Primeiro Pino – Carreira
Dois: Trópico de Capricórnio
Depois
do café, me despedi de minha amiga e fui pra casa... Passei para tomar um banho
e arrumar as minhas coisas porque ainda iria pro trabalho... Depois do trabalho
marquei com Felipe para participar do Teatro do Boi... Ou seja... Seria dia de
trabalho e eu gosto de mentir para mim mesmo me fazendo acreditar que se eu
ocupar demais a minha mente... Talvez se eu me encher de coisas pra fazer... Eu
consiga não pensar tanto na minha solidão... Na minha rejeição... Nos meus
amores incompreendidos... Ou no fato de eu sempre estar rodeado de pessoas e
mesmo assim me sentir tão vazio por dentro... Mas é tudo mentira... Minha mente
não consegue me deixar esquecer-se disso quando estou assim... Até quando estou
de fato feliz... Mesmo quando estou feliz, a outra parte de mim me faz questão
de lembrar que esta é uma felicidade incompartilhável... E não importa o quanto
eu invista minhas forças em outros afazeres... Eu sou um maldito romântico...
Não existe nada que consuma mais da minha energia do que este anjo decaído a
quem chamam Amor...
Catei
as moedas e fui... Faço aquele caminho que fizemos no carnaval... Fico me
perguntando quantas vezes eu já não me arrastei por esta estrada pensando no meu
fracasso... Aliás... Fico pensando em quantas vezes eu não me arrastei por toda
a cidade revisitando as lembranças de beijos, declarações de afetos... Tardes
passadas em Museus, praias, cinemas, praças... Noites de Jazz, música e
poesia... Fico pensando em todas estas esquinas e coisas que me convencem mesmo
de que sou um completo fracassado nesse negócio de amar... Por todo lado onde
me viro nesta cidade eu percebo o quanto eu já sofri aqui... O quanto me sinto
só... Porque nunca antes havia encontrado tantas pessoas que se importassem
comigo, mas que mesmo assim não podem alcançar os meus segredos... Aqueles
segredos que não sei como dizer... Aquela ajuda que não sei como pedir...
Aquele colo na calada da noite que... ninguém parece sentir que eu seja merecedor...
Cheguei
cedo ao trabalho... Tinha muita vontade de tomar uma cerveja, mas as moedas não
eram suficientes... Lá não tinha nada pra fazer... Fiquei mais uma vez no
facebook... Postando coisas que tentassem extravasar um pouco da minha
angústia... Que talvez, por um milagre tosco do destino, fizesse com que ela me
stalkeasse daqui a alguns anos e descobrisse o quanto foi tola por me deixar
sofrer tanto... hahahaha! Eu sou mesmo um maldito sonhador... Acho que são
essas coisas que fazem as pessoas pensarem que sou um lunático... Mas o que eu
posso fazer se eu sou assim? Não quero machucar ninguém... Só quero que as
pessoas entendam que eu estou sofrendo e não sei o que fazer para isso
melhorar... Já fui ao psicólogo e a sua dosagem foi considerada insuficiente...
Eu preciso de drogas muito mais fortes... Em doses cavalares... Caso contrário
eu não consigo, na maioria das vezes, nem mesmo sorrir...
Perto
do almoço, eu ainda estava tirando os últimos resquícios da invisível
maquinação viva que eu aprontei por aqui para ver se conseguia mostrar a ela
que eu sou incrível... Que eu poderia mover as montanhas que ela escolhesse e
carregá-las sobre minhas costas se ela me pedisse... Isso tudo dói tanto...
Porque sei que fazendo isso eu só me torno um pouco mais especial para mim
mesmo... As outras pessoas não chegam nem a saber qual é a minha importância
nisso tudo... As pessoas não gostam de homens como eu... Metidos a gênios...
Que enchem o saco para que as coisas se movimentem... Que odeiam coisas mal
acabadas... Que não conseguem sossegar enquanto ainda percebem qualquer brecha
na parede do impossível... E é por isso que depois de tanta dor eu ainda
sobrevivo... Acho que é por isso... Porque enquanto eu ainda respirar... Vou
continuar tentando ser feliz... Mesmo que todos continuem insistindo em me
mostrar que isso é impossível para mim...
E
até que você me ofereça outra saída, meu bem... Ou até que feche completamente
tuas paredes para mim... Até lá... Eu sei que vou sofrer... Sozinho para que
ninguém mais precise dividir isso comigo... Conto o que posso pros meus
amigos... O resto eu guardo pra minha insônia... Pras minhas lágrimas... E para
esse caderno idiota... E talvez para aquele blog mais idiota ainda... Eh! Às
vezes Você faz minha vida parecer uma grande idiotice... Principalmente quando
me pergunta o porquê de eu estar agindo assim...
-
Assim como? – Eu te pergunto... Mas você nunca soube responder... – Será que a
única maneira de eu não ser um idiota é mesmo me afastando de Você?.. É pena!
Te juro que não gostaria de ter que fazer isso de novo...
É
aí que minha colega de trabalho (pisciana, pq será?) me chama para acompanhá-la
até a rua... Tem que comprar umas coisas pro marido dela, mas não quer ir
sozinha... Já era meio dia e eu havia marcado com Felipe nesse horário... Mas
engraçado... O nome do marido dessa minha amiga também é Felipe, e ele é canceriano
(e eu sempre cercado de água)... Enfim... Tinha que ir com ela, talvez aquilo
fosse algum sinal que mudaria a energia carregada do meu dia... E de fato
mudou... Ela se ofereceu para me pagar uma cerveja...
Bebemos
um latão de cerveja sentados ao pé de Exú... Em frente à Fundação Casa Jorge
Amado... Bebemos não neh? Ela só tomou um copinho... Ela comprou também um
cigarro pra me aliviar a ansiedade... O engraçado é que bebi a lata toda quase
ao mesmo tempo em que acabava o cigarro... Só deu tempo ouvir ela dizendo: - Eu
heim... Eu achava que eu bebia viu, mas você heim, toma o negoço parecendo
suco...
Mandar
aquilo para o estômago vazio me deu alguns minutos de uma anestesia sublime...
Aquela cerveja gelada destruindo mais um pouquinho deste corpo mal amado... Só
mais um pouquinho antes que eu encontre o caminho certo para me fortalecer...
Antes que eu consiga dar fim a esta moléstia que carrego desde a infância...
Minha mais demoníaca solidão... Preciso de alguma forma me sentir bem comigo
mesmo... Isso é tão bonito nos livros... É tão maravilhoso ouvir alguém falar
sobre essa sensação... Sobre o Nirvana... Sobre o Espírito Santo... A
Iluminação... Mas na prática esse caminho é tão difícil... Parece tão
impossível... Parece ainda mais impossível para mim do que mostrar a ela que
posso ser seu... Seu como nenhum outro jamais será... De graça... Porque isso é
algo que eu posso escolher dar ou não... Eu posso escolher ter a coragem de
entregar-lhe o meu amor mesmo sem ter o seu em troca... Mas... Não! Infelizmente
não consigo escolher não me sentir só e fraco e pobre e besta e incompleto e...
Deixa pra lá!
Depois
de muito zanzarmos nas lojas... Chegamos a uma loja de um chinês, onde minha
amiga queria comprar fones de ouvido, um para ela e outro para o marido... Ela
pechincha com a vendedora... Que grita – Felipe, pode fazer a ela por 10 reais?
Neste
momento tive um boom... Me esqueci quase completamente da realidade à minha
volta e pensei em todas as vezes que ouço o nome dela brotar de algum lugar...
Esse sinal despertou as vozes malignas na minha cabeça; me fez atinar que
aquele nome não era tão incomum afinal; me fez procurar quantas Fulanas de Tal
existiam na rede social mais aloprada do mundo... Encontrei três com o dela, e
por ironia debochada dos deuses, uma era de Ilhéus... - Será que é isso mesmo?
– Pensei – Estão mesmo de sacanagem comigo?..
Pensei
também naquele livro de Eneagrama do meu Tio... Que dizia sobre o meu tipo:
“eles se sentem tão solitários, tão únicos, que se diferenciam muito até mesmo
entre si...”... Foi só a partir desta micro catarse que finalmente tive a
coragem de vencer o medo de me fazer aquela pergunta chata pela primeira vez
naquele dia... Será que nasci mesmo para viver a vida inteira se sentindo a
pessoa mais solitária do planeta? Depois parei e pensei... A simples composição
do meu prenome, seja considerando a organização das letras ou qualquer que seja
a pronuncia correta e suas infinitas variações provocadas por equívocos
preguiçosos ou desatentos de outros milhões de pessoas que tentam dizê-lo, não
importa; o que interessa a mim não é se eles dizem meu nome certo ou não, a
consideração dos outros em relação a mim não é algo que me assusta mais. O que
realmente me apavora é que não há nenhuma menção, nenhuma referência a este
signo, a este som conjunto de meu duplo nome, não há nada em nenhum registro
pertencente à História da Humanidade... Existem muitos Cesares; muitos
Fredericos; muitos Antônios Henriques; existem muitas pessoas com nomes de
Anjos e de Apóstolos... No mundo existem até muitos Michael Jackson’s agora...
Mas com o meu amaldiçoado nome duplicado pelo meu brilho e pela minha
escuridão... Só existe eu...
(Ou
pelo menos fui o primeiro de muitos)
(Ou
sou apenas a simples continuação de outros trágicos mal sucedidos apenas porque
ninguém parece compreender o excesso de amor que carregam consigo...)
[Como
não faço idéia do que isso tudo significa... Acabo deixando pra lá...]
Volto
a pensar...Será mesmo que nasci e vim até aqui e não construirei nada com uma
mulher que me entenda? Ou que ao menos tenha paciência comigo?? Que esteja
minimamente disposta a me dedicar um pouco de seu carinho e cuidado??? E talvez
quem sabe, por alguma que pudesse se acostumar com esse amor imenso que estou
disposto a dar e ninguém parece querer... Uma mulher que, quem sabe até,
pudesse começar a me amar junto com o tempo, do jeito que eu sou... Não um
louco, apenas... Mas sim um homem em eterno aprendizado...
Muitas
coisas aconteceram... Conversei com minha amiga e ela me disse muitas coisas
bonitas... E me abraçou maternalmente e disse que ficaria tudo bem... Daquelas
que fazem com que você se sinta útil no mundo... Mesmo que minimamente... Ela
me deu alguns trocados para comprar outra cerveja e antes de virar as costas
para ir para o trabalho, disse:
-
Olha amigo, deixa estar... Dê tempo ao tempo... Se você significa algo pra ela,
talvez ela vá te procurar... Canceriano procura, com Felipe foi assim... Ele
terminou comigo uma vez e depois de um tempão veio me procurar... Não fica
triste não, viu... Se precisar desabafar eu to aqui...
O
mais engraçado é que nunca contei detalhes pra ela. Só que esses psicianos são
meu ponto fraco... Eles insistem em saber o que se passa por detrás das
cortinas da minha cabeça... Toda vez que chego triste no trabalho ela percebe
de longe e pergunta logo o que foi que aconteceu... Enfim, eu sou coração de
manteiga... Com o passar dos dias, me senti a vontade para falar a ela sobre
aquela minha paixão encravada que não me deixava dormir... O que é mais gostoso
é que ela realmente sabe dar bons conselhos...
...
Bem! Como eu estava atrasado, guardei as moedas que ela me deu e fui para o
local do compromisso que já tinha firmado... Pensei em desistir centenas de
vezes enquanto passava pelos bares do caminho... Mas uma cerveja só não
conseguiria saciar aquele monstro, então preferi encarar o destino... Era
melhor isso do que ficar me sentindo infinitamente culpado depois por ter
furado com o meu amigo...
Aff... Eu e esse estranho senso de lealdade
que parece não fazer sentido pra mais ninguém além de mim...
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