quinta-feira, 22 de julho de 2021

Terceiro Pino: Cap III, pt 2

Terceiro Pino – Ninenine II: Jean Paul Jones 


No bar do Alex eu já percebia minhas faculdades mentais perfeitamente atrofiadas, levantei para ir ao banheiro e percebi que estava bêbado, me lembrei que não havia comido nada, mas já não interessava, pois ali nenhuma fome me visitaria mais. Fui admirar a podridão daquele banheiro sujo, inscrições de todo tipo, ofensas, palavrões, comentários desnecessariamente machistas. É incrível que homens adultos sejam capazes de tanta idiotice. É nojento ter apenas uma mínima ideia do que se passa nas nossas cabeças nestas horas de profundo escuro e vazio de alma. Me despedi do vaso e saí.

- E ai? Vamo lá em cima? Preciso ver se arranjo uma gata hoje. – Me diz ele.

- É, vamos nessa!

No caminho paramos para observar um batuque daqueles habituais do pelourinho, onde as gringas param para admirar a beleza nativa e ficam encantadas com o talento selvagem dos afros tambores ancestrais (até nos faz esquecer de que esse batuque militarizado é muito mais do colonizador do que africano, nos faz até esquecer dos milhares de instrumentos de corda e de sopro oriundos da África, enfim, nos faz esquecer de tudo). Ficamos ali, meu amigo cercando as gringas e eu tentando entender o que cabe a mim naquele furdunço todo. Nessa hora, um cara bem chato, destes poetas de rua meio malandro, aproximou-se de muleta e colou na gente, falou horas de besteiras que não prestei muita atenção. Acabamos indo os três para uma daquelas ruas encruzilhadas do Pêlo, ali onde tem um bar velhinho que fica socado de gente.

Lá nos encontramos de novo com aquela minha amiga. Ela nos convidou para dançar. Meu amigo não quis, é bem tímido ao que parece. Ela ficou desapontada, é claro. Eu aceitei o convite. Entrei lá e comecei a sambar loucamente, com uns passos esquisitos e uns giros malucos que só a contemporaneidade, a falta de noção, a desimportância favorita que guardo para a opinião dos outros e o néctar da embriaguês conseguem produzir. As pessoas olhavam, davam risadas, talvez até criticassem, mas por alguma razão, no fundo sabia que elas me invejavam. Talvez invejassem meu trabalho corporal, minha desenvoltura, talvez invejassem o balançar de minhas roupas coloridas, ou talvez apenas invejassem a minha coragem de estar ali, dançando para mim, sem nenhuma intenção de agradar ninguém além de mim mesmo.

Saí, meu amigo admirou:

- Porra, você dança mesmo heim?

- Não posso evitar, é que quando bebo, ao que parece me torno leonino demais. – Disse a ele. Neste momento percebi que ele estava com uma gata do lado, uma francesa majestosa, parecendo realmente que havia sido feita com as mãos por um artífice divino.

- Oui. – Ela me cumprimentou com um oi afrancesado que me permitiu logo saber sua nacionalidade.

Estendeu a mão e pude sentir a maciez sublime daquela mão sedosa e alva, quase de mentira. Dava para perceber logo que aquela mão jamais pegou numa atividade pesada, era a mão de alguém da elite francesa. Ela voltou a conversar euforicamente com o meu amigo. Enquanto isso eu continuei ali como se não estivesse, apenas admirando aquela beleza fenomenal. De repente aparece o marido dela com algumas cervejas na mão. Ele ofereceu a todos e ficou faltando a minha, obviamente não tinha contado comigo. Logo meu amigo se apressou a me apresentar.

- Gente esse aqui é o Dois Nomes, é um poeta daqui.

- Ah! Muito prazer. – Disse ele com seu sotaque.

Ele então me ofereceu um copo de sua própria cerveja e então eu resolvi voltar para dançar. Fui dançar com aquela minha amiga do início da noite. Conversei um pouco com ela e, depois de um tempo, acabei perguntando qual era o seu signo. E ai ela me disse.

- Ah... Adivinha! Aquele com S.

Hahaha! De imediato comecei pensar uma porção de coisas e continuei a conversa crente que se tratava de alguém de Escorpião. Não sei porque isso veio tão forte na minha cabeça louca. Escorpião só é com s em inglês. Hoje está muito mais claro para mim o quanto o álcool atrapalha em muito o meu raciocínio. Só depois de muitos minutos de conversa e de algumas gafes charlatanescas sobre o zodíaco é que vim me dar conta do meu imenso equívoco interpretativo. Somente quando ela de novo não parava de olhar pro meu amigo e perguntar coisas sobre ele. Enfim, ela não era mesmo para mim aquela noite. Eu definitivamente não tenho mais paciência para chavecações, portanto, encerrei aquela conversa mui amigavelmente.

Voltei para fora do bar, desta vez o gringo me comprou uma cerveja. Eles estavam agora acompanhados também de uma chilena, muito bonita também. Todos conversavam alegremente e sorriam muito. Descobri que haviam se conhecido dias antes. Todos eles tinham amanhecido o dia na Escadaria do Paço, lugar de bastante frequência do meu amigo. Nossa, bebemos muito neste lugar até que a francesa, saudosa dos acordes do meu amigo, o convenceu de irmos até a Escadaria para que ele tocasse pra ela.

- Vamo lá! Eu compro mais bebida pra gente. – Disse ela tentando convencê-lo a tocar, acontece que ele é meio tímido, não gosta de tocar pra muita gente. Só quando realmente vale a pena.

Chegamos ao Paço e tinha uma galera de hippies lá fazendo a maior algazarra. A maioria se conhecia e meu amigo conheceu muitos deles nas noites passadas.  A francesa logo mandou seu marido ir comprar bebidas. Ele veio com uns dez latões de Skin e umas quatro garrafas de São Jorge. Meu amigo pegou o violão e a gringa não parava de pedir uma música atrás da outra. Queria ouvir o repertório da música brasileira mais vendida entre o alto escalão internacional. Músicas de Tom Jobim que boa parte dos brasileiros não conhecem: Baden Powell, Vinícius de Moraes, Toquinho. Para mim, ficava claro que meu amigo enjoou logo daquelas músicas, toda hora ele trazia outra música pra quebrar o clima.

Nesse momento, um homem de meia idade vem subindo as escadas. Meu amigo para de tocar e grita entusiasmado:

- Grande Jean Paul Jones! Chegue mais meu velho.

Fiquei por um tempo fitando o cara que levava o apelido do mundialmente famoso baixista do Led Zeppelin. Jean Paul Jones se aproximou e cumprimentou todo mundo cortesmente. Ele tinha um falar muito gentil, um tanto rouco e pra dentro, muito parecido com o Mutley do desenho animando. Era alguém que demonstrava gentileza e boas intenções em todos seus movimentos. Sentou-se e ficou também curtindo a música e bebendo junto conosco.

Não tardou e escutei um cochicho entre meu amigo, ele e a chilena. Alguma coisa sobre cocaína. Levantaram e foram subindo as escadas. Eu, como um viciado compulsivo olhava aquela cena com um olhar de cachorro pidão. Meu amigo, em determinado momento da escada olhou para mim e fez um singelo sinal com a cabeça. Me aproximei, meu amigo disse a Jean Paul:

- Esse daí é brodão, já curti várias aventuras com esse cara, no Rio, em Góias também e no Rio Grande do Sul. Já cheiramos várias cocaínas junto.

- Pode crer! Amigo nosso então! – Disse Jean Paul com sua voz rouca e um singelo sorriso com suas rugas de canto de boca.

A gringa preparou os quatro raios. Jean Paul havia dado a ela um grande pino, deu pra fazer quatro carreiras bem servidas. Eu esperei que todos cheirassem. Ela foi a primeira, meu amigo depois, Jean Paul pediu para que eu fosse, eu insisti que era a vez dele. Então, eu cheirei... Nossa! A divina picada do diabo... A sensação pura da autodestruição tomava conta de mim... O pó é mesmo fantástico para quem se dá com ele... Manda a locomotiva vapor da mente vibrar aos mil orifícios que nos embalam ao Hades... Rimos, ficamos criativos, falantes, e a noite vibra solta como uma criança solta num parque de dimensões de desenho animado... Quando vimos já estávamos cantando sucessos antigos do axé...

Mas o que mais me intrigava era a figura alegre e animada do Jean Paul... Sempre com um singelo sorriso enrugado... Contente, conversador... Contando casos... Cantando as músicas... Bebendo mais... Animando a galera... Correndo na carruagem da noite como se tentasse retrocedê-la a fim de que a manhã nunca chegasse...

A francesa se divertia, o marido dela não percebia os olhares de desejo secretos que ela lançava ao rapaz alto de dreads que tocava o violão... Também, ela permaneceu toda a noite bebendo pouco, fumando muitos Marlboro Vermelhos e mantendo sua discrição impecável... Ela jamais passaria daquilo, singelos olhares de admiração por aquele ariano bonito... O gringo, seu marido, também era um amor de pessoa, tratava todos bem, mas não falava nada, aparentemente não entendia as músicas também... Apenas ficava lá se balançando e bebendo... Conversei um pouco com ele em inglês, eles vinham de Lyon e estavam casados há dois meses e resolveram vir conhecer o Brasil.

Não demorou muito até que fossemos novamente ao topo da escadaria esvaziar o primeiro pino. Desta vez o meu amigo preparou... pediu meus cartões emprestado. Jean Paul Jones realmente parecia muito feliz de estar ali conosco, como se fossemos todos velhos amigos, eu olhava intrigado bem fundo no semblante dele e percebia uma solidão amuada... Daquelas que se apegam tão fundo na gente que é quase impossível se imaginar sem ela... E eu me perguntava, quem é esse cara? Qual é o seu verdadeiro nome? Por que ele mexe tanto comigo? Nossa, ele me lembra tanto alguém que eu conheço, mas não consigo de forma alguma me lembrar quem...

Bem, eu, como sempre prefiro ser o último, com certeza para poder passar o cigarro no que sobrar na superfície do cartão... Acho que andei vendo filmes demais... Me lembra um pouco a primeira temporada de Californication também... Às vezes é isso... Sinto que se a vida não serve para nada, talvez possamos pelo menos nos inspirar em outros solitários fictícios que também desperdiçam suas vidas tentando fazer alguma coisa... Nem que seja ficar doidão e tentar aproveitar a juventude, como quer fazer o meu amigo... Acho que cheirei cocaína a primeira vez porque achava isso glamuroso, charmoso. Queria saber a sensação que dava... Como o cigarro também... Fumei apenas porque achava lindo ver o Solid Snake fumando... Queria ser como ele... Hoje, depois de ter zerado o Metal Gear Solid 4, percebo que talvez eu não queira me tornar um velho calado e solitário depois de ter sofrido tanto como ele... e pior ainda, fumando dois maços de cigarro por dia. Não! Definitivamente não quero isso para mim.

Voltamos ao meio da algazarra, os hippies já estavam aloprados ao máximo. Em um dado momento alguém começou a dedilhar Bohemian Rhapsody, eu eu, como sempre, no auge de minha loucura não me contive, e cantei, e gritei, como se cada verso expulsasse de mim um demônio diferente. Dancei como um louco, girando entre os combustores da escadaria numa eterna coreografia ensaiada para a minha entrada triunfal nos portões do inferno. Neste momento passou um velho de silhueta ranzinza, passou quieto e nada disse, porém meu amigo que tocava, se encucou por causa de que havia tomado regulagem por ter tocado até de manhã na terça passada.

Neste momento, Jean Paul mandou um garoto ir ao esconderijo compra mais da ninenine. Um dos hippies era amigo da chilena, creio que era chileno também. O cara começou a gastar horrores, ele estava tomando bombinha desde cedo. Ele começou a tocar várias músicas e gritar bem auto. Comecei a perturbá-lo um pouco, achei divertido fazê-lo, porém quando o chamei de Manu Chiao ele não gostou nem um pouco.

- Manu Ciao? Porra veio! – Disse ele.

Ali parei de gastar com ele. Não queria arrumar briga uma hora daquelas, ainda mais estando cheirado. Nesse momento o moleque voltou com a outra capsula. Subimos novamente a escada. Mais uma vez, Jean Paul Jones patrocinava a alegria da galera, ele realmente tinha prazer em fazer isso. Embora eu me mantenha sempre desconfiado quando alguém banca drogas, eu observava com bastante atenção as expressões de Jean Paul e não notava nele nenhuma malícia em relação a nós. Ele realmente emanava uma aura pura de bondade, eu olhava e via alguém em busca de redenção, sei lá... Me lembrava tanto alguém que eu conhecia e esta lembrança começava a me incomodar...

A madrugada já ia se acentuando, a gringa continuava pedindo música atrás de música: Chega de Saudade, Tristeza e Solidão, O Canto de Yemanjá... Já estava me cansando de tanta lamúria... Perguntei então a ele se ele sabia tocar Refazenda... Ele disse que sim... Em meio àquela gringaiada toda ninguém acompanhou a música... Ficamos só eu e ele cantando baixinho enquanto todos faziam barulho e prestavam atenção em outras coisas. Neste momento eu pensava em você com todo o meu coração... Me lembrei que há poucos dias você postara uma fotografia do meu livro ao lado de um abacate miúdo, que aberto formava a imagem de um coração. Até hoje não sei o que significava aquela foto em concomitância com a frase da canção... Mas isso parece que é outro dos segredos perpétuos de tua provocante sedução... Ao fim da música me dou conta que será mesmo impossível esquecer você... Minha amiga mais especial...

Lá para as duas da madrugada cheiramos a quarta carreirinha. A minha mente funcionava alucinadamente rápida. Já tinha bebido além do meu limite talvez, mas eu queria mais, muito mais... Queria mais uma vez desafiar os limites deste corpo mortal. Queria ver se aquele entorpecente seria capaz de me carregar para as estrelas... Um doce envenenamento que minha ilusão me proporcionava. Os franceses infelizmente tiveram que se despedir. Porém o marido dela foi até Alex e comprou mais cinco latões de Skin e nos deu. Os hippies já estavam todos muito loucos, já havíamos fumado tantos baseados que eu já tinha perdido a conta. O cara que estava tomando bombinha já estava vomitando também. Tinha perdido o dom da fala, bem, pelo menos a parte inteligível desta. A francesa então se despediu cantando e subiu a Ladeira do Carmo e nunca mais foi vista.

Vendo a animação do renovar de suprimentos, Jean Paul Jones resolveu ir pegar mais uma cápsula. Era por volta das duas e quarenta quando cheiramos a quinta carreirinha daquele pó, talvez o melhor que cheirei no Pelourinho. Já estávamos todos muito loucos, mas Jean Paul não perdia aquele nobre semblante que procurava a todo custo estar perto de pessoas. Ele então começou a repetir coisas que me delineavam a silhueta de sua imensa solidão. Falou alguma coisa sobre o lugar onde ele está dormindo e sobre ele não ter preocupações para amanhã, só o que importa é o agora. E este agora precisava parecer infinito o máximo possível.

A essa altura já havia conversado bastante com a chilena. Comecei então a recitar um poema do Neruda, o problema que o poema era imenso e acho que sua atenção dispersou em algum momento do poema. Então passei a aumentar o volume e, como o de costume acabei gritando pra caralho. Meu amigo quase teve um surto.

-Oh vey! Não grita, não! O coroa vai se retar porra e esse coroa é brabo!

Eu não havia percebido que o velho havia passado novamente rumo a casa dele, que era do lado. E certamente não só ele, mais toda a vizinhança, se sentiria furiosa se tivesse uma trupe bêbada e drogada fazendo farra sob suas sacadas às três horas da manhã. Pouco tempo depois meu amigo largou definitivamente o violão, não sei se porque se cansou de tocar ou se porque sua musa principal tinha ido embora, talvez um pouco dos dois. Ele passou o violão para a chilena, que começou a tocar divinamente.

Saí para urinar e quando voltei eles estavam preparando a última carreira Só fizeram três, o que significava que eu ia ficar de fora desta vez. Porém Jean Paul resolveu dividir a dele comigo, algo que talvez eu nunca tenha visto numa roda de cheiradores de pó. Nós cheiramos então... devemos ter curtido também a última cerveja, foi o tempo da minha solidão apertar tanto que tentei queixar a chilena... Em vão por fim... Ela não tinha interesse... Nesse momento o amigo dela ficou realmente muito mal e saiu como um louco descendo rumo à Ladeira do Taboão. Fomos atrás dele para evitar que algum mal acontecesse. O encontramos largado no chão, vomitando e se deitando por cima do próprio vômito. Uma cena deplorável para um ser humano, uma cena que eu já estava tão acostumado em fazer parte que já não me comovia mais...

Ela então decidiu leva-lo para casa, a noite havia acabado para ela, e ao que tudo indicava para nós também. Meu amigo resolveu que era hora de partir, pois com ela ia talvez a sua chance de acabar na cama com uma gata. Não sei, naquele momento me pareceu que podia ter rolado um clima entre os dois e eu não havia me dado conta. De qualquer forma, achei também que já era hora de partir. Jean Paul Jones insistiu para que ela não fosse embora, mesmo assim ela foi, mas quando meu amigo me perguntou se íamos nos sair, Jean Paul Jones deu uma singela coçada na barba e disse:

- Poxa, vamos ficar mais um pouco caras! Ainda tá cedo! E eu não vou conseguir dormir agora mesmo. Não tenho nada para fazer até de manhã, podemos comprar outra daquela e ficar de boa por aí.

- Não, Jean Paul. Acho que já deu cara, eu to cansado já. – Disse meu amigo.

Eu estava indeciso, uma parte de mim queria cheirar mais, comecei a ficar com pena de Jean Paul. Fomos subindo o Largo do Pelourinho. Jean Paul se ofereceu então para ir conosco até o Terreiro de Jesus. Veio conversando o caminho todo enquanto eu e meu amigo permanecíamos em quase silêncio absoluto. Estávamos mesmo cansados. A encruzilhada do Benín estava como sempre, abarrotada de moradores de rua, signo máximo de nossa derrota civilizatória, onde a desigualdade e o descaso gritam mais profundamente o seu silencioso brado... Ninguém está nas ruas a este horário para ver os horrores pelos quais somos ainda responsáveis... Onde a Colonização nos fez pagar um alto preço. Onde a miséria, o abandono e a morte certa nos faz querer drogar-se ainda mais.

Jean Paul não parava de falar numa voz melancólica de despedida. Não sei, já faz muito tempo que isso aconteceu, não consigo mais me lembrar do que ele disse exatamente, porém, sei que aquilo me marcou profundamente porque as imagens se gravaram muito fortemente em minha cabeça. Ali, naquele momento eu finalmente pude saber quem ele me lembrava. Ele me lembrava a mim... Era a imagem escarrada da solidão envelhecida que eu trazia aqui por dentro... Era a imagem do medo que eu carrego de terminar minha vida como ele... Ou de pelo menos atingir a meia idade com o coração carcomido de tanto vazio... Terminando minhas noites sem ninguém, sem nenhum abraço ou consolo... Nada! Apenas um corpo entorpecido agonizando por qualquer companhia que fosse... Afinal, porque eu ainda estava ali naquele horário? Correndo riscos, tentando fugir da minha dor, tentando esquecer alguém que não vai se apagar da minha cabeça só porque bebi demais, ou me droguei demais... Não... Eu não posso continuar assim...

Quando chegamos perto do Terreiro, aquele outro poeta doido de muletas apareceu. Não sei da onde veio, sei apenas que encontrou conosco e assim Jean Paul Jones e ele se uniram para continuar a noite. Ao despedir-nos, olhei bem profundamente nos olhos de Jean Paul Jones uma última vez, dei-lhe um abraço apertado e disse:

- Obrigado por tudo, cara! Você é realmente um sujeito bastante especial. Sua aura é muito bonita, de verdade.

Seguimos para casa. A rua vazia, só a miséria e a malandragem a habitam a essa hora da noite. Mas nós não temíamos isso... Éramos parte, causa e efeito disso tudo... Éramos tão miseráveis como aquela noite... Não havia mais espaço para temermos a morte... O que poderia ser pior do que desejar uma vida inteira assim? Pelo menos isso era o que passava pela minha cabeça autodestrutiva. Não sei, acho que meu amigo pensava diferente, mas preferi ficar em silêncio o caminho quase todo. Ao passarmos na Carlos Gomes sempre preferimos quebrar na ladeira que dá pra Rua do Sodré. Passamos pelo Museu de Arte Sacra e quebramos na rua da Casa Preta. Ali, precisamente ali um vagabundo apareceu. Vinha marrento olhando pra gente, como numa cena de Velho Oeste, nossos olhos se apertaram e ele nos parou:

- Colé playboizada, vai representar a família ou não?

- Rapaz, a gente ta vindo de pé, de boa, você acha que a gente tem alguma coisa pra você? – Disse o meu amigo, eu permaneci calado observando e imaginando possibilidades de ação, mas de alguma forma, eu sabia que aquele cara estava armado. Talvez pelo olhar, não sei direito, a postura, o horário de ele estar na rua com aquela marra toda, não é para qualquer vagabundo... E de alguma forma, já tinha vivido muito tempo na rua pra saber disso.

- E se eu meter a mão? – Disse ele.

- Eu lhe dou uma broca! – Disse meu amigo.

Momento de tensão, o cara levou a mão à cintura, e os dois ficaram se olhando um tempo, alguns segundos que pareceram muito mais tempo. E então o meu amigo disse:

- Rapaz, você não vai me deixar ir pra casa hoje não é?

O cara parou, pensou um pouco, descansou a mão e disse:

- Nenhuma, vá lá rasta!

Nós enfim seguimos em silêncio absoluto. O resto do caminho só serviu para eu observar pela milésima vez na minha vida! Como aquela vida era sinistra... Quantos riscos eu corria por quase nada... Apenas para ser mais um registrador deste mundo que ninguém quer realmente ver ou saber como é... Um mundo de homens com tão pouco a perder que já não dão mais nenhum valor à vida...

Ao chegarmos no Campo Grande, meu amigo e eu nos despedimos. Ele seguiu para o Corredor da Vitória. Eu ainda enfrentaria uma longa jornada até a Federação... De longe eu ainda olhei pra ele. Esguio, altivo, parecia um gigante caminhando tranquilo entre um Jardim das Hespérides noturno, rumo à árvore dos frutos dourados do amanhã... Para tentar de novo, tentar novamente galgar algumas mordidas na carne da maçã proibida da felicidade...

Quanto a mim... Me esqueci de mim durante o resto do caminho... Não havia nenhuma escuridão que me apavorasse mais do que aquela que há tantos anos já trazia comigo... Se eu desisti? Não! De certa forma ardia em meu peito uma esperançazinha vã... Um certo grito... Um amor guardado para alguém... Uma coisa que crescia e era mais forte do que aquela escuridão maldita... Alguma força motriz que gritava e dizia para mim...

Já não quero ser assim...

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Os Três Pinos: Cap III, pt 1

 

Terceiro Pino – NineNine I : Caprinos e Ovinos

 

Me despedi de todas aquelas pessoas queridas e saí daquele singelo templo perdido entre as ruas do Pelourinho. Ao sair, me deparei com um concerto de violeiros ao pé do Cruzeiro de São Francisco. Encontrei um amigo que não via há algum tempo. Um ariano de carteira assinada, com certeza, do tipo que vive todos os momentos da vida queimando ao máximo a chama que arde ainda em sua juventude alucinada. 

- E ai Dois Nomes, tudo beleza? – Me cumprimenta ele.

- To ai vivendo. O Pelourinho está meio sombrio hoje, não? Vazio, estou aqui decidindo se vou para casa ou não. Você tem um trevo ai?

Eu sabia que ele sempre tinha trevo e, toda vez que me retiro daquele lugar tão calmo, me sinto tão sufocado em minha própria sujeira espiritual que ela novamente me toca para as ruas maculadas por todo o ódio colonial que abateu a história deste país em desgraça, vício, qualquer tipo de fuga que permitisse ao seu povo oprimido encontrar outros motivos para continuar vivendo... Nem que fosse apenas mais uma festa, mais um sorriso de uma preta... Mais um porre para acalentar esse vazio imenso que trazemos na alma.

Ficamos ali um tempo ouvindo as violas e o pandeiro. Logo percebi uma preta dançando, ela carregava um sorriso conhecido. Cheguei até ela e cumprimentei-a, não vale a pena rememorar o que conversamos, não foi nada demais, até porque ela desde pronto botou os olhos no meu amigo e, para variar, eu era apenas mais um esquecido caindo no colo da noite. Conversamos os três, enquanto os amigos dela estavam sentados. Mas ela queria dançar, e eu ainda não tinha bebido nada, nenhum combustível forte o suficiente para me transportar de volta para minha terra onde tudo posso, onde sou o rei louco que nada teme. Ali, naquele Pelourinho sombrio eu era apenas mais um errante viciado em emoções fortes e drogas baratas da pior espécie.

Nos despedimos da moça e de seus amigos, provavelmente nos encontraríamos de novo logo, o Pelourinho acaba por ser um lugar pequeno, habitado por milhares de fantasmas de todas as espécies. Descemos o Largo onde os escravos eram castigados, como bem relembra aquela música do Cae... Subimos a Ladeira do Carmo e rumamos para a Escadaria do Paço. Lá encontramos uma trupe de artistas mambembes, viajantes de diversos lugares. Conversamos um pouco, mas nenhuma droga foi oferecida. Estávamos ávidos pela busca de algo quando resolvemos subir a escada e ir no Buk Porão Bar. Ao subirmos, notei singelamente meu amigo se abaixar e retirar do chão alguma coisa que sabia no ato que era preciosa para dois errantes notívagos como nós. Ele encontrará um tíquete da felicidade:

- Você viu isso cara? – Perguntou-me

- Sim! Quanto era?

- Dez reais. Vamos na tia.

- Mas é claro.

Rumamos em silêncio por algum tempo quando ele retomou a fala de maneira um tanto pesarosa.

- Poxa, eu acho que essa grana era daquele cara que saiu do bar logo quando eu achei a grana. Estou com um pouco de remorso. Eu vi que ele saiu olhando pro chão, deve ter tirado alguma coisa do bolso e a grana caiu. Deve ter tentado pagar a entrada e percebeu que tava sem a grana e voltou pra procurar, sei lá.

De fato um sujeito saiu mesmo do bar na hora em que ele pegou a grana. O cara meio que viu ele se levantando com algo na mão e notei um certo olhar inquiridor e meio desapontado. Talvez tenha tido até a vontade de dizer alguma coisa do tipo, hey cara, esse dinheiro é meu. No entanto não disse nada, talvez tenha pensado que vacilou, ou talvez ainda tenha trepidado frente à dúvida de ser mesmo o dinheiro dele o que meu amigo tinha na mão. Na pior das hipóteses teria evitado o mal estar de uma confusão. Bom, eu não duvido nenhum pouco de que, se tivesse pedido na moral, meu amigo não teria hesitado em devolvê-lo. De qualquer forma, logo o ariano chegaria à conclusão mais consoladora para aquele momento:

- É, mas agora já era também neh? Já foi. Poderia ter perguntado se era dele, talvez fosse a última grana e tals, não queria ser responsável pela bad de ninguém. Mas essa grana também era o que a gente tava precisando, então, vamos usar isso de maneira que valha a pena. Vou comprar uma dolinha de cinco e podemos comprar um São Jorge de três e ainda sobra dois reais. – Refletiu.

- É! Acho que achamos a grana por algum motivo, não acho que nada aconteça a toa. Talvez o cara tenha perdido a grana porque tinha que perder, e nós achamos porque tínhamos que achar. Todas as experiências são válidas para vida. Ganhar e perder são duas faces da mesma moeda. E eu ainda tenho umas moedas aqui, somando tudo devem dar uns três reais. – Foi o que eu disse a ele.

Então fomos até o ponto de venda do narcótico que precisávamos para acalentar aquela noite. O lugar é simples, uma casa grande, pra muita gente, de aparência normal. Quem comanda tudo é uma matriarca, velhinha, de cabelos brancos, com vários dentes faltando. Ela demonstra um olhar frio e sério, de quem já sofreu um monte na vida, mas faz o que precisa fazer para manter o que tem e permanecer neste mundo, aprendendo, ensinando, vivendo. Ela nos vende uma prensada,ou “emprensada” como alguns costumam chamar. É uma maconha quase de mentira, dessas que socam todo tipo de coisa para conservar; ácido de bateria, amônia, gasolina, às vezes vai até um pipizinho pra dar um sabor. Um lixo de péssima qualidade que o nosso tempo fabricou para que nós acreditássemos que era necessário para a nossa felicidade. Algo que o mar de confusão e desespero no qual fomos jogados nos faz acreditar facilmente de que esta necessidade é real...

Voltamos para a escadaria, mas antes disso resolvemos passar no Alex e comprar aquele saboroso coquetel de merda que só serve para entorpecer o que já há de pior no raciocínio dos homens. Assim não temos tempo para pensar no real potencial do espírito humano, não sobra força o suficiente para que sequer acreditemos na existência da alma, e então nos perdemos, jogados ser corda no posso vazio do esquecimento de quem realmente somos. Luz e Estrelas dispersas na noite sombria da carne e no frio dos ossos... Nada mais do que corpos vagando em busca de anestésicos pros nervos... Sem esperança de poder ainda em vida encontrar o caminho de volta para a casa eterna da felicidade... Lá onde habita o Verdadeiro Eu... O Eu Superior... Aquele e Aquela que não tem nomes, porque simplesmente É Tudo o que Existe, Existiu e Sempre Existirá... Assim fechamos os olhos ainda mais, perdemos a conexão e nos perdemos nos ópios ébrios de uma cidade repleta de corações despedaçados...

Conversamos um pouco sobre coisas da vida, sobre nossa idade, sobre objetivos, felicidade, até chegarmos por fim em amores. Eu tinha então vinte e sete anos, meu amigo tinha trinta e dois. Falei a ele de minha constante vontade de abandonar aquele estilo de vida, meus excessos com as drogas, a busca constante por uma costela. Ele discordava, pensava mesmo que um homem tinha que aproveitar sua juventude, para ele não havia nada mais gostoso do que estar com uma gata nova sempre que podia. Por esta razão ele sempre ia ao Pelourinho, ia à caça, e como era rasta, para ele não era difícil chamar atenção de uma gringa. Eu disse então que estava à procura de me aquietar, encontrar alguém que me fizesse parar de rastejar sob as sombras da noite e pudesse começar a ficar em casa, em paz com minhas razões para escrever.

Ele me disse que foi muito apaixonado uma vez, por uma capricorniana, ele não sabia meu signo e por isso começou a falar os males de Capricórnio. Percebi logo que ele, como a maioria das pessoas, não sabia muita coisa sobre esse povo. Disse muitas coisas que superficialmente é verdade, porém concentrou-se na parte de que ela gostava de dinheiro, que queria alguém que lhe proporcionasse essa segurança. Enfim, não sei nada dela, não há conheço, mas não acredito que os capricornianos achem sua segurança real na grana. Acho realmente que ela o deixou por outras razões.

- Pois eh, ela foi embora e nunca mais me deu um oi. Sumiu! Desapareceu! Vi uma vez na rua, mas eu não era ninguém para ela. – Ele me confessou!

E nesse momento eu pensei em todas as pessoas que eu deixei. Acredito que sempre as vejo na rua através de minha visão mais periférica. Quase sempre as vejo, ou as procuro no facebook, as namoro em segredo. Mas por alguma razão acabo sempre guardando o melhor dentro de mim, porque o pior delas ainda me maltrata muito e já não tenho razões para cavucar as minhas dores, elas, ao que parece, gostam de se coçar sozinhas, sem o menor dos meus comandos. Acho mesmo que ela se decepcionou com ele de alguma forma muito além do material. Mas isso é algo que ele nunca saberá. O povo do Bode Expiatório que foi enviado sozinho para o deserto é um povo muito sentimental e ressentido no fundo. Acho que na verdade temos medo de continuar sofrendo por alguém que não merece, tal como o povo de Israel, Isaac e Jacó, é verdade, está na Bíblia, pode olhar, hahaha. Eles Tiveram todos os seus pecados perdoados depois de mandarem o seu Bode para morrer e mesmo assim ainda continuam destruindo, enganando e matando em nome do seu Deus.  

Sei que nada disso parece fazer nenhum sentido mesmo... Hahahahaha!... Mas se escrevo em enigmas... é certamente porque tenho medo do infinito... E o infinito, minha cara... É tudo o que é de mais sagrado que consigo ver quando olho o fundo dos teus olhos castanhos... Vejo um mundo nobre e altivo, tão lindo que me enche de um terror maravilhoso... Não sei mesmo o que fazer diante de tanta imensidão...

- Eu também sou de Capricórnio. – Disse pra ele por fim.

- Ah! Poxa, você é de Capricórnio, poderia me falar algumas coisas disso. – E ficamos algum tempo lá, falando sobre signos essas coisas. Infelizmente não sabia muita coisa sobre mim mesmo.

Estávamos chapados, resolvemos descer a escada e tomar um litrão de Cristal no bar do Alex... Já não me lembro de todas as coisas que conversamos, lembro-me apenas de ter ficado observando a rua, os bêbados. Havia gente lá que estava naquela penumbra há anos. Vi um coroa de cabelos e barbas longas, desgrenhadas, brancas, maltratadas pelo tempo. Ele tinha um olhar sério e um semblante esvaziando junto com o copo. Amarguras, talvez? Ou indiferença frente à opressão imposta pela vida? Não sei, para mim me parece que é impossível haver genuína indiferença com ajuda da cachaça. Para mim, não há plenitude se ainda existe o desejo de se entorpecer... Para mim ainda são apenas personagens sendo representados neste teatro de mentira... Só não sabemos como escapar disso tudo.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Os Três Pinos: Cap II, pt 2

 

Segundo Pino - Raio II: Os Olhos do Macaco Ancestral



Subimos até a loja onde a apresentação acontecerá... Já podemos observar algumas pessoas festejando... Uma pequena roda de capoeira exibe a vontade e a alegria daquelas pessoas em fantasiar a suprema beleza do mundo... As crianças sorriem e por um momento eu finjo me esquecer de todo o tormento que passo por me sentir tão solitário no universo... De ser uma criança sempre em busca da sensação de completude e que sempre voltou em vão a si mesmo para chorar o mar de incompreensão que todos percebem em minhas palavras confusas... Tal como estas que proferi agora... Tal como toda sensação que tento partilhar ao mundo... Ninguém soube, sabe, ou saberá a sensação que tive ao ver aquelas crianças brincando... Quis poder me transformar no mais sublime e pomposo macaco, para que pudesse dar a elas uma tarde inesquecível e que pudesse somar-se a todas as tardes que passei em vão procurando algum propósito por insistir em continuar vivendo...

Felipe ainda não havia chegado... Cumprimentei outras pessoas que me eram familiares... Pessoas que também compunham aquele teatro, mas nunca brinquei com eles porque sou de visitações mais antigas... Alguém que se afastou desta função porque não é nada agradável, ou melhor, não é suportável brincar com as crianças ao passo que destruo todas as noites o meu corpo e meu espírito com todos os meus excessos... A verdade é que sou uma pessoa atormentada, que às vezes, somente às vezes consegue se equilibrar o suficiente e se manter limpo por alguns dias... A menina me sorri... Ela é linda... Não vou dizer o nome dela... Só posso dizer que é atriz... Vegetariana... E que tenho boas lembranças dela de vários lugares... Embora tenha a grave impressão de que ela não se lembra direito dos acontecimentos... hahahhaha! Sigamos...

Então Felipe chega... Temos que buscar os bois no estacionamento... O problema é que não podemos chamar atenção dentro de um Shopping tão sofisticado... Não podemos transitar todos juntos com bois tão amáveis e coloridos... Enfim... Nos dividimos... Dois para cada elevador... E as pessoas nos encaram como figuras alienígenas ali... Enfim... Conseguiram um camarim para nós... Os fundos da loja... Mas não podemos trocar de roupa ali... Ao que parece, os humanos não conseguem mais recuperar a naturalidade de ver o corpo do outro sem temê-lo ou desejá-lo... E é pra isso que existem os provadores... Para que ninguém veja as vergonhas de ninguém... Haha!... Ahh! Como eu queria que minhas vergonhas ficassem assim todas expostas como minha careca ou como uma cicatriz mal curada de uma queimadura... Mas minhas vergonhas são outras marcas que só eu vejo... Que não tenho ninguém com quem dividir... Que não posso falar... As coisas que me assustam... Que me fazer querer ainda, depois de tanto tempo... Acabar com esta minha existência impúbere que me impede de viver livremente no tempo presente... Eu visto a pele do macaco por cima da minha roupa... Não tirei minhas vergonhas... Permaneço com elas o tempo todo na esperança que exista por ai algum elixir que pudesse purgá-las...

Enquanto todos estão nos provadores, se vestindo, se maquiando, passando argila nas caras... Eu me sento, só, no camarim improvisado... Visto finalmente a máscara pesada... A outra, que eu usava antigamente, era mais leve, mais ágil, feita de pano e de borracha, era perfeita para meus saltos e giros e piruetas de peralta crescido... Esta não, era grande, dura, difícil de respirar, difícil de enxergar e muito... muito mais quente do que a outra... Mas era o meu fardo... Minha parcela de sacrifício do dia para o raiar do mundo melhor que tanto sonho...

Me sentei lá... Ereto... E meditei por alguns minutos...

Até que alguém entrou na sala e disse alguma coisa sobre minha postura fixa, ereta e concentrada... “Ta entrando no personagem”... Coisas assim... Enfim... São frases tão comuns que às vezes eu não as ouço direito... Logo todos começam a se aquecer (quase todos utilizando a capoeira angola para tal)... Eu faço também, meio sem gosto, sem vontade... Sou claramente um macaco trágico... Brinco, perturbo, mas me canso sempre e me sento e faço o que quero... Como um bom macaco peralta que não vê muito sentido na lógica insincera dos humanos...

Finalmente fomos pra a frente da loja fazer o show... No começo as pessoas ficaram acanhadas, olhando de longe... O boiadeiro canta... Ehhh boiada! Ehh boi! O Macaco investiga o espaço, observa as peças que estão à venda... Para do lado de uma moça que via uma caricatura do Gilberto Gil... Ahhh! Gilberto Gil... Se tu soubesse o que se esconde por dentro do coração deste macaco!!! Se tu pudesses dizer a ela tudo o que eu sinto quando ouço as tuas músicas... Mas eu não posso dizer... O Macaco Ancestral é uma figura muda... Ele brinca sem o direito de proferir a verdade do que sente... Pois a verdade causa dano demasiado... E isso Ele deixa a cargo dos humanos...

As crianças logo chegam e interagem com o Macaco... Algumas têm medo... Outras querem tocar na máscara... O macaco finge que espirra toda vez que tocam na sua cara... Não preciso dizer que teve uma menininha que adorou esta façanha de fazê-lo espirar... hahaha! Outra até arrancou os dentes do macaco... Outra criança adorava lhe bater na cabeça... Mas o Macaco é paciente... Sabe que algumas coisas só precisam de tempo... Que uma hora os tapas não doerão mais... Nunca mais... Sua alma já calejou da violência e agora espera calmo a hora do amor... Se não vier... Não faz mal... Ele já apanhou tanto que prefere esperar assim mesmo...

Às vezes Ele se divertia... Brincava, dançava... Convencia a todos de sua alegria... Pois lá também havia uma Burrinha... A linda atriz que já conhecia se metamorfoseara e de vez em quando vinha pedir a companhia daquele macaco louco para uma dança... O macaco adorava sua companhia... A maneira como ela bailava e rodopiava sorrindo... Uma certa vez o Macaco enlouqueceu e saiu rodopiando... Uma criança tropeçou no rabo do Macaco e caiu... A Burrinha então lhe disse!

- Tuidado! Macaco! Tuidado! Dança com tuidado, viu!

O Macaco envergonhou-se... Só queria ser livre como o vento... Mas esqueceu-se de que o vento também traz ruína... Sobretudo para o próprio vento, pois depois que se arrasta tudo... Não sobra nada para sentir o perfume... Nenhuma fragrância... Só poeira e entulho... E pedra sobre pedregulho... Metáforas inconstantes de uma solidão inacabável...

Como inacabável também parecia aquele negócio... Foi difícil ficar atrás daquela máscara por tanto tempo... Neste dia mais do que nunca... Por dentro da boca se podia ver os olhos tristes que habitavam aquele macaco... Às vezes estes olhos paravam em frente ao espelho e davam uma boa fitada no universo por dentro daquelas retinas cansadas... É muito difícil manter esse esforço de ser feliz... A felicidade cobra um preço muito alto para quem não tem par nisto tudo neste mundo... Ninguém! Nem uma única pessoa viva parece entender a grandiosidade das loucuras que sinto... Das idéias que tenho... Ou de como o amor, este sentimento tão negligenciado por todos, invade o meu coração e me arrebenta sempre com motivos de impossibilidades... E é este impossível que me desafia a continuar acreditando que algo deve ser feito... Mas o que? Pelo amor de qualquer deus ou demônio jamais inventado... O Que Posso Eu Fazer Diante Disso Tudo?

Nada! Eu nada posso! Nada sou! E nada significo para ninguém que tenha experimentado este meu amor incompreensível...

Se fosse o meu ódio... Se fosse o meu desprezo... Ou se fosse minha maldade...

Ah! Ai sim eu sei que teria algum efeito... Já senti o efeito disso tudo... As pessoas não esquecem... As pessoas nunca deixam de denunciar os seus sintomas quando passam por mim... Ainda está presente nos olhos... Elas ainda cheiram aos sentimentos pérfidos que derramei sobre elas durante minhas outras vidas... Mas é só... É só o que se pode ficar de mim atados nas almas daquelas que de fato amei...

Torno agora e engulo estes olhos pela boca do macaco... o show acabou... A senhora da loja pede para tirar uma foto com... Quem é esse mesmo?

- É o Macaco Ancestral! - Responde um amigo.

- Ah! Que jóia! Vem família toda! Vem tirar foto com o Macaco Ancestral...

A foto deve ter saído bonita... Pois eu fechei aquela boca de onde só saia tristeza... Ninguém pôde ver os olhos onde brilhavam aquela dor de uma solidão tão antiga quanto o Tempo...