza não será destruindo ainda mais o meu corpo e me afogando nas depressões cotidianas de um mundo louco como este que inaugura o século XXI. É nessa parte que Roberto faz uma comparação entre os rolamentos o Judô e o Aikidô.

- Não sei men, acho que no Aikidô tem muito a onda da repetição do movimento, saca? É preciso treinar até sair perfeito. Por exemplo, no Judô todo mundo fazia o rolamento, mas era aquele rolamento de qualquer jeito, o importante era rolar entende? Já lá no Aikidô, é preciso rolar sem fazer nenhum ruído, sem ter nenhum desgaste. O Judô vc se jogava lá ou derrubava o cara, - reproduz com a boca o barulho de corpos caindo no tatame - o importante era derrubar.

- Éh isso - disse eu. - É isso que estou evitando, o desgaste. Quando estou sob o efeito de drogas, também fico muito sensível, acho que abrem portas do meu subconsciente das quais não tenho muito controle. É nesse ponto que acabo dizendo coisas que só deveriam existir dentro da minha cabeça. Coisas que machucam as pessoas, que reverberam em outras pessoas e que, em longo prazo, acaba causando grandes estragos na minha vida... Acho que eu me culpo demais, por tudo...

- Porra, isso aí é foda, cara... - Roberto irrompe e logo me seqüencia de perguntas. - Mas você acha que tudo isso que você fez foi errado? Acha que estar aqui e não estar na aula é a coisa errada a se fazer? Não dá pra conciliar os dois?

Digo a ele que realmente não me arrependo das coisas que fiz, não acho que aja culpa quando não se sabia do erro... Fiz tudo o que fiz porque foi a saída que me surgiu... De todas as coisas que fugi, de todas as sensações desagradáveis que tentei evitar... Todas as que causei por causa da decisão de evitá-las... Mas não acho que as pessoas estão nos lugares que não deveriam estar... Estar alí, naquela hora, chapando com meu amigo era tão produtivo e útil para minha vida... Para minhas reflexões... que seria muito injusto dizer que valem menos do que as coisas "que tenho que fazer"... Acho que as conciliações estão dentro de nós e “acendem-se em medidas e apagam em medidas...” Esta é a chave para a compreensão do Universo... Achar a conciliação, a redenção das coisas que constroem e destroem... Afinal, é possível construir algo sem movimentar a matéria? Sem decantar? Sem Fundir? Sem destruir??? Não meu amigo, estamos exatamente onde deveríamos estar e transformamos o mundo deste jeito... Isso é materializar o pensamento - Partir ou ficar, na minha vida, tem sido questão de onde a luta me chama... O meu caminho... as asas quebradas das vozes da minha cabeça...

Neste momento ficamos os dois em silêncio, observando a linda vista do Mirante de São Lázaro... As nuvens se abriam, o Sol brilhou divinamente, sorrindo entre as sombras da grande gameleira... Ao nos darmos conta do passar do tempo, descobrimos que já era dez pro meio dia. Ele precisou ir para a aula... eu... como sempre sigo os instintos que me dizem para não ir... Resolvo adiantar meu lado para não chegar atrasado ao trabalho de novo... Me despeço de Roberto e desço para pegar a trilha que me levará até ondina... Nesse momento eu vi a silhueta ruiva que me perseguem as vistas... Será que é ela mesmo? Quantas miragens num já vi este ano? Quantas vezes já não vi o rosto dela nos vazios? Nos vãos da aurora ao parir atravessado das madrugadas que insisto... Eu a vejo em todos os lugares onde a minha vontade maltrata meu subconsciente...

Segui na ânsia sem saber se era ela... Os pensamentos não fluem direito sobre o efeito destas drogas... É tudo muito turvo... às vezes lento... às vezes devagar... Não se consegue focar em alguma coisa por muito tempo, a menos que... Seja algo muito importante... Segui acelerando o passo... Ainda em dúvida se descia o caminho ou seguia pela estrada de São Lázaro... Nesse momento fui surpreendido por uma interlocução inesperada:

-Entra ai Estado Islâmico... Agora que ta parecendo o Estado Islâmico mesmo...

Era a voz de uma senhora muito agradável.... Não sei direito como as coisas aconteceram, não conseguia pensar direito, entrei no carro meio no automático. O carro seguiu pela estrada e lá estava a criatura de cabelos vermelhos que não saí da minha cabeça... Estava acompanhada de outra canceriana também muito importante para mim... A senhora que me deu carona falou um montão de coisas nesse meio tempo e eu não ouvi nada... Só me dei conta que não estava mesmo ali quando olhei para ela e percebi que ela estava falando sozinha... Neste momento me bateu a tristeza... Logo eu que me arrogo tanto de prestar atenção ao que as pessoas dizem? Perdi completamente o áudio daqueles segundos que se passaram desde que entrei no carro... Quando recobrei o controle de meus devaneios ela estava no meio da frase:

- ... às vezes a gente se deixa ficar triste por pequenas coisas, não eh? - Não sabia sobre o que ela estava falando, mas neste momento o meu triste ar introspectivo revelou uma estranha sensação de felicidade e então eu disse:

- Mas a felicidade também é feita de pequenos momentos, pequenas coisas que podem nos deixar feliz. - Percebi que por mais que eu estivesse triste e sem esperança da realização dos meus desejos íntimos, a vida ainda me presenteava com certos calores, certas circularidades sanguíneas irregulares que me fazem tremer as pernas, que me fazem suar frio, gaguejar... ou algo até mais raro em se tratando de mim... me fazem ficar mudo, sem palavras fiéis para descrever o que sinto... - Acho que tudo depende da maneira como captamos as energias que envolvem as pequenas coisas... Nós temos a oportunidade de transformar as situações em algo bom, sempre, desde que prestemos a atenção nos pequenos detalhes.

Nesse momento ela parou de falar um pouco e disse:

- É bem verdade, menino terrorista, é verdade.

Nós nos aproximamos daquele monumento ridículo da Avenida Garibalde, eu caminhava para o Restaurante Universitário, por isso pedi que parasse ali... O Sol brilhava sobre nós quando eu saí do carro e disse:


- Está uma linda manhã para se aproveitar os pequenos momentos, os pequenos encontros da vida... Tenha um bom dia professora, o Sol voltou a brilhar e está lindo... - Ela agradeceu com um sorriso e singelas palavras de despedida... Segui...



https://www.youtube.com/watch?v=wo9KedPA8Z0
(O Livro de Colorir do Tio Brinquedo - Blockhead)

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Cerração pt, I




Oi! Hoje eu acordei tarde, como tem sido comum nos últimos dias... É que durmo demais nesta época do ano, acho que pra compensar a parte do verão onde não durmo nada... Ontem raspei o cabelo... Tinha ido lá à Ponta de Humaitá, foi a primeira vez que voltei lá em mais de dois anos... Saímos em trio de lá da Boa Vista do Lobato num final de tarde (ou melhor, início de noite...) de domingo... Mal passava ônibus, um deles passou e não parou. A ida demorou mais do que imaginei, mas pude observar com calma uma Ribeira anoitecendo as lembranças que eu, como um perfeito nostálgico, agora revisitava religiosamente por detrás das janelas de minhas memórias...

A minha memória é um organismo vivo. Ela perpetua em mim inumeráveis imagens que se movem, falam, cheiram, transpiram e até escutam de maneira sempre atenta esta alma aberta a se ressignificar... Mesmo assim ainda me pego se perguntando se tudo o que vivi foram cálculos de grandes decisões importantes ou apenas conjuntos borrados de uma imensa perda de tempo(?) Estar ali depois de tanto tempo e poder refletir com maior clareza sobre as dores de um passado... Revisitar estas lembranças e poder refazê-las ao som destas ondas que ecoam os barulhos dos tantos beijos nunca dados que imaginei... Lembro-me dos meus olhos naqueles dias, lembro-me da distância que guardei de todos... com medo de minhas próprias lamúrias quando aquele amor me visitava... Aquele amor que ainda me doía, que surgia a mim como um veneno soprando em minhas veias, que corroía-me em todos os momentos, sem exceção, para me lembrar que eu ainda não estava sarado para viver dignamente... Vivi foi muitos comas, muitas febres e frios noturnos... Às vezes abria meus olhos e me esforçava para permanecer em vigília, mas logo logo minha frágil esfinge soçobrava sobre o castelo masculino de areia que havia erguido na esperança vã de me proteger do mundo...

Foi a primeira vez que fui até lá e não visitei os fundos... a área do farol, não fui até o lugar onde fora realizado o seu sarau... Ficamos no gramado perto da quadra... Estive a maior parte do tempo em silêncio... só assim poderia prestar atenção às pequenas coisas que pareço tanto negligenciar... as pequenas coisas que dão sentido a existência...  Enquanto os outros dois conversavam, eu buscava os arredores de meus pensamentos me recordando de todos os meus excessos... Todas as palavras que derramei a mais, mas também de todos os silêncios que guardei para mim esse tempo todo... E o pior de todos os excessos... O excesso de travar e não conseguir se decidir a tempo de fazer a coisa certa antes de se arrepender e se sentir culpado por isso pelo resto da vida... kkkkk


Um dos brothers que compunha o trio havia prometido uma session (sexón, em bom baianês), não fez por menos, acendeu três becks que me fizeram refletir pesadamente sobre quanto tempo mais eu estaria imerso naquele vício. Estava de estômago vazio quando os fumei, a fome foi piorando e se acumulando sobre todos os maltratados anos do meu corpo. Estou tentando me regenerar já faz um tempo, passo períodos de meditações intensas, de boa alimentação, de tentativas novas na arte de se de se auto disciplinar... Mas no fim, volto ao estado de desgraça que sempre estive... É que a dor da culpa que recai sobre mim é imensa... Às vezes pareço me sentir culpado pelo buraco da Camada de Ozônio, pela destruição do Agronegócio, pelo terrível holocausto de animais que alimentam um ser humano cada vez mais ridículo e superficial... Enfim... Às vezes me entrego ao pessimismo e tudo o que eu quero é morrer junto com o mundo... Explodir, enfartar, ver o quanto este corpo agüenta dos males que o próprio homem inventou para consumir o tédio de uma vida mesquinha que ele não consegue dar conta sem surtar ou sem bater em alguém... Bem, só me restava voltar pra casa par dormir mantendo firme na cabeça os rituais de despedida que sempre me repito... (Um dia eu paro, um dia eu não precisarei mais disso para sobreviver...)












https://www.youtube.com/watch?v=yB3XTWMXEgU - Nuvem Negra - Djavan/Chico/Gal