Tanto me vem à cabeça quando penso no
passado. São imagens confusas de símbolos e letras que não sei bem como me
foram incutidas. Sei que tive uma tia professora e um tio tenebroso, homem
malvado que me incutia terrores psicológicos pelo simples derrubar de um copo
de vidro que se fragmentava pelo chão como minhas próprias memórias se fazem
agora.
Minha tia, muito carinhosa, me apresentava
as primeiras letras quando meu tio não estava em casa, pois quando estava ele
gostava de brigar, se gabar de que era o mais inteligente e que ninguém sabia
de nada tão bem quanto ele e em meio às lições eu sempre me perguntava o que
fazia uma mulher tão boa aguentar um ser tão bruto. Enfim, este é apenas um
fragmento, como o dia em que quebrei a cabeça tentando olhar a chuva pela porta
da sala da casa onde nasci na pequena cidade de Planalto, Bahia. Me lembro de
um pequeno diálogo infrutífero com minha avó:
- Oh minha vó, deixa eu ver a chuva. – ao
que ela retrucou.
- Não, num vai ver diaxo de chuva nenhuma
não que vai ficar doente.
E o choro infantil sensibilizou mainha da
porta que dava pro quintal:
- Vem meu fí, vem ver a chuva aqui no
terreiro.
E a criança de sorriso largo indo de
orelha a orelha correu. Não deu muitos passos, o chão de cimento queimado usava
uma cera vermelha e em dias de chuva também gostava de se refrescar debaixo das
goteiras. Tropecei e tudo que ouvi foi um zunido interno desligando meu sistema
nervoso daquela dor monstruosa que parecia sentir minha mãe ao olhar para mim
em prantos e dizer em voz alta:
- Ohh meu Jesus! Meu fi vai morrer...
E correu comigo nos braços, um pano
enrolado se manchara de algo que eu, aos três anos de idade, ainda não conhecia
em tal proporção. Hoje minha mãe ainda diz que dava para ver meu cérebro pelo
rombo que o batente fez na minha testa. A mim, sei que nada me importava, pois
pude sentir as gotas de chuva respingarem no meu rosto enquanto o carro do
socorro me veio buscar. Minha mãe não me deixou dormir e lembro-me do caminhão
da Sadia do lado chuvoso do carro. Apontei e disse:
- Olha mainha, o caminhão da Sadia.
Minha mãe admirada com minha coragem
frente ao ferimento disse:
- Como é que você sabe que é da Sadia, meu
filho?
- É por causa daquele S que aparece junto
com o frango no comercial, mainha.
As coisas aconteceram como num passe de
mágica. Não sei separar muito bem as vicissitudes dos dias entre minhas
primeiras letras, o rombo da minha cabeça, a morte da minha avó e o dia em que
meu tio tomou da minha mãe a casa onde eu nasci e nos levou para morar na casa
dele. Ele disse que não queria meus irmãos mais velhos e os mandou para a casa
do pai em Itabuna. Minha mãe logo enlouqueceu segundo a medicina ocidental.
Levaram anos para diagnosticá-la esquizofrênica, outros dizem que ela é médium,
ela diz que ouve vozes... Eu... Bem... Eu não tenho mais nada a dizer sobre
isso. Apenas que não deu certo morarmos com esse tio malvado.
Mudamos também para Itabuna, onde minha
mãe teve uma ajuda de cem reais do ex-marido. Com esses cem reais ela comprava
comida e alugava um dois-comodos num cortiço cuja pia de pratos, a pia de lavar
roupas e o banheiro era divido com outras 13 famílias. Lembro-me dos primeiros
anos em que dormíamos eu, minha irmã, meu irmão e minha mãe emaranhados como
gatos num mesmo colchão cercado pela bagunça das coisas que pudemos trazer da
vida antiga.
Foi neste mesmo cortiço que, talvez
embalado pela tristeza de ficar muitas oras naquele lugar, pedi a minha mãe que
me levasse para o colégio. Então aos 6 anos de idade minha mãe, decrepita pelo
uso dos sossega leões que aliviavam sua doença na década de noventa, me levou
até o colégio, o “Lions”. O verdadeiro nome do colégio eu não me lembro, acho
que ninguém sabe, mas o colégio era uma parceria municipal com o Lions Clube
Internacional, e por isso tinha um símbolo bem grande de dois leões com essa
palavra escrita bem grande e aquilo na minha vista de criança era como uma
quimera, ou melhor, como um brasão gigante daquele castelo mágico.
Sim, minha escola parecia um castelo.
Tinha várias salas de aula com grades, algumas até pareciam com masmorras e
tinham escotilhas para calabouços secretos que era para aonde eu acho que iam
os prisioneiros mais perigosos que às vezes aprontavam tanto que sumiam do
colégio. Ela era murada com um muro bem alto que circundava todo o colégio,
como parecem os castelos nos desenhos da Disney e coisa e tal. E eu era o
aprendiz de cavaleiro que rodeava correndo durante todos os recreios aqueles
muros com o objetivo de defendê-lo dos dragões e monstros que poderiam vir
ataca-lo. Hoje a Universidade ainda me parece um reino gigantesco e cheio de
castelos poderosos, mas infelizmente os dragões são bem maiores e a
Universidade é um reduto muito mais difícil de ser defendido, até mesmo para as
armas mais avançadas da imaginação de uma criança.
Foi nesta escola que recebi livros
didáticos seminovos que haviam sido utilizados pelas turmas anteriores. Como
não tinha dinheiro para comprar cadernos, ganhei da diretora aqueles cadernos
pequenos de capa fina que sempre se soltavam depois de alguns dias de uso.
Não tive a obrigação de ler os livros sobre ameaças das palmatórias ou pelos
rigores da educação de Graciliano, quem dera eu ter tido a sorte de Ubaldo ao
escrever seu texto cheio de memórias deliciosas a respeito da biblioteca de seu
pai e suas falsas proibições... Infelizmente, para pessoas da minha laia todos
os livros são proibidos, não por limites físicos inexpugnáveis, mas sim pelas
barreiras sociais, históricas, pela cultura imposta às massas e por toda a
violência que somos submetidos desde a infância.
Então eu lia só o que me agradasse...
Lembro que gostava do livro de estudos sociais, alguma coisa de história e
geografia me agradavam também, mas no geral eu não lia muito. Não houve tempo
para isso. O problema da minha mãe se agravava, fora internada inúmeras vezes
em poucos anos. O tempo que me sobrava fora da escola não me dava ânimo para
estudar muito. Tive que aprender a me defender dos valentões da rua. Aprendi a
roubar comida do mercado ou a ir comprar coisas para os vizinhos e adulterar os
preços para lograr uns trocados... Até invadi as casas alheias para roubar
panelas e cascos de cerveja para vender no outro bairro.
Houve um dia em que a caminho do colégio
eu encontrei um pequeno pedaço de ferro pontiagudo com uma borracha preta ao
redor que manchava tudo. Neste dia aconteceu alguma situação em que fiquei com
raiva de um garoto que me disse alguma coisa e correu, o persegui, ele fechou a
porta do pré-escolar, de repente eu saquei aquele ferro do bolso e comecei a
esfaquear a porta com todo o meu ódio reprimido e gritar desesperadamente como
se aquele fosse o corpo de todas as durezas que me estavam sendo impostas...
Ela era a fome, a ausência de pai e de mãe, a indiferença dos meus irmãos, e
sobretudo a minha falta de entendimento sobre tudo o que acontecia a mim e me
fazia ser uma criança solitária, quieta e perdida no mundo. Não preciso dizer
que fui detido na diretoria e que pensei que ia parar no calabouço. As
professoras tentaram entender o que acontecera, não tiveram sucesso, porque nem
mesmo eu entendia e ainda não entendo. Prefiro acreditar mesmo que foi apenas
um ataque de ódio, mas alguma coisa me diz de que aquilo aconteceu mesmo porque
tudo no mundo está errado e que não há magica ou espada forte o suficiente que
possa consertá-lo.
Por não gostar muito de ler eu inventava
minhas estórias na minha própria cabeça, meu maior tesouro dos oito anos foi um
dos caderninhos sem capa que eu colori com nomes de letra de forma dizendo: “CADERNO
DE POESIA”. Sim, eu encuquei com o mundo de que seria poeta. Nessa época eu
morava na rua Castro Alves, nunca tinha lido, mas acho que algo da alma dele
passou por ali e me afetou peremptoriamente. Eu escrevia coisas bobas sobre as
flores, a chuva, o sol e o vento. Não me lembro, guardei por muito tempo esse
caderno até que presenteei minha primeira namorada com aquela lembrança boa da
infância simbolizando meu coração. Não sei do paradeiro dele ou dela, acho que
o perdeu da mesma forma como eu a perdi, meio que sem querer.
Não me lembro mais quanto tempo se passou
desde minha aventura de poeta ao ladrão de livros do meu tio, outro tio graças
a Deus. Minha mãe, depois de muita luta conseguiu uma aposentadoria por
invalidez, resultado de sua sabedoria ao lidar com sua própria adversidade. Ela, enquanto ouvia vozes, juntou dinheiro o suficiente para comprar um terreno numa
favela e construir um barraco para onde nos mudamos. Lá eu não podia ficar na
rua até tarde e nem queria. Resolvi mudar de vida, estava farto das longas
conversas com amigos que me decepcionaram. Foi quando viajei para casa deste
tio, que era padre, ele tinha diversos livros de faroeste e eu roubei um bocado
e trouxe comigo quando voltei pra casa. Passava horas à luz de velas lendo o
livro até que conseguimos ligar a luz elétrica. Não guardei muitos títulos
daquelas obras desconhecidas, apenas os que eu mais gostava: “Não Atire no
Pianista, que contava a história de um policial que se disfarçava de pianista e
que e a gente só descobria isso no final do livro, como ninguém acha mais este
livro e eu não faço ideia do nome do autor, não há risco de revelar spoilers;
o outro era “Um Samurai no Oeste”, que obviamente contava a historia de um
samurai do final do período Edo que viajou para a expansão do Oeste
norteamericano, bem engenhoso devo confessar, talvez um dia eu escreva a
história de um samurai que viajou no mesmo período para aprender alguma coisa
com os povos indígenas do Brasil. Enfim, acho que este é um fragmento
irrelevante para esta história.
Acho que foi por aí, em algum lugar dos
meus treze anos que comecei a dedicar mais tempo aos momentos de leitura.
Conheci as bancas de livros usados ao mesmo tempo que conheci os botecos que
vendiam bebida para menores de dezoito anos. Comecei a beber vinho Dom Bosco e
a ler literatura de faroeste em cima de árvores, uma mescla doida para uma
criança não muito ajuizada, mas eis-me aqui contando esta história sem um pingo
de tristeza, eu acho é graça porque nem um filme daria conta de uma história
tão bonita, dos momentos intraduzíveis da descoberta dos gibis, dos mangás, do
meu livro predileto, que contava a biografia de Isaac Newton de uma maneira bem
engraçada, até que finalmente me surgiria esta ideia estapafúrdia de me tornar
um escritor.
Ainda bem que na minha cabeça as ideias
não são feitas de concreto, não há solidez e sim apenas fragmentos que se
juntam e se dissipam para formar coisas novas. Não existe aqui dentro pretensões
de riquezas ou de carreiras acadêmicas, não existe desejo de luxo ou avidez por
fazer nada. Enquanto escrevo este texto existe apenas a próxima palavra regada
pela visão turva de alguém que se recupera da ressaca de ontem e se prepara
para entregar o texto daqui a pouco mais de duas horas. Não sei se cumpri o
objetivo do trabalho ou se apenas devaneei em lembrar como cheguei até aqui, o
que me importa pensar agora é que, como tudo na minha vida esta parece ser mais
uma história que saiu de um livro louco, mágico e cheio de dragões em que posso
voar e escrever como se estivesse lendo as coisas acontecendo.
Este texto foi produzido para a matéria de
Leitura e Produção em Língua Portuguesa,
cuja professora, a adorável senhora Alba Valéria,
exerceu com tanto esmero seu trabalho que
conseguiu inspirar uma pessoa no fim de uma depressão
a escrever algo tão libertador e bonito.
À todos os bons professores do Mundo,
meu mais fortíssimo agradecimento.
Maycon Jhossys.
Salvador-Ba, Setembro de 2019.









