Segundo Pino – Raio Um: A
Dança da Solidão
Bati com força a aldrava da Porta Verde... Uma linda moça de turbante apareceu... Seu nome é Kinda, uma jovem realmente muito bonita... Ela me deixou entrar... Me desfiz de minhas sandálias sujas e entrei limpando cuidadosamente meus pés nos tapetes ao longo das escadas... Era um ambiente muito hermético, limpo, seguro dos ácidos tão abundantes do mundo lá de fora... Ali tudo respira paz... É tudo muito colorido e quieto...
Só
que dá pra ouvir ainda a turbulência do dia lá de fora... Os batuques do
Pelô... O tiozinho que toca violão na porta do restaurante ao lado... E que
canta dezenas de músicas que me transportam imediatamente até Você... E é por
isso que aqui eu me sinto triste... Me sinto triste porque pareço ter perdido
todas as oportunidades de ser seu como eu gostaria... De te apresentar estas
canções, ou novos lugares como este, ou te mostrar todos os poemas inacabados,
acabados ou os infinitos outros que ainda tenho por fazer... Fico triste porque
me obrigo a estar aqui para ver se me sinto um pouco melhor... Mas não me sinto...
Eu me sento no chão e escondo do mundo a minha imensa vontade de chorar...
Somado
a isso tudo tem a fome... Fiquei sentado um tempo e depois deitei no chão e
fiquei lá... Parado... Sem me mexer por quase meia hora... Viajei pra longe,
consegui descansar um pouco desta minha realidade carregada de solidão e de
tormento... Sou desperto então pela voz de Kinda me chamando para comer...
Quando abro os olhos, percebo uma música que não conhecia, mas traduzia
exatamente tudo o que eu estava sentindo... Eu pergunto a ela:
-
Você conhece essa música?
-
Sim! – Responde ela, - Acho que é Românticos, de Vander Lee...
-
Ah! Acho melhor eu anotar. – E tomando do meu caderninho, somei aquela canção à
imensa lista de coisas que me trazem Você à memória...
A
comida é posta na mesa... Linda... Sem carne... Tudo é orgânico... Nada é
programado para nos destruir... O gosto, a textura, tudo vem até a boca na
intenção de fortalecer e recuperar a anima de quem está doente da vida... “Que
o teu remédio seja a tua comida, que a tua comida seja o teu remédio...”... E
de fato posso dizer que me senti um pouco melhor depois daquilo...
À
mesa, o garoto das Laranjeiras pergunta a Felipe se aquela garota do outro dia
(não adianta perguntar, eu também não vi) era a mãe da filha dele... Ele disse
que não... Hahahaha! O que vocês não sabem é que... A paixão da vida de Felipe
também se chama Fullana (não Fullana de Tal, apenas Fullana...), com dois ll’s
e tudo, igualzinho ao Seu... Fico
pensando em coisas absurdas, imagens que minha cabeça me obriga a ver... Penso
no nosso antigo pacto de um dia termos um filho... Só que depois de todas as
loucuras que eu cometo em nome do Amor... Será que merecerei essa honra... Eu
lanço meus olhares pra Felipe e penso o quanto ele sofre por não estar com
ela... Às vezes eu penso notar seus ares de tristeza profunda... Que ele
esconde por traz do seu lindo sorriso de Serpente de Terra (sim ele é meu irmão
astral segundo os chineses)... Mas por fim eu penso que pelo menos ele deve ser
feliz por partilhar da companhia de outro universo nascido da união com a sua pessoa
amada...
E
eu? O que tenho além de naufrágios e incertezas?
Esperanças???
Só as que me mordem... Mas ninguém me daria algo assim... Todas as minhas
viagens são sem retorno... Sinto-me só uma pedra chutada ladeira abaixo para
ver se atrapalha o caminho de outra pessoa que tentava andar tranquilamente...
Termino
de comer e vou me deitar de novo... O tiozinho agora ta tocando alguma coisa de
Djavan... Não importa a música, eu nem quero prestar atenção agora porque sei
que vai doer... Quer algo que mexa mais com um romântico do que o que Djavan
diz? Hahaha! Não consegui deitar em posição meditativa agora, me debrucei como
um feto e dormi um pouco... Logo mais levantei para me preparar para a
viagem... A apresentação aconteceria dentro do Shopping Salvador...
Colocamos
tudo em um carro e depois pedimos um Uber... O motorista chegou e eu me sentei
no banco de trás, exatamente no meio... Fui espremido entre dois caras e três
berimbaus... O caminho era longo e com possíveis engarrafamentos... Eles
conversaram sobre muitas coisas enquanto eu permaneci calado o tempo todo, me
deixando sobrevoar sobre os prédios das vias desta cidade onde tanto já sofri
(e fui feliz, mas isto é o fator que agrava qualquer dos meus sofrimentos)...
Tive que ouvir absurdos e generalizações que o cara à minha esquerda
proferiu... Disse que para ele todo muçulmano era terrorista... Que se visse um
na rua ele sairia correndo e que dava vontade de dar um pau em todos... Kinda
discordou... Disse que generalizar daquele jeito era pura ignorância... O rapaz
das Laranjeiras, à minha direita, disse que o Corão também era retrógrado igual
à Bíblia... Kinda foi a única que protestou, dizendo que também havia algo ali
que pregasse a paz... A discussão continuou implacável enquanto eu meditava nos
acontecimentos da minha vida e no fato de nunca ter sido compreendido por
pessoa alguma... Acho que está chegando a hora de aprender a permanecer em
absoluto... Silêncio...
Vejo
por todos os lados, em todas os lugares de fala, o ódio como elemento
prolífero... Queria que as pessoas à minha volta odiassem menos, se
estressassem menos... Que causassem menos dano à sua máquina... Que amassem
mais... Ouvissem mais... Entendessem mais... Por Deus! Queria que pelo menos
alguém soubesse o quanto me esforço todos os dias para amar as pessoas como
elas são... Para que elas sejam um pouco mais tolerantes e compreensivas comigo
como tento ser com elas... Tento ouvir... Tento compreender... Mas no meu
íntimo eu sinto que meu amor é insuficiente para o mundo... Que tenho que
aprender ainda mais para continuar aqui... Que vivo uma batalha solitária...
Uma dança sem coreografia, sem ritmo, sem música... Apenas um dançarino
esquecido dentro deste tabuleiro louco onde o infinito grita em busca de
esperança...
E
o carro chega ao imenso estacionamento daquele shopping imensamente vazio...
Onde as pessoas consomem coisas... Onde tudo se perde antes mesmo de ser
encontrado... Onde eu sou apenas mais um entre milhões de pessoas que frequentam
aquele espaço no fluxo sem graça do consumo... Cheguei ali e é a mesma coisa de
não ter chegado... Eu ainda moro dentro dos muros de minha consciência atormentada
pelo meu fracasso...
