quinta-feira, 22 de julho de 2021

Terceiro Pino: Cap III, pt 2

Terceiro Pino – Ninenine II: Jean Paul Jones 


No bar do Alex eu já percebia minhas faculdades mentais perfeitamente atrofiadas, levantei para ir ao banheiro e percebi que estava bêbado, me lembrei que não havia comido nada, mas já não interessava, pois ali nenhuma fome me visitaria mais. Fui admirar a podridão daquele banheiro sujo, inscrições de todo tipo, ofensas, palavrões, comentários desnecessariamente machistas. É incrível que homens adultos sejam capazes de tanta idiotice. É nojento ter apenas uma mínima ideia do que se passa nas nossas cabeças nestas horas de profundo escuro e vazio de alma. Me despedi do vaso e saí.

- E ai? Vamo lá em cima? Preciso ver se arranjo uma gata hoje. – Me diz ele.

- É, vamos nessa!

No caminho paramos para observar um batuque daqueles habituais do pelourinho, onde as gringas param para admirar a beleza nativa e ficam encantadas com o talento selvagem dos afros tambores ancestrais (até nos faz esquecer de que esse batuque militarizado é muito mais do colonizador do que africano, nos faz até esquecer dos milhares de instrumentos de corda e de sopro oriundos da África, enfim, nos faz esquecer de tudo). Ficamos ali, meu amigo cercando as gringas e eu tentando entender o que cabe a mim naquele furdunço todo. Nessa hora, um cara bem chato, destes poetas de rua meio malandro, aproximou-se de muleta e colou na gente, falou horas de besteiras que não prestei muita atenção. Acabamos indo os três para uma daquelas ruas encruzilhadas do Pêlo, ali onde tem um bar velhinho que fica socado de gente.

Lá nos encontramos de novo com aquela minha amiga. Ela nos convidou para dançar. Meu amigo não quis, é bem tímido ao que parece. Ela ficou desapontada, é claro. Eu aceitei o convite. Entrei lá e comecei a sambar loucamente, com uns passos esquisitos e uns giros malucos que só a contemporaneidade, a falta de noção, a desimportância favorita que guardo para a opinião dos outros e o néctar da embriaguês conseguem produzir. As pessoas olhavam, davam risadas, talvez até criticassem, mas por alguma razão, no fundo sabia que elas me invejavam. Talvez invejassem meu trabalho corporal, minha desenvoltura, talvez invejassem o balançar de minhas roupas coloridas, ou talvez apenas invejassem a minha coragem de estar ali, dançando para mim, sem nenhuma intenção de agradar ninguém além de mim mesmo.

Saí, meu amigo admirou:

- Porra, você dança mesmo heim?

- Não posso evitar, é que quando bebo, ao que parece me torno leonino demais. – Disse a ele. Neste momento percebi que ele estava com uma gata do lado, uma francesa majestosa, parecendo realmente que havia sido feita com as mãos por um artífice divino.

- Oui. – Ela me cumprimentou com um oi afrancesado que me permitiu logo saber sua nacionalidade.

Estendeu a mão e pude sentir a maciez sublime daquela mão sedosa e alva, quase de mentira. Dava para perceber logo que aquela mão jamais pegou numa atividade pesada, era a mão de alguém da elite francesa. Ela voltou a conversar euforicamente com o meu amigo. Enquanto isso eu continuei ali como se não estivesse, apenas admirando aquela beleza fenomenal. De repente aparece o marido dela com algumas cervejas na mão. Ele ofereceu a todos e ficou faltando a minha, obviamente não tinha contado comigo. Logo meu amigo se apressou a me apresentar.

- Gente esse aqui é o Dois Nomes, é um poeta daqui.

- Ah! Muito prazer. – Disse ele com seu sotaque.

Ele então me ofereceu um copo de sua própria cerveja e então eu resolvi voltar para dançar. Fui dançar com aquela minha amiga do início da noite. Conversei um pouco com ela e, depois de um tempo, acabei perguntando qual era o seu signo. E ai ela me disse.

- Ah... Adivinha! Aquele com S.

Hahaha! De imediato comecei pensar uma porção de coisas e continuei a conversa crente que se tratava de alguém de Escorpião. Não sei porque isso veio tão forte na minha cabeça louca. Escorpião só é com s em inglês. Hoje está muito mais claro para mim o quanto o álcool atrapalha em muito o meu raciocínio. Só depois de muitos minutos de conversa e de algumas gafes charlatanescas sobre o zodíaco é que vim me dar conta do meu imenso equívoco interpretativo. Somente quando ela de novo não parava de olhar pro meu amigo e perguntar coisas sobre ele. Enfim, ela não era mesmo para mim aquela noite. Eu definitivamente não tenho mais paciência para chavecações, portanto, encerrei aquela conversa mui amigavelmente.

Voltei para fora do bar, desta vez o gringo me comprou uma cerveja. Eles estavam agora acompanhados também de uma chilena, muito bonita também. Todos conversavam alegremente e sorriam muito. Descobri que haviam se conhecido dias antes. Todos eles tinham amanhecido o dia na Escadaria do Paço, lugar de bastante frequência do meu amigo. Nossa, bebemos muito neste lugar até que a francesa, saudosa dos acordes do meu amigo, o convenceu de irmos até a Escadaria para que ele tocasse pra ela.

- Vamo lá! Eu compro mais bebida pra gente. – Disse ela tentando convencê-lo a tocar, acontece que ele é meio tímido, não gosta de tocar pra muita gente. Só quando realmente vale a pena.

Chegamos ao Paço e tinha uma galera de hippies lá fazendo a maior algazarra. A maioria se conhecia e meu amigo conheceu muitos deles nas noites passadas.  A francesa logo mandou seu marido ir comprar bebidas. Ele veio com uns dez latões de Skin e umas quatro garrafas de São Jorge. Meu amigo pegou o violão e a gringa não parava de pedir uma música atrás da outra. Queria ouvir o repertório da música brasileira mais vendida entre o alto escalão internacional. Músicas de Tom Jobim que boa parte dos brasileiros não conhecem: Baden Powell, Vinícius de Moraes, Toquinho. Para mim, ficava claro que meu amigo enjoou logo daquelas músicas, toda hora ele trazia outra música pra quebrar o clima.

Nesse momento, um homem de meia idade vem subindo as escadas. Meu amigo para de tocar e grita entusiasmado:

- Grande Jean Paul Jones! Chegue mais meu velho.

Fiquei por um tempo fitando o cara que levava o apelido do mundialmente famoso baixista do Led Zeppelin. Jean Paul Jones se aproximou e cumprimentou todo mundo cortesmente. Ele tinha um falar muito gentil, um tanto rouco e pra dentro, muito parecido com o Mutley do desenho animando. Era alguém que demonstrava gentileza e boas intenções em todos seus movimentos. Sentou-se e ficou também curtindo a música e bebendo junto conosco.

Não tardou e escutei um cochicho entre meu amigo, ele e a chilena. Alguma coisa sobre cocaína. Levantaram e foram subindo as escadas. Eu, como um viciado compulsivo olhava aquela cena com um olhar de cachorro pidão. Meu amigo, em determinado momento da escada olhou para mim e fez um singelo sinal com a cabeça. Me aproximei, meu amigo disse a Jean Paul:

- Esse daí é brodão, já curti várias aventuras com esse cara, no Rio, em Góias também e no Rio Grande do Sul. Já cheiramos várias cocaínas junto.

- Pode crer! Amigo nosso então! – Disse Jean Paul com sua voz rouca e um singelo sorriso com suas rugas de canto de boca.

A gringa preparou os quatro raios. Jean Paul havia dado a ela um grande pino, deu pra fazer quatro carreiras bem servidas. Eu esperei que todos cheirassem. Ela foi a primeira, meu amigo depois, Jean Paul pediu para que eu fosse, eu insisti que era a vez dele. Então, eu cheirei... Nossa! A divina picada do diabo... A sensação pura da autodestruição tomava conta de mim... O pó é mesmo fantástico para quem se dá com ele... Manda a locomotiva vapor da mente vibrar aos mil orifícios que nos embalam ao Hades... Rimos, ficamos criativos, falantes, e a noite vibra solta como uma criança solta num parque de dimensões de desenho animado... Quando vimos já estávamos cantando sucessos antigos do axé...

Mas o que mais me intrigava era a figura alegre e animada do Jean Paul... Sempre com um singelo sorriso enrugado... Contente, conversador... Contando casos... Cantando as músicas... Bebendo mais... Animando a galera... Correndo na carruagem da noite como se tentasse retrocedê-la a fim de que a manhã nunca chegasse...

A francesa se divertia, o marido dela não percebia os olhares de desejo secretos que ela lançava ao rapaz alto de dreads que tocava o violão... Também, ela permaneceu toda a noite bebendo pouco, fumando muitos Marlboro Vermelhos e mantendo sua discrição impecável... Ela jamais passaria daquilo, singelos olhares de admiração por aquele ariano bonito... O gringo, seu marido, também era um amor de pessoa, tratava todos bem, mas não falava nada, aparentemente não entendia as músicas também... Apenas ficava lá se balançando e bebendo... Conversei um pouco com ele em inglês, eles vinham de Lyon e estavam casados há dois meses e resolveram vir conhecer o Brasil.

Não demorou muito até que fossemos novamente ao topo da escadaria esvaziar o primeiro pino. Desta vez o meu amigo preparou... pediu meus cartões emprestado. Jean Paul Jones realmente parecia muito feliz de estar ali conosco, como se fossemos todos velhos amigos, eu olhava intrigado bem fundo no semblante dele e percebia uma solidão amuada... Daquelas que se apegam tão fundo na gente que é quase impossível se imaginar sem ela... E eu me perguntava, quem é esse cara? Qual é o seu verdadeiro nome? Por que ele mexe tanto comigo? Nossa, ele me lembra tanto alguém que eu conheço, mas não consigo de forma alguma me lembrar quem...

Bem, eu, como sempre prefiro ser o último, com certeza para poder passar o cigarro no que sobrar na superfície do cartão... Acho que andei vendo filmes demais... Me lembra um pouco a primeira temporada de Californication também... Às vezes é isso... Sinto que se a vida não serve para nada, talvez possamos pelo menos nos inspirar em outros solitários fictícios que também desperdiçam suas vidas tentando fazer alguma coisa... Nem que seja ficar doidão e tentar aproveitar a juventude, como quer fazer o meu amigo... Acho que cheirei cocaína a primeira vez porque achava isso glamuroso, charmoso. Queria saber a sensação que dava... Como o cigarro também... Fumei apenas porque achava lindo ver o Solid Snake fumando... Queria ser como ele... Hoje, depois de ter zerado o Metal Gear Solid 4, percebo que talvez eu não queira me tornar um velho calado e solitário depois de ter sofrido tanto como ele... e pior ainda, fumando dois maços de cigarro por dia. Não! Definitivamente não quero isso para mim.

Voltamos ao meio da algazarra, os hippies já estavam aloprados ao máximo. Em um dado momento alguém começou a dedilhar Bohemian Rhapsody, eu eu, como sempre, no auge de minha loucura não me contive, e cantei, e gritei, como se cada verso expulsasse de mim um demônio diferente. Dancei como um louco, girando entre os combustores da escadaria numa eterna coreografia ensaiada para a minha entrada triunfal nos portões do inferno. Neste momento passou um velho de silhueta ranzinza, passou quieto e nada disse, porém meu amigo que tocava, se encucou por causa de que havia tomado regulagem por ter tocado até de manhã na terça passada.

Neste momento, Jean Paul mandou um garoto ir ao esconderijo compra mais da ninenine. Um dos hippies era amigo da chilena, creio que era chileno também. O cara começou a gastar horrores, ele estava tomando bombinha desde cedo. Ele começou a tocar várias músicas e gritar bem auto. Comecei a perturbá-lo um pouco, achei divertido fazê-lo, porém quando o chamei de Manu Chiao ele não gostou nem um pouco.

- Manu Ciao? Porra veio! – Disse ele.

Ali parei de gastar com ele. Não queria arrumar briga uma hora daquelas, ainda mais estando cheirado. Nesse momento o moleque voltou com a outra capsula. Subimos novamente a escada. Mais uma vez, Jean Paul Jones patrocinava a alegria da galera, ele realmente tinha prazer em fazer isso. Embora eu me mantenha sempre desconfiado quando alguém banca drogas, eu observava com bastante atenção as expressões de Jean Paul e não notava nele nenhuma malícia em relação a nós. Ele realmente emanava uma aura pura de bondade, eu olhava e via alguém em busca de redenção, sei lá... Me lembrava tanto alguém que eu conhecia e esta lembrança começava a me incomodar...

A madrugada já ia se acentuando, a gringa continuava pedindo música atrás de música: Chega de Saudade, Tristeza e Solidão, O Canto de Yemanjá... Já estava me cansando de tanta lamúria... Perguntei então a ele se ele sabia tocar Refazenda... Ele disse que sim... Em meio àquela gringaiada toda ninguém acompanhou a música... Ficamos só eu e ele cantando baixinho enquanto todos faziam barulho e prestavam atenção em outras coisas. Neste momento eu pensava em você com todo o meu coração... Me lembrei que há poucos dias você postara uma fotografia do meu livro ao lado de um abacate miúdo, que aberto formava a imagem de um coração. Até hoje não sei o que significava aquela foto em concomitância com a frase da canção... Mas isso parece que é outro dos segredos perpétuos de tua provocante sedução... Ao fim da música me dou conta que será mesmo impossível esquecer você... Minha amiga mais especial...

Lá para as duas da madrugada cheiramos a quarta carreirinha. A minha mente funcionava alucinadamente rápida. Já tinha bebido além do meu limite talvez, mas eu queria mais, muito mais... Queria mais uma vez desafiar os limites deste corpo mortal. Queria ver se aquele entorpecente seria capaz de me carregar para as estrelas... Um doce envenenamento que minha ilusão me proporcionava. Os franceses infelizmente tiveram que se despedir. Porém o marido dela foi até Alex e comprou mais cinco latões de Skin e nos deu. Os hippies já estavam todos muito loucos, já havíamos fumado tantos baseados que eu já tinha perdido a conta. O cara que estava tomando bombinha já estava vomitando também. Tinha perdido o dom da fala, bem, pelo menos a parte inteligível desta. A francesa então se despediu cantando e subiu a Ladeira do Carmo e nunca mais foi vista.

Vendo a animação do renovar de suprimentos, Jean Paul Jones resolveu ir pegar mais uma cápsula. Era por volta das duas e quarenta quando cheiramos a quinta carreirinha daquele pó, talvez o melhor que cheirei no Pelourinho. Já estávamos todos muito loucos, mas Jean Paul não perdia aquele nobre semblante que procurava a todo custo estar perto de pessoas. Ele então começou a repetir coisas que me delineavam a silhueta de sua imensa solidão. Falou alguma coisa sobre o lugar onde ele está dormindo e sobre ele não ter preocupações para amanhã, só o que importa é o agora. E este agora precisava parecer infinito o máximo possível.

A essa altura já havia conversado bastante com a chilena. Comecei então a recitar um poema do Neruda, o problema que o poema era imenso e acho que sua atenção dispersou em algum momento do poema. Então passei a aumentar o volume e, como o de costume acabei gritando pra caralho. Meu amigo quase teve um surto.

-Oh vey! Não grita, não! O coroa vai se retar porra e esse coroa é brabo!

Eu não havia percebido que o velho havia passado novamente rumo a casa dele, que era do lado. E certamente não só ele, mais toda a vizinhança, se sentiria furiosa se tivesse uma trupe bêbada e drogada fazendo farra sob suas sacadas às três horas da manhã. Pouco tempo depois meu amigo largou definitivamente o violão, não sei se porque se cansou de tocar ou se porque sua musa principal tinha ido embora, talvez um pouco dos dois. Ele passou o violão para a chilena, que começou a tocar divinamente.

Saí para urinar e quando voltei eles estavam preparando a última carreira Só fizeram três, o que significava que eu ia ficar de fora desta vez. Porém Jean Paul resolveu dividir a dele comigo, algo que talvez eu nunca tenha visto numa roda de cheiradores de pó. Nós cheiramos então... devemos ter curtido também a última cerveja, foi o tempo da minha solidão apertar tanto que tentei queixar a chilena... Em vão por fim... Ela não tinha interesse... Nesse momento o amigo dela ficou realmente muito mal e saiu como um louco descendo rumo à Ladeira do Taboão. Fomos atrás dele para evitar que algum mal acontecesse. O encontramos largado no chão, vomitando e se deitando por cima do próprio vômito. Uma cena deplorável para um ser humano, uma cena que eu já estava tão acostumado em fazer parte que já não me comovia mais...

Ela então decidiu leva-lo para casa, a noite havia acabado para ela, e ao que tudo indicava para nós também. Meu amigo resolveu que era hora de partir, pois com ela ia talvez a sua chance de acabar na cama com uma gata. Não sei, naquele momento me pareceu que podia ter rolado um clima entre os dois e eu não havia me dado conta. De qualquer forma, achei também que já era hora de partir. Jean Paul Jones insistiu para que ela não fosse embora, mesmo assim ela foi, mas quando meu amigo me perguntou se íamos nos sair, Jean Paul Jones deu uma singela coçada na barba e disse:

- Poxa, vamos ficar mais um pouco caras! Ainda tá cedo! E eu não vou conseguir dormir agora mesmo. Não tenho nada para fazer até de manhã, podemos comprar outra daquela e ficar de boa por aí.

- Não, Jean Paul. Acho que já deu cara, eu to cansado já. – Disse meu amigo.

Eu estava indeciso, uma parte de mim queria cheirar mais, comecei a ficar com pena de Jean Paul. Fomos subindo o Largo do Pelourinho. Jean Paul se ofereceu então para ir conosco até o Terreiro de Jesus. Veio conversando o caminho todo enquanto eu e meu amigo permanecíamos em quase silêncio absoluto. Estávamos mesmo cansados. A encruzilhada do Benín estava como sempre, abarrotada de moradores de rua, signo máximo de nossa derrota civilizatória, onde a desigualdade e o descaso gritam mais profundamente o seu silencioso brado... Ninguém está nas ruas a este horário para ver os horrores pelos quais somos ainda responsáveis... Onde a Colonização nos fez pagar um alto preço. Onde a miséria, o abandono e a morte certa nos faz querer drogar-se ainda mais.

Jean Paul não parava de falar numa voz melancólica de despedida. Não sei, já faz muito tempo que isso aconteceu, não consigo mais me lembrar do que ele disse exatamente, porém, sei que aquilo me marcou profundamente porque as imagens se gravaram muito fortemente em minha cabeça. Ali, naquele momento eu finalmente pude saber quem ele me lembrava. Ele me lembrava a mim... Era a imagem escarrada da solidão envelhecida que eu trazia aqui por dentro... Era a imagem do medo que eu carrego de terminar minha vida como ele... Ou de pelo menos atingir a meia idade com o coração carcomido de tanto vazio... Terminando minhas noites sem ninguém, sem nenhum abraço ou consolo... Nada! Apenas um corpo entorpecido agonizando por qualquer companhia que fosse... Afinal, porque eu ainda estava ali naquele horário? Correndo riscos, tentando fugir da minha dor, tentando esquecer alguém que não vai se apagar da minha cabeça só porque bebi demais, ou me droguei demais... Não... Eu não posso continuar assim...

Quando chegamos perto do Terreiro, aquele outro poeta doido de muletas apareceu. Não sei da onde veio, sei apenas que encontrou conosco e assim Jean Paul Jones e ele se uniram para continuar a noite. Ao despedir-nos, olhei bem profundamente nos olhos de Jean Paul Jones uma última vez, dei-lhe um abraço apertado e disse:

- Obrigado por tudo, cara! Você é realmente um sujeito bastante especial. Sua aura é muito bonita, de verdade.

Seguimos para casa. A rua vazia, só a miséria e a malandragem a habitam a essa hora da noite. Mas nós não temíamos isso... Éramos parte, causa e efeito disso tudo... Éramos tão miseráveis como aquela noite... Não havia mais espaço para temermos a morte... O que poderia ser pior do que desejar uma vida inteira assim? Pelo menos isso era o que passava pela minha cabeça autodestrutiva. Não sei, acho que meu amigo pensava diferente, mas preferi ficar em silêncio o caminho quase todo. Ao passarmos na Carlos Gomes sempre preferimos quebrar na ladeira que dá pra Rua do Sodré. Passamos pelo Museu de Arte Sacra e quebramos na rua da Casa Preta. Ali, precisamente ali um vagabundo apareceu. Vinha marrento olhando pra gente, como numa cena de Velho Oeste, nossos olhos se apertaram e ele nos parou:

- Colé playboizada, vai representar a família ou não?

- Rapaz, a gente ta vindo de pé, de boa, você acha que a gente tem alguma coisa pra você? – Disse o meu amigo, eu permaneci calado observando e imaginando possibilidades de ação, mas de alguma forma, eu sabia que aquele cara estava armado. Talvez pelo olhar, não sei direito, a postura, o horário de ele estar na rua com aquela marra toda, não é para qualquer vagabundo... E de alguma forma, já tinha vivido muito tempo na rua pra saber disso.

- E se eu meter a mão? – Disse ele.

- Eu lhe dou uma broca! – Disse meu amigo.

Momento de tensão, o cara levou a mão à cintura, e os dois ficaram se olhando um tempo, alguns segundos que pareceram muito mais tempo. E então o meu amigo disse:

- Rapaz, você não vai me deixar ir pra casa hoje não é?

O cara parou, pensou um pouco, descansou a mão e disse:

- Nenhuma, vá lá rasta!

Nós enfim seguimos em silêncio absoluto. O resto do caminho só serviu para eu observar pela milésima vez na minha vida! Como aquela vida era sinistra... Quantos riscos eu corria por quase nada... Apenas para ser mais um registrador deste mundo que ninguém quer realmente ver ou saber como é... Um mundo de homens com tão pouco a perder que já não dão mais nenhum valor à vida...

Ao chegarmos no Campo Grande, meu amigo e eu nos despedimos. Ele seguiu para o Corredor da Vitória. Eu ainda enfrentaria uma longa jornada até a Federação... De longe eu ainda olhei pra ele. Esguio, altivo, parecia um gigante caminhando tranquilo entre um Jardim das Hespérides noturno, rumo à árvore dos frutos dourados do amanhã... Para tentar de novo, tentar novamente galgar algumas mordidas na carne da maçã proibida da felicidade...

Quanto a mim... Me esqueci de mim durante o resto do caminho... Não havia nenhuma escuridão que me apavorasse mais do que aquela que há tantos anos já trazia comigo... Se eu desisti? Não! De certa forma ardia em meu peito uma esperançazinha vã... Um certo grito... Um amor guardado para alguém... Uma coisa que crescia e era mais forte do que aquela escuridão maldita... Alguma força motriz que gritava e dizia para mim...

Já não quero ser assim...

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Os Três Pinos: Cap III, pt 1

 

Terceiro Pino – NineNine I : Caprinos e Ovinos

 

Me despedi de todas aquelas pessoas queridas e saí daquele singelo templo perdido entre as ruas do Pelourinho. Ao sair, me deparei com um concerto de violeiros ao pé do Cruzeiro de São Francisco. Encontrei um amigo que não via há algum tempo. Um ariano de carteira assinada, com certeza, do tipo que vive todos os momentos da vida queimando ao máximo a chama que arde ainda em sua juventude alucinada. 

- E ai Dois Nomes, tudo beleza? – Me cumprimenta ele.

- To ai vivendo. O Pelourinho está meio sombrio hoje, não? Vazio, estou aqui decidindo se vou para casa ou não. Você tem um trevo ai?

Eu sabia que ele sempre tinha trevo e, toda vez que me retiro daquele lugar tão calmo, me sinto tão sufocado em minha própria sujeira espiritual que ela novamente me toca para as ruas maculadas por todo o ódio colonial que abateu a história deste país em desgraça, vício, qualquer tipo de fuga que permitisse ao seu povo oprimido encontrar outros motivos para continuar vivendo... Nem que fosse apenas mais uma festa, mais um sorriso de uma preta... Mais um porre para acalentar esse vazio imenso que trazemos na alma.

Ficamos ali um tempo ouvindo as violas e o pandeiro. Logo percebi uma preta dançando, ela carregava um sorriso conhecido. Cheguei até ela e cumprimentei-a, não vale a pena rememorar o que conversamos, não foi nada demais, até porque ela desde pronto botou os olhos no meu amigo e, para variar, eu era apenas mais um esquecido caindo no colo da noite. Conversamos os três, enquanto os amigos dela estavam sentados. Mas ela queria dançar, e eu ainda não tinha bebido nada, nenhum combustível forte o suficiente para me transportar de volta para minha terra onde tudo posso, onde sou o rei louco que nada teme. Ali, naquele Pelourinho sombrio eu era apenas mais um errante viciado em emoções fortes e drogas baratas da pior espécie.

Nos despedimos da moça e de seus amigos, provavelmente nos encontraríamos de novo logo, o Pelourinho acaba por ser um lugar pequeno, habitado por milhares de fantasmas de todas as espécies. Descemos o Largo onde os escravos eram castigados, como bem relembra aquela música do Cae... Subimos a Ladeira do Carmo e rumamos para a Escadaria do Paço. Lá encontramos uma trupe de artistas mambembes, viajantes de diversos lugares. Conversamos um pouco, mas nenhuma droga foi oferecida. Estávamos ávidos pela busca de algo quando resolvemos subir a escada e ir no Buk Porão Bar. Ao subirmos, notei singelamente meu amigo se abaixar e retirar do chão alguma coisa que sabia no ato que era preciosa para dois errantes notívagos como nós. Ele encontrará um tíquete da felicidade:

- Você viu isso cara? – Perguntou-me

- Sim! Quanto era?

- Dez reais. Vamos na tia.

- Mas é claro.

Rumamos em silêncio por algum tempo quando ele retomou a fala de maneira um tanto pesarosa.

- Poxa, eu acho que essa grana era daquele cara que saiu do bar logo quando eu achei a grana. Estou com um pouco de remorso. Eu vi que ele saiu olhando pro chão, deve ter tirado alguma coisa do bolso e a grana caiu. Deve ter tentado pagar a entrada e percebeu que tava sem a grana e voltou pra procurar, sei lá.

De fato um sujeito saiu mesmo do bar na hora em que ele pegou a grana. O cara meio que viu ele se levantando com algo na mão e notei um certo olhar inquiridor e meio desapontado. Talvez tenha tido até a vontade de dizer alguma coisa do tipo, hey cara, esse dinheiro é meu. No entanto não disse nada, talvez tenha pensado que vacilou, ou talvez ainda tenha trepidado frente à dúvida de ser mesmo o dinheiro dele o que meu amigo tinha na mão. Na pior das hipóteses teria evitado o mal estar de uma confusão. Bom, eu não duvido nenhum pouco de que, se tivesse pedido na moral, meu amigo não teria hesitado em devolvê-lo. De qualquer forma, logo o ariano chegaria à conclusão mais consoladora para aquele momento:

- É, mas agora já era também neh? Já foi. Poderia ter perguntado se era dele, talvez fosse a última grana e tals, não queria ser responsável pela bad de ninguém. Mas essa grana também era o que a gente tava precisando, então, vamos usar isso de maneira que valha a pena. Vou comprar uma dolinha de cinco e podemos comprar um São Jorge de três e ainda sobra dois reais. – Refletiu.

- É! Acho que achamos a grana por algum motivo, não acho que nada aconteça a toa. Talvez o cara tenha perdido a grana porque tinha que perder, e nós achamos porque tínhamos que achar. Todas as experiências são válidas para vida. Ganhar e perder são duas faces da mesma moeda. E eu ainda tenho umas moedas aqui, somando tudo devem dar uns três reais. – Foi o que eu disse a ele.

Então fomos até o ponto de venda do narcótico que precisávamos para acalentar aquela noite. O lugar é simples, uma casa grande, pra muita gente, de aparência normal. Quem comanda tudo é uma matriarca, velhinha, de cabelos brancos, com vários dentes faltando. Ela demonstra um olhar frio e sério, de quem já sofreu um monte na vida, mas faz o que precisa fazer para manter o que tem e permanecer neste mundo, aprendendo, ensinando, vivendo. Ela nos vende uma prensada,ou “emprensada” como alguns costumam chamar. É uma maconha quase de mentira, dessas que socam todo tipo de coisa para conservar; ácido de bateria, amônia, gasolina, às vezes vai até um pipizinho pra dar um sabor. Um lixo de péssima qualidade que o nosso tempo fabricou para que nós acreditássemos que era necessário para a nossa felicidade. Algo que o mar de confusão e desespero no qual fomos jogados nos faz acreditar facilmente de que esta necessidade é real...

Voltamos para a escadaria, mas antes disso resolvemos passar no Alex e comprar aquele saboroso coquetel de merda que só serve para entorpecer o que já há de pior no raciocínio dos homens. Assim não temos tempo para pensar no real potencial do espírito humano, não sobra força o suficiente para que sequer acreditemos na existência da alma, e então nos perdemos, jogados ser corda no posso vazio do esquecimento de quem realmente somos. Luz e Estrelas dispersas na noite sombria da carne e no frio dos ossos... Nada mais do que corpos vagando em busca de anestésicos pros nervos... Sem esperança de poder ainda em vida encontrar o caminho de volta para a casa eterna da felicidade... Lá onde habita o Verdadeiro Eu... O Eu Superior... Aquele e Aquela que não tem nomes, porque simplesmente É Tudo o que Existe, Existiu e Sempre Existirá... Assim fechamos os olhos ainda mais, perdemos a conexão e nos perdemos nos ópios ébrios de uma cidade repleta de corações despedaçados...

Conversamos um pouco sobre coisas da vida, sobre nossa idade, sobre objetivos, felicidade, até chegarmos por fim em amores. Eu tinha então vinte e sete anos, meu amigo tinha trinta e dois. Falei a ele de minha constante vontade de abandonar aquele estilo de vida, meus excessos com as drogas, a busca constante por uma costela. Ele discordava, pensava mesmo que um homem tinha que aproveitar sua juventude, para ele não havia nada mais gostoso do que estar com uma gata nova sempre que podia. Por esta razão ele sempre ia ao Pelourinho, ia à caça, e como era rasta, para ele não era difícil chamar atenção de uma gringa. Eu disse então que estava à procura de me aquietar, encontrar alguém que me fizesse parar de rastejar sob as sombras da noite e pudesse começar a ficar em casa, em paz com minhas razões para escrever.

Ele me disse que foi muito apaixonado uma vez, por uma capricorniana, ele não sabia meu signo e por isso começou a falar os males de Capricórnio. Percebi logo que ele, como a maioria das pessoas, não sabia muita coisa sobre esse povo. Disse muitas coisas que superficialmente é verdade, porém concentrou-se na parte de que ela gostava de dinheiro, que queria alguém que lhe proporcionasse essa segurança. Enfim, não sei nada dela, não há conheço, mas não acredito que os capricornianos achem sua segurança real na grana. Acho realmente que ela o deixou por outras razões.

- Pois eh, ela foi embora e nunca mais me deu um oi. Sumiu! Desapareceu! Vi uma vez na rua, mas eu não era ninguém para ela. – Ele me confessou!

E nesse momento eu pensei em todas as pessoas que eu deixei. Acredito que sempre as vejo na rua através de minha visão mais periférica. Quase sempre as vejo, ou as procuro no facebook, as namoro em segredo. Mas por alguma razão acabo sempre guardando o melhor dentro de mim, porque o pior delas ainda me maltrata muito e já não tenho razões para cavucar as minhas dores, elas, ao que parece, gostam de se coçar sozinhas, sem o menor dos meus comandos. Acho mesmo que ela se decepcionou com ele de alguma forma muito além do material. Mas isso é algo que ele nunca saberá. O povo do Bode Expiatório que foi enviado sozinho para o deserto é um povo muito sentimental e ressentido no fundo. Acho que na verdade temos medo de continuar sofrendo por alguém que não merece, tal como o povo de Israel, Isaac e Jacó, é verdade, está na Bíblia, pode olhar, hahaha. Eles Tiveram todos os seus pecados perdoados depois de mandarem o seu Bode para morrer e mesmo assim ainda continuam destruindo, enganando e matando em nome do seu Deus.  

Sei que nada disso parece fazer nenhum sentido mesmo... Hahahahaha!... Mas se escrevo em enigmas... é certamente porque tenho medo do infinito... E o infinito, minha cara... É tudo o que é de mais sagrado que consigo ver quando olho o fundo dos teus olhos castanhos... Vejo um mundo nobre e altivo, tão lindo que me enche de um terror maravilhoso... Não sei mesmo o que fazer diante de tanta imensidão...

- Eu também sou de Capricórnio. – Disse pra ele por fim.

- Ah! Poxa, você é de Capricórnio, poderia me falar algumas coisas disso. – E ficamos algum tempo lá, falando sobre signos essas coisas. Infelizmente não sabia muita coisa sobre mim mesmo.

Estávamos chapados, resolvemos descer a escada e tomar um litrão de Cristal no bar do Alex... Já não me lembro de todas as coisas que conversamos, lembro-me apenas de ter ficado observando a rua, os bêbados. Havia gente lá que estava naquela penumbra há anos. Vi um coroa de cabelos e barbas longas, desgrenhadas, brancas, maltratadas pelo tempo. Ele tinha um olhar sério e um semblante esvaziando junto com o copo. Amarguras, talvez? Ou indiferença frente à opressão imposta pela vida? Não sei, para mim me parece que é impossível haver genuína indiferença com ajuda da cachaça. Para mim, não há plenitude se ainda existe o desejo de se entorpecer... Para mim ainda são apenas personagens sendo representados neste teatro de mentira... Só não sabemos como escapar disso tudo.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Os Três Pinos: Cap II, pt 2

 

Segundo Pino - Raio II: Os Olhos do Macaco Ancestral



Subimos até a loja onde a apresentação acontecerá... Já podemos observar algumas pessoas festejando... Uma pequena roda de capoeira exibe a vontade e a alegria daquelas pessoas em fantasiar a suprema beleza do mundo... As crianças sorriem e por um momento eu finjo me esquecer de todo o tormento que passo por me sentir tão solitário no universo... De ser uma criança sempre em busca da sensação de completude e que sempre voltou em vão a si mesmo para chorar o mar de incompreensão que todos percebem em minhas palavras confusas... Tal como estas que proferi agora... Tal como toda sensação que tento partilhar ao mundo... Ninguém soube, sabe, ou saberá a sensação que tive ao ver aquelas crianças brincando... Quis poder me transformar no mais sublime e pomposo macaco, para que pudesse dar a elas uma tarde inesquecível e que pudesse somar-se a todas as tardes que passei em vão procurando algum propósito por insistir em continuar vivendo...

Felipe ainda não havia chegado... Cumprimentei outras pessoas que me eram familiares... Pessoas que também compunham aquele teatro, mas nunca brinquei com eles porque sou de visitações mais antigas... Alguém que se afastou desta função porque não é nada agradável, ou melhor, não é suportável brincar com as crianças ao passo que destruo todas as noites o meu corpo e meu espírito com todos os meus excessos... A verdade é que sou uma pessoa atormentada, que às vezes, somente às vezes consegue se equilibrar o suficiente e se manter limpo por alguns dias... A menina me sorri... Ela é linda... Não vou dizer o nome dela... Só posso dizer que é atriz... Vegetariana... E que tenho boas lembranças dela de vários lugares... Embora tenha a grave impressão de que ela não se lembra direito dos acontecimentos... hahahhaha! Sigamos...

Então Felipe chega... Temos que buscar os bois no estacionamento... O problema é que não podemos chamar atenção dentro de um Shopping tão sofisticado... Não podemos transitar todos juntos com bois tão amáveis e coloridos... Enfim... Nos dividimos... Dois para cada elevador... E as pessoas nos encaram como figuras alienígenas ali... Enfim... Conseguiram um camarim para nós... Os fundos da loja... Mas não podemos trocar de roupa ali... Ao que parece, os humanos não conseguem mais recuperar a naturalidade de ver o corpo do outro sem temê-lo ou desejá-lo... E é pra isso que existem os provadores... Para que ninguém veja as vergonhas de ninguém... Haha!... Ahh! Como eu queria que minhas vergonhas ficassem assim todas expostas como minha careca ou como uma cicatriz mal curada de uma queimadura... Mas minhas vergonhas são outras marcas que só eu vejo... Que não tenho ninguém com quem dividir... Que não posso falar... As coisas que me assustam... Que me fazer querer ainda, depois de tanto tempo... Acabar com esta minha existência impúbere que me impede de viver livremente no tempo presente... Eu visto a pele do macaco por cima da minha roupa... Não tirei minhas vergonhas... Permaneço com elas o tempo todo na esperança que exista por ai algum elixir que pudesse purgá-las...

Enquanto todos estão nos provadores, se vestindo, se maquiando, passando argila nas caras... Eu me sento, só, no camarim improvisado... Visto finalmente a máscara pesada... A outra, que eu usava antigamente, era mais leve, mais ágil, feita de pano e de borracha, era perfeita para meus saltos e giros e piruetas de peralta crescido... Esta não, era grande, dura, difícil de respirar, difícil de enxergar e muito... muito mais quente do que a outra... Mas era o meu fardo... Minha parcela de sacrifício do dia para o raiar do mundo melhor que tanto sonho...

Me sentei lá... Ereto... E meditei por alguns minutos...

Até que alguém entrou na sala e disse alguma coisa sobre minha postura fixa, ereta e concentrada... “Ta entrando no personagem”... Coisas assim... Enfim... São frases tão comuns que às vezes eu não as ouço direito... Logo todos começam a se aquecer (quase todos utilizando a capoeira angola para tal)... Eu faço também, meio sem gosto, sem vontade... Sou claramente um macaco trágico... Brinco, perturbo, mas me canso sempre e me sento e faço o que quero... Como um bom macaco peralta que não vê muito sentido na lógica insincera dos humanos...

Finalmente fomos pra a frente da loja fazer o show... No começo as pessoas ficaram acanhadas, olhando de longe... O boiadeiro canta... Ehhh boiada! Ehh boi! O Macaco investiga o espaço, observa as peças que estão à venda... Para do lado de uma moça que via uma caricatura do Gilberto Gil... Ahhh! Gilberto Gil... Se tu soubesse o que se esconde por dentro do coração deste macaco!!! Se tu pudesses dizer a ela tudo o que eu sinto quando ouço as tuas músicas... Mas eu não posso dizer... O Macaco Ancestral é uma figura muda... Ele brinca sem o direito de proferir a verdade do que sente... Pois a verdade causa dano demasiado... E isso Ele deixa a cargo dos humanos...

As crianças logo chegam e interagem com o Macaco... Algumas têm medo... Outras querem tocar na máscara... O macaco finge que espirra toda vez que tocam na sua cara... Não preciso dizer que teve uma menininha que adorou esta façanha de fazê-lo espirar... hahaha! Outra até arrancou os dentes do macaco... Outra criança adorava lhe bater na cabeça... Mas o Macaco é paciente... Sabe que algumas coisas só precisam de tempo... Que uma hora os tapas não doerão mais... Nunca mais... Sua alma já calejou da violência e agora espera calmo a hora do amor... Se não vier... Não faz mal... Ele já apanhou tanto que prefere esperar assim mesmo...

Às vezes Ele se divertia... Brincava, dançava... Convencia a todos de sua alegria... Pois lá também havia uma Burrinha... A linda atriz que já conhecia se metamorfoseara e de vez em quando vinha pedir a companhia daquele macaco louco para uma dança... O macaco adorava sua companhia... A maneira como ela bailava e rodopiava sorrindo... Uma certa vez o Macaco enlouqueceu e saiu rodopiando... Uma criança tropeçou no rabo do Macaco e caiu... A Burrinha então lhe disse!

- Tuidado! Macaco! Tuidado! Dança com tuidado, viu!

O Macaco envergonhou-se... Só queria ser livre como o vento... Mas esqueceu-se de que o vento também traz ruína... Sobretudo para o próprio vento, pois depois que se arrasta tudo... Não sobra nada para sentir o perfume... Nenhuma fragrância... Só poeira e entulho... E pedra sobre pedregulho... Metáforas inconstantes de uma solidão inacabável...

Como inacabável também parecia aquele negócio... Foi difícil ficar atrás daquela máscara por tanto tempo... Neste dia mais do que nunca... Por dentro da boca se podia ver os olhos tristes que habitavam aquele macaco... Às vezes estes olhos paravam em frente ao espelho e davam uma boa fitada no universo por dentro daquelas retinas cansadas... É muito difícil manter esse esforço de ser feliz... A felicidade cobra um preço muito alto para quem não tem par nisto tudo neste mundo... Ninguém! Nem uma única pessoa viva parece entender a grandiosidade das loucuras que sinto... Das idéias que tenho... Ou de como o amor, este sentimento tão negligenciado por todos, invade o meu coração e me arrebenta sempre com motivos de impossibilidades... E é este impossível que me desafia a continuar acreditando que algo deve ser feito... Mas o que? Pelo amor de qualquer deus ou demônio jamais inventado... O Que Posso Eu Fazer Diante Disso Tudo?

Nada! Eu nada posso! Nada sou! E nada significo para ninguém que tenha experimentado este meu amor incompreensível...

Se fosse o meu ódio... Se fosse o meu desprezo... Ou se fosse minha maldade...

Ah! Ai sim eu sei que teria algum efeito... Já senti o efeito disso tudo... As pessoas não esquecem... As pessoas nunca deixam de denunciar os seus sintomas quando passam por mim... Ainda está presente nos olhos... Elas ainda cheiram aos sentimentos pérfidos que derramei sobre elas durante minhas outras vidas... Mas é só... É só o que se pode ficar de mim atados nas almas daquelas que de fato amei...

Torno agora e engulo estes olhos pela boca do macaco... o show acabou... A senhora da loja pede para tirar uma foto com... Quem é esse mesmo?

- É o Macaco Ancestral! - Responde um amigo.

- Ah! Que jóia! Vem família toda! Vem tirar foto com o Macaco Ancestral...

A foto deve ter saído bonita... Pois eu fechei aquela boca de onde só saia tristeza... Ninguém pôde ver os olhos onde brilhavam aquela dor de uma solidão tão antiga quanto o Tempo...

domingo, 23 de agosto de 2020

Os Três Pinos: Cap II, pt 1


Segundo Pino – Raio Um: A Dança da Solidão


Bati com força a aldrava da Porta Verde... Uma linda moça de turbante apareceu... Seu nome é Kinda, uma jovem realmente muito bonita... Ela me deixou entrar... Me desfiz de minhas sandálias sujas e entrei limpando cuidadosamente meus pés nos tapetes ao longo das escadas... Era um ambiente muito hermético, limpo, seguro dos ácidos tão abundantes do mundo lá de fora... Ali tudo respira paz... É tudo muito colorido e quieto...

Só que dá pra ouvir ainda a turbulência do dia lá de fora... Os batuques do Pelô... O tiozinho que toca violão na porta do restaurante ao lado... E que canta dezenas de músicas que me transportam imediatamente até Você... E é por isso que aqui eu me sinto triste... Me sinto triste porque pareço ter perdido todas as oportunidades de ser seu como eu gostaria... De te apresentar estas canções, ou novos lugares como este, ou te mostrar todos os poemas inacabados, acabados ou os infinitos outros que ainda tenho por fazer... Fico triste porque me obrigo a estar aqui para ver se me sinto um pouco melhor... Mas não me sinto... Eu me sento no chão e escondo do mundo a minha imensa vontade de chorar...

Somado a isso tudo tem a fome... Fiquei sentado um tempo e depois deitei no chão e fiquei lá... Parado... Sem me mexer por quase meia hora... Viajei pra longe, consegui descansar um pouco desta minha realidade carregada de solidão e de tormento... Sou desperto então pela voz de Kinda me chamando para comer... Quando abro os olhos, percebo uma música que não conhecia, mas traduzia exatamente tudo o que eu estava sentindo... Eu pergunto a ela:

- Você conhece essa música?

- Sim! – Responde ela, - Acho que é Românticos, de Vander Lee...

- Ah! Acho melhor eu anotar. – E tomando do meu caderninho, somei aquela canção à imensa lista de coisas que me trazem Você à memória...

A comida é posta na mesa... Linda... Sem carne... Tudo é orgânico... Nada é programado para nos destruir... O gosto, a textura, tudo vem até a boca na intenção de fortalecer e recuperar a anima de quem está doente da vida... “Que o teu remédio seja a tua comida, que a tua comida seja o teu remédio...”... E de fato posso dizer que me senti um pouco melhor depois daquilo...

À mesa, o garoto das Laranjeiras pergunta a Felipe se aquela garota do outro dia (não adianta perguntar, eu também não vi) era a mãe da filha dele... Ele disse que não... Hahahaha! O que vocês não sabem é que... A paixão da vida de Felipe também se chama Fullana (não Fullana de Tal, apenas Fullana...), com dois ll’s e tudo, igualzinho  ao Seu... Fico pensando em coisas absurdas, imagens que minha cabeça me obriga a ver... Penso no nosso antigo pacto de um dia termos um filho... Só que depois de todas as loucuras que eu cometo em nome do Amor... Será que merecerei essa honra... Eu lanço meus olhares pra Felipe e penso o quanto ele sofre por não estar com ela... Às vezes eu penso notar seus ares de tristeza profunda... Que ele esconde por traz do seu lindo sorriso de Serpente de Terra (sim ele é meu irmão astral segundo os chineses)... Mas por fim eu penso que pelo menos ele deve ser feliz por partilhar da companhia de outro universo nascido da união com a sua pessoa amada...

E eu? O que tenho além de naufrágios e incertezas?

Esperanças??? Só as que me mordem... Mas ninguém me daria algo assim... Todas as minhas viagens são sem retorno... Sinto-me só uma pedra chutada ladeira abaixo para ver se atrapalha o caminho de outra pessoa que tentava andar tranquilamente...

Termino de comer e vou me deitar de novo... O tiozinho agora ta tocando alguma coisa de Djavan... Não importa a música, eu nem quero prestar atenção agora porque sei que vai doer... Quer algo que mexa mais com um romântico do que o que Djavan diz? Hahaha! Não consegui deitar em posição meditativa agora, me debrucei como um feto e dormi um pouco... Logo mais levantei para me preparar para a viagem... A apresentação aconteceria dentro do Shopping Salvador...

Colocamos tudo em um carro e depois pedimos um Uber... O motorista chegou e eu me sentei no banco de trás, exatamente no meio... Fui espremido entre dois caras e três berimbaus... O caminho era longo e com possíveis engarrafamentos... Eles conversaram sobre muitas coisas enquanto eu permaneci calado o tempo todo, me deixando sobrevoar sobre os prédios das vias desta cidade onde tanto já sofri (e fui feliz, mas isto é o fator que agrava qualquer dos meus sofrimentos)... Tive que ouvir absurdos e generalizações que o cara à minha esquerda proferiu... Disse que para ele todo muçulmano era terrorista... Que se visse um na rua ele sairia correndo e que dava vontade de dar um pau em todos... Kinda discordou... Disse que generalizar daquele jeito era pura ignorância... O rapaz das Laranjeiras, à minha direita, disse que o Corão também era retrógrado igual à Bíblia... Kinda foi a única que protestou, dizendo que também havia algo ali que pregasse a paz... A discussão continuou implacável enquanto eu meditava nos acontecimentos da minha vida e no fato de nunca ter sido compreendido por pessoa alguma... Acho que está chegando a hora de aprender a permanecer em absoluto... Silêncio...

Vejo por todos os lados, em todas os lugares de fala, o ódio como elemento prolífero... Queria que as pessoas à minha volta odiassem menos, se estressassem menos... Que causassem menos dano à sua máquina... Que amassem mais... Ouvissem mais... Entendessem mais... Por Deus! Queria que pelo menos alguém soubesse o quanto me esforço todos os dias para amar as pessoas como elas são... Para que elas sejam um pouco mais tolerantes e compreensivas comigo como tento ser com elas... Tento ouvir... Tento compreender... Mas no meu íntimo eu sinto que meu amor é insuficiente para o mundo... Que tenho que aprender ainda mais para continuar aqui... Que vivo uma batalha solitária... Uma dança sem coreografia, sem ritmo, sem música... Apenas um dançarino esquecido dentro deste tabuleiro louco onde o infinito grita em busca de esperança...

E o carro chega ao imenso estacionamento daquele shopping imensamente vazio... Onde as pessoas consomem coisas... Onde tudo se perde antes mesmo de ser encontrado... Onde eu sou apenas mais um entre milhões de pessoas que frequentam aquele espaço no fluxo sem graça do consumo... Cheguei ali e é a mesma coisa de não ter chegado... Eu ainda moro dentro dos muros de minha consciência atormentada pelo meu fracasso...

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Os Dragões de Minha Infância

 


Tanto me vem à cabeça quando penso no passado. São imagens confusas de símbolos e letras que não sei bem como me foram incutidas. Sei que tive uma tia professora e um tio tenebroso, homem malvado que me incutia terrores psicológicos pelo simples derrubar de um copo de vidro que se fragmentava pelo chão como minhas próprias memórias se fazem agora.

Minha tia, muito carinhosa, me apresentava as primeiras letras quando meu tio não estava em casa, pois quando estava ele gostava de brigar, se gabar de que era o mais inteligente e que ninguém sabia de nada tão bem quanto ele e em meio às lições eu sempre me perguntava o que fazia uma mulher tão boa aguentar um ser tão bruto. Enfim, este é apenas um fragmento, como o dia em que quebrei a cabeça tentando olhar a chuva pela porta da sala da casa onde nasci na pequena cidade de Planalto, Bahia. Me lembro de um pequeno diálogo infrutífero com minha avó:

- Oh minha vó, deixa eu ver a chuva. – ao que ela retrucou.

- Não, num vai ver diaxo de chuva nenhuma não que vai ficar doente.

E o choro infantil sensibilizou mainha da porta que dava pro quintal:

- Vem meu fí, vem ver a chuva aqui no terreiro.

E a criança de sorriso largo indo de orelha a orelha correu. Não deu muitos passos, o chão de cimento queimado usava uma cera vermelha e em dias de chuva também gostava de se refrescar debaixo das goteiras. Tropecei e tudo que ouvi foi um zunido interno desligando meu sistema nervoso daquela dor monstruosa que parecia sentir minha mãe ao olhar para mim em prantos e dizer em voz alta:

- Ohh meu Jesus! Meu fi vai morrer...

E correu comigo nos braços, um pano enrolado se manchara de algo que eu, aos três anos de idade, ainda não conhecia em tal proporção. Hoje minha mãe ainda diz que dava para ver meu cérebro pelo rombo que o batente fez na minha testa. A mim, sei que nada me importava, pois pude sentir as gotas de chuva respingarem no meu rosto enquanto o carro do socorro me veio buscar. Minha mãe não me deixou dormir e lembro-me do caminhão da Sadia do lado chuvoso do carro. Apontei e disse:

- Olha mainha, o caminhão da Sadia.

Minha mãe admirada com minha coragem frente ao ferimento disse:

- Como é que você sabe que é da Sadia, meu filho?

- É por causa daquele S que aparece junto com o frango no comercial, mainha.

As coisas aconteceram como num passe de mágica. Não sei separar muito bem as vicissitudes dos dias entre minhas primeiras letras, o rombo da minha cabeça, a morte da minha avó e o dia em que meu tio tomou da minha mãe a casa onde eu nasci e nos levou para morar na casa dele. Ele disse que não queria meus irmãos mais velhos e os mandou para a casa do pai em Itabuna. Minha mãe logo enlouqueceu segundo a medicina ocidental. Levaram anos para diagnosticá-la esquizofrênica, outros dizem que ela é médium, ela diz que ouve vozes... Eu... Bem... Eu não tenho mais nada a dizer sobre isso. Apenas que não deu certo morarmos com esse tio malvado.

Mudamos também para Itabuna, onde minha mãe teve uma ajuda de cem reais do ex-marido. Com esses cem reais ela comprava comida e alugava um dois-comodos num cortiço cuja pia de pratos, a pia de lavar roupas e o banheiro era divido com outras 13 famílias. Lembro-me dos primeiros anos em que dormíamos eu, minha irmã, meu irmão e minha mãe emaranhados como gatos num mesmo colchão cercado pela bagunça das coisas que pudemos trazer da vida antiga.

Foi neste mesmo cortiço que, talvez embalado pela tristeza de ficar muitas oras naquele lugar, pedi a minha mãe que me levasse para o colégio. Então aos 6 anos de idade minha mãe, decrepita pelo uso dos sossega leões que aliviavam sua doença na década de noventa, me levou até o colégio, o “Lions”. O verdadeiro nome do colégio eu não me lembro, acho que ninguém sabe, mas o colégio era uma parceria municipal com o Lions Clube Internacional, e por isso tinha um símbolo bem grande de dois leões com essa palavra escrita bem grande e aquilo na minha vista de criança era como uma quimera, ou melhor, como um brasão gigante daquele castelo mágico.

Sim, minha escola parecia um castelo. Tinha várias salas de aula com grades, algumas até pareciam com masmorras e tinham escotilhas para calabouços secretos que era para aonde eu acho que iam os prisioneiros mais perigosos que às vezes aprontavam tanto que sumiam do colégio. Ela era murada com um muro bem alto que circundava todo o colégio, como parecem os castelos nos desenhos da Disney e coisa e tal. E eu era o aprendiz de cavaleiro que rodeava correndo durante todos os recreios aqueles muros com o objetivo de defendê-lo dos dragões e monstros que poderiam vir ataca-lo. Hoje a Universidade ainda me parece um reino gigantesco e cheio de castelos poderosos, mas infelizmente os dragões são bem maiores e a Universidade é um reduto muito mais difícil de ser defendido, até mesmo para as armas mais avançadas da imaginação de uma criança.

Foi nesta escola que recebi livros didáticos seminovos que haviam sido utilizados pelas turmas anteriores. Como não tinha dinheiro para comprar cadernos, ganhei da diretora aqueles cadernos pequenos de capa fina que sempre se soltavam depois de alguns dias de uso. Não tive a obrigação de ler os livros sobre ameaças das palmatórias ou pelos rigores da educação de Graciliano, quem dera eu ter tido a sorte de Ubaldo ao escrever seu texto cheio de memórias deliciosas a respeito da biblioteca de seu pai e suas falsas proibições... Infelizmente, para pessoas da minha laia todos os livros são proibidos, não por limites físicos inexpugnáveis, mas sim pelas barreiras sociais, históricas, pela cultura imposta às massas e por toda a violência que somos submetidos desde a infância.

Então eu lia só o que me agradasse... Lembro que gostava do livro de estudos sociais, alguma coisa de história e geografia me agradavam também, mas no geral eu não lia muito. Não houve tempo para isso. O problema da minha mãe se agravava, fora internada inúmeras vezes em poucos anos. O tempo que me sobrava fora da escola não me dava ânimo para estudar muito. Tive que aprender a me defender dos valentões da rua. Aprendi a roubar comida do mercado ou a ir comprar coisas para os vizinhos e adulterar os preços para lograr uns trocados... Até invadi as casas alheias para roubar panelas e cascos de cerveja para vender no outro bairro.

Houve um dia em que a caminho do colégio eu encontrei um pequeno pedaço de ferro pontiagudo com uma borracha preta ao redor que manchava tudo. Neste dia aconteceu alguma situação em que fiquei com raiva de um garoto que me disse alguma coisa e correu, o persegui, ele fechou a porta do pré-escolar, de repente eu saquei aquele ferro do bolso e comecei a esfaquear a porta com todo o meu ódio reprimido e gritar desesperadamente como se aquele fosse o corpo de todas as durezas que me estavam sendo impostas... Ela era a fome, a ausência de pai e de mãe, a indiferença dos meus irmãos, e sobretudo a minha falta de entendimento sobre tudo o que acontecia a mim e me fazia ser uma criança solitária, quieta e perdida no mundo. Não preciso dizer que fui detido na diretoria e que pensei que ia parar no calabouço. As professoras tentaram entender o que acontecera, não tiveram sucesso, porque nem mesmo eu entendia e ainda não entendo. Prefiro acreditar mesmo que foi apenas um ataque de ódio, mas alguma coisa me diz de que aquilo aconteceu mesmo porque tudo no mundo está errado e que não há magica ou espada forte o suficiente que possa consertá-lo.

Por não gostar muito de ler eu inventava minhas estórias na minha própria cabeça, meu maior tesouro dos oito anos foi um dos caderninhos sem capa que eu colori com nomes de letra de forma dizendo: “CADERNO DE POESIA”. Sim, eu encuquei com o mundo de que seria poeta. Nessa época eu morava na rua Castro Alves, nunca tinha lido, mas acho que algo da alma dele passou por ali e me afetou peremptoriamente. Eu escrevia coisas bobas sobre as flores, a chuva, o sol e o vento. Não me lembro, guardei por muito tempo esse caderno até que presenteei minha primeira namorada com aquela lembrança boa da infância simbolizando meu coração. Não sei do paradeiro dele ou dela, acho que o perdeu da mesma forma como eu a perdi, meio que sem querer.

Não me lembro mais quanto tempo se passou desde minha aventura de poeta ao ladrão de livros do meu tio, outro tio graças a Deus. Minha mãe, depois de muita luta conseguiu uma aposentadoria por invalidez, resultado de sua sabedoria ao lidar com sua própria adversidade. Ela, enquanto ouvia vozes, juntou dinheiro o suficiente para comprar um terreno numa favela e construir um barraco para onde nos mudamos. Lá eu não podia ficar na rua até tarde e nem queria. Resolvi mudar de vida, estava farto das longas conversas com amigos que me decepcionaram. Foi quando viajei para casa deste tio, que era padre, ele tinha diversos livros de faroeste e eu roubei um bocado e trouxe comigo quando voltei pra casa. Passava horas à luz de velas lendo o livro até que conseguimos ligar a luz elétrica. Não guardei muitos títulos daquelas obras desconhecidas, apenas os que eu mais gostava: “Não Atire no Pianista, que contava a história de um policial que se disfarçava de pianista e que e a gente só descobria isso no final do livro, como ninguém acha mais este livro e eu não faço ideia do nome do autor, não há risco de revelar spoilers; o outro era “Um Samurai no Oeste”, que obviamente contava a historia de um samurai do final do período Edo que viajou para a expansão do Oeste norteamericano, bem engenhoso devo confessar, talvez um dia eu escreva a história de um samurai que viajou no mesmo período para aprender alguma coisa com os povos indígenas do Brasil. Enfim, acho que este é um fragmento irrelevante para esta história.

Acho que foi por aí, em algum lugar dos meus treze anos que comecei a dedicar mais tempo aos momentos de leitura. Conheci as bancas de livros usados ao mesmo tempo que conheci os botecos que vendiam bebida para menores de dezoito anos. Comecei a beber vinho Dom Bosco e a ler literatura de faroeste em cima de árvores, uma mescla doida para uma criança não muito ajuizada, mas eis-me aqui contando esta história sem um pingo de tristeza, eu acho é graça porque nem um filme daria conta de uma história tão bonita, dos momentos intraduzíveis da descoberta dos gibis, dos mangás, do meu livro predileto, que contava a biografia de Isaac Newton de uma maneira bem engraçada, até que finalmente me surgiria esta ideia estapafúrdia de me tornar um escritor.

Ainda bem que na minha cabeça as ideias não são feitas de concreto, não há solidez e sim apenas fragmentos que se juntam e se dissipam para formar coisas novas. Não existe aqui dentro pretensões de riquezas ou de carreiras acadêmicas, não existe desejo de luxo ou avidez por fazer nada. Enquanto escrevo este texto existe apenas a próxima palavra regada pela visão turva de alguém que se recupera da ressaca de ontem e se prepara para entregar o texto daqui a pouco mais de duas horas. Não sei se cumpri o objetivo do trabalho ou se apenas devaneei em lembrar como cheguei até aqui, o que me importa pensar agora é que, como tudo na minha vida esta parece ser mais uma história que saiu de um livro louco, mágico e cheio de dragões em que posso voar e escrever como se estivesse lendo as coisas acontecendo.

 

Este texto foi produzido para a matéria de
Leitura e Produção em Língua Portuguesa,
cuja professora, a adorável senhora Alba Valéria,
exerceu com tanto esmero seu trabalho que
conseguiu inspirar uma pessoa no fim de uma depressão
a escrever algo tão libertador e bonito.
À todos os bons professores do Mundo,
meu mais fortíssimo agradecimento
.

Maycon Jhossys. Salvador-Ba, Setembro de 2019.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Os Três Pinos Cap I, pt 2

 

Primeiro Pino – Carreira Dois: Trópico de Capricórnio

 

    Depois do café, me despedi de minha amiga e fui pra casa... Passei para tomar um banho e arrumar as minhas coisas porque ainda iria pro trabalho... Depois do trabalho marquei com Felipe para participar do Teatro do Boi... Ou seja... Seria dia de trabalho e eu gosto de mentir para mim mesmo me fazendo acreditar que se eu ocupar demais a minha mente... Talvez se eu me encher de coisas pra fazer... Eu consiga não pensar tanto na minha solidão... Na minha rejeição... Nos meus amores incompreendidos... Ou no fato de eu sempre estar rodeado de pessoas e mesmo assim me sentir tão vazio por dentro... Mas é tudo mentira... Minha mente não consegue me deixar esquecer-se disso quando estou assim... Até quando estou de fato feliz... Mesmo quando estou feliz, a outra parte de mim me faz questão de lembrar que esta é uma felicidade incompartilhável... E não importa o quanto eu invista minhas forças em outros afazeres... Eu sou um maldito romântico... Não existe nada que consuma mais da minha energia do que este anjo decaído a quem chamam Amor...

    Catei as moedas e fui... Faço aquele caminho que fizemos no carnaval... Fico me perguntando quantas vezes eu já não me arrastei por esta estrada pensando no meu fracasso... Aliás... Fico pensando em quantas vezes eu não me arrastei por toda a cidade revisitando as lembranças de beijos, declarações de afetos... Tardes passadas em Museus, praias, cinemas, praças... Noites de Jazz, música e poesia... Fico pensando em todas estas esquinas e coisas que me convencem mesmo de que sou um completo fracassado nesse negócio de amar... Por todo lado onde me viro nesta cidade eu percebo o quanto eu já sofri aqui... O quanto me sinto só... Porque nunca antes havia encontrado tantas pessoas que se importassem comigo, mas que mesmo assim não podem alcançar os meus segredos... Aqueles segredos que não sei como dizer... Aquela ajuda que não sei como pedir... Aquele colo na calada da noite que... ninguém parece sentir que eu seja merecedor...

    Cheguei cedo ao trabalho... Tinha muita vontade de tomar uma cerveja, mas as moedas não eram suficientes... Lá não tinha nada pra fazer... Fiquei mais uma vez no facebook... Postando coisas que tentassem extravasar um pouco da minha angústia... Que talvez, por um milagre tosco do destino, fizesse com que ela me stalkeasse daqui a alguns anos e descobrisse o quanto foi tola por me deixar sofrer tanto... hahahaha! Eu sou mesmo um maldito sonhador... Acho que são essas coisas que fazem as pessoas pensarem que sou um lunático... Mas o que eu posso fazer se eu sou assim? Não quero machucar ninguém... Só quero que as pessoas entendam que eu estou sofrendo e não sei o que fazer para isso melhorar... Já fui ao psicólogo e a sua dosagem foi considerada insuficiente... Eu preciso de drogas muito mais fortes... Em doses cavalares... Caso contrário eu não consigo, na maioria das vezes, nem mesmo sorrir...

    Perto do almoço, eu ainda estava tirando os últimos resquícios da invisível maquinação viva que eu aprontei por aqui para ver se conseguia mostrar a ela que eu sou incrível... Que eu poderia mover as montanhas que ela escolhesse e carregá-las sobre minhas costas se ela me pedisse... Isso tudo dói tanto... Porque sei que fazendo isso eu só me torno um pouco mais especial para mim mesmo... As outras pessoas não chegam nem a saber qual é a minha importância nisso tudo... As pessoas não gostam de homens como eu... Metidos a gênios... Que enchem o saco para que as coisas se movimentem... Que odeiam coisas mal acabadas... Que não conseguem sossegar enquanto ainda percebem qualquer brecha na parede do impossível... E é por isso que depois de tanta dor eu ainda sobrevivo... Acho que é por isso... Porque enquanto eu ainda respirar... Vou continuar tentando ser feliz... Mesmo que todos continuem insistindo em me mostrar que isso é impossível para mim...

    E até que você me ofereça outra saída, meu bem... Ou até que feche completamente tuas paredes para mim... Até lá... Eu sei que vou sofrer... Sozinho para que ninguém mais precise dividir isso comigo... Conto o que posso pros meus amigos... O resto eu guardo pra minha insônia... Pras minhas lágrimas... E para esse caderno idiota... E talvez para aquele blog mais idiota ainda... Eh! Às vezes Você faz minha vida parecer uma grande idiotice... Principalmente quando me pergunta o porquê de eu estar agindo assim...

    - Assim como? – Eu te pergunto... Mas você nunca soube responder... – Será que a única maneira de eu não ser um idiota é mesmo me afastando de Você?.. É pena! Te juro que não gostaria de ter que fazer isso de novo...

    É aí que minha colega de trabalho (pisciana, pq será?) me chama para acompanhá-la até a rua... Tem que comprar umas coisas pro marido dela, mas não quer ir sozinha... Já era meio dia e eu havia marcado com Felipe nesse horário... Mas engraçado... O nome do marido dessa minha amiga também é Felipe, e ele é canceriano (e eu sempre cercado de água)... Enfim... Tinha que ir com ela, talvez aquilo fosse algum sinal que mudaria a energia carregada do meu dia... E de fato mudou... Ela se ofereceu para me pagar uma cerveja...

    Bebemos um latão de cerveja sentados ao pé de Exú... Em frente à Fundação Casa Jorge Amado... Bebemos não neh? Ela só tomou um copinho... Ela comprou também um cigarro pra me aliviar a ansiedade... O engraçado é que bebi a lata toda quase ao mesmo tempo em que acabava o cigarro... Só deu tempo ouvir ela dizendo: - Eu heim... Eu achava que eu bebia viu, mas você heim, toma o negoço parecendo suco...

    Mandar aquilo para o estômago vazio me deu alguns minutos de uma anestesia sublime... Aquela cerveja gelada destruindo mais um pouquinho deste corpo mal amado... Só mais um pouquinho antes que eu encontre o caminho certo para me fortalecer... Antes que eu consiga dar fim a esta moléstia que carrego desde a infância... Minha mais demoníaca solidão... Preciso de alguma forma me sentir bem comigo mesmo... Isso é tão bonito nos livros... É tão maravilhoso ouvir alguém falar sobre essa sensação... Sobre o Nirvana... Sobre o Espírito Santo... A Iluminação... Mas na prática esse caminho é tão difícil... Parece tão impossível... Parece ainda mais impossível para mim do que mostrar a ela que posso ser seu... Seu como nenhum outro jamais será... De graça... Porque isso é algo que eu posso escolher dar ou não... Eu posso escolher ter a coragem de entregar-lhe o meu amor mesmo sem ter o seu em troca... Mas... Não! Infelizmente não consigo escolher não me sentir só e fraco e pobre e besta e incompleto e... Deixa pra lá!

    Depois de muito zanzarmos nas lojas... Chegamos a uma loja de um chinês, onde minha amiga queria comprar fones de ouvido, um para ela e outro para o marido... Ela pechincha com a vendedora... Que grita – Felipe, pode fazer a ela por 10 reais?

    Neste momento tive um boom... Me esqueci quase completamente da realidade à minha volta e pensei em todas as vezes que ouço o nome dela brotar de algum lugar... Esse sinal despertou as vozes malignas na minha cabeça; me fez atinar que aquele nome não era tão incomum afinal; me fez procurar quantas Fulanas de Tal existiam na rede social mais aloprada do mundo... Encontrei três com o dela, e por ironia debochada dos deuses, uma era de Ilhéus... - Será que é isso mesmo? – Pensei – Estão mesmo de sacanagem comigo?..

    Pensei também naquele livro de Eneagrama do meu Tio... Que dizia sobre o meu tipo: “eles se sentem tão solitários, tão únicos, que se diferenciam muito até mesmo entre si...”... Foi só a partir desta micro catarse que finalmente tive a coragem de vencer o medo de me fazer aquela pergunta chata pela primeira vez naquele dia... Será que nasci mesmo para viver a vida inteira se sentindo a pessoa mais solitária do planeta? Depois parei e pensei... A simples composição do meu prenome, seja considerando a organização das letras ou qualquer que seja a pronuncia correta e suas infinitas variações provocadas por equívocos preguiçosos ou desatentos de outros milhões de pessoas que tentam dizê-lo, não importa; o que interessa a mim não é se eles dizem meu nome certo ou não, a consideração dos outros em relação a mim não é algo que me assusta mais. O que realmente me apavora é que não há nenhuma menção, nenhuma referência a este signo, a este som conjunto de meu duplo nome, não há nada em nenhum registro pertencente à História da Humanidade... Existem muitos Cesares; muitos Fredericos; muitos Antônios Henriques; existem muitas pessoas com nomes de Anjos e de Apóstolos... No mundo existem até muitos Michael Jackson’s agora... Mas com o meu amaldiçoado nome duplicado pelo meu brilho e pela minha escuridão... Só existe eu...

    (Ou pelo menos fui o primeiro de muitos)

    (Ou sou apenas a simples continuação de outros trágicos mal sucedidos apenas porque ninguém parece compreender o excesso de amor que carregam consigo...)

    [Como não faço idéia do que isso tudo significa... Acabo deixando pra lá...]

    Volto a pensar...Será mesmo que nasci e vim até aqui e não construirei nada com uma mulher que me entenda? Ou que ao menos tenha paciência comigo?? Que esteja minimamente disposta a me dedicar um pouco de seu carinho e cuidado??? E talvez quem sabe, por alguma que pudesse se acostumar com esse amor imenso que estou disposto a dar e ninguém parece querer... Uma mulher que, quem sabe até, pudesse começar a me amar junto com o tempo, do jeito que eu sou... Não um louco, apenas... Mas sim um homem em eterno aprendizado...

    Muitas coisas aconteceram... Conversei com minha amiga e ela me disse muitas coisas bonitas... E me abraçou maternalmente e disse que ficaria tudo bem... Daquelas que fazem com que você se sinta útil no mundo... Mesmo que minimamente... Ela me deu alguns trocados para comprar outra cerveja e antes de virar as costas para ir para o trabalho, disse:

    - Olha amigo, deixa estar... Dê tempo ao tempo... Se você significa algo pra ela, talvez ela vá te procurar... Canceriano procura, com Felipe foi assim... Ele terminou comigo uma vez e depois de um tempão veio me procurar... Não fica triste não, viu... Se precisar desabafar eu to aqui...

    O mais engraçado é que nunca contei detalhes pra ela. Só que esses psicianos são meu ponto fraco... Eles insistem em saber o que se passa por detrás das cortinas da minha cabeça... Toda vez que chego triste no trabalho ela percebe de longe e pergunta logo o que foi que aconteceu... Enfim, eu sou coração de manteiga... Com o passar dos dias, me senti a vontade para falar a ela sobre aquela minha paixão encravada que não me deixava dormir... O que é mais gostoso é que ela realmente sabe dar bons conselhos...

    ... Bem! Como eu estava atrasado, guardei as moedas que ela me deu e fui para o local do compromisso que já tinha firmado... Pensei em desistir centenas de vezes enquanto passava pelos bares do caminho... Mas uma cerveja só não conseguiria saciar aquele monstro, então preferi encarar o destino... Era melhor isso do que ficar me sentindo infinitamente culpado depois por ter furado com o meu amigo...

     Aff... Eu e esse estranho senso de lealdade que parece não fazer sentido pra mais ninguém além de mim...

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Looking For Ghosts



 I

Esta tarde visitei o centro da cidade depois de muitos dias sem sequer sair de casa... Por força maior, algo que talvez insistamos em chamar de destino ou sei lá o que, não era qualquer lugar do centro, era um museu... Mas não qualquer museu de velharias arqueológicas esquecidas, se é que isso exista para a cabeça de um místico apaixonado... Era um museu que partilhara parte da minha história, era um lugar repleto de paredes centenárias, com a minha energia vital impregnada, com a energia de milhares de outros seres que como eu passaram pela vida curiosos, temerários, machucados, cheio de dúvidas e conflitos, cheios de incertezas sobre sua própria luta ou suas possibilidades reais de escolha... Penso tanto na obra que meus deuses reservam para mim que é impossível não passar pela minha cabeça a questão de como tantos povos escravizados se sentiram frente aos desafios psicológicos impostos pela violência de uma colonização diabolizante que viria a transformar toda uma civilização em fantasmas de uma história nacional fajuta...

Quando fecho os olhos posso ver as vitrines deste museu humano que carrego nos meus genes e na minha forma de ver o mundo... Mas também vejo um vazio imenso de não conseguir acreditar em nada... De pensar que todos à minha volta partilham das mesmas mentiras que eu e que algumas delas estão felizes com isso... Contentas com o fato de que nossa sociedade mata o amor, a compaixão, a vontade de compreender realmente as necessidades e limitações dos outros; tudo isso ao passo que nos convence do medo, da intolerância e do desconforto que é não ter a genuína certeza de absolutamente nada. É comum aprendermos a ter medo de ruas pobres porque é na pobreza onde os ladrões parecem mais bárbaros, onde o crack, o açúcar, o café, o álcool e o tabaco revelam os mais evidentes vícios deixados pela colonização...
...

Ainda bem que não terminei de escrever este texto há dois meses atrás, quando iniciei o primeiro parágrafo... Tive tempo para reexperenciar a vida... Dessa forma eu posso vir e escrever algo menos mórbido e melancólico do que as agonias que se passavam pela minha cabeça na época da visita aos museus das ruas de meu passado... Um passado tão recente mas com uma pontada tão profunda que parece ter sido em vidas passadas...

Como um rompante de coragem eu resolvi encarar o centro... Resolvi tentar mais uma vez enfrentar minhas lembranças e combater meus próprios fantasmas... Fui convidado a uma visita ao MAE-UFBA... E como todos os meus leitores invisíveis bem sabem, este lugar é um tanto especial para mim... Em três anos os seres daquelas paredes me viram chorar, sorrir, proferir conjurações de amor... Dormir de exaustão ou de tédio deitado no chão gelado daquelas galerias... Roubei beijos de paixões passageiras que me visitaram como visitam a uma peça arqueológica que lá pertencia... Alguns anos atrás eu até poderia encarar tais lembranças como parte de um passado heroico, mas hoje eu vejo apenas como um apanágio de pertences alheios a mim... Me sinto um índio fugido da obra almofadinha de José de Alencar... Ou pior... Um mero conquistador barato que via nessas aventuras parte grandiosa de sua razão de existir... whatever...

II

Chegando lá já tenho que lidar com pessoas que eu conheço, sabia que tinha que dizer qualquer coisa com meu ex-museologo-chefe... Sabia que teria a menina Roberta da portaria e provavelmente uma monitora nova... Mais uma série de pessoas que eu desconheceria a partir daquele momento... Um grande infortúnio para mim que tanto adoro sorrir... Não é falsidade sorrir sem querer sorrir nestes momentos... É que sorrir e usar a cara que eu uso para sair na rua me custa demais... É preciso se conectar a uma fonte inesgotável de energia, mas naquele caso esta fonte estava perdida para mim... Bloqueada... Intoxicada por esta cidade febril e dopada de informações...

A professora chegou... Por alguma razão ela contava com a minha presença... Não vou esquecer disso... Foi gentil e acolhedor demais da parte dela... Seguimos pelo museu e ela usava um estranho aparelho sonoro... Aquilo era sem dúvida peculiar de acordo com os arquivos da minha cabeça... Com certeza não era uma visão comum... A visita seguiu até chegarmos às urnas funerárias onde o estranho aparelho reagiu com o lugar... E foi aí então que eu pensei... Caraca... A minha professora é uma Ghostbuster... kkkkk... Bem... Não sei se é o caso de exterminação de fantasmas... Talvez um caçador de fantasmas brasileiro e do século XXI precise entender que estes fantasmas todos já foram caçados e exterminados enquanto eram vivos... Não faz mais sentido querer destruí-los... Precisamos nos ritualizar e nos espiritualizar ainda mais para quem sabe, se for possível, ajudá-los a concluir sua passagem seja lá para onde forem... Ainda que seja para um lugar de maior prestígio nos nossos corações...

Nós vivemos em um país onde os mortos tem mais o valor do esquecimento do que da lembrança... Os vivos talvez ainda menos... Vide as grandes filas de desempregados e da mendicância alarmante que denunciam novos fantasmas fantasmagorando pelas ruas em carne e osso em plena luz do dia...

O resultado foi um sucesso... A visita foi mó legal... Saí de lá sorrindo e encontrei coragem o suficiente para passear os ladrilhos de outras lembranças pelo resto do Pelourinho... É claro que desta vez eu tinha uma escolta de uma dúzia de estudantes cheios de preocupações tão dispares que eles não me perceberiam ali... Bem... Pelo menos não por baixo deste disfarce com barba e bigode onde me visto atualmente... A cada rua que olho vejo um novo fantasma... Meu... Do Passado... Da história nacional... De tudo... Paramos na ladeira para conversar com uma galera de Arquiterua e Urbanismo... Bem, não disse nada a eles... Notei no canto a figura de um garoto velho conhecido meu... Na real ele é muito conhecido naquelas ruas... É um garoto negro, simpático e conversador... Esperto... Com a sagacidade suficiente pra sobreviver em ruas tão hostis quanto as nossas... Já fez uns corres de umas paradas pra mim algumas vezes... Algumas vezes é lógico que ele não voltou com minhas drogas... Mas eu entendo... Provavelmente, no lugar dele, eu também não voltaria algumas vezes... Quiça nunca... Às vezes nem quero voltar aos lugares ou às pessoas que cabem dentro desta minha vida tão privilegiada... Imaginem só como é... Ele me disse o nome dele naquela ocasião... E por ter vergonha de não saber ao certo... Prefiro preservar de mim mesmo o risco de registrar o nome erroneamente... Mas acho que ele é esperto o suficiente para não ser exorcizado daquelas ruas cristãs... Cheias de igrejas e gente caridosa... Sobreviveremos para que talvez tenhamos tempo para decorar o nome um do outro... Duvido também que ele se lembre do meu... De qualquer modo... O meu nome pouco importa... Eu não sou esta pessoa que escreve, nem a carne, nem a ideia que se aponta de responde o nome para quem pergunta... Nem nada dessas bobagens que inventei de pensar agora... O que me realmente me incomoda é:

Será que isso que estou fazendo não se trata de uma digressão completamente inútil?

Qual é o objetivo deste emaranhado confuso de palavras?

Não sabendo de nada dessas respostas e de milhares de outras que assombram minha cabeça... Por fim eu continuo... Talvez seja a minha maneira de exorcizar um pouco dessas assombrações, quem sabe? Descemos pelas ruas da cracolândia do Pelourinho... Um menino começou a entrar em pânico por estarmos em ruas perigosas... Debateu com a professora a respeito disso... Bem... Ele até que tem uma certa razão... Mas é que me sinto tão seguro em lugares como aquele... Lugares onde cresci longe das vistas da minha própria mãe... Nossa... Minha mãe... Até ela me surge agora como uma reminiscência tão distante que mal consigo acreditar que ainda tenho uma... Graças à Deusa e todas as forças inexplicáveis do Universo...

III

A visita seguiu por uma igrejinha que eu não conhecia por dentro... Soube lá que algumas de suas obras tinham ligação com as que são expostas no Museu de Arte Sacra da UFBA... Outro logradouro onde deposito os fantasmas de momentos tão melancólicos quanto aquele... Mas enfim... Isso não tem nada a ver com o objetivo da minha visita ou do meu texto... Mas aí eu me lembro que não tenho mesmo nenhum objetivo com isso... Já desisti de querer me entender como um menino normal, como um aluno normal, em busca de uma nota normal, de um emprego normal, uma carreira, um INSS ladrão, de ser um artista respeitado, qualquer coisa que me faça parecer uma pessoa normal neste mundo descartável... Porque de perto minha loucura parece tão evidente que o que eu penso não parece fazer sentido nem mesmo para os fantasmas em minha cabeça... No fundo me sinto isolado em qualquer cortejo...

Seguimos para a praça Castro Alves onde um pedaço da alma do poeta me ilumina por cima das nuvens como um condor alvissareiro que me lembra quantas vezes bradei em alto e bom som os meus afetos, minhas indignações, meu extenso amor mal compreendido... Para quê? Um dia eu o saberei (ou não) com certeza... Huahhahahahhahaha!

O grupo se dissipou no topo do Espaço Glauber Rocha de Cinema... E eu sentia-me exausto... Não sei o porquê exato... Tenho neste momento que escrevo, meses depois do ocorrido, alguns palpites... Mas palpites não forjam documentos... E assim se vai mais alguns minutos tentando fazer sentido para mim mesmo... Pois se eu não me ler com coerência quem mais poderá fazê-lo??? E é aí então que se dá razão ao título deste enunciado...

Dizem que a gente usa a língua também para sentir... Ou que sentimos com a nossa língua... Sei lá... Algo assim... Talvez tenha sido por isso que preferi colocar este título em inglês... Imagino que tal mistura seja de revirar suassuanas, mas é assim que eu vejo o mundo de hoje... Já fomos tão colonizados que, até eu, um pobre maldito, nascido e criado perto da BR de uma periferia do interior, me possibilito agora sentir em outros idiomas... Dou título a esses parágrafos em inglês por que é assim que eu me sinto ao passear por este centro, por estas ruas... Porque tudo no centro me parece sempre tão familiar e ao mesmo tempo estrangeiro... Bem como todo o mundo se me permitirem devanear mais profundamente...

Quando conjuro estas três palavras em inglês... Looking for Ghosts... Elas não surgem em negrito ou itálico convencionais para distingui-las de algo que não me é próprio... Elas soam na minha cabeça como ecos de sussurros... Como se espíritos sibilassem direto de urnas funerárias esquecidas, denunciando esta frieza e esta melancolia que herdei depois de tantos massacres, de tantas injustiças e da violência que carregamos como um soluço engasgado no corpo de nossas ações...

Deixo para vocês um pequeno relato de minhas assombrações...

Majhoo. Salvador-BA, 14 de Dezembro de 2018.