Terceiro Pino – Ninenine II: Jean Paul Jones
No
bar do Alex eu já percebia minhas faculdades mentais perfeitamente atrofiadas,
levantei para ir ao banheiro e percebi que estava bêbado, me lembrei que não
havia comido nada, mas já não interessava, pois ali nenhuma fome me visitaria
mais. Fui admirar a podridão daquele banheiro sujo, inscrições de todo tipo,
ofensas, palavrões, comentários desnecessariamente machistas. É incrível que
homens adultos sejam capazes de tanta idiotice. É nojento ter apenas uma mínima
ideia do que se passa nas nossas cabeças nestas horas de profundo escuro e
vazio de alma. Me despedi do vaso e saí.
-
E ai? Vamo lá em cima? Preciso ver se arranjo uma gata hoje. – Me diz ele.
-
É, vamos nessa!
No
caminho paramos para observar um batuque daqueles habituais do pelourinho, onde
as gringas param para admirar a beleza nativa e ficam encantadas com o talento
selvagem dos afros tambores ancestrais (até nos faz esquecer de que esse
batuque militarizado é muito mais do colonizador do que africano, nos faz até
esquecer dos milhares de instrumentos de corda e de sopro oriundos da África,
enfim, nos faz esquecer de tudo). Ficamos ali, meu amigo cercando as gringas e
eu tentando entender o que cabe a mim naquele furdunço todo. Nessa hora, um
cara bem chato, destes poetas de rua meio malandro, aproximou-se de muleta e
colou na gente, falou horas de besteiras que não prestei muita atenção. Acabamos
indo os três para uma daquelas ruas encruzilhadas do Pêlo, ali onde tem um bar
velhinho que fica socado de gente.
Lá
nos encontramos de novo com aquela minha amiga. Ela nos convidou para dançar.
Meu amigo não quis, é bem tímido ao que parece. Ela ficou desapontada, é claro.
Eu aceitei o convite. Entrei lá e comecei a sambar loucamente, com uns passos
esquisitos e uns giros malucos que só a contemporaneidade, a falta de noção, a
desimportância favorita que guardo para a opinião dos outros e o néctar da
embriaguês conseguem produzir. As pessoas olhavam, davam risadas, talvez até
criticassem, mas por alguma razão, no fundo sabia que elas me invejavam. Talvez
invejassem meu trabalho corporal, minha desenvoltura, talvez invejassem o
balançar de minhas roupas coloridas, ou talvez apenas invejassem a minha
coragem de estar ali, dançando para mim, sem nenhuma intenção de agradar
ninguém além de mim mesmo.
Saí,
meu amigo admirou:
-
Porra, você dança mesmo heim?
-
Não posso evitar, é que quando bebo, ao que parece me torno leonino demais. –
Disse a ele. Neste momento percebi que ele estava com uma gata do lado, uma
francesa majestosa, parecendo realmente que havia sido feita com as mãos por um
artífice divino.
-
Oui. – Ela me cumprimentou com um oi afrancesado que me permitiu logo saber sua
nacionalidade.
Estendeu
a mão e pude sentir a maciez sublime daquela mão sedosa e alva, quase de
mentira. Dava para perceber logo que aquela mão jamais pegou numa atividade
pesada, era a mão de alguém da elite francesa. Ela voltou a conversar
euforicamente com o meu amigo. Enquanto isso eu continuei ali como se não
estivesse, apenas admirando aquela beleza fenomenal. De repente aparece o
marido dela com algumas cervejas na mão. Ele ofereceu a todos e ficou faltando
a minha, obviamente não tinha contado comigo. Logo meu amigo se apressou a me
apresentar.
-
Gente esse aqui é o Dois Nomes, é um poeta daqui.
-
Ah! Muito prazer. – Disse ele com seu sotaque.
Ele
então me ofereceu um copo de sua própria cerveja e então eu resolvi voltar para
dançar. Fui dançar com aquela minha amiga do início da noite. Conversei um
pouco com ela e, depois de um tempo, acabei perguntando qual era o seu signo. E
ai ela me disse.
-
Ah... Adivinha! Aquele com S.
Hahaha!
De imediato comecei pensar uma porção de coisas e continuei a conversa crente
que se tratava de alguém de Escorpião. Não sei porque isso veio tão forte na
minha cabeça louca. Escorpião só é com s em inglês. Hoje está muito mais claro
para mim o quanto o álcool atrapalha em muito o meu raciocínio. Só depois de
muitos minutos de conversa e de algumas gafes charlatanescas sobre o zodíaco é
que vim me dar conta do meu imenso equívoco interpretativo. Somente quando ela
de novo não parava de olhar pro meu amigo e perguntar coisas sobre ele. Enfim,
ela não era mesmo para mim aquela noite. Eu definitivamente não tenho mais
paciência para chavecações, portanto, encerrei aquela conversa mui
amigavelmente.
Voltei
para fora do bar, desta vez o gringo me comprou uma cerveja. Eles estavam agora
acompanhados também de uma chilena, muito bonita também. Todos conversavam
alegremente e sorriam muito. Descobri que haviam se conhecido dias antes. Todos
eles tinham amanhecido o dia na Escadaria do Paço, lugar de bastante frequência
do meu amigo. Nossa, bebemos muito neste lugar até que a francesa, saudosa dos
acordes do meu amigo, o convenceu de irmos até a Escadaria para que ele tocasse
pra ela.
-
Vamo lá! Eu compro mais bebida pra gente. – Disse ela tentando convencê-lo a
tocar, acontece que ele é meio tímido, não gosta de tocar pra muita gente. Só
quando realmente vale a pena.
Chegamos
ao Paço e tinha uma galera de hippies lá fazendo a maior algazarra. A maioria
se conhecia e meu amigo conheceu muitos deles nas noites passadas. A francesa logo mandou seu marido ir comprar
bebidas. Ele veio com uns dez latões de Skin e umas quatro garrafas de São
Jorge. Meu amigo pegou o violão e a gringa não parava de pedir uma música atrás
da outra. Queria ouvir o repertório da música brasileira mais vendida entre o alto
escalão internacional. Músicas de Tom Jobim que boa parte dos brasileiros não
conhecem: Baden Powell, Vinícius de Moraes, Toquinho. Para mim, ficava claro
que meu amigo enjoou logo daquelas músicas, toda hora ele trazia outra música
pra quebrar o clima.
Nesse
momento, um homem de meia idade vem subindo as escadas. Meu amigo para de tocar
e grita entusiasmado:
-
Grande Jean Paul Jones! Chegue mais meu velho.
Fiquei
por um tempo fitando o cara que levava o apelido do mundialmente famoso
baixista do Led Zeppelin. Jean Paul Jones se aproximou e cumprimentou todo
mundo cortesmente. Ele tinha um falar muito gentil, um tanto rouco e pra
dentro, muito parecido com o Mutley do desenho animando. Era alguém que
demonstrava gentileza e boas intenções em todos seus movimentos. Sentou-se e
ficou também curtindo a música e bebendo junto conosco.
Não
tardou e escutei um cochicho entre meu amigo, ele e a chilena. Alguma coisa
sobre cocaína. Levantaram e foram subindo as escadas. Eu, como um viciado
compulsivo olhava aquela cena com um olhar de cachorro pidão. Meu amigo, em
determinado momento da escada olhou para mim e fez um singelo sinal com a
cabeça. Me aproximei, meu amigo disse a Jean Paul:
-
Esse daí é brodão, já curti várias aventuras com esse cara, no Rio, em Góias
também e no Rio Grande do Sul. Já cheiramos várias cocaínas junto.
-
Pode crer! Amigo nosso então! – Disse Jean Paul com sua voz rouca e um singelo
sorriso com suas rugas de canto de boca.
A
gringa preparou os quatro raios. Jean Paul havia dado a ela um grande pino, deu
pra fazer quatro carreiras bem servidas. Eu esperei que todos cheirassem. Ela
foi a primeira, meu amigo depois, Jean Paul pediu para que eu fosse, eu insisti
que era a vez dele. Então, eu cheirei... Nossa! A divina picada do diabo... A
sensação pura da autodestruição tomava conta de mim... O pó é mesmo fantástico
para quem se dá com ele... Manda a locomotiva vapor da mente vibrar aos mil
orifícios que nos embalam ao Hades... Rimos, ficamos criativos, falantes, e a
noite vibra solta como uma criança solta num parque de dimensões de desenho
animado... Quando vimos já estávamos cantando sucessos antigos do axé...
Mas
o que mais me intrigava era a figura alegre e animada do Jean Paul... Sempre
com um singelo sorriso enrugado... Contente, conversador... Contando casos...
Cantando as músicas... Bebendo mais... Animando a galera... Correndo na
carruagem da noite como se tentasse retrocedê-la a fim de que a manhã nunca
chegasse...
A
francesa se divertia, o marido dela não percebia os olhares de desejo secretos
que ela lançava ao rapaz alto de dreads que tocava o violão... Também, ela
permaneceu toda a noite bebendo pouco, fumando muitos Marlboro Vermelhos e
mantendo sua discrição impecável... Ela jamais passaria daquilo, singelos
olhares de admiração por aquele ariano bonito... O gringo, seu marido, também
era um amor de pessoa, tratava todos bem, mas não falava nada, aparentemente
não entendia as músicas também... Apenas ficava lá se balançando e bebendo...
Conversei um pouco com ele em inglês, eles vinham de Lyon e estavam casados há
dois meses e resolveram vir conhecer o Brasil.
Não
demorou muito até que fossemos novamente ao topo da escadaria esvaziar o
primeiro pino. Desta vez o meu amigo preparou... pediu meus cartões emprestado.
Jean Paul Jones realmente parecia muito feliz de estar ali conosco, como se
fossemos todos velhos amigos, eu olhava intrigado bem fundo no semblante dele e
percebia uma solidão amuada... Daquelas que se apegam tão fundo na gente que é
quase impossível se imaginar sem ela... E eu me perguntava, quem é esse cara?
Qual é o seu verdadeiro nome? Por que ele mexe tanto comigo? Nossa, ele me
lembra tanto alguém que eu conheço, mas não consigo de forma alguma me lembrar
quem...
Bem,
eu, como sempre prefiro ser o último, com certeza para poder passar o cigarro
no que sobrar na superfície do cartão... Acho que andei vendo filmes demais...
Me lembra um pouco a primeira temporada de Californication também... Às vezes é
isso... Sinto que se a vida não serve para nada, talvez possamos pelo menos nos
inspirar em outros solitários fictícios que também desperdiçam suas vidas
tentando fazer alguma coisa... Nem que seja ficar doidão e tentar aproveitar a
juventude, como quer fazer o meu amigo... Acho que cheirei cocaína a primeira
vez porque achava isso glamuroso, charmoso. Queria saber a sensação que dava...
Como o cigarro também... Fumei apenas porque achava lindo ver o Solid Snake
fumando... Queria ser como ele... Hoje, depois de ter zerado o Metal Gear Solid
4, percebo que talvez eu não queira me tornar um velho calado e solitário
depois de ter sofrido tanto como ele... e pior ainda, fumando dois maços de
cigarro por dia. Não! Definitivamente não quero isso para mim.
Voltamos
ao meio da algazarra, os hippies já estavam aloprados ao máximo. Em um dado
momento alguém começou a dedilhar Bohemian Rhapsody, eu eu, como sempre, no
auge de minha loucura não me contive, e cantei, e gritei, como se cada verso
expulsasse de mim um demônio diferente. Dancei como um louco, girando entre os
combustores da escadaria numa eterna coreografia ensaiada para a minha entrada
triunfal nos portões do inferno. Neste momento passou um velho de silhueta
ranzinza, passou quieto e nada disse, porém meu amigo que tocava, se encucou
por causa de que havia tomado regulagem por ter tocado até de manhã na terça
passada.
Neste
momento, Jean Paul mandou um garoto ir ao esconderijo compra mais da ninenine.
Um dos hippies era amigo da chilena, creio que era chileno também. O cara começou
a gastar horrores, ele estava tomando bombinha desde cedo. Ele começou a tocar
várias músicas e gritar bem auto. Comecei a perturbá-lo um pouco, achei
divertido fazê-lo, porém quando o chamei de Manu Chiao ele não gostou nem um
pouco.
-
Manu Ciao? Porra veio! – Disse ele.
Ali
parei de gastar com ele. Não queria arrumar briga uma hora daquelas, ainda mais
estando cheirado. Nesse momento o moleque voltou com a outra capsula. Subimos
novamente a escada. Mais uma vez, Jean Paul Jones patrocinava a alegria da
galera, ele realmente tinha prazer em fazer isso. Embora eu me mantenha sempre
desconfiado quando alguém banca drogas, eu observava com bastante atenção as
expressões de Jean Paul e não notava nele nenhuma malícia em relação a nós. Ele
realmente emanava uma aura pura de bondade, eu olhava e via alguém em busca de
redenção, sei lá... Me lembrava tanto alguém que eu conhecia e esta lembrança
começava a me incomodar...
A
madrugada já ia se acentuando, a gringa continuava pedindo música atrás de música:
Chega de Saudade, Tristeza e Solidão, O Canto de Yemanjá... Já estava me cansando
de tanta lamúria... Perguntei então a ele se ele sabia tocar Refazenda... Ele
disse que sim... Em meio àquela gringaiada toda ninguém acompanhou a música...
Ficamos só eu e ele cantando baixinho enquanto todos faziam barulho e prestavam
atenção em outras coisas. Neste momento eu pensava em você com todo o meu
coração... Me lembrei que há poucos dias você postara uma fotografia do meu
livro ao lado de um abacate miúdo, que aberto formava a imagem de um coração.
Até hoje não sei o que significava aquela foto em concomitância com a frase da
canção... Mas isso parece que é outro dos segredos perpétuos de tua provocante
sedução... Ao fim da música me dou conta que será mesmo impossível esquecer
você... Minha amiga mais especial...
Lá
para as duas da madrugada cheiramos a quarta carreirinha. A minha mente
funcionava alucinadamente rápida. Já tinha bebido além do meu limite talvez,
mas eu queria mais, muito mais... Queria mais uma vez desafiar os limites deste
corpo mortal. Queria ver se aquele entorpecente seria capaz de me carregar para
as estrelas... Um doce envenenamento que minha ilusão me proporcionava. Os
franceses infelizmente tiveram que se despedir. Porém o marido dela foi até
Alex e comprou mais cinco latões de Skin e nos deu. Os hippies já estavam todos
muito loucos, já havíamos fumado tantos baseados que eu já tinha perdido a
conta. O cara que estava tomando bombinha já estava vomitando também. Tinha
perdido o dom da fala, bem, pelo menos a parte inteligível desta. A francesa
então se despediu cantando e subiu a Ladeira do Carmo e nunca mais foi vista.
Vendo
a animação do renovar de suprimentos, Jean Paul Jones resolveu ir pegar mais
uma cápsula. Era por volta das duas e quarenta quando cheiramos a quinta
carreirinha daquele pó, talvez o melhor que cheirei no Pelourinho. Já estávamos
todos muito loucos, mas Jean Paul não perdia aquele nobre semblante que
procurava a todo custo estar perto de pessoas. Ele então começou a repetir
coisas que me delineavam a silhueta de sua imensa solidão. Falou alguma coisa
sobre o lugar onde ele está dormindo e sobre ele não ter preocupações para
amanhã, só o que importa é o agora. E este agora precisava parecer infinito o
máximo possível.
A
essa altura já havia conversado bastante com a chilena. Comecei então a recitar
um poema do Neruda, o problema que o poema era imenso e acho que sua atenção
dispersou em algum momento do poema. Então passei a aumentar o volume e, como o
de costume acabei gritando pra caralho. Meu amigo quase teve um surto.
-Oh
vey! Não grita, não! O coroa vai se retar porra e esse coroa é brabo!
Eu
não havia percebido que o velho havia passado novamente rumo a casa dele, que
era do lado. E certamente não só ele, mais toda a vizinhança, se sentiria
furiosa se tivesse uma trupe bêbada e drogada fazendo farra sob suas sacadas às
três horas da manhã. Pouco tempo depois meu amigo largou definitivamente o
violão, não sei se porque se cansou de tocar ou se porque sua musa principal tinha
ido embora, talvez um pouco dos dois. Ele passou o violão para a chilena, que
começou a tocar divinamente.
Saí
para urinar e quando voltei eles estavam preparando a última carreira Só
fizeram três, o que significava que eu ia ficar de fora desta vez. Porém Jean
Paul resolveu dividir a dele comigo, algo que talvez eu nunca tenha visto numa
roda de cheiradores de pó. Nós cheiramos então... devemos ter curtido também a
última cerveja, foi o tempo da minha solidão apertar tanto que tentei queixar a
chilena... Em vão por fim... Ela não tinha interesse... Nesse momento o amigo
dela ficou realmente muito mal e saiu como um louco descendo rumo à Ladeira do
Taboão. Fomos atrás dele para evitar que algum mal acontecesse. O encontramos
largado no chão, vomitando e se deitando por cima do próprio vômito. Uma cena
deplorável para um ser humano, uma cena que eu já estava tão acostumado em
fazer parte que já não me comovia mais...
Ela
então decidiu leva-lo para casa, a noite havia acabado para ela, e ao que tudo
indicava para nós também. Meu amigo resolveu que era hora de partir, pois com
ela ia talvez a sua chance de acabar na cama com uma gata. Não sei, naquele
momento me pareceu que podia ter rolado um clima entre os dois e eu não havia
me dado conta. De qualquer forma, achei também que já era hora de partir. Jean
Paul Jones insistiu para que ela não fosse embora, mesmo assim ela foi, mas
quando meu amigo me perguntou se íamos nos sair, Jean Paul Jones deu uma
singela coçada na barba e disse:
-
Poxa, vamos ficar mais um pouco caras! Ainda tá cedo! E eu não vou conseguir
dormir agora mesmo. Não tenho nada para fazer até de manhã, podemos comprar
outra daquela e ficar de boa por aí.
-
Não, Jean Paul. Acho que já deu cara, eu to cansado já. – Disse meu amigo.
Eu
estava indeciso, uma parte de mim queria cheirar mais, comecei a ficar com pena
de Jean Paul. Fomos subindo o Largo do Pelourinho. Jean Paul se ofereceu então
para ir conosco até o Terreiro de Jesus. Veio conversando o caminho todo
enquanto eu e meu amigo permanecíamos em quase silêncio absoluto. Estávamos
mesmo cansados. A encruzilhada do Benín estava como sempre, abarrotada de
moradores de rua, signo máximo de nossa derrota civilizatória, onde a
desigualdade e o descaso gritam mais profundamente o seu silencioso brado...
Ninguém está nas ruas a este horário para ver os horrores pelos quais somos
ainda responsáveis... Onde a Colonização nos fez pagar um alto preço. Onde a
miséria, o abandono e a morte certa nos faz querer drogar-se ainda mais.
Jean
Paul não parava de falar numa voz melancólica de despedida. Não sei, já faz
muito tempo que isso aconteceu, não consigo mais me lembrar do que ele disse
exatamente, porém, sei que aquilo me marcou profundamente porque as imagens se
gravaram muito fortemente em minha cabeça. Ali, naquele momento eu finalmente
pude saber quem ele me lembrava. Ele me lembrava a mim... Era a imagem
escarrada da solidão envelhecida que eu trazia aqui por dentro... Era a imagem
do medo que eu carrego de terminar minha vida como ele... Ou de pelo menos
atingir a meia idade com o coração carcomido de tanto vazio... Terminando
minhas noites sem ninguém, sem nenhum abraço ou consolo... Nada! Apenas um
corpo entorpecido agonizando por qualquer companhia que fosse... Afinal, porque
eu ainda estava ali naquele horário? Correndo riscos, tentando fugir da minha
dor, tentando esquecer alguém que não vai se apagar da minha cabeça só porque
bebi demais, ou me droguei demais... Não... Eu não posso continuar assim...
Quando
chegamos perto do Terreiro, aquele outro poeta doido de muletas apareceu. Não
sei da onde veio, sei apenas que encontrou conosco e assim Jean Paul Jones e
ele se uniram para continuar a noite. Ao despedir-nos, olhei bem profundamente
nos olhos de Jean Paul Jones uma última vez, dei-lhe um abraço apertado e
disse:
-
Obrigado por tudo, cara! Você é realmente um sujeito bastante especial. Sua
aura é muito bonita, de verdade.
Seguimos
para casa. A rua vazia, só a miséria e a malandragem a habitam a essa hora da
noite. Mas nós não temíamos isso... Éramos parte, causa e efeito disso tudo...
Éramos tão miseráveis como aquela noite... Não havia mais espaço para temermos
a morte... O que poderia ser pior do que desejar uma vida inteira assim? Pelo
menos isso era o que passava pela minha cabeça autodestrutiva. Não sei, acho
que meu amigo pensava diferente, mas preferi ficar em silêncio o caminho quase
todo. Ao passarmos na Carlos Gomes sempre preferimos quebrar na ladeira que dá
pra Rua do Sodré. Passamos pelo Museu de Arte Sacra e quebramos na rua da Casa
Preta. Ali, precisamente ali um vagabundo apareceu. Vinha marrento olhando pra
gente, como numa cena de Velho Oeste, nossos olhos se apertaram e ele nos
parou:
-
Colé playboizada, vai representar a família ou não?
-
Rapaz, a gente ta vindo de pé, de boa, você acha que a gente tem alguma coisa
pra você? – Disse o meu amigo, eu permaneci calado observando e imaginando
possibilidades de ação, mas de alguma forma, eu sabia que aquele cara estava
armado. Talvez pelo olhar, não sei direito, a postura, o horário de ele estar
na rua com aquela marra toda, não é para qualquer vagabundo... E de alguma
forma, já tinha vivido muito tempo na rua pra saber disso.
-
E se eu meter a mão? – Disse ele.
-
Eu lhe dou uma broca! – Disse meu amigo.
Momento
de tensão, o cara levou a mão à cintura, e os dois ficaram se olhando um tempo,
alguns segundos que pareceram muito mais tempo. E então o meu amigo disse:
-
Rapaz, você não vai me deixar ir pra casa hoje não é?
O
cara parou, pensou um pouco, descansou a mão e disse:
-
Nenhuma, vá lá rasta!
Nós
enfim seguimos em silêncio absoluto. O resto do caminho só serviu para eu
observar pela milésima vez na minha vida! Como aquela vida era sinistra...
Quantos riscos eu corria por quase nada... Apenas para ser mais um registrador
deste mundo que ninguém quer realmente ver ou saber como é... Um mundo de
homens com tão pouco a perder que já não dão mais nenhum valor à vida...
Ao
chegarmos no Campo Grande, meu amigo e eu nos despedimos. Ele seguiu para o
Corredor da Vitória. Eu ainda enfrentaria uma longa jornada até a Federação...
De longe eu ainda olhei pra ele. Esguio, altivo, parecia um gigante caminhando
tranquilo entre um Jardim das Hespérides noturno, rumo à árvore dos frutos
dourados do amanhã... Para tentar de novo, tentar novamente galgar algumas
mordidas na carne da maçã proibida da felicidade...
Quanto
a mim... Me esqueci de mim durante o resto do caminho... Não havia nenhuma
escuridão que me apavorasse mais do que aquela que há tantos anos já trazia
comigo... Se eu desisti? Não! De certa forma ardia em meu peito uma
esperançazinha vã... Um certo grito... Um amor guardado para alguém... Uma
coisa que crescia e era mais forte do que aquela escuridão maldita... Alguma
força motriz que gritava e dizia para mim...
Já
não quero ser assim...
