quinta-feira, 15 de abril de 2021

Os Três Pinos: Cap II, pt 2

 

Segundo Pino - Raio II: Os Olhos do Macaco Ancestral



Subimos até a loja onde a apresentação acontecerá... Já podemos observar algumas pessoas festejando... Uma pequena roda de capoeira exibe a vontade e a alegria daquelas pessoas em fantasiar a suprema beleza do mundo... As crianças sorriem e por um momento eu finjo me esquecer de todo o tormento que passo por me sentir tão solitário no universo... De ser uma criança sempre em busca da sensação de completude e que sempre voltou em vão a si mesmo para chorar o mar de incompreensão que todos percebem em minhas palavras confusas... Tal como estas que proferi agora... Tal como toda sensação que tento partilhar ao mundo... Ninguém soube, sabe, ou saberá a sensação que tive ao ver aquelas crianças brincando... Quis poder me transformar no mais sublime e pomposo macaco, para que pudesse dar a elas uma tarde inesquecível e que pudesse somar-se a todas as tardes que passei em vão procurando algum propósito por insistir em continuar vivendo...

Felipe ainda não havia chegado... Cumprimentei outras pessoas que me eram familiares... Pessoas que também compunham aquele teatro, mas nunca brinquei com eles porque sou de visitações mais antigas... Alguém que se afastou desta função porque não é nada agradável, ou melhor, não é suportável brincar com as crianças ao passo que destruo todas as noites o meu corpo e meu espírito com todos os meus excessos... A verdade é que sou uma pessoa atormentada, que às vezes, somente às vezes consegue se equilibrar o suficiente e se manter limpo por alguns dias... A menina me sorri... Ela é linda... Não vou dizer o nome dela... Só posso dizer que é atriz... Vegetariana... E que tenho boas lembranças dela de vários lugares... Embora tenha a grave impressão de que ela não se lembra direito dos acontecimentos... hahahhaha! Sigamos...

Então Felipe chega... Temos que buscar os bois no estacionamento... O problema é que não podemos chamar atenção dentro de um Shopping tão sofisticado... Não podemos transitar todos juntos com bois tão amáveis e coloridos... Enfim... Nos dividimos... Dois para cada elevador... E as pessoas nos encaram como figuras alienígenas ali... Enfim... Conseguiram um camarim para nós... Os fundos da loja... Mas não podemos trocar de roupa ali... Ao que parece, os humanos não conseguem mais recuperar a naturalidade de ver o corpo do outro sem temê-lo ou desejá-lo... E é pra isso que existem os provadores... Para que ninguém veja as vergonhas de ninguém... Haha!... Ahh! Como eu queria que minhas vergonhas ficassem assim todas expostas como minha careca ou como uma cicatriz mal curada de uma queimadura... Mas minhas vergonhas são outras marcas que só eu vejo... Que não tenho ninguém com quem dividir... Que não posso falar... As coisas que me assustam... Que me fazer querer ainda, depois de tanto tempo... Acabar com esta minha existência impúbere que me impede de viver livremente no tempo presente... Eu visto a pele do macaco por cima da minha roupa... Não tirei minhas vergonhas... Permaneço com elas o tempo todo na esperança que exista por ai algum elixir que pudesse purgá-las...

Enquanto todos estão nos provadores, se vestindo, se maquiando, passando argila nas caras... Eu me sento, só, no camarim improvisado... Visto finalmente a máscara pesada... A outra, que eu usava antigamente, era mais leve, mais ágil, feita de pano e de borracha, era perfeita para meus saltos e giros e piruetas de peralta crescido... Esta não, era grande, dura, difícil de respirar, difícil de enxergar e muito... muito mais quente do que a outra... Mas era o meu fardo... Minha parcela de sacrifício do dia para o raiar do mundo melhor que tanto sonho...

Me sentei lá... Ereto... E meditei por alguns minutos...

Até que alguém entrou na sala e disse alguma coisa sobre minha postura fixa, ereta e concentrada... “Ta entrando no personagem”... Coisas assim... Enfim... São frases tão comuns que às vezes eu não as ouço direito... Logo todos começam a se aquecer (quase todos utilizando a capoeira angola para tal)... Eu faço também, meio sem gosto, sem vontade... Sou claramente um macaco trágico... Brinco, perturbo, mas me canso sempre e me sento e faço o que quero... Como um bom macaco peralta que não vê muito sentido na lógica insincera dos humanos...

Finalmente fomos pra a frente da loja fazer o show... No começo as pessoas ficaram acanhadas, olhando de longe... O boiadeiro canta... Ehhh boiada! Ehh boi! O Macaco investiga o espaço, observa as peças que estão à venda... Para do lado de uma moça que via uma caricatura do Gilberto Gil... Ahhh! Gilberto Gil... Se tu soubesse o que se esconde por dentro do coração deste macaco!!! Se tu pudesses dizer a ela tudo o que eu sinto quando ouço as tuas músicas... Mas eu não posso dizer... O Macaco Ancestral é uma figura muda... Ele brinca sem o direito de proferir a verdade do que sente... Pois a verdade causa dano demasiado... E isso Ele deixa a cargo dos humanos...

As crianças logo chegam e interagem com o Macaco... Algumas têm medo... Outras querem tocar na máscara... O macaco finge que espirra toda vez que tocam na sua cara... Não preciso dizer que teve uma menininha que adorou esta façanha de fazê-lo espirar... hahaha! Outra até arrancou os dentes do macaco... Outra criança adorava lhe bater na cabeça... Mas o Macaco é paciente... Sabe que algumas coisas só precisam de tempo... Que uma hora os tapas não doerão mais... Nunca mais... Sua alma já calejou da violência e agora espera calmo a hora do amor... Se não vier... Não faz mal... Ele já apanhou tanto que prefere esperar assim mesmo...

Às vezes Ele se divertia... Brincava, dançava... Convencia a todos de sua alegria... Pois lá também havia uma Burrinha... A linda atriz que já conhecia se metamorfoseara e de vez em quando vinha pedir a companhia daquele macaco louco para uma dança... O macaco adorava sua companhia... A maneira como ela bailava e rodopiava sorrindo... Uma certa vez o Macaco enlouqueceu e saiu rodopiando... Uma criança tropeçou no rabo do Macaco e caiu... A Burrinha então lhe disse!

- Tuidado! Macaco! Tuidado! Dança com tuidado, viu!

O Macaco envergonhou-se... Só queria ser livre como o vento... Mas esqueceu-se de que o vento também traz ruína... Sobretudo para o próprio vento, pois depois que se arrasta tudo... Não sobra nada para sentir o perfume... Nenhuma fragrância... Só poeira e entulho... E pedra sobre pedregulho... Metáforas inconstantes de uma solidão inacabável...

Como inacabável também parecia aquele negócio... Foi difícil ficar atrás daquela máscara por tanto tempo... Neste dia mais do que nunca... Por dentro da boca se podia ver os olhos tristes que habitavam aquele macaco... Às vezes estes olhos paravam em frente ao espelho e davam uma boa fitada no universo por dentro daquelas retinas cansadas... É muito difícil manter esse esforço de ser feliz... A felicidade cobra um preço muito alto para quem não tem par nisto tudo neste mundo... Ninguém! Nem uma única pessoa viva parece entender a grandiosidade das loucuras que sinto... Das idéias que tenho... Ou de como o amor, este sentimento tão negligenciado por todos, invade o meu coração e me arrebenta sempre com motivos de impossibilidades... E é este impossível que me desafia a continuar acreditando que algo deve ser feito... Mas o que? Pelo amor de qualquer deus ou demônio jamais inventado... O Que Posso Eu Fazer Diante Disso Tudo?

Nada! Eu nada posso! Nada sou! E nada significo para ninguém que tenha experimentado este meu amor incompreensível...

Se fosse o meu ódio... Se fosse o meu desprezo... Ou se fosse minha maldade...

Ah! Ai sim eu sei que teria algum efeito... Já senti o efeito disso tudo... As pessoas não esquecem... As pessoas nunca deixam de denunciar os seus sintomas quando passam por mim... Ainda está presente nos olhos... Elas ainda cheiram aos sentimentos pérfidos que derramei sobre elas durante minhas outras vidas... Mas é só... É só o que se pode ficar de mim atados nas almas daquelas que de fato amei...

Torno agora e engulo estes olhos pela boca do macaco... o show acabou... A senhora da loja pede para tirar uma foto com... Quem é esse mesmo?

- É o Macaco Ancestral! - Responde um amigo.

- Ah! Que jóia! Vem família toda! Vem tirar foto com o Macaco Ancestral...

A foto deve ter saído bonita... Pois eu fechei aquela boca de onde só saia tristeza... Ninguém pôde ver os olhos onde brilhavam aquela dor de uma solidão tão antiga quanto o Tempo...

domingo, 23 de agosto de 2020

Os Três Pinos: Cap II, pt 1


Segundo Pino – Raio Um: A Dança da Solidão


Bati com força a aldrava da Porta Verde... Uma linda moça de turbante apareceu... Seu nome é Kinda, uma jovem realmente muito bonita... Ela me deixou entrar... Me desfiz de minhas sandálias sujas e entrei limpando cuidadosamente meus pés nos tapetes ao longo das escadas... Era um ambiente muito hermético, limpo, seguro dos ácidos tão abundantes do mundo lá de fora... Ali tudo respira paz... É tudo muito colorido e quieto...

Só que dá pra ouvir ainda a turbulência do dia lá de fora... Os batuques do Pelô... O tiozinho que toca violão na porta do restaurante ao lado... E que canta dezenas de músicas que me transportam imediatamente até Você... E é por isso que aqui eu me sinto triste... Me sinto triste porque pareço ter perdido todas as oportunidades de ser seu como eu gostaria... De te apresentar estas canções, ou novos lugares como este, ou te mostrar todos os poemas inacabados, acabados ou os infinitos outros que ainda tenho por fazer... Fico triste porque me obrigo a estar aqui para ver se me sinto um pouco melhor... Mas não me sinto... Eu me sento no chão e escondo do mundo a minha imensa vontade de chorar...

Somado a isso tudo tem a fome... Fiquei sentado um tempo e depois deitei no chão e fiquei lá... Parado... Sem me mexer por quase meia hora... Viajei pra longe, consegui descansar um pouco desta minha realidade carregada de solidão e de tormento... Sou desperto então pela voz de Kinda me chamando para comer... Quando abro os olhos, percebo uma música que não conhecia, mas traduzia exatamente tudo o que eu estava sentindo... Eu pergunto a ela:

- Você conhece essa música?

- Sim! – Responde ela, - Acho que é Românticos, de Vander Lee...

- Ah! Acho melhor eu anotar. – E tomando do meu caderninho, somei aquela canção à imensa lista de coisas que me trazem Você à memória...

A comida é posta na mesa... Linda... Sem carne... Tudo é orgânico... Nada é programado para nos destruir... O gosto, a textura, tudo vem até a boca na intenção de fortalecer e recuperar a anima de quem está doente da vida... “Que o teu remédio seja a tua comida, que a tua comida seja o teu remédio...”... E de fato posso dizer que me senti um pouco melhor depois daquilo...

À mesa, o garoto das Laranjeiras pergunta a Felipe se aquela garota do outro dia (não adianta perguntar, eu também não vi) era a mãe da filha dele... Ele disse que não... Hahahaha! O que vocês não sabem é que... A paixão da vida de Felipe também se chama Fullana (não Fullana de Tal, apenas Fullana...), com dois ll’s e tudo, igualzinho  ao Seu... Fico pensando em coisas absurdas, imagens que minha cabeça me obriga a ver... Penso no nosso antigo pacto de um dia termos um filho... Só que depois de todas as loucuras que eu cometo em nome do Amor... Será que merecerei essa honra... Eu lanço meus olhares pra Felipe e penso o quanto ele sofre por não estar com ela... Às vezes eu penso notar seus ares de tristeza profunda... Que ele esconde por traz do seu lindo sorriso de Serpente de Terra (sim ele é meu irmão astral segundo os chineses)... Mas por fim eu penso que pelo menos ele deve ser feliz por partilhar da companhia de outro universo nascido da união com a sua pessoa amada...

E eu? O que tenho além de naufrágios e incertezas?

Esperanças??? Só as que me mordem... Mas ninguém me daria algo assim... Todas as minhas viagens são sem retorno... Sinto-me só uma pedra chutada ladeira abaixo para ver se atrapalha o caminho de outra pessoa que tentava andar tranquilamente...

Termino de comer e vou me deitar de novo... O tiozinho agora ta tocando alguma coisa de Djavan... Não importa a música, eu nem quero prestar atenção agora porque sei que vai doer... Quer algo que mexa mais com um romântico do que o que Djavan diz? Hahaha! Não consegui deitar em posição meditativa agora, me debrucei como um feto e dormi um pouco... Logo mais levantei para me preparar para a viagem... A apresentação aconteceria dentro do Shopping Salvador...

Colocamos tudo em um carro e depois pedimos um Uber... O motorista chegou e eu me sentei no banco de trás, exatamente no meio... Fui espremido entre dois caras e três berimbaus... O caminho era longo e com possíveis engarrafamentos... Eles conversaram sobre muitas coisas enquanto eu permaneci calado o tempo todo, me deixando sobrevoar sobre os prédios das vias desta cidade onde tanto já sofri (e fui feliz, mas isto é o fator que agrava qualquer dos meus sofrimentos)... Tive que ouvir absurdos e generalizações que o cara à minha esquerda proferiu... Disse que para ele todo muçulmano era terrorista... Que se visse um na rua ele sairia correndo e que dava vontade de dar um pau em todos... Kinda discordou... Disse que generalizar daquele jeito era pura ignorância... O rapaz das Laranjeiras, à minha direita, disse que o Corão também era retrógrado igual à Bíblia... Kinda foi a única que protestou, dizendo que também havia algo ali que pregasse a paz... A discussão continuou implacável enquanto eu meditava nos acontecimentos da minha vida e no fato de nunca ter sido compreendido por pessoa alguma... Acho que está chegando a hora de aprender a permanecer em absoluto... Silêncio...

Vejo por todos os lados, em todas os lugares de fala, o ódio como elemento prolífero... Queria que as pessoas à minha volta odiassem menos, se estressassem menos... Que causassem menos dano à sua máquina... Que amassem mais... Ouvissem mais... Entendessem mais... Por Deus! Queria que pelo menos alguém soubesse o quanto me esforço todos os dias para amar as pessoas como elas são... Para que elas sejam um pouco mais tolerantes e compreensivas comigo como tento ser com elas... Tento ouvir... Tento compreender... Mas no meu íntimo eu sinto que meu amor é insuficiente para o mundo... Que tenho que aprender ainda mais para continuar aqui... Que vivo uma batalha solitária... Uma dança sem coreografia, sem ritmo, sem música... Apenas um dançarino esquecido dentro deste tabuleiro louco onde o infinito grita em busca de esperança...

E o carro chega ao imenso estacionamento daquele shopping imensamente vazio... Onde as pessoas consomem coisas... Onde tudo se perde antes mesmo de ser encontrado... Onde eu sou apenas mais um entre milhões de pessoas que frequentam aquele espaço no fluxo sem graça do consumo... Cheguei ali e é a mesma coisa de não ter chegado... Eu ainda moro dentro dos muros de minha consciência atormentada pelo meu fracasso...

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Os Dragões de Minha Infância

 


Tanto me vem à cabeça quando penso no passado. São imagens confusas de símbolos e letras que não sei bem como me foram incutidas. Sei que tive uma tia professora e um tio tenebroso, homem malvado que me incutia terrores psicológicos pelo simples derrubar de um copo de vidro que se fragmentava pelo chão como minhas próprias memórias se fazem agora.

Minha tia, muito carinhosa, me apresentava as primeiras letras quando meu tio não estava em casa, pois quando estava ele gostava de brigar, se gabar de que era o mais inteligente e que ninguém sabia de nada tão bem quanto ele e em meio às lições eu sempre me perguntava o que fazia uma mulher tão boa aguentar um ser tão bruto. Enfim, este é apenas um fragmento, como o dia em que quebrei a cabeça tentando olhar a chuva pela porta da sala da casa onde nasci na pequena cidade de Planalto, Bahia. Me lembro de um pequeno diálogo infrutífero com minha avó:

- Oh minha vó, deixa eu ver a chuva. – ao que ela retrucou.

- Não, num vai ver diaxo de chuva nenhuma não que vai ficar doente.

E o choro infantil sensibilizou mainha da porta que dava pro quintal:

- Vem meu fí, vem ver a chuva aqui no terreiro.

E a criança de sorriso largo indo de orelha a orelha correu. Não deu muitos passos, o chão de cimento queimado usava uma cera vermelha e em dias de chuva também gostava de se refrescar debaixo das goteiras. Tropecei e tudo que ouvi foi um zunido interno desligando meu sistema nervoso daquela dor monstruosa que parecia sentir minha mãe ao olhar para mim em prantos e dizer em voz alta:

- Ohh meu Jesus! Meu fi vai morrer...

E correu comigo nos braços, um pano enrolado se manchara de algo que eu, aos três anos de idade, ainda não conhecia em tal proporção. Hoje minha mãe ainda diz que dava para ver meu cérebro pelo rombo que o batente fez na minha testa. A mim, sei que nada me importava, pois pude sentir as gotas de chuva respingarem no meu rosto enquanto o carro do socorro me veio buscar. Minha mãe não me deixou dormir e lembro-me do caminhão da Sadia do lado chuvoso do carro. Apontei e disse:

- Olha mainha, o caminhão da Sadia.

Minha mãe admirada com minha coragem frente ao ferimento disse:

- Como é que você sabe que é da Sadia, meu filho?

- É por causa daquele S que aparece junto com o frango no comercial, mainha.

As coisas aconteceram como num passe de mágica. Não sei separar muito bem as vicissitudes dos dias entre minhas primeiras letras, o rombo da minha cabeça, a morte da minha avó e o dia em que meu tio tomou da minha mãe a casa onde eu nasci e nos levou para morar na casa dele. Ele disse que não queria meus irmãos mais velhos e os mandou para a casa do pai em Itabuna. Minha mãe logo enlouqueceu segundo a medicina ocidental. Levaram anos para diagnosticá-la esquizofrênica, outros dizem que ela é médium, ela diz que ouve vozes... Eu... Bem... Eu não tenho mais nada a dizer sobre isso. Apenas que não deu certo morarmos com esse tio malvado.

Mudamos também para Itabuna, onde minha mãe teve uma ajuda de cem reais do ex-marido. Com esses cem reais ela comprava comida e alugava um dois-comodos num cortiço cuja pia de pratos, a pia de lavar roupas e o banheiro era divido com outras 13 famílias. Lembro-me dos primeiros anos em que dormíamos eu, minha irmã, meu irmão e minha mãe emaranhados como gatos num mesmo colchão cercado pela bagunça das coisas que pudemos trazer da vida antiga.

Foi neste mesmo cortiço que, talvez embalado pela tristeza de ficar muitas oras naquele lugar, pedi a minha mãe que me levasse para o colégio. Então aos 6 anos de idade minha mãe, decrepita pelo uso dos sossega leões que aliviavam sua doença na década de noventa, me levou até o colégio, o “Lions”. O verdadeiro nome do colégio eu não me lembro, acho que ninguém sabe, mas o colégio era uma parceria municipal com o Lions Clube Internacional, e por isso tinha um símbolo bem grande de dois leões com essa palavra escrita bem grande e aquilo na minha vista de criança era como uma quimera, ou melhor, como um brasão gigante daquele castelo mágico.

Sim, minha escola parecia um castelo. Tinha várias salas de aula com grades, algumas até pareciam com masmorras e tinham escotilhas para calabouços secretos que era para aonde eu acho que iam os prisioneiros mais perigosos que às vezes aprontavam tanto que sumiam do colégio. Ela era murada com um muro bem alto que circundava todo o colégio, como parecem os castelos nos desenhos da Disney e coisa e tal. E eu era o aprendiz de cavaleiro que rodeava correndo durante todos os recreios aqueles muros com o objetivo de defendê-lo dos dragões e monstros que poderiam vir ataca-lo. Hoje a Universidade ainda me parece um reino gigantesco e cheio de castelos poderosos, mas infelizmente os dragões são bem maiores e a Universidade é um reduto muito mais difícil de ser defendido, até mesmo para as armas mais avançadas da imaginação de uma criança.

Foi nesta escola que recebi livros didáticos seminovos que haviam sido utilizados pelas turmas anteriores. Como não tinha dinheiro para comprar cadernos, ganhei da diretora aqueles cadernos pequenos de capa fina que sempre se soltavam depois de alguns dias de uso. Não tive a obrigação de ler os livros sobre ameaças das palmatórias ou pelos rigores da educação de Graciliano, quem dera eu ter tido a sorte de Ubaldo ao escrever seu texto cheio de memórias deliciosas a respeito da biblioteca de seu pai e suas falsas proibições... Infelizmente, para pessoas da minha laia todos os livros são proibidos, não por limites físicos inexpugnáveis, mas sim pelas barreiras sociais, históricas, pela cultura imposta às massas e por toda a violência que somos submetidos desde a infância.

Então eu lia só o que me agradasse... Lembro que gostava do livro de estudos sociais, alguma coisa de história e geografia me agradavam também, mas no geral eu não lia muito. Não houve tempo para isso. O problema da minha mãe se agravava, fora internada inúmeras vezes em poucos anos. O tempo que me sobrava fora da escola não me dava ânimo para estudar muito. Tive que aprender a me defender dos valentões da rua. Aprendi a roubar comida do mercado ou a ir comprar coisas para os vizinhos e adulterar os preços para lograr uns trocados... Até invadi as casas alheias para roubar panelas e cascos de cerveja para vender no outro bairro.

Houve um dia em que a caminho do colégio eu encontrei um pequeno pedaço de ferro pontiagudo com uma borracha preta ao redor que manchava tudo. Neste dia aconteceu alguma situação em que fiquei com raiva de um garoto que me disse alguma coisa e correu, o persegui, ele fechou a porta do pré-escolar, de repente eu saquei aquele ferro do bolso e comecei a esfaquear a porta com todo o meu ódio reprimido e gritar desesperadamente como se aquele fosse o corpo de todas as durezas que me estavam sendo impostas... Ela era a fome, a ausência de pai e de mãe, a indiferença dos meus irmãos, e sobretudo a minha falta de entendimento sobre tudo o que acontecia a mim e me fazia ser uma criança solitária, quieta e perdida no mundo. Não preciso dizer que fui detido na diretoria e que pensei que ia parar no calabouço. As professoras tentaram entender o que acontecera, não tiveram sucesso, porque nem mesmo eu entendia e ainda não entendo. Prefiro acreditar mesmo que foi apenas um ataque de ódio, mas alguma coisa me diz de que aquilo aconteceu mesmo porque tudo no mundo está errado e que não há magica ou espada forte o suficiente que possa consertá-lo.

Por não gostar muito de ler eu inventava minhas estórias na minha própria cabeça, meu maior tesouro dos oito anos foi um dos caderninhos sem capa que eu colori com nomes de letra de forma dizendo: “CADERNO DE POESIA”. Sim, eu encuquei com o mundo de que seria poeta. Nessa época eu morava na rua Castro Alves, nunca tinha lido, mas acho que algo da alma dele passou por ali e me afetou peremptoriamente. Eu escrevia coisas bobas sobre as flores, a chuva, o sol e o vento. Não me lembro, guardei por muito tempo esse caderno até que presenteei minha primeira namorada com aquela lembrança boa da infância simbolizando meu coração. Não sei do paradeiro dele ou dela, acho que o perdeu da mesma forma como eu a perdi, meio que sem querer.

Não me lembro mais quanto tempo se passou desde minha aventura de poeta ao ladrão de livros do meu tio, outro tio graças a Deus. Minha mãe, depois de muita luta conseguiu uma aposentadoria por invalidez, resultado de sua sabedoria ao lidar com sua própria adversidade. Ela, enquanto ouvia vozes, juntou dinheiro o suficiente para comprar um terreno numa favela e construir um barraco para onde nos mudamos. Lá eu não podia ficar na rua até tarde e nem queria. Resolvi mudar de vida, estava farto das longas conversas com amigos que me decepcionaram. Foi quando viajei para casa deste tio, que era padre, ele tinha diversos livros de faroeste e eu roubei um bocado e trouxe comigo quando voltei pra casa. Passava horas à luz de velas lendo o livro até que conseguimos ligar a luz elétrica. Não guardei muitos títulos daquelas obras desconhecidas, apenas os que eu mais gostava: “Não Atire no Pianista, que contava a história de um policial que se disfarçava de pianista e que e a gente só descobria isso no final do livro, como ninguém acha mais este livro e eu não faço ideia do nome do autor, não há risco de revelar spoilers; o outro era “Um Samurai no Oeste”, que obviamente contava a historia de um samurai do final do período Edo que viajou para a expansão do Oeste norteamericano, bem engenhoso devo confessar, talvez um dia eu escreva a história de um samurai que viajou no mesmo período para aprender alguma coisa com os povos indígenas do Brasil. Enfim, acho que este é um fragmento irrelevante para esta história.

Acho que foi por aí, em algum lugar dos meus treze anos que comecei a dedicar mais tempo aos momentos de leitura. Conheci as bancas de livros usados ao mesmo tempo que conheci os botecos que vendiam bebida para menores de dezoito anos. Comecei a beber vinho Dom Bosco e a ler literatura de faroeste em cima de árvores, uma mescla doida para uma criança não muito ajuizada, mas eis-me aqui contando esta história sem um pingo de tristeza, eu acho é graça porque nem um filme daria conta de uma história tão bonita, dos momentos intraduzíveis da descoberta dos gibis, dos mangás, do meu livro predileto, que contava a biografia de Isaac Newton de uma maneira bem engraçada, até que finalmente me surgiria esta ideia estapafúrdia de me tornar um escritor.

Ainda bem que na minha cabeça as ideias não são feitas de concreto, não há solidez e sim apenas fragmentos que se juntam e se dissipam para formar coisas novas. Não existe aqui dentro pretensões de riquezas ou de carreiras acadêmicas, não existe desejo de luxo ou avidez por fazer nada. Enquanto escrevo este texto existe apenas a próxima palavra regada pela visão turva de alguém que se recupera da ressaca de ontem e se prepara para entregar o texto daqui a pouco mais de duas horas. Não sei se cumpri o objetivo do trabalho ou se apenas devaneei em lembrar como cheguei até aqui, o que me importa pensar agora é que, como tudo na minha vida esta parece ser mais uma história que saiu de um livro louco, mágico e cheio de dragões em que posso voar e escrever como se estivesse lendo as coisas acontecendo.

 

Este texto foi produzido para a matéria de
Leitura e Produção em Língua Portuguesa,
cuja professora, a adorável senhora Alba Valéria,
exerceu com tanto esmero seu trabalho que
conseguiu inspirar uma pessoa no fim de uma depressão
a escrever algo tão libertador e bonito.
À todos os bons professores do Mundo,
meu mais fortíssimo agradecimento
.

Maycon Jhossys. Salvador-Ba, Setembro de 2019.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Os Três Pinos Cap I, pt 2

 

Primeiro Pino – Carreira Dois: Trópico de Capricórnio

 

    Depois do café, me despedi de minha amiga e fui pra casa... Passei para tomar um banho e arrumar as minhas coisas porque ainda iria pro trabalho... Depois do trabalho marquei com Felipe para participar do Teatro do Boi... Ou seja... Seria dia de trabalho e eu gosto de mentir para mim mesmo me fazendo acreditar que se eu ocupar demais a minha mente... Talvez se eu me encher de coisas pra fazer... Eu consiga não pensar tanto na minha solidão... Na minha rejeição... Nos meus amores incompreendidos... Ou no fato de eu sempre estar rodeado de pessoas e mesmo assim me sentir tão vazio por dentro... Mas é tudo mentira... Minha mente não consegue me deixar esquecer-se disso quando estou assim... Até quando estou de fato feliz... Mesmo quando estou feliz, a outra parte de mim me faz questão de lembrar que esta é uma felicidade incompartilhável... E não importa o quanto eu invista minhas forças em outros afazeres... Eu sou um maldito romântico... Não existe nada que consuma mais da minha energia do que este anjo decaído a quem chamam Amor...

    Catei as moedas e fui... Faço aquele caminho que fizemos no carnaval... Fico me perguntando quantas vezes eu já não me arrastei por esta estrada pensando no meu fracasso... Aliás... Fico pensando em quantas vezes eu não me arrastei por toda a cidade revisitando as lembranças de beijos, declarações de afetos... Tardes passadas em Museus, praias, cinemas, praças... Noites de Jazz, música e poesia... Fico pensando em todas estas esquinas e coisas que me convencem mesmo de que sou um completo fracassado nesse negócio de amar... Por todo lado onde me viro nesta cidade eu percebo o quanto eu já sofri aqui... O quanto me sinto só... Porque nunca antes havia encontrado tantas pessoas que se importassem comigo, mas que mesmo assim não podem alcançar os meus segredos... Aqueles segredos que não sei como dizer... Aquela ajuda que não sei como pedir... Aquele colo na calada da noite que... ninguém parece sentir que eu seja merecedor...

    Cheguei cedo ao trabalho... Tinha muita vontade de tomar uma cerveja, mas as moedas não eram suficientes... Lá não tinha nada pra fazer... Fiquei mais uma vez no facebook... Postando coisas que tentassem extravasar um pouco da minha angústia... Que talvez, por um milagre tosco do destino, fizesse com que ela me stalkeasse daqui a alguns anos e descobrisse o quanto foi tola por me deixar sofrer tanto... hahahaha! Eu sou mesmo um maldito sonhador... Acho que são essas coisas que fazem as pessoas pensarem que sou um lunático... Mas o que eu posso fazer se eu sou assim? Não quero machucar ninguém... Só quero que as pessoas entendam que eu estou sofrendo e não sei o que fazer para isso melhorar... Já fui ao psicólogo e a sua dosagem foi considerada insuficiente... Eu preciso de drogas muito mais fortes... Em doses cavalares... Caso contrário eu não consigo, na maioria das vezes, nem mesmo sorrir...

    Perto do almoço, eu ainda estava tirando os últimos resquícios da invisível maquinação viva que eu aprontei por aqui para ver se conseguia mostrar a ela que eu sou incrível... Que eu poderia mover as montanhas que ela escolhesse e carregá-las sobre minhas costas se ela me pedisse... Isso tudo dói tanto... Porque sei que fazendo isso eu só me torno um pouco mais especial para mim mesmo... As outras pessoas não chegam nem a saber qual é a minha importância nisso tudo... As pessoas não gostam de homens como eu... Metidos a gênios... Que enchem o saco para que as coisas se movimentem... Que odeiam coisas mal acabadas... Que não conseguem sossegar enquanto ainda percebem qualquer brecha na parede do impossível... E é por isso que depois de tanta dor eu ainda sobrevivo... Acho que é por isso... Porque enquanto eu ainda respirar... Vou continuar tentando ser feliz... Mesmo que todos continuem insistindo em me mostrar que isso é impossível para mim...

    E até que você me ofereça outra saída, meu bem... Ou até que feche completamente tuas paredes para mim... Até lá... Eu sei que vou sofrer... Sozinho para que ninguém mais precise dividir isso comigo... Conto o que posso pros meus amigos... O resto eu guardo pra minha insônia... Pras minhas lágrimas... E para esse caderno idiota... E talvez para aquele blog mais idiota ainda... Eh! Às vezes Você faz minha vida parecer uma grande idiotice... Principalmente quando me pergunta o porquê de eu estar agindo assim...

    - Assim como? – Eu te pergunto... Mas você nunca soube responder... – Será que a única maneira de eu não ser um idiota é mesmo me afastando de Você?.. É pena! Te juro que não gostaria de ter que fazer isso de novo...

    É aí que minha colega de trabalho (pisciana, pq será?) me chama para acompanhá-la até a rua... Tem que comprar umas coisas pro marido dela, mas não quer ir sozinha... Já era meio dia e eu havia marcado com Felipe nesse horário... Mas engraçado... O nome do marido dessa minha amiga também é Felipe, e ele é canceriano (e eu sempre cercado de água)... Enfim... Tinha que ir com ela, talvez aquilo fosse algum sinal que mudaria a energia carregada do meu dia... E de fato mudou... Ela se ofereceu para me pagar uma cerveja...

    Bebemos um latão de cerveja sentados ao pé de Exú... Em frente à Fundação Casa Jorge Amado... Bebemos não neh? Ela só tomou um copinho... Ela comprou também um cigarro pra me aliviar a ansiedade... O engraçado é que bebi a lata toda quase ao mesmo tempo em que acabava o cigarro... Só deu tempo ouvir ela dizendo: - Eu heim... Eu achava que eu bebia viu, mas você heim, toma o negoço parecendo suco...

    Mandar aquilo para o estômago vazio me deu alguns minutos de uma anestesia sublime... Aquela cerveja gelada destruindo mais um pouquinho deste corpo mal amado... Só mais um pouquinho antes que eu encontre o caminho certo para me fortalecer... Antes que eu consiga dar fim a esta moléstia que carrego desde a infância... Minha mais demoníaca solidão... Preciso de alguma forma me sentir bem comigo mesmo... Isso é tão bonito nos livros... É tão maravilhoso ouvir alguém falar sobre essa sensação... Sobre o Nirvana... Sobre o Espírito Santo... A Iluminação... Mas na prática esse caminho é tão difícil... Parece tão impossível... Parece ainda mais impossível para mim do que mostrar a ela que posso ser seu... Seu como nenhum outro jamais será... De graça... Porque isso é algo que eu posso escolher dar ou não... Eu posso escolher ter a coragem de entregar-lhe o meu amor mesmo sem ter o seu em troca... Mas... Não! Infelizmente não consigo escolher não me sentir só e fraco e pobre e besta e incompleto e... Deixa pra lá!

    Depois de muito zanzarmos nas lojas... Chegamos a uma loja de um chinês, onde minha amiga queria comprar fones de ouvido, um para ela e outro para o marido... Ela pechincha com a vendedora... Que grita – Felipe, pode fazer a ela por 10 reais?

    Neste momento tive um boom... Me esqueci quase completamente da realidade à minha volta e pensei em todas as vezes que ouço o nome dela brotar de algum lugar... Esse sinal despertou as vozes malignas na minha cabeça; me fez atinar que aquele nome não era tão incomum afinal; me fez procurar quantas Fulanas de Tal existiam na rede social mais aloprada do mundo... Encontrei três com o dela, e por ironia debochada dos deuses, uma era de Ilhéus... - Será que é isso mesmo? – Pensei – Estão mesmo de sacanagem comigo?..

    Pensei também naquele livro de Eneagrama do meu Tio... Que dizia sobre o meu tipo: “eles se sentem tão solitários, tão únicos, que se diferenciam muito até mesmo entre si...”... Foi só a partir desta micro catarse que finalmente tive a coragem de vencer o medo de me fazer aquela pergunta chata pela primeira vez naquele dia... Será que nasci mesmo para viver a vida inteira se sentindo a pessoa mais solitária do planeta? Depois parei e pensei... A simples composição do meu prenome, seja considerando a organização das letras ou qualquer que seja a pronuncia correta e suas infinitas variações provocadas por equívocos preguiçosos ou desatentos de outros milhões de pessoas que tentam dizê-lo, não importa; o que interessa a mim não é se eles dizem meu nome certo ou não, a consideração dos outros em relação a mim não é algo que me assusta mais. O que realmente me apavora é que não há nenhuma menção, nenhuma referência a este signo, a este som conjunto de meu duplo nome, não há nada em nenhum registro pertencente à História da Humanidade... Existem muitos Cesares; muitos Fredericos; muitos Antônios Henriques; existem muitas pessoas com nomes de Anjos e de Apóstolos... No mundo existem até muitos Michael Jackson’s agora... Mas com o meu amaldiçoado nome duplicado pelo meu brilho e pela minha escuridão... Só existe eu...

    (Ou pelo menos fui o primeiro de muitos)

    (Ou sou apenas a simples continuação de outros trágicos mal sucedidos apenas porque ninguém parece compreender o excesso de amor que carregam consigo...)

    [Como não faço idéia do que isso tudo significa... Acabo deixando pra lá...]

    Volto a pensar...Será mesmo que nasci e vim até aqui e não construirei nada com uma mulher que me entenda? Ou que ao menos tenha paciência comigo?? Que esteja minimamente disposta a me dedicar um pouco de seu carinho e cuidado??? E talvez quem sabe, por alguma que pudesse se acostumar com esse amor imenso que estou disposto a dar e ninguém parece querer... Uma mulher que, quem sabe até, pudesse começar a me amar junto com o tempo, do jeito que eu sou... Não um louco, apenas... Mas sim um homem em eterno aprendizado...

    Muitas coisas aconteceram... Conversei com minha amiga e ela me disse muitas coisas bonitas... E me abraçou maternalmente e disse que ficaria tudo bem... Daquelas que fazem com que você se sinta útil no mundo... Mesmo que minimamente... Ela me deu alguns trocados para comprar outra cerveja e antes de virar as costas para ir para o trabalho, disse:

    - Olha amigo, deixa estar... Dê tempo ao tempo... Se você significa algo pra ela, talvez ela vá te procurar... Canceriano procura, com Felipe foi assim... Ele terminou comigo uma vez e depois de um tempão veio me procurar... Não fica triste não, viu... Se precisar desabafar eu to aqui...

    O mais engraçado é que nunca contei detalhes pra ela. Só que esses psicianos são meu ponto fraco... Eles insistem em saber o que se passa por detrás das cortinas da minha cabeça... Toda vez que chego triste no trabalho ela percebe de longe e pergunta logo o que foi que aconteceu... Enfim, eu sou coração de manteiga... Com o passar dos dias, me senti a vontade para falar a ela sobre aquela minha paixão encravada que não me deixava dormir... O que é mais gostoso é que ela realmente sabe dar bons conselhos...

    ... Bem! Como eu estava atrasado, guardei as moedas que ela me deu e fui para o local do compromisso que já tinha firmado... Pensei em desistir centenas de vezes enquanto passava pelos bares do caminho... Mas uma cerveja só não conseguiria saciar aquele monstro, então preferi encarar o destino... Era melhor isso do que ficar me sentindo infinitamente culpado depois por ter furado com o meu amigo...

     Aff... Eu e esse estranho senso de lealdade que parece não fazer sentido pra mais ninguém além de mim...

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Looking For Ghosts



 I

Esta tarde visitei o centro da cidade depois de muitos dias sem sequer sair de casa... Por força maior, algo que talvez insistamos em chamar de destino ou sei lá o que, não era qualquer lugar do centro, era um museu... Mas não qualquer museu de velharias arqueológicas esquecidas, se é que isso exista para a cabeça de um místico apaixonado... Era um museu que partilhara parte da minha história, era um lugar repleto de paredes centenárias, com a minha energia vital impregnada, com a energia de milhares de outros seres que como eu passaram pela vida curiosos, temerários, machucados, cheio de dúvidas e conflitos, cheios de incertezas sobre sua própria luta ou suas possibilidades reais de escolha... Penso tanto na obra que meus deuses reservam para mim que é impossível não passar pela minha cabeça a questão de como tantos povos escravizados se sentiram frente aos desafios psicológicos impostos pela violência de uma colonização diabolizante que viria a transformar toda uma civilização em fantasmas de uma história nacional fajuta...

Quando fecho os olhos posso ver as vitrines deste museu humano que carrego nos meus genes e na minha forma de ver o mundo... Mas também vejo um vazio imenso de não conseguir acreditar em nada... De pensar que todos à minha volta partilham das mesmas mentiras que eu e que algumas delas estão felizes com isso... Contentas com o fato de que nossa sociedade mata o amor, a compaixão, a vontade de compreender realmente as necessidades e limitações dos outros; tudo isso ao passo que nos convence do medo, da intolerância e do desconforto que é não ter a genuína certeza de absolutamente nada. É comum aprendermos a ter medo de ruas pobres porque é na pobreza onde os ladrões parecem mais bárbaros, onde o crack, o açúcar, o café, o álcool e o tabaco revelam os mais evidentes vícios deixados pela colonização...
...

Ainda bem que não terminei de escrever este texto há dois meses atrás, quando iniciei o primeiro parágrafo... Tive tempo para reexperenciar a vida... Dessa forma eu posso vir e escrever algo menos mórbido e melancólico do que as agonias que se passavam pela minha cabeça na época da visita aos museus das ruas de meu passado... Um passado tão recente mas com uma pontada tão profunda que parece ter sido em vidas passadas...

Como um rompante de coragem eu resolvi encarar o centro... Resolvi tentar mais uma vez enfrentar minhas lembranças e combater meus próprios fantasmas... Fui convidado a uma visita ao MAE-UFBA... E como todos os meus leitores invisíveis bem sabem, este lugar é um tanto especial para mim... Em três anos os seres daquelas paredes me viram chorar, sorrir, proferir conjurações de amor... Dormir de exaustão ou de tédio deitado no chão gelado daquelas galerias... Roubei beijos de paixões passageiras que me visitaram como visitam a uma peça arqueológica que lá pertencia... Alguns anos atrás eu até poderia encarar tais lembranças como parte de um passado heroico, mas hoje eu vejo apenas como um apanágio de pertences alheios a mim... Me sinto um índio fugido da obra almofadinha de José de Alencar... Ou pior... Um mero conquistador barato que via nessas aventuras parte grandiosa de sua razão de existir... whatever...

II

Chegando lá já tenho que lidar com pessoas que eu conheço, sabia que tinha que dizer qualquer coisa com meu ex-museologo-chefe... Sabia que teria a menina Roberta da portaria e provavelmente uma monitora nova... Mais uma série de pessoas que eu desconheceria a partir daquele momento... Um grande infortúnio para mim que tanto adoro sorrir... Não é falsidade sorrir sem querer sorrir nestes momentos... É que sorrir e usar a cara que eu uso para sair na rua me custa demais... É preciso se conectar a uma fonte inesgotável de energia, mas naquele caso esta fonte estava perdida para mim... Bloqueada... Intoxicada por esta cidade febril e dopada de informações...

A professora chegou... Por alguma razão ela contava com a minha presença... Não vou esquecer disso... Foi gentil e acolhedor demais da parte dela... Seguimos pelo museu e ela usava um estranho aparelho sonoro... Aquilo era sem dúvida peculiar de acordo com os arquivos da minha cabeça... Com certeza não era uma visão comum... A visita seguiu até chegarmos às urnas funerárias onde o estranho aparelho reagiu com o lugar... E foi aí então que eu pensei... Caraca... A minha professora é uma Ghostbuster... kkkkk... Bem... Não sei se é o caso de exterminação de fantasmas... Talvez um caçador de fantasmas brasileiro e do século XXI precise entender que estes fantasmas todos já foram caçados e exterminados enquanto eram vivos... Não faz mais sentido querer destruí-los... Precisamos nos ritualizar e nos espiritualizar ainda mais para quem sabe, se for possível, ajudá-los a concluir sua passagem seja lá para onde forem... Ainda que seja para um lugar de maior prestígio nos nossos corações...

Nós vivemos em um país onde os mortos tem mais o valor do esquecimento do que da lembrança... Os vivos talvez ainda menos... Vide as grandes filas de desempregados e da mendicância alarmante que denunciam novos fantasmas fantasmagorando pelas ruas em carne e osso em plena luz do dia...

O resultado foi um sucesso... A visita foi mó legal... Saí de lá sorrindo e encontrei coragem o suficiente para passear os ladrilhos de outras lembranças pelo resto do Pelourinho... É claro que desta vez eu tinha uma escolta de uma dúzia de estudantes cheios de preocupações tão dispares que eles não me perceberiam ali... Bem... Pelo menos não por baixo deste disfarce com barba e bigode onde me visto atualmente... A cada rua que olho vejo um novo fantasma... Meu... Do Passado... Da história nacional... De tudo... Paramos na ladeira para conversar com uma galera de Arquiterua e Urbanismo... Bem, não disse nada a eles... Notei no canto a figura de um garoto velho conhecido meu... Na real ele é muito conhecido naquelas ruas... É um garoto negro, simpático e conversador... Esperto... Com a sagacidade suficiente pra sobreviver em ruas tão hostis quanto as nossas... Já fez uns corres de umas paradas pra mim algumas vezes... Algumas vezes é lógico que ele não voltou com minhas drogas... Mas eu entendo... Provavelmente, no lugar dele, eu também não voltaria algumas vezes... Quiça nunca... Às vezes nem quero voltar aos lugares ou às pessoas que cabem dentro desta minha vida tão privilegiada... Imaginem só como é... Ele me disse o nome dele naquela ocasião... E por ter vergonha de não saber ao certo... Prefiro preservar de mim mesmo o risco de registrar o nome erroneamente... Mas acho que ele é esperto o suficiente para não ser exorcizado daquelas ruas cristãs... Cheias de igrejas e gente caridosa... Sobreviveremos para que talvez tenhamos tempo para decorar o nome um do outro... Duvido também que ele se lembre do meu... De qualquer modo... O meu nome pouco importa... Eu não sou esta pessoa que escreve, nem a carne, nem a ideia que se aponta de responde o nome para quem pergunta... Nem nada dessas bobagens que inventei de pensar agora... O que me realmente me incomoda é:

Será que isso que estou fazendo não se trata de uma digressão completamente inútil?

Qual é o objetivo deste emaranhado confuso de palavras?

Não sabendo de nada dessas respostas e de milhares de outras que assombram minha cabeça... Por fim eu continuo... Talvez seja a minha maneira de exorcizar um pouco dessas assombrações, quem sabe? Descemos pelas ruas da cracolândia do Pelourinho... Um menino começou a entrar em pânico por estarmos em ruas perigosas... Debateu com a professora a respeito disso... Bem... Ele até que tem uma certa razão... Mas é que me sinto tão seguro em lugares como aquele... Lugares onde cresci longe das vistas da minha própria mãe... Nossa... Minha mãe... Até ela me surge agora como uma reminiscência tão distante que mal consigo acreditar que ainda tenho uma... Graças à Deusa e todas as forças inexplicáveis do Universo...

III

A visita seguiu por uma igrejinha que eu não conhecia por dentro... Soube lá que algumas de suas obras tinham ligação com as que são expostas no Museu de Arte Sacra da UFBA... Outro logradouro onde deposito os fantasmas de momentos tão melancólicos quanto aquele... Mas enfim... Isso não tem nada a ver com o objetivo da minha visita ou do meu texto... Mas aí eu me lembro que não tenho mesmo nenhum objetivo com isso... Já desisti de querer me entender como um menino normal, como um aluno normal, em busca de uma nota normal, de um emprego normal, uma carreira, um INSS ladrão, de ser um artista respeitado, qualquer coisa que me faça parecer uma pessoa normal neste mundo descartável... Porque de perto minha loucura parece tão evidente que o que eu penso não parece fazer sentido nem mesmo para os fantasmas em minha cabeça... No fundo me sinto isolado em qualquer cortejo...

Seguimos para a praça Castro Alves onde um pedaço da alma do poeta me ilumina por cima das nuvens como um condor alvissareiro que me lembra quantas vezes bradei em alto e bom som os meus afetos, minhas indignações, meu extenso amor mal compreendido... Para quê? Um dia eu o saberei (ou não) com certeza... Huahhahahahhahaha!

O grupo se dissipou no topo do Espaço Glauber Rocha de Cinema... E eu sentia-me exausto... Não sei o porquê exato... Tenho neste momento que escrevo, meses depois do ocorrido, alguns palpites... Mas palpites não forjam documentos... E assim se vai mais alguns minutos tentando fazer sentido para mim mesmo... Pois se eu não me ler com coerência quem mais poderá fazê-lo??? E é aí então que se dá razão ao título deste enunciado...

Dizem que a gente usa a língua também para sentir... Ou que sentimos com a nossa língua... Sei lá... Algo assim... Talvez tenha sido por isso que preferi colocar este título em inglês... Imagino que tal mistura seja de revirar suassuanas, mas é assim que eu vejo o mundo de hoje... Já fomos tão colonizados que, até eu, um pobre maldito, nascido e criado perto da BR de uma periferia do interior, me possibilito agora sentir em outros idiomas... Dou título a esses parágrafos em inglês por que é assim que eu me sinto ao passear por este centro, por estas ruas... Porque tudo no centro me parece sempre tão familiar e ao mesmo tempo estrangeiro... Bem como todo o mundo se me permitirem devanear mais profundamente...

Quando conjuro estas três palavras em inglês... Looking for Ghosts... Elas não surgem em negrito ou itálico convencionais para distingui-las de algo que não me é próprio... Elas soam na minha cabeça como ecos de sussurros... Como se espíritos sibilassem direto de urnas funerárias esquecidas, denunciando esta frieza e esta melancolia que herdei depois de tantos massacres, de tantas injustiças e da violência que carregamos como um soluço engasgado no corpo de nossas ações...

Deixo para vocês um pequeno relato de minhas assombrações...

Majhoo. Salvador-BA, 14 de Dezembro de 2018.

sexta-feira, 8 de março de 2019

As Máscaras Ocultas da Fantasia




"No Carnaval, esperança... Deixei a dor em casa me esperando... E brinquei e brinquei e fui... Vestido de reis... Quarta-feira... Sempre desce o pano..." (Chico Buarque de Holanda)


Quero iniciar este pequeno devaneio, pequena, só pra te dizer que entendi... Entendi que busco um fluxo etéreo do imaginário... Algo único e impossível de conceber no mundo falho das palavras... Mas desse jeito... Falho é que eu fui mais uma vez desbravando as multidões só para ver se te enxergo por aí... Mesmo sabendo que talvez existas apenas dentro da minha cabeça... Ahhhh... E por isso mesmo te tornas infinitamente conhecível nos rostos de todas as mulheres... É justamente por este amor infinito que ensinas morada a dentro de mim que posso hoje ver também o amor refletido através das faces mascaradas que, assim como eu, também te buscam entre as contravenções dos carnavais da vida...

Eu sei pequena que às vezes não faço o menor sentido... Acredite isso também vale para o que penso a respeito de mim... Mas acompanhe comigo... Tenho tudo para achar os carnavais as festas mais solitárias do mundo... Milhões de pessoas... Todas elas juntas em frenesi... No auge do verão... Quando todos têm tanto pra dizer mas não sabem o que falar... É então que o calor e a natureza nos cobre de desejos... Desejos exacerbados... Desejos intumescidos e inflamados por convenções culturais, consumo, extravagancias... etc...

Mesmo sem nexo as coisas que escrevo... Cheia de três pontinhos por conter tantas coisas ocultas que não poderão ser ditas devido ao curto espaço de tempo e paciência que falta ao mundo da escrita e dos leitores... Ainda assim eu insisto neste relato sobre todas as pessoas que revelaram a mim algum sofrimento por detrás de tantos sorrisos atraentes e drogas consumidas... Todas as brigas... Todos os empurrões... Discussões... Todos os gritos de vá tomar no cú (seja o do Bozo ou não)... As ameaças de morte... Os ciúmes... Ai ai ai ai ai... Tudo isso revelando por debaixo das fantasias de carnaval o seu lado mais obscuro de infelicidade...

Para o povo pobre o Carnaval de Salvador também é multifacetado... Têm aqueles que aproveitam esta data como uma oportunidade para ganhar uma grana... Eles acampam no centro da cidade, ficam dias em condições péssimas, dormindo o quanto podem sob as poucas horas da manhã onde os foliões se utilizam para se curar da ressaca... Bem... Acho que esse povo todo também se diverte um pouco fazendo isso... Acho que esse é o pensamento que sustenta toda a classe patronal... Onde o lógico é dar um prato de comida ao escravo e esperar que ele se sinta grato pela benevolência de seu Senhor... Vocês por acaso já viram a fila de cordeiros como é? Nunca refletiram a face da nossa Escravidão estampada nela? Centenas de pessoas negras, raramente a gente acha um sarará... Em suma negros abalroados em busca de míseros 50 reais para impedir que outros pobres cruzem as linhas da segregação disfarçada sob a palavra segurança...

Depois... Pra que que servem os camarotes então? Servem exclusivamente  para uma sociedade cristã exibir o seu poder de consumo e diferenciação... Onde a fantasia das pessoas é sustentarem sua ilusão de que são melhores do que os que não podem pagar tão caro... Para mostrar que podem beber algo diferente da urina que monopoliza todo o circuito onde movem-se as massas... Tudo... Tudo no carnaval se fantasia de felicidade... Beijos na boca... Transas com desconhecidos... Traição de namorados... Tentativas de agarramento por parte dos machões bombados... Tem também os pescadores de briga que se utilizam de suas próprias companheiras (pra eles meras fêmeas) à espera do primeiro idiota que mexer com ela para que tenham o pretexto de dar porrada nos oto...


Sim... o Carnaval é uma época de muita beleza... Pobre ou rico, é certo de que as pessoas que o desfrutam deixam suas tristezas em casa à sua espera... Mas ''quarta-feira sempre desse o pano" não é mesmo? E este texto serve apenas para nos advertir de que esta beleza está na aceitação de nossas fragilidades e na lembrança de que devemos trabalha-las em vez de ignora-las... Pois na Quarta-Feira de Cinzas vem o dia de Exú, abrindo os caminhos para um novo ano e Provações e Penitências (início da Quaresma Cristã)... É na Quarta de Cinzas que as ilusões se dissolvem para os apaixonados que não se verão mais... É lá onde Maria se transforma em samba de dor e morre com seu véu ainda lhe cobrindo o rosto... Certamente o carnaval é o desengano... É a lembrança de que estamos cada vez mais fadados à forma e à aparência e que nos esquecemos de vez da substância... Quem quer cuidar do espírito sente vontade de se afastar do carnaval e das outras festas por conta disso... Do consumo... Da materialidade... Do vício... E da desesperança de um mundo onde não fazer uso disso significa dar sinais claros para que os outros lhe chamem de "INFELIZ"

E é por isso, pequena, que eu sei que tu não estás lá... Tu estás dentro de mim e quando encontrá-la poderei dedicar-me a ti em qualquer outro ser humano... Pois jamais tratarei outro indivíduo desrespeitosamente, ou jamais direi algo grosseiro a uma companheira... Porque tu és o verdadeiro Espirito Santo... Esta força que me faz buscar em toda parte algo que me complete... Uma musa maior para aliviar as minhas dores... E esse amor que somente tu tem para ensinar, servirá depois para ser dado a qualquer pessoa de minha escolha ou para me livrar de vez deste Vale Carne que nossa Civilização vende como a felicidade mais esperada do ano...

"Morreu Maria quando a folia
Na quarta feira também morria
E foi de cinzas seu enxoval
Viveu apenas um Carnaval
Que fosse chamada
Então como tantas
Marias de santas
Marias de flor, em vez de Maria
Maria somente, Maria semente
De samba e de dor
Não era noite, não era dia
Somente restos de fantasia
Somente cinzas, pobre Maria
Jamais a vida lhe sorriria
E nunca viria de
Porta-estandarte
Sambando com arte
Puxando cordões
E não estaria em plena folia
Nos olhos e sonhos
De mil foliões"


(Roberto Carlos)





https://www.youtube.com/watch?v=W0TeyjjKNXA
(Um Sonho de Carnaval, Chico Buarque,1966 . Perform by Paulinho da Viola.)

https://www.youtube.com/watch?v=D6MB_Ndxo6I
(Maria, Carnaval e Cinzas, Roberto Carlos, 1967.)

sábado, 2 de março de 2019

Os Três Pinos Cap I, pt 1


Primeiro Pino – Carreira Um : Trópico de Câncer

       
        Acabei de despertar, olho e vejo minha amiga tentando fazer o trabalho que dissera que faria na noite anterior (mas óbvio, eu atrapalhei, como sempre tenho a impressão que é só o que faço na vida de todos à minha volta); olho pra ela e não consigo conter minhas afobações de estar sempre ativo, de acordar já querendo dançar, falar, cantar, ouvir música, limpar a casa, de interagir com o mundo e compartilhar minhas visões... Ou fazer uma porção de outras coisas que me façam esquecer do fato de que eu não consegui dormir quase nada...
         Enfim... Rompi o silêncio...
- Advinha com quem acabei de sonhar agora?
         Ela olhou pra minha cara e fez uma expressão de tédio... - Aff! Sério?
- Pode crer... Mas depois a gente conversa, não quero te atrapalhar... – Perguntei se tinha café, ela disse que sim, então levantei... alonguei o meu corpo amaldiçoado e fui lavar os pratos...
     Durante mais este ato de meditação, pensei em tudo o que acontecera na noite anterior... Das revelações que contei à minha amiga no bar... Algumas coisas que nunca contei pra ninguém... Nem mesmo para o meu melhor amigo mais azuado por quem essa minha amiga é apaixonada... É porque as esquinas sem saída dos bares são assim mesmo... Elas reúnem a rejeição no canto de ninar que é velado no colo da noite... É ali onde os abandonados se podem encontrar e trocar as carícias que outro alguém jogou no lixo... E lá estávamos nós... Falando de demônios de nossas infâncias... Das tantas brigas, do sangue, do charco... Da maldição de não ter conseguido morrer apesar de já ter desafiado a morte tantas vezes...
       Em meio ao esforço cataclísmico de arear uma frigideira, eu penso também em todas as horas que estive em claro esta noite... Aqui nesta casa em que você esteve ontem, junto com as bixa tudo, nem sei mesmo se sequer passou pela sua cabeça que talvez fosse legal que eu estivesse também... Se pensou que talvez pudesse ter sido divertido, engraçado... Sei lá, qualquer coisa que me tirasse desse buraco onde agora eu escrevo, onde ainda penso em você... E onde eu sofro por pensar que a minha companhia pra você é dispensável... Como a de qualquer outro macho que você topa pela rua... Eu sou qualquer um pra você e isso acaba comigo... demais...
      Fiquei zanzando entre o quarto e a sala e a área de serviço... Fumando repetidos cigarros e esperando que o tempo passasse e algum cansaço chegasse para me destronar deste governo de rei da angústia em que a minha insônia me coroou... Ando rápido e na ponta do pé, com a maior precisão possível, para não fazer nenhum ruído que incomodasse os vizinhos de baixo, e nem minha amiga que dorme tranquilamente quando está cansada, como só alguém do seu signo consegue fazer...
        Durante a madrugada eu senti frio... Mas como não podia mais insistir em ficar deitado sem conseguir dormir, já estava muito inquieto de estar a horas ali sem se mexer pra não acordá-la... Por mais que eu a ame como uma amiga maravilhosa, eu entendo o que é não gostar de uma pessoa daquela forma especial... Que te faz sentir-se a pessoa mais incrível do planeta, apenas por sentir um amor tão intenso por alguém que te faz pensar que pode galgar os percalços das estrelas para poder estar com a pessoa amada... Estou falando daquele amor que nos paralisa as veias... Os músculos... As pernas... Tudo...  E por mais à vontade que tenha me sentido ao fazer amor com aquela pessoa... Eu sinto no meu íntimo que isso só aumenta a minha dor... Fazer amor com alguém que não é Você... E que no fim das contas me lembra tanto a Ti... Enfim... Eu deixo todas essas coisas a cargo mesmo das estrelas... E tento fazer o melhor que posso para não machucar a ela e nem a Você... Porque eu já tenho tantas marcas não cicatrizadas que uma a mais não fará a mínima diferença para o meu orgulho já tão maltratado...
      Levantei, me cobri com um cobertor, como aqueles mendigos místicos da geração beat... hahahaha! Só que com um estilo tropical que só eu possuo... Me sentei à frente do computador, não queria fazer isso... Mas é mais forte do que eu... Passei a noite desbotando algumas das suas postagens... Reli mais de 10 vezes as nossas conversas do último mês (que não era muita coisa, por sinal), mas meditei sobretudo na última coisa que Te disse... Fiquei ali pensando... Será que fui rude demais com Ela?... Será que A machuquei por ter revelado essa minha amargura íntima? Como será que Ela está se sentindo agora?... A verdade é que eu nunca vou saber... Ela nunca me dirá... Mas aquele horário da visualização já me dizia tudo o que eu precisava saber... “Visualizado – Qui 22:41”... Isso não me diz absolutamente porra nenhuma... Ela diz que não consegue me compreender... Compreender minhas atitudes... Porque ajo da maneira que ajo... Quer saber o porquê? Porque esse silêncio só me diz que essa história ainda não acabou... Que ainda vai doer em mim por muito tempo... Como um pulso aberto que curei sem engessar e que me doerá ainda pelos próximos três ou quarto invernos dos anos que se seguirão. (acreditem, já passei por isso, o frio faz mesmo esta porra doer...).
       Fiz café... Fui comprar pão... Tentei fazer com que aquilo parecesse mais um dia normal da minha vida... Aleatório... Preto e Branco... Até algum passarinho jovem me sorrir e apresentar seu vôo rasante, seus músculos fortes, seu canto novo... E o Sol sempre dá um jeito de me sorrir por entre as nuvens... Tudo isso... Todos esses fenômenos incríveis do Cosmos à minha volta, me dão os sinais de para onde devo ir e onde devo estar a cada momento... E acreditem ou não... Eles me guiam sempre para os lugares certos para que eu possa mudar o mundo com a beleza de minha tragicidade... Ou o meu sorriso descartável... Eh, aparentemente, sou um homem que traz os sorrisos que contagia as pessoas... que traz alegria aos desconhecidos do caixa, fazendo uma palhaçada, ou algo que aquele ser humano aprendeu que é errado de se fazer em público... Como demonstrar afetos, amor, loucura, sinônimos desgarrados para dizer a mesma coisa... Dizer que sinto algo imenso dentro de mim que grita e me faz querer compartilhar um pouco disso com as pessoas... Mas...
             Mas...

          Acontece que quando perco essa função... Quando sou novamente sugado para os abismos de meus pensamentos... Torno a me sentir o ser humano mais solitário do Universo... Pois tenho um inferno de informações na cabeça e sei que não existe nenhuma pessoa com quem eu pudesse conversar sobre eles... Porque são duras demais... Porque são intensas demais... Porque parecem falsas... fantasiosas... mentirosas... egoístas... obcecadas... possessivas... infantis... incompreensíveis... ridículas... românticas... sinceras talvez... terríveis... ou loucura... Demais... Demais... Demais... Ali eu descubro o meu último medo em existir... O medo de que não exista ninguém no mundo disposto a me ajudar... Não há ninguém que possa suportar este monstro tão grande que trago aqui dentro... Eu afasto Todos os Amores... Sem exceção... Não há mais ninguém interessado nas camadas mais profundas das minhas peles... Ninguém vai passar daquele muro que foi erguido nos meus mundos... Sob trezentas pétalas encouraçadas de veludo que compõem as multifárias cascas de minhas cebolas... Ninguém que possa ver aquela beleza que guardei para quando encontrasse a pessoa mais especial do mundo... Um outro ser humano que pudesse sentir algo por mim que me fortalecesse... Que me fizesse sentir-se um pouco menos sozinho...

        Voltei... À mesa do café, contei o pedaço que lembrava do sonho para a minha amiga... Já não lembrava muita coisa... Como tenho uma mente estranha de se compreender... Não consegui começar a contar o sonho sem falar de um livro ou dois que li em alguns lugares... Não me lembro exatamente em quais (ou talvez eu tenha inventado uma coisa ou duas, a verdade é que vocês não querem saber... porque as verdades doem... E vocês, meus queridos... Vocês sempre preferiram que eu mentisse... Porque as coisas que sinto, ao que parece apenas destroem tudo)... (Enfim...) O(s) livro(s) dizia(m) que os sonhos não são lembrados porque geralmente usam um nível muito reduzido de energia para fixar as memórias no cérebro... A parte relativa à memória fica geralmente desligada...


      Porém, assim como os traumas, as grandes sensações de prazer, as grandes decepções... Todas essas coisas que resultam em grande experiência para nossa ruína ou nosso mais glorioso bem estar... Todas essas substâncias que danificam o nosso sistema (dor, raiva, angústia, solidão)... Ou todas àquelas que causam sensações de prazer e conexão a toda a infinita beleza do Universo (como o carinho que vai crescendo por alguém só porque você a considera a pessoa mais especial que já conheceu; ou a sensação que sentimos ao ver o sorriso dela destruir todos os fantasmas dos ambientes assombrados com sua ausência; aquela pura sensação de se sentir eterno só por poder olhar para ela por mais alguns segundos...)... Assim como isso tudo, os sonhos também contribuem para gravar experiências que ajudam os indivíduos a não cometerem os mesmos erros de novo... (ou tentarem cometer menos aqueles outros que geramos por causa deles)... O importante é que essas informações é que garantem a experiência da vida como um todo... Pois todas as sensações e acontecimentos reverberam do macro ao micro e movem os corpos infinitamente para novos lugares...
       Sem falar de todo o seguimento da matéria que ainda não conseguimos compreender... Pois energia não se dissocia da matéria... Então todos os sonhos são infinitos e perpassam tudo... Porque todos são feitos de energia... Como as estrelas... Como nossos corpos... Como nossos desejos... E por isso é também infinita... Talvez eu tenha sido condenado a sonhar as impossibilidades que movem todas as espécies a realizar façanhas consideradas impossíveis para poder dar o melhor de si para o futuro deste mundo... Talvez eu esteja condenado a amar demais as pessoas porque só esse amor pode ensinar um homem como eu a querer sempre ser alguém melhor... Para que possa merecer a cada raiar do Sol, a companhia da mulher a quem escolhi doar esta loucura que arrasto comigo há tantos anos... Aquele desejo intumescido de lhe poder sorrir todos os dias e saber que vai ficar tudo bem... Que quando partirmos o mundo será um lugar melhor... Porque aquele amor impossível tornou-se possível através do resultado de todo o carinho dedicado para que as flores pudessem brotar... Os sonhos que fazem homens como eu esperarem por tempo indeterminado... São esses que fazem a cada dia eu envenenar novas células do meu ego... E mesmo que eu jamais encontre alguém... Ou mesmo que alguma outra duende suja me descubra... Até se outra vez conseguir amar alguém totalmente diferente... Eu ainda sinto no meu íntimo que continuarei procurando no fundo de meus pensamentos se por algum milagre ainda poderia ser Você... A pessoa mais especial do meu mundo até agora...
              (Não acredita? Eu te disse que era intenso demais debaixo das minhas camadas... Eu te disse que tinha medo de Ti porque sabia que Você entraria me rasgando como uma faca por baixo dos panos... Eu disse... Não atravesse as minhas máscaras porque por dentro eu sou mais um Monstro de Amor... Eu não posso mostrar meu verdadeiro rosto sem causar dor... Por favor... Se puder um dia, tente ao menos acreditar nisso)...
            E depois de todo esse devaneio... Volto à minha amiga para contar o que lembrei (se é que essa minha amiga existe mesmo ou é só outra invenção da minha cabeça alucinada...)... Lembrei da parte que Você estava presente o tempo inteiro... Que era algum lugar de uma Itabuna fictícia (vivo me perguntando porque essa maldita cidade ainda me prende tanto... Será que ainda tenho tantos traumas assim pra resolver?)... Você queria pegar um ônibus pra Bom Despacho (não perguntei porquê)... Você não pareceu me desejar em nenhum momento do sonho... Mas o que eu queria era, pelo menos, saber o porquê de Você ter desistido de mim tão fácil... Porquê eu não mereci em momento algum saber se Você teve alguma vontade verdadeira de tentar ser feliz comigo... Ou se em algum momento consideraste que eu talvez pudesse valer à pena... Que eu pudesse ser alguém que merecesse o seu amor... Enfim... Estas não são apenas perguntas que eu reservei para os meus sonhos...
            As lembranças são mais nítidas a partir desse momento... Nós nos sentamos na madrugada de uma estrada deserta (sinistra por sinal, um lugar onde eu tentaria parecer tranquilo por fora para tentar Te tranqüilizar, mas por dentro estaria tremendo de medo de que algo ruim pudesse acontecer com Você, minha pequena... Mas entenda, meu amor, ao que parece, no sonho, não havia outro lugar para me sentar com você... Aquele já era o fim do mundo... Não haveria mais para onde ir depois que Você fosse embora... Por isso nos sentamos lá... E Você me disse seus porquês, não sei se correspondem com seus porquês reais... Mas foram tão tristes e convincentes que me fizeram acreditar que tudo mesmo não passava de mais um sonho ilusoriamente construído para que eu superasse mais um sofrimento de um coração remendado... No sonho Você veio para completar as marteladas que haviam feito trincar minha realidade nos últimos meses...
        É nesta parte do sonho... Depois de ter ouvido tudo o que me disseste... Sem pestanejar... Tentando gravar cada expressão oculta do teu rosto para tentar especular a respeito de não estares me escondendo nada... Eh! Ainda tenho dúvida de tuas certezas  em relação ao que pode vir de nós dois no futuro... Às vezes me parecem mais incertezas do que qualquer outra coisa... Depois de ouvir tudo, quando estava prestes a aceitar tudo de uma maneira que pelo menos me possibilitasse lhe sorrir e lhe desejar uma boa viagem... Nesse momento apareceu um cara estranho... Muito estranho... E ficou olhando fixamente para nós dois... Ele não tinha cara triste... Nem alegre... Ele era uma interrogação... Ele era O Desconhecido... Não pude me conter... Me levantei e briguei com ele... Acertei-lhe dezenas de golpes até que ele caiu com a cara numa poça de lama... Você tentou acudi-lo para que não se afogasse... Mas por alguma razão eu não deixei... Você ficou brava comigo... Não queria que eu brigasse com ele por sua causa... Foi então que uma velhinha parou para socorrê-lo... Só que logo em seguida ela foi atropelada por um automóvel velho que também atolou na poça... A velhinha morreu na hora... Nós presenciamos o seu último suspiro e um murmurar de palavras que queria dizer alguma coisa que não pude compreender... Pouco tempo depois O Desconhecido levantou da poça onde pensamos que ele jazia morto... Olhou para nós dois... E sorriu...
- Depois disso eu acordei e não consegui dormir mais, seja bem-vinda aos meus pesadelos. – Encerro a minha transmissão...