domingo, 23 de agosto de 2020

Os Três Pinos: Cap II, pt 1


Segundo Pino – Raio Um: A Dança da Solidão


Bati com força a aldrava da Porta Verde... Uma linda moça de turbante apareceu... Seu nome é Kinda, uma jovem realmente muito bonita... Ela me deixou entrar... Me desfiz de minhas sandálias sujas e entrei limpando cuidadosamente meus pés nos tapetes ao longo das escadas... Era um ambiente muito hermético, limpo, seguro dos ácidos tão abundantes do mundo lá de fora... Ali tudo respira paz... É tudo muito colorido e quieto...

Só que dá pra ouvir ainda a turbulência do dia lá de fora... Os batuques do Pelô... O tiozinho que toca violão na porta do restaurante ao lado... E que canta dezenas de músicas que me transportam imediatamente até Você... E é por isso que aqui eu me sinto triste... Me sinto triste porque pareço ter perdido todas as oportunidades de ser seu como eu gostaria... De te apresentar estas canções, ou novos lugares como este, ou te mostrar todos os poemas inacabados, acabados ou os infinitos outros que ainda tenho por fazer... Fico triste porque me obrigo a estar aqui para ver se me sinto um pouco melhor... Mas não me sinto... Eu me sento no chão e escondo do mundo a minha imensa vontade de chorar...

Somado a isso tudo tem a fome... Fiquei sentado um tempo e depois deitei no chão e fiquei lá... Parado... Sem me mexer por quase meia hora... Viajei pra longe, consegui descansar um pouco desta minha realidade carregada de solidão e de tormento... Sou desperto então pela voz de Kinda me chamando para comer... Quando abro os olhos, percebo uma música que não conhecia, mas traduzia exatamente tudo o que eu estava sentindo... Eu pergunto a ela:

- Você conhece essa música?

- Sim! – Responde ela, - Acho que é Românticos, de Vander Lee...

- Ah! Acho melhor eu anotar. – E tomando do meu caderninho, somei aquela canção à imensa lista de coisas que me trazem Você à memória...

A comida é posta na mesa... Linda... Sem carne... Tudo é orgânico... Nada é programado para nos destruir... O gosto, a textura, tudo vem até a boca na intenção de fortalecer e recuperar a anima de quem está doente da vida... “Que o teu remédio seja a tua comida, que a tua comida seja o teu remédio...”... E de fato posso dizer que me senti um pouco melhor depois daquilo...

À mesa, o garoto das Laranjeiras pergunta a Felipe se aquela garota do outro dia (não adianta perguntar, eu também não vi) era a mãe da filha dele... Ele disse que não... Hahahaha! O que vocês não sabem é que... A paixão da vida de Felipe também se chama Fullana (não Fullana de Tal, apenas Fullana...), com dois ll’s e tudo, igualzinho  ao Seu... Fico pensando em coisas absurdas, imagens que minha cabeça me obriga a ver... Penso no nosso antigo pacto de um dia termos um filho... Só que depois de todas as loucuras que eu cometo em nome do Amor... Será que merecerei essa honra... Eu lanço meus olhares pra Felipe e penso o quanto ele sofre por não estar com ela... Às vezes eu penso notar seus ares de tristeza profunda... Que ele esconde por traz do seu lindo sorriso de Serpente de Terra (sim ele é meu irmão astral segundo os chineses)... Mas por fim eu penso que pelo menos ele deve ser feliz por partilhar da companhia de outro universo nascido da união com a sua pessoa amada...

E eu? O que tenho além de naufrágios e incertezas?

Esperanças??? Só as que me mordem... Mas ninguém me daria algo assim... Todas as minhas viagens são sem retorno... Sinto-me só uma pedra chutada ladeira abaixo para ver se atrapalha o caminho de outra pessoa que tentava andar tranquilamente...

Termino de comer e vou me deitar de novo... O tiozinho agora ta tocando alguma coisa de Djavan... Não importa a música, eu nem quero prestar atenção agora porque sei que vai doer... Quer algo que mexa mais com um romântico do que o que Djavan diz? Hahaha! Não consegui deitar em posição meditativa agora, me debrucei como um feto e dormi um pouco... Logo mais levantei para me preparar para a viagem... A apresentação aconteceria dentro do Shopping Salvador...

Colocamos tudo em um carro e depois pedimos um Uber... O motorista chegou e eu me sentei no banco de trás, exatamente no meio... Fui espremido entre dois caras e três berimbaus... O caminho era longo e com possíveis engarrafamentos... Eles conversaram sobre muitas coisas enquanto eu permaneci calado o tempo todo, me deixando sobrevoar sobre os prédios das vias desta cidade onde tanto já sofri (e fui feliz, mas isto é o fator que agrava qualquer dos meus sofrimentos)... Tive que ouvir absurdos e generalizações que o cara à minha esquerda proferiu... Disse que para ele todo muçulmano era terrorista... Que se visse um na rua ele sairia correndo e que dava vontade de dar um pau em todos... Kinda discordou... Disse que generalizar daquele jeito era pura ignorância... O rapaz das Laranjeiras, à minha direita, disse que o Corão também era retrógrado igual à Bíblia... Kinda foi a única que protestou, dizendo que também havia algo ali que pregasse a paz... A discussão continuou implacável enquanto eu meditava nos acontecimentos da minha vida e no fato de nunca ter sido compreendido por pessoa alguma... Acho que está chegando a hora de aprender a permanecer em absoluto... Silêncio...

Vejo por todos os lados, em todas os lugares de fala, o ódio como elemento prolífero... Queria que as pessoas à minha volta odiassem menos, se estressassem menos... Que causassem menos dano à sua máquina... Que amassem mais... Ouvissem mais... Entendessem mais... Por Deus! Queria que pelo menos alguém soubesse o quanto me esforço todos os dias para amar as pessoas como elas são... Para que elas sejam um pouco mais tolerantes e compreensivas comigo como tento ser com elas... Tento ouvir... Tento compreender... Mas no meu íntimo eu sinto que meu amor é insuficiente para o mundo... Que tenho que aprender ainda mais para continuar aqui... Que vivo uma batalha solitária... Uma dança sem coreografia, sem ritmo, sem música... Apenas um dançarino esquecido dentro deste tabuleiro louco onde o infinito grita em busca de esperança...

E o carro chega ao imenso estacionamento daquele shopping imensamente vazio... Onde as pessoas consomem coisas... Onde tudo se perde antes mesmo de ser encontrado... Onde eu sou apenas mais um entre milhões de pessoas que frequentam aquele espaço no fluxo sem graça do consumo... Cheguei ali e é a mesma coisa de não ter chegado... Eu ainda moro dentro dos muros de minha consciência atormentada pelo meu fracasso...

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Os Dragões de Minha Infância

 


Tanto me vem à cabeça quando penso no passado. São imagens confusas de símbolos e letras que não sei bem como me foram incutidas. Sei que tive uma tia professora e um tio tenebroso, homem malvado que me incutia terrores psicológicos pelo simples derrubar de um copo de vidro que se fragmentava pelo chão como minhas próprias memórias se fazem agora.

Minha tia, muito carinhosa, me apresentava as primeiras letras quando meu tio não estava em casa, pois quando estava ele gostava de brigar, se gabar de que era o mais inteligente e que ninguém sabia de nada tão bem quanto ele e em meio às lições eu sempre me perguntava o que fazia uma mulher tão boa aguentar um ser tão bruto. Enfim, este é apenas um fragmento, como o dia em que quebrei a cabeça tentando olhar a chuva pela porta da sala da casa onde nasci na pequena cidade de Planalto, Bahia. Me lembro de um pequeno diálogo infrutífero com minha avó:

- Oh minha vó, deixa eu ver a chuva. – ao que ela retrucou.

- Não, num vai ver diaxo de chuva nenhuma não que vai ficar doente.

E o choro infantil sensibilizou mainha da porta que dava pro quintal:

- Vem meu fí, vem ver a chuva aqui no terreiro.

E a criança de sorriso largo indo de orelha a orelha correu. Não deu muitos passos, o chão de cimento queimado usava uma cera vermelha e em dias de chuva também gostava de se refrescar debaixo das goteiras. Tropecei e tudo que ouvi foi um zunido interno desligando meu sistema nervoso daquela dor monstruosa que parecia sentir minha mãe ao olhar para mim em prantos e dizer em voz alta:

- Ohh meu Jesus! Meu fi vai morrer...

E correu comigo nos braços, um pano enrolado se manchara de algo que eu, aos três anos de idade, ainda não conhecia em tal proporção. Hoje minha mãe ainda diz que dava para ver meu cérebro pelo rombo que o batente fez na minha testa. A mim, sei que nada me importava, pois pude sentir as gotas de chuva respingarem no meu rosto enquanto o carro do socorro me veio buscar. Minha mãe não me deixou dormir e lembro-me do caminhão da Sadia do lado chuvoso do carro. Apontei e disse:

- Olha mainha, o caminhão da Sadia.

Minha mãe admirada com minha coragem frente ao ferimento disse:

- Como é que você sabe que é da Sadia, meu filho?

- É por causa daquele S que aparece junto com o frango no comercial, mainha.

As coisas aconteceram como num passe de mágica. Não sei separar muito bem as vicissitudes dos dias entre minhas primeiras letras, o rombo da minha cabeça, a morte da minha avó e o dia em que meu tio tomou da minha mãe a casa onde eu nasci e nos levou para morar na casa dele. Ele disse que não queria meus irmãos mais velhos e os mandou para a casa do pai em Itabuna. Minha mãe logo enlouqueceu segundo a medicina ocidental. Levaram anos para diagnosticá-la esquizofrênica, outros dizem que ela é médium, ela diz que ouve vozes... Eu... Bem... Eu não tenho mais nada a dizer sobre isso. Apenas que não deu certo morarmos com esse tio malvado.

Mudamos também para Itabuna, onde minha mãe teve uma ajuda de cem reais do ex-marido. Com esses cem reais ela comprava comida e alugava um dois-comodos num cortiço cuja pia de pratos, a pia de lavar roupas e o banheiro era divido com outras 13 famílias. Lembro-me dos primeiros anos em que dormíamos eu, minha irmã, meu irmão e minha mãe emaranhados como gatos num mesmo colchão cercado pela bagunça das coisas que pudemos trazer da vida antiga.

Foi neste mesmo cortiço que, talvez embalado pela tristeza de ficar muitas oras naquele lugar, pedi a minha mãe que me levasse para o colégio. Então aos 6 anos de idade minha mãe, decrepita pelo uso dos sossega leões que aliviavam sua doença na década de noventa, me levou até o colégio, o “Lions”. O verdadeiro nome do colégio eu não me lembro, acho que ninguém sabe, mas o colégio era uma parceria municipal com o Lions Clube Internacional, e por isso tinha um símbolo bem grande de dois leões com essa palavra escrita bem grande e aquilo na minha vista de criança era como uma quimera, ou melhor, como um brasão gigante daquele castelo mágico.

Sim, minha escola parecia um castelo. Tinha várias salas de aula com grades, algumas até pareciam com masmorras e tinham escotilhas para calabouços secretos que era para aonde eu acho que iam os prisioneiros mais perigosos que às vezes aprontavam tanto que sumiam do colégio. Ela era murada com um muro bem alto que circundava todo o colégio, como parecem os castelos nos desenhos da Disney e coisa e tal. E eu era o aprendiz de cavaleiro que rodeava correndo durante todos os recreios aqueles muros com o objetivo de defendê-lo dos dragões e monstros que poderiam vir ataca-lo. Hoje a Universidade ainda me parece um reino gigantesco e cheio de castelos poderosos, mas infelizmente os dragões são bem maiores e a Universidade é um reduto muito mais difícil de ser defendido, até mesmo para as armas mais avançadas da imaginação de uma criança.

Foi nesta escola que recebi livros didáticos seminovos que haviam sido utilizados pelas turmas anteriores. Como não tinha dinheiro para comprar cadernos, ganhei da diretora aqueles cadernos pequenos de capa fina que sempre se soltavam depois de alguns dias de uso. Não tive a obrigação de ler os livros sobre ameaças das palmatórias ou pelos rigores da educação de Graciliano, quem dera eu ter tido a sorte de Ubaldo ao escrever seu texto cheio de memórias deliciosas a respeito da biblioteca de seu pai e suas falsas proibições... Infelizmente, para pessoas da minha laia todos os livros são proibidos, não por limites físicos inexpugnáveis, mas sim pelas barreiras sociais, históricas, pela cultura imposta às massas e por toda a violência que somos submetidos desde a infância.

Então eu lia só o que me agradasse... Lembro que gostava do livro de estudos sociais, alguma coisa de história e geografia me agradavam também, mas no geral eu não lia muito. Não houve tempo para isso. O problema da minha mãe se agravava, fora internada inúmeras vezes em poucos anos. O tempo que me sobrava fora da escola não me dava ânimo para estudar muito. Tive que aprender a me defender dos valentões da rua. Aprendi a roubar comida do mercado ou a ir comprar coisas para os vizinhos e adulterar os preços para lograr uns trocados... Até invadi as casas alheias para roubar panelas e cascos de cerveja para vender no outro bairro.

Houve um dia em que a caminho do colégio eu encontrei um pequeno pedaço de ferro pontiagudo com uma borracha preta ao redor que manchava tudo. Neste dia aconteceu alguma situação em que fiquei com raiva de um garoto que me disse alguma coisa e correu, o persegui, ele fechou a porta do pré-escolar, de repente eu saquei aquele ferro do bolso e comecei a esfaquear a porta com todo o meu ódio reprimido e gritar desesperadamente como se aquele fosse o corpo de todas as durezas que me estavam sendo impostas... Ela era a fome, a ausência de pai e de mãe, a indiferença dos meus irmãos, e sobretudo a minha falta de entendimento sobre tudo o que acontecia a mim e me fazia ser uma criança solitária, quieta e perdida no mundo. Não preciso dizer que fui detido na diretoria e que pensei que ia parar no calabouço. As professoras tentaram entender o que acontecera, não tiveram sucesso, porque nem mesmo eu entendia e ainda não entendo. Prefiro acreditar mesmo que foi apenas um ataque de ódio, mas alguma coisa me diz de que aquilo aconteceu mesmo porque tudo no mundo está errado e que não há magica ou espada forte o suficiente que possa consertá-lo.

Por não gostar muito de ler eu inventava minhas estórias na minha própria cabeça, meu maior tesouro dos oito anos foi um dos caderninhos sem capa que eu colori com nomes de letra de forma dizendo: “CADERNO DE POESIA”. Sim, eu encuquei com o mundo de que seria poeta. Nessa época eu morava na rua Castro Alves, nunca tinha lido, mas acho que algo da alma dele passou por ali e me afetou peremptoriamente. Eu escrevia coisas bobas sobre as flores, a chuva, o sol e o vento. Não me lembro, guardei por muito tempo esse caderno até que presenteei minha primeira namorada com aquela lembrança boa da infância simbolizando meu coração. Não sei do paradeiro dele ou dela, acho que o perdeu da mesma forma como eu a perdi, meio que sem querer.

Não me lembro mais quanto tempo se passou desde minha aventura de poeta ao ladrão de livros do meu tio, outro tio graças a Deus. Minha mãe, depois de muita luta conseguiu uma aposentadoria por invalidez, resultado de sua sabedoria ao lidar com sua própria adversidade. Ela, enquanto ouvia vozes, juntou dinheiro o suficiente para comprar um terreno numa favela e construir um barraco para onde nos mudamos. Lá eu não podia ficar na rua até tarde e nem queria. Resolvi mudar de vida, estava farto das longas conversas com amigos que me decepcionaram. Foi quando viajei para casa deste tio, que era padre, ele tinha diversos livros de faroeste e eu roubei um bocado e trouxe comigo quando voltei pra casa. Passava horas à luz de velas lendo o livro até que conseguimos ligar a luz elétrica. Não guardei muitos títulos daquelas obras desconhecidas, apenas os que eu mais gostava: “Não Atire no Pianista, que contava a história de um policial que se disfarçava de pianista e que e a gente só descobria isso no final do livro, como ninguém acha mais este livro e eu não faço ideia do nome do autor, não há risco de revelar spoilers; o outro era “Um Samurai no Oeste”, que obviamente contava a historia de um samurai do final do período Edo que viajou para a expansão do Oeste norteamericano, bem engenhoso devo confessar, talvez um dia eu escreva a história de um samurai que viajou no mesmo período para aprender alguma coisa com os povos indígenas do Brasil. Enfim, acho que este é um fragmento irrelevante para esta história.

Acho que foi por aí, em algum lugar dos meus treze anos que comecei a dedicar mais tempo aos momentos de leitura. Conheci as bancas de livros usados ao mesmo tempo que conheci os botecos que vendiam bebida para menores de dezoito anos. Comecei a beber vinho Dom Bosco e a ler literatura de faroeste em cima de árvores, uma mescla doida para uma criança não muito ajuizada, mas eis-me aqui contando esta história sem um pingo de tristeza, eu acho é graça porque nem um filme daria conta de uma história tão bonita, dos momentos intraduzíveis da descoberta dos gibis, dos mangás, do meu livro predileto, que contava a biografia de Isaac Newton de uma maneira bem engraçada, até que finalmente me surgiria esta ideia estapafúrdia de me tornar um escritor.

Ainda bem que na minha cabeça as ideias não são feitas de concreto, não há solidez e sim apenas fragmentos que se juntam e se dissipam para formar coisas novas. Não existe aqui dentro pretensões de riquezas ou de carreiras acadêmicas, não existe desejo de luxo ou avidez por fazer nada. Enquanto escrevo este texto existe apenas a próxima palavra regada pela visão turva de alguém que se recupera da ressaca de ontem e se prepara para entregar o texto daqui a pouco mais de duas horas. Não sei se cumpri o objetivo do trabalho ou se apenas devaneei em lembrar como cheguei até aqui, o que me importa pensar agora é que, como tudo na minha vida esta parece ser mais uma história que saiu de um livro louco, mágico e cheio de dragões em que posso voar e escrever como se estivesse lendo as coisas acontecendo.

 

Este texto foi produzido para a matéria de
Leitura e Produção em Língua Portuguesa,
cuja professora, a adorável senhora Alba Valéria,
exerceu com tanto esmero seu trabalho que
conseguiu inspirar uma pessoa no fim de uma depressão
a escrever algo tão libertador e bonito.
À todos os bons professores do Mundo,
meu mais fortíssimo agradecimento
.

Maycon Jhossys. Salvador-Ba, Setembro de 2019.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Os Três Pinos Cap I, pt 2

 

Primeiro Pino – Carreira Dois: Trópico de Capricórnio

 

    Depois do café, me despedi de minha amiga e fui pra casa... Passei para tomar um banho e arrumar as minhas coisas porque ainda iria pro trabalho... Depois do trabalho marquei com Felipe para participar do Teatro do Boi... Ou seja... Seria dia de trabalho e eu gosto de mentir para mim mesmo me fazendo acreditar que se eu ocupar demais a minha mente... Talvez se eu me encher de coisas pra fazer... Eu consiga não pensar tanto na minha solidão... Na minha rejeição... Nos meus amores incompreendidos... Ou no fato de eu sempre estar rodeado de pessoas e mesmo assim me sentir tão vazio por dentro... Mas é tudo mentira... Minha mente não consegue me deixar esquecer-se disso quando estou assim... Até quando estou de fato feliz... Mesmo quando estou feliz, a outra parte de mim me faz questão de lembrar que esta é uma felicidade incompartilhável... E não importa o quanto eu invista minhas forças em outros afazeres... Eu sou um maldito romântico... Não existe nada que consuma mais da minha energia do que este anjo decaído a quem chamam Amor...

    Catei as moedas e fui... Faço aquele caminho que fizemos no carnaval... Fico me perguntando quantas vezes eu já não me arrastei por esta estrada pensando no meu fracasso... Aliás... Fico pensando em quantas vezes eu não me arrastei por toda a cidade revisitando as lembranças de beijos, declarações de afetos... Tardes passadas em Museus, praias, cinemas, praças... Noites de Jazz, música e poesia... Fico pensando em todas estas esquinas e coisas que me convencem mesmo de que sou um completo fracassado nesse negócio de amar... Por todo lado onde me viro nesta cidade eu percebo o quanto eu já sofri aqui... O quanto me sinto só... Porque nunca antes havia encontrado tantas pessoas que se importassem comigo, mas que mesmo assim não podem alcançar os meus segredos... Aqueles segredos que não sei como dizer... Aquela ajuda que não sei como pedir... Aquele colo na calada da noite que... ninguém parece sentir que eu seja merecedor...

    Cheguei cedo ao trabalho... Tinha muita vontade de tomar uma cerveja, mas as moedas não eram suficientes... Lá não tinha nada pra fazer... Fiquei mais uma vez no facebook... Postando coisas que tentassem extravasar um pouco da minha angústia... Que talvez, por um milagre tosco do destino, fizesse com que ela me stalkeasse daqui a alguns anos e descobrisse o quanto foi tola por me deixar sofrer tanto... hahahaha! Eu sou mesmo um maldito sonhador... Acho que são essas coisas que fazem as pessoas pensarem que sou um lunático... Mas o que eu posso fazer se eu sou assim? Não quero machucar ninguém... Só quero que as pessoas entendam que eu estou sofrendo e não sei o que fazer para isso melhorar... Já fui ao psicólogo e a sua dosagem foi considerada insuficiente... Eu preciso de drogas muito mais fortes... Em doses cavalares... Caso contrário eu não consigo, na maioria das vezes, nem mesmo sorrir...

    Perto do almoço, eu ainda estava tirando os últimos resquícios da invisível maquinação viva que eu aprontei por aqui para ver se conseguia mostrar a ela que eu sou incrível... Que eu poderia mover as montanhas que ela escolhesse e carregá-las sobre minhas costas se ela me pedisse... Isso tudo dói tanto... Porque sei que fazendo isso eu só me torno um pouco mais especial para mim mesmo... As outras pessoas não chegam nem a saber qual é a minha importância nisso tudo... As pessoas não gostam de homens como eu... Metidos a gênios... Que enchem o saco para que as coisas se movimentem... Que odeiam coisas mal acabadas... Que não conseguem sossegar enquanto ainda percebem qualquer brecha na parede do impossível... E é por isso que depois de tanta dor eu ainda sobrevivo... Acho que é por isso... Porque enquanto eu ainda respirar... Vou continuar tentando ser feliz... Mesmo que todos continuem insistindo em me mostrar que isso é impossível para mim...

    E até que você me ofereça outra saída, meu bem... Ou até que feche completamente tuas paredes para mim... Até lá... Eu sei que vou sofrer... Sozinho para que ninguém mais precise dividir isso comigo... Conto o que posso pros meus amigos... O resto eu guardo pra minha insônia... Pras minhas lágrimas... E para esse caderno idiota... E talvez para aquele blog mais idiota ainda... Eh! Às vezes Você faz minha vida parecer uma grande idiotice... Principalmente quando me pergunta o porquê de eu estar agindo assim...

    - Assim como? – Eu te pergunto... Mas você nunca soube responder... – Será que a única maneira de eu não ser um idiota é mesmo me afastando de Você?.. É pena! Te juro que não gostaria de ter que fazer isso de novo...

    É aí que minha colega de trabalho (pisciana, pq será?) me chama para acompanhá-la até a rua... Tem que comprar umas coisas pro marido dela, mas não quer ir sozinha... Já era meio dia e eu havia marcado com Felipe nesse horário... Mas engraçado... O nome do marido dessa minha amiga também é Felipe, e ele é canceriano (e eu sempre cercado de água)... Enfim... Tinha que ir com ela, talvez aquilo fosse algum sinal que mudaria a energia carregada do meu dia... E de fato mudou... Ela se ofereceu para me pagar uma cerveja...

    Bebemos um latão de cerveja sentados ao pé de Exú... Em frente à Fundação Casa Jorge Amado... Bebemos não neh? Ela só tomou um copinho... Ela comprou também um cigarro pra me aliviar a ansiedade... O engraçado é que bebi a lata toda quase ao mesmo tempo em que acabava o cigarro... Só deu tempo ouvir ela dizendo: - Eu heim... Eu achava que eu bebia viu, mas você heim, toma o negoço parecendo suco...

    Mandar aquilo para o estômago vazio me deu alguns minutos de uma anestesia sublime... Aquela cerveja gelada destruindo mais um pouquinho deste corpo mal amado... Só mais um pouquinho antes que eu encontre o caminho certo para me fortalecer... Antes que eu consiga dar fim a esta moléstia que carrego desde a infância... Minha mais demoníaca solidão... Preciso de alguma forma me sentir bem comigo mesmo... Isso é tão bonito nos livros... É tão maravilhoso ouvir alguém falar sobre essa sensação... Sobre o Nirvana... Sobre o Espírito Santo... A Iluminação... Mas na prática esse caminho é tão difícil... Parece tão impossível... Parece ainda mais impossível para mim do que mostrar a ela que posso ser seu... Seu como nenhum outro jamais será... De graça... Porque isso é algo que eu posso escolher dar ou não... Eu posso escolher ter a coragem de entregar-lhe o meu amor mesmo sem ter o seu em troca... Mas... Não! Infelizmente não consigo escolher não me sentir só e fraco e pobre e besta e incompleto e... Deixa pra lá!

    Depois de muito zanzarmos nas lojas... Chegamos a uma loja de um chinês, onde minha amiga queria comprar fones de ouvido, um para ela e outro para o marido... Ela pechincha com a vendedora... Que grita – Felipe, pode fazer a ela por 10 reais?

    Neste momento tive um boom... Me esqueci quase completamente da realidade à minha volta e pensei em todas as vezes que ouço o nome dela brotar de algum lugar... Esse sinal despertou as vozes malignas na minha cabeça; me fez atinar que aquele nome não era tão incomum afinal; me fez procurar quantas Fulanas de Tal existiam na rede social mais aloprada do mundo... Encontrei três com o dela, e por ironia debochada dos deuses, uma era de Ilhéus... - Será que é isso mesmo? – Pensei – Estão mesmo de sacanagem comigo?..

    Pensei também naquele livro de Eneagrama do meu Tio... Que dizia sobre o meu tipo: “eles se sentem tão solitários, tão únicos, que se diferenciam muito até mesmo entre si...”... Foi só a partir desta micro catarse que finalmente tive a coragem de vencer o medo de me fazer aquela pergunta chata pela primeira vez naquele dia... Será que nasci mesmo para viver a vida inteira se sentindo a pessoa mais solitária do planeta? Depois parei e pensei... A simples composição do meu prenome, seja considerando a organização das letras ou qualquer que seja a pronuncia correta e suas infinitas variações provocadas por equívocos preguiçosos ou desatentos de outros milhões de pessoas que tentam dizê-lo, não importa; o que interessa a mim não é se eles dizem meu nome certo ou não, a consideração dos outros em relação a mim não é algo que me assusta mais. O que realmente me apavora é que não há nenhuma menção, nenhuma referência a este signo, a este som conjunto de meu duplo nome, não há nada em nenhum registro pertencente à História da Humanidade... Existem muitos Cesares; muitos Fredericos; muitos Antônios Henriques; existem muitas pessoas com nomes de Anjos e de Apóstolos... No mundo existem até muitos Michael Jackson’s agora... Mas com o meu amaldiçoado nome duplicado pelo meu brilho e pela minha escuridão... Só existe eu...

    (Ou pelo menos fui o primeiro de muitos)

    (Ou sou apenas a simples continuação de outros trágicos mal sucedidos apenas porque ninguém parece compreender o excesso de amor que carregam consigo...)

    [Como não faço idéia do que isso tudo significa... Acabo deixando pra lá...]

    Volto a pensar...Será mesmo que nasci e vim até aqui e não construirei nada com uma mulher que me entenda? Ou que ao menos tenha paciência comigo?? Que esteja minimamente disposta a me dedicar um pouco de seu carinho e cuidado??? E talvez quem sabe, por alguma que pudesse se acostumar com esse amor imenso que estou disposto a dar e ninguém parece querer... Uma mulher que, quem sabe até, pudesse começar a me amar junto com o tempo, do jeito que eu sou... Não um louco, apenas... Mas sim um homem em eterno aprendizado...

    Muitas coisas aconteceram... Conversei com minha amiga e ela me disse muitas coisas bonitas... E me abraçou maternalmente e disse que ficaria tudo bem... Daquelas que fazem com que você se sinta útil no mundo... Mesmo que minimamente... Ela me deu alguns trocados para comprar outra cerveja e antes de virar as costas para ir para o trabalho, disse:

    - Olha amigo, deixa estar... Dê tempo ao tempo... Se você significa algo pra ela, talvez ela vá te procurar... Canceriano procura, com Felipe foi assim... Ele terminou comigo uma vez e depois de um tempão veio me procurar... Não fica triste não, viu... Se precisar desabafar eu to aqui...

    O mais engraçado é que nunca contei detalhes pra ela. Só que esses psicianos são meu ponto fraco... Eles insistem em saber o que se passa por detrás das cortinas da minha cabeça... Toda vez que chego triste no trabalho ela percebe de longe e pergunta logo o que foi que aconteceu... Enfim, eu sou coração de manteiga... Com o passar dos dias, me senti a vontade para falar a ela sobre aquela minha paixão encravada que não me deixava dormir... O que é mais gostoso é que ela realmente sabe dar bons conselhos...

    ... Bem! Como eu estava atrasado, guardei as moedas que ela me deu e fui para o local do compromisso que já tinha firmado... Pensei em desistir centenas de vezes enquanto passava pelos bares do caminho... Mas uma cerveja só não conseguiria saciar aquele monstro, então preferi encarar o destino... Era melhor isso do que ficar me sentindo infinitamente culpado depois por ter furado com o meu amigo...

     Aff... Eu e esse estranho senso de lealdade que parece não fazer sentido pra mais ninguém além de mim...