quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Os Três Pinos Cap I, pt 2

 

Primeiro Pino – Carreira Dois: Trópico de Capricórnio

 

    Depois do café, me despedi de minha amiga e fui pra casa... Passei para tomar um banho e arrumar as minhas coisas porque ainda iria pro trabalho... Depois do trabalho marquei com Felipe para participar do Teatro do Boi... Ou seja... Seria dia de trabalho e eu gosto de mentir para mim mesmo me fazendo acreditar que se eu ocupar demais a minha mente... Talvez se eu me encher de coisas pra fazer... Eu consiga não pensar tanto na minha solidão... Na minha rejeição... Nos meus amores incompreendidos... Ou no fato de eu sempre estar rodeado de pessoas e mesmo assim me sentir tão vazio por dentro... Mas é tudo mentira... Minha mente não consegue me deixar esquecer-se disso quando estou assim... Até quando estou de fato feliz... Mesmo quando estou feliz, a outra parte de mim me faz questão de lembrar que esta é uma felicidade incompartilhável... E não importa o quanto eu invista minhas forças em outros afazeres... Eu sou um maldito romântico... Não existe nada que consuma mais da minha energia do que este anjo decaído a quem chamam Amor...

    Catei as moedas e fui... Faço aquele caminho que fizemos no carnaval... Fico me perguntando quantas vezes eu já não me arrastei por esta estrada pensando no meu fracasso... Aliás... Fico pensando em quantas vezes eu não me arrastei por toda a cidade revisitando as lembranças de beijos, declarações de afetos... Tardes passadas em Museus, praias, cinemas, praças... Noites de Jazz, música e poesia... Fico pensando em todas estas esquinas e coisas que me convencem mesmo de que sou um completo fracassado nesse negócio de amar... Por todo lado onde me viro nesta cidade eu percebo o quanto eu já sofri aqui... O quanto me sinto só... Porque nunca antes havia encontrado tantas pessoas que se importassem comigo, mas que mesmo assim não podem alcançar os meus segredos... Aqueles segredos que não sei como dizer... Aquela ajuda que não sei como pedir... Aquele colo na calada da noite que... ninguém parece sentir que eu seja merecedor...

    Cheguei cedo ao trabalho... Tinha muita vontade de tomar uma cerveja, mas as moedas não eram suficientes... Lá não tinha nada pra fazer... Fiquei mais uma vez no facebook... Postando coisas que tentassem extravasar um pouco da minha angústia... Que talvez, por um milagre tosco do destino, fizesse com que ela me stalkeasse daqui a alguns anos e descobrisse o quanto foi tola por me deixar sofrer tanto... hahahaha! Eu sou mesmo um maldito sonhador... Acho que são essas coisas que fazem as pessoas pensarem que sou um lunático... Mas o que eu posso fazer se eu sou assim? Não quero machucar ninguém... Só quero que as pessoas entendam que eu estou sofrendo e não sei o que fazer para isso melhorar... Já fui ao psicólogo e a sua dosagem foi considerada insuficiente... Eu preciso de drogas muito mais fortes... Em doses cavalares... Caso contrário eu não consigo, na maioria das vezes, nem mesmo sorrir...

    Perto do almoço, eu ainda estava tirando os últimos resquícios da invisível maquinação viva que eu aprontei por aqui para ver se conseguia mostrar a ela que eu sou incrível... Que eu poderia mover as montanhas que ela escolhesse e carregá-las sobre minhas costas se ela me pedisse... Isso tudo dói tanto... Porque sei que fazendo isso eu só me torno um pouco mais especial para mim mesmo... As outras pessoas não chegam nem a saber qual é a minha importância nisso tudo... As pessoas não gostam de homens como eu... Metidos a gênios... Que enchem o saco para que as coisas se movimentem... Que odeiam coisas mal acabadas... Que não conseguem sossegar enquanto ainda percebem qualquer brecha na parede do impossível... E é por isso que depois de tanta dor eu ainda sobrevivo... Acho que é por isso... Porque enquanto eu ainda respirar... Vou continuar tentando ser feliz... Mesmo que todos continuem insistindo em me mostrar que isso é impossível para mim...

    E até que você me ofereça outra saída, meu bem... Ou até que feche completamente tuas paredes para mim... Até lá... Eu sei que vou sofrer... Sozinho para que ninguém mais precise dividir isso comigo... Conto o que posso pros meus amigos... O resto eu guardo pra minha insônia... Pras minhas lágrimas... E para esse caderno idiota... E talvez para aquele blog mais idiota ainda... Eh! Às vezes Você faz minha vida parecer uma grande idiotice... Principalmente quando me pergunta o porquê de eu estar agindo assim...

    - Assim como? – Eu te pergunto... Mas você nunca soube responder... – Será que a única maneira de eu não ser um idiota é mesmo me afastando de Você?.. É pena! Te juro que não gostaria de ter que fazer isso de novo...

    É aí que minha colega de trabalho (pisciana, pq será?) me chama para acompanhá-la até a rua... Tem que comprar umas coisas pro marido dela, mas não quer ir sozinha... Já era meio dia e eu havia marcado com Felipe nesse horário... Mas engraçado... O nome do marido dessa minha amiga também é Felipe, e ele é canceriano (e eu sempre cercado de água)... Enfim... Tinha que ir com ela, talvez aquilo fosse algum sinal que mudaria a energia carregada do meu dia... E de fato mudou... Ela se ofereceu para me pagar uma cerveja...

    Bebemos um latão de cerveja sentados ao pé de Exú... Em frente à Fundação Casa Jorge Amado... Bebemos não neh? Ela só tomou um copinho... Ela comprou também um cigarro pra me aliviar a ansiedade... O engraçado é que bebi a lata toda quase ao mesmo tempo em que acabava o cigarro... Só deu tempo ouvir ela dizendo: - Eu heim... Eu achava que eu bebia viu, mas você heim, toma o negoço parecendo suco...

    Mandar aquilo para o estômago vazio me deu alguns minutos de uma anestesia sublime... Aquela cerveja gelada destruindo mais um pouquinho deste corpo mal amado... Só mais um pouquinho antes que eu encontre o caminho certo para me fortalecer... Antes que eu consiga dar fim a esta moléstia que carrego desde a infância... Minha mais demoníaca solidão... Preciso de alguma forma me sentir bem comigo mesmo... Isso é tão bonito nos livros... É tão maravilhoso ouvir alguém falar sobre essa sensação... Sobre o Nirvana... Sobre o Espírito Santo... A Iluminação... Mas na prática esse caminho é tão difícil... Parece tão impossível... Parece ainda mais impossível para mim do que mostrar a ela que posso ser seu... Seu como nenhum outro jamais será... De graça... Porque isso é algo que eu posso escolher dar ou não... Eu posso escolher ter a coragem de entregar-lhe o meu amor mesmo sem ter o seu em troca... Mas... Não! Infelizmente não consigo escolher não me sentir só e fraco e pobre e besta e incompleto e... Deixa pra lá!

    Depois de muito zanzarmos nas lojas... Chegamos a uma loja de um chinês, onde minha amiga queria comprar fones de ouvido, um para ela e outro para o marido... Ela pechincha com a vendedora... Que grita – Felipe, pode fazer a ela por 10 reais?

    Neste momento tive um boom... Me esqueci quase completamente da realidade à minha volta e pensei em todas as vezes que ouço o nome dela brotar de algum lugar... Esse sinal despertou as vozes malignas na minha cabeça; me fez atinar que aquele nome não era tão incomum afinal; me fez procurar quantas Fulanas de Tal existiam na rede social mais aloprada do mundo... Encontrei três com o dela, e por ironia debochada dos deuses, uma era de Ilhéus... - Será que é isso mesmo? – Pensei – Estão mesmo de sacanagem comigo?..

    Pensei também naquele livro de Eneagrama do meu Tio... Que dizia sobre o meu tipo: “eles se sentem tão solitários, tão únicos, que se diferenciam muito até mesmo entre si...”... Foi só a partir desta micro catarse que finalmente tive a coragem de vencer o medo de me fazer aquela pergunta chata pela primeira vez naquele dia... Será que nasci mesmo para viver a vida inteira se sentindo a pessoa mais solitária do planeta? Depois parei e pensei... A simples composição do meu prenome, seja considerando a organização das letras ou qualquer que seja a pronuncia correta e suas infinitas variações provocadas por equívocos preguiçosos ou desatentos de outros milhões de pessoas que tentam dizê-lo, não importa; o que interessa a mim não é se eles dizem meu nome certo ou não, a consideração dos outros em relação a mim não é algo que me assusta mais. O que realmente me apavora é que não há nenhuma menção, nenhuma referência a este signo, a este som conjunto de meu duplo nome, não há nada em nenhum registro pertencente à História da Humanidade... Existem muitos Cesares; muitos Fredericos; muitos Antônios Henriques; existem muitas pessoas com nomes de Anjos e de Apóstolos... No mundo existem até muitos Michael Jackson’s agora... Mas com o meu amaldiçoado nome duplicado pelo meu brilho e pela minha escuridão... Só existe eu...

    (Ou pelo menos fui o primeiro de muitos)

    (Ou sou apenas a simples continuação de outros trágicos mal sucedidos apenas porque ninguém parece compreender o excesso de amor que carregam consigo...)

    [Como não faço idéia do que isso tudo significa... Acabo deixando pra lá...]

    Volto a pensar...Será mesmo que nasci e vim até aqui e não construirei nada com uma mulher que me entenda? Ou que ao menos tenha paciência comigo?? Que esteja minimamente disposta a me dedicar um pouco de seu carinho e cuidado??? E talvez quem sabe, por alguma que pudesse se acostumar com esse amor imenso que estou disposto a dar e ninguém parece querer... Uma mulher que, quem sabe até, pudesse começar a me amar junto com o tempo, do jeito que eu sou... Não um louco, apenas... Mas sim um homem em eterno aprendizado...

    Muitas coisas aconteceram... Conversei com minha amiga e ela me disse muitas coisas bonitas... E me abraçou maternalmente e disse que ficaria tudo bem... Daquelas que fazem com que você se sinta útil no mundo... Mesmo que minimamente... Ela me deu alguns trocados para comprar outra cerveja e antes de virar as costas para ir para o trabalho, disse:

    - Olha amigo, deixa estar... Dê tempo ao tempo... Se você significa algo pra ela, talvez ela vá te procurar... Canceriano procura, com Felipe foi assim... Ele terminou comigo uma vez e depois de um tempão veio me procurar... Não fica triste não, viu... Se precisar desabafar eu to aqui...

    O mais engraçado é que nunca contei detalhes pra ela. Só que esses psicianos são meu ponto fraco... Eles insistem em saber o que se passa por detrás das cortinas da minha cabeça... Toda vez que chego triste no trabalho ela percebe de longe e pergunta logo o que foi que aconteceu... Enfim, eu sou coração de manteiga... Com o passar dos dias, me senti a vontade para falar a ela sobre aquela minha paixão encravada que não me deixava dormir... O que é mais gostoso é que ela realmente sabe dar bons conselhos...

    ... Bem! Como eu estava atrasado, guardei as moedas que ela me deu e fui para o local do compromisso que já tinha firmado... Pensei em desistir centenas de vezes enquanto passava pelos bares do caminho... Mas uma cerveja só não conseguiria saciar aquele monstro, então preferi encarar o destino... Era melhor isso do que ficar me sentindo infinitamente culpado depois por ter furado com o meu amigo...

     Aff... Eu e esse estranho senso de lealdade que parece não fazer sentido pra mais ninguém além de mim...

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