segunda-feira, 15 de abril de 2019

Looking For Ghosts



 I

Esta tarde visitei o centro da cidade depois de muitos dias sem sequer sair de casa... Por força maior, algo que talvez insistamos em chamar de destino ou sei lá o que, não era qualquer lugar do centro, era um museu... Mas não qualquer museu de velharias arqueológicas esquecidas, se é que isso exista para a cabeça de um místico apaixonado... Era um museu que partilhara parte da minha história, era um lugar repleto de paredes centenárias, com a minha energia vital impregnada, com a energia de milhares de outros seres que como eu passaram pela vida curiosos, temerários, machucados, cheio de dúvidas e conflitos, cheios de incertezas sobre sua própria luta ou suas possibilidades reais de escolha... Penso tanto na obra que meus deuses reservam para mim que é impossível não passar pela minha cabeça a questão de como tantos povos escravizados se sentiram frente aos desafios psicológicos impostos pela violência de uma colonização diabolizante que viria a transformar toda uma civilização em fantasmas de uma história nacional fajuta...

Quando fecho os olhos posso ver as vitrines deste museu humano que carrego nos meus genes e na minha forma de ver o mundo... Mas também vejo um vazio imenso de não conseguir acreditar em nada... De pensar que todos à minha volta partilham das mesmas mentiras que eu e que algumas delas estão felizes com isso... Contentas com o fato de que nossa sociedade mata o amor, a compaixão, a vontade de compreender realmente as necessidades e limitações dos outros; tudo isso ao passo que nos convence do medo, da intolerância e do desconforto que é não ter a genuína certeza de absolutamente nada. É comum aprendermos a ter medo de ruas pobres porque é na pobreza onde os ladrões parecem mais bárbaros, onde o crack, o açúcar, o café, o álcool e o tabaco revelam os mais evidentes vícios deixados pela colonização...
...

Ainda bem que não terminei de escrever este texto há dois meses atrás, quando iniciei o primeiro parágrafo... Tive tempo para reexperenciar a vida... Dessa forma eu posso vir e escrever algo menos mórbido e melancólico do que as agonias que se passavam pela minha cabeça na época da visita aos museus das ruas de meu passado... Um passado tão recente mas com uma pontada tão profunda que parece ter sido em vidas passadas...

Como um rompante de coragem eu resolvi encarar o centro... Resolvi tentar mais uma vez enfrentar minhas lembranças e combater meus próprios fantasmas... Fui convidado a uma visita ao MAE-UFBA... E como todos os meus leitores invisíveis bem sabem, este lugar é um tanto especial para mim... Em três anos os seres daquelas paredes me viram chorar, sorrir, proferir conjurações de amor... Dormir de exaustão ou de tédio deitado no chão gelado daquelas galerias... Roubei beijos de paixões passageiras que me visitaram como visitam a uma peça arqueológica que lá pertencia... Alguns anos atrás eu até poderia encarar tais lembranças como parte de um passado heroico, mas hoje eu vejo apenas como um apanágio de pertences alheios a mim... Me sinto um índio fugido da obra almofadinha de José de Alencar... Ou pior... Um mero conquistador barato que via nessas aventuras parte grandiosa de sua razão de existir... whatever...

II

Chegando lá já tenho que lidar com pessoas que eu conheço, sabia que tinha que dizer qualquer coisa com meu ex-museologo-chefe... Sabia que teria a menina Roberta da portaria e provavelmente uma monitora nova... Mais uma série de pessoas que eu desconheceria a partir daquele momento... Um grande infortúnio para mim que tanto adoro sorrir... Não é falsidade sorrir sem querer sorrir nestes momentos... É que sorrir e usar a cara que eu uso para sair na rua me custa demais... É preciso se conectar a uma fonte inesgotável de energia, mas naquele caso esta fonte estava perdida para mim... Bloqueada... Intoxicada por esta cidade febril e dopada de informações...

A professora chegou... Por alguma razão ela contava com a minha presença... Não vou esquecer disso... Foi gentil e acolhedor demais da parte dela... Seguimos pelo museu e ela usava um estranho aparelho sonoro... Aquilo era sem dúvida peculiar de acordo com os arquivos da minha cabeça... Com certeza não era uma visão comum... A visita seguiu até chegarmos às urnas funerárias onde o estranho aparelho reagiu com o lugar... E foi aí então que eu pensei... Caraca... A minha professora é uma Ghostbuster... kkkkk... Bem... Não sei se é o caso de exterminação de fantasmas... Talvez um caçador de fantasmas brasileiro e do século XXI precise entender que estes fantasmas todos já foram caçados e exterminados enquanto eram vivos... Não faz mais sentido querer destruí-los... Precisamos nos ritualizar e nos espiritualizar ainda mais para quem sabe, se for possível, ajudá-los a concluir sua passagem seja lá para onde forem... Ainda que seja para um lugar de maior prestígio nos nossos corações...

Nós vivemos em um país onde os mortos tem mais o valor do esquecimento do que da lembrança... Os vivos talvez ainda menos... Vide as grandes filas de desempregados e da mendicância alarmante que denunciam novos fantasmas fantasmagorando pelas ruas em carne e osso em plena luz do dia...

O resultado foi um sucesso... A visita foi mó legal... Saí de lá sorrindo e encontrei coragem o suficiente para passear os ladrilhos de outras lembranças pelo resto do Pelourinho... É claro que desta vez eu tinha uma escolta de uma dúzia de estudantes cheios de preocupações tão dispares que eles não me perceberiam ali... Bem... Pelo menos não por baixo deste disfarce com barba e bigode onde me visto atualmente... A cada rua que olho vejo um novo fantasma... Meu... Do Passado... Da história nacional... De tudo... Paramos na ladeira para conversar com uma galera de Arquiterua e Urbanismo... Bem, não disse nada a eles... Notei no canto a figura de um garoto velho conhecido meu... Na real ele é muito conhecido naquelas ruas... É um garoto negro, simpático e conversador... Esperto... Com a sagacidade suficiente pra sobreviver em ruas tão hostis quanto as nossas... Já fez uns corres de umas paradas pra mim algumas vezes... Algumas vezes é lógico que ele não voltou com minhas drogas... Mas eu entendo... Provavelmente, no lugar dele, eu também não voltaria algumas vezes... Quiça nunca... Às vezes nem quero voltar aos lugares ou às pessoas que cabem dentro desta minha vida tão privilegiada... Imaginem só como é... Ele me disse o nome dele naquela ocasião... E por ter vergonha de não saber ao certo... Prefiro preservar de mim mesmo o risco de registrar o nome erroneamente... Mas acho que ele é esperto o suficiente para não ser exorcizado daquelas ruas cristãs... Cheias de igrejas e gente caridosa... Sobreviveremos para que talvez tenhamos tempo para decorar o nome um do outro... Duvido também que ele se lembre do meu... De qualquer modo... O meu nome pouco importa... Eu não sou esta pessoa que escreve, nem a carne, nem a ideia que se aponta de responde o nome para quem pergunta... Nem nada dessas bobagens que inventei de pensar agora... O que me realmente me incomoda é:

Será que isso que estou fazendo não se trata de uma digressão completamente inútil?

Qual é o objetivo deste emaranhado confuso de palavras?

Não sabendo de nada dessas respostas e de milhares de outras que assombram minha cabeça... Por fim eu continuo... Talvez seja a minha maneira de exorcizar um pouco dessas assombrações, quem sabe? Descemos pelas ruas da cracolândia do Pelourinho... Um menino começou a entrar em pânico por estarmos em ruas perigosas... Debateu com a professora a respeito disso... Bem... Ele até que tem uma certa razão... Mas é que me sinto tão seguro em lugares como aquele... Lugares onde cresci longe das vistas da minha própria mãe... Nossa... Minha mãe... Até ela me surge agora como uma reminiscência tão distante que mal consigo acreditar que ainda tenho uma... Graças à Deusa e todas as forças inexplicáveis do Universo...

III

A visita seguiu por uma igrejinha que eu não conhecia por dentro... Soube lá que algumas de suas obras tinham ligação com as que são expostas no Museu de Arte Sacra da UFBA... Outro logradouro onde deposito os fantasmas de momentos tão melancólicos quanto aquele... Mas enfim... Isso não tem nada a ver com o objetivo da minha visita ou do meu texto... Mas aí eu me lembro que não tenho mesmo nenhum objetivo com isso... Já desisti de querer me entender como um menino normal, como um aluno normal, em busca de uma nota normal, de um emprego normal, uma carreira, um INSS ladrão, de ser um artista respeitado, qualquer coisa que me faça parecer uma pessoa normal neste mundo descartável... Porque de perto minha loucura parece tão evidente que o que eu penso não parece fazer sentido nem mesmo para os fantasmas em minha cabeça... No fundo me sinto isolado em qualquer cortejo...

Seguimos para a praça Castro Alves onde um pedaço da alma do poeta me ilumina por cima das nuvens como um condor alvissareiro que me lembra quantas vezes bradei em alto e bom som os meus afetos, minhas indignações, meu extenso amor mal compreendido... Para quê? Um dia eu o saberei (ou não) com certeza... Huahhahahahhahaha!

O grupo se dissipou no topo do Espaço Glauber Rocha de Cinema... E eu sentia-me exausto... Não sei o porquê exato... Tenho neste momento que escrevo, meses depois do ocorrido, alguns palpites... Mas palpites não forjam documentos... E assim se vai mais alguns minutos tentando fazer sentido para mim mesmo... Pois se eu não me ler com coerência quem mais poderá fazê-lo??? E é aí então que se dá razão ao título deste enunciado...

Dizem que a gente usa a língua também para sentir... Ou que sentimos com a nossa língua... Sei lá... Algo assim... Talvez tenha sido por isso que preferi colocar este título em inglês... Imagino que tal mistura seja de revirar suassuanas, mas é assim que eu vejo o mundo de hoje... Já fomos tão colonizados que, até eu, um pobre maldito, nascido e criado perto da BR de uma periferia do interior, me possibilito agora sentir em outros idiomas... Dou título a esses parágrafos em inglês por que é assim que eu me sinto ao passear por este centro, por estas ruas... Porque tudo no centro me parece sempre tão familiar e ao mesmo tempo estrangeiro... Bem como todo o mundo se me permitirem devanear mais profundamente...

Quando conjuro estas três palavras em inglês... Looking for Ghosts... Elas não surgem em negrito ou itálico convencionais para distingui-las de algo que não me é próprio... Elas soam na minha cabeça como ecos de sussurros... Como se espíritos sibilassem direto de urnas funerárias esquecidas, denunciando esta frieza e esta melancolia que herdei depois de tantos massacres, de tantas injustiças e da violência que carregamos como um soluço engasgado no corpo de nossas ações...

Deixo para vocês um pequeno relato de minhas assombrações...

Majhoo. Salvador-BA, 14 de Dezembro de 2018.