Esta tarde visitei o centro da
cidade depois de muitos dias sem sequer sair de casa... Por força maior, algo
que talvez insistamos em chamar de destino ou sei lá o que, não era qualquer
lugar do centro, era um museu... Mas não qualquer museu de velharias arqueológicas
esquecidas, se é que isso exista para a cabeça de um místico apaixonado... Era
um museu que partilhara parte da minha história, era um lugar repleto de
paredes centenárias, com a minha energia vital impregnada, com a energia de
milhares de outros seres que como eu passaram pela vida curiosos, temerários,
machucados, cheio de dúvidas e conflitos, cheios de incertezas sobre sua
própria luta ou suas possibilidades reais de escolha... Penso tanto na obra que
meus deuses reservam para mim que é impossível não passar pela minha cabeça a
questão de como tantos povos escravizados se sentiram frente aos desafios
psicológicos impostos pela violência de uma colonização diabolizante que viria
a transformar toda uma civilização em fantasmas de uma história nacional
fajuta...
Quando fecho os olhos posso ver
as vitrines deste museu humano que carrego nos meus genes e na minha forma de
ver o mundo... Mas também vejo um vazio imenso de não conseguir acreditar em
nada... De pensar que todos à minha volta partilham das mesmas mentiras que eu
e que algumas delas estão felizes com isso... Contentas com o fato de que nossa
sociedade mata o amor, a compaixão, a vontade de compreender realmente as
necessidades e limitações dos outros; tudo isso ao passo que nos convence do medo,
da intolerância e do desconforto que é não ter a genuína certeza de
absolutamente nada. É comum aprendermos a ter medo de ruas pobres porque é na
pobreza onde os ladrões parecem mais bárbaros, onde o crack, o açúcar, o café,
o álcool e o tabaco revelam os mais evidentes vícios deixados pela
colonização...
...
Ainda bem que não terminei de
escrever este texto há dois meses atrás, quando iniciei o primeiro parágrafo...
Tive tempo para reexperenciar a vida... Dessa forma eu posso vir e escrever
algo menos mórbido e melancólico do que as agonias que se passavam pela minha
cabeça na época da visita aos museus das ruas de meu passado... Um passado tão
recente mas com uma pontada tão profunda que parece ter sido em vidas
passadas...
Como um rompante de coragem eu
resolvi encarar o centro... Resolvi tentar mais uma vez enfrentar minhas
lembranças e combater meus próprios fantasmas... Fui convidado a uma visita ao
MAE-UFBA... E como todos os meus leitores invisíveis bem sabem, este lugar é um
tanto especial para mim... Em três anos os seres daquelas paredes me viram
chorar, sorrir, proferir conjurações de amor... Dormir de exaustão ou de tédio
deitado no chão gelado daquelas galerias... Roubei beijos de paixões
passageiras que me visitaram como visitam a uma peça arqueológica que lá
pertencia... Alguns anos atrás eu até poderia encarar tais lembranças como
parte de um passado heroico, mas hoje eu vejo apenas como um apanágio de
pertences alheios a mim... Me sinto um índio fugido da obra almofadinha de José
de Alencar... Ou pior... Um mero conquistador barato que via nessas aventuras
parte grandiosa de sua razão de existir... whatever...
II
Chegando lá já tenho que lidar
com pessoas que eu conheço, sabia que tinha que dizer qualquer coisa com meu
ex-museologo-chefe... Sabia que teria a menina Roberta da portaria e
provavelmente uma monitora nova... Mais uma série de pessoas que eu
desconheceria a partir daquele momento... Um grande infortúnio para mim que
tanto adoro sorrir... Não é falsidade sorrir sem querer sorrir nestes
momentos... É que sorrir e usar a cara que eu uso para sair na rua me custa
demais... É preciso se conectar a uma fonte inesgotável de energia, mas naquele
caso esta fonte estava perdida para mim... Bloqueada... Intoxicada por esta
cidade febril e dopada de informações...
A professora chegou... Por alguma
razão ela contava com a minha presença... Não vou esquecer disso... Foi gentil
e acolhedor demais da parte dela... Seguimos pelo museu e ela usava um estranho
aparelho sonoro... Aquilo era sem dúvida peculiar de acordo com os arquivos da
minha cabeça... Com certeza não era uma visão comum... A visita seguiu até
chegarmos às urnas funerárias onde o estranho aparelho reagiu com o lugar... E
foi aí então que eu pensei... Caraca... A minha professora é uma Ghostbuster...
kkkkk... Bem... Não sei se é o caso de exterminação de fantasmas... Talvez um
caçador de fantasmas brasileiro e do século XXI precise entender que estes
fantasmas todos já foram caçados e exterminados enquanto eram vivos... Não faz
mais sentido querer destruí-los... Precisamos nos ritualizar e nos
espiritualizar ainda mais para quem sabe, se for possível, ajudá-los a concluir
sua passagem seja lá para onde forem... Ainda que seja para um lugar de maior
prestígio nos nossos corações...
Nós vivemos em um país onde os
mortos tem mais o valor do esquecimento do que da lembrança... Os vivos talvez
ainda menos... Vide as grandes filas de desempregados e da mendicância
alarmante que denunciam novos fantasmas fantasmagorando pelas ruas em carne e
osso em plena luz do dia...
O resultado foi um sucesso... A
visita foi mó legal... Saí de lá sorrindo e encontrei coragem o suficiente para
passear os ladrilhos de outras lembranças pelo resto do Pelourinho... É claro
que desta vez eu tinha uma escolta de uma dúzia de estudantes cheios de
preocupações tão dispares que eles não me perceberiam ali... Bem... Pelo menos
não por baixo deste disfarce com barba e bigode onde me visto atualmente... A
cada rua que olho vejo um novo fantasma... Meu... Do Passado... Da história
nacional... De tudo... Paramos na ladeira para conversar com uma galera de
Arquiterua e Urbanismo... Bem, não disse nada a eles... Notei no canto a figura
de um garoto velho conhecido meu... Na real ele é muito conhecido naquelas
ruas... É um garoto negro, simpático e conversador... Esperto... Com a
sagacidade suficiente pra sobreviver em ruas tão hostis quanto as nossas... Já
fez uns corres de umas paradas pra mim algumas vezes... Algumas vezes é lógico
que ele não voltou com minhas drogas... Mas eu entendo... Provavelmente, no
lugar dele, eu também não voltaria algumas vezes... Quiça nunca... Às vezes nem
quero voltar aos lugares ou às pessoas que cabem dentro desta minha vida tão
privilegiada... Imaginem só como é... Ele me disse o nome dele naquela
ocasião... E por ter vergonha de não saber ao certo... Prefiro preservar de mim
mesmo o risco de registrar o nome erroneamente... Mas acho que ele é esperto o
suficiente para não ser exorcizado daquelas ruas cristãs... Cheias de igrejas e
gente caridosa... Sobreviveremos para que talvez tenhamos tempo para decorar o
nome um do outro... Duvido também que ele se lembre do meu... De qualquer
modo... O meu nome pouco importa... Eu não sou esta pessoa que escreve, nem a
carne, nem a ideia que se aponta de responde o nome para quem pergunta... Nem
nada dessas bobagens que inventei de pensar agora... O que me realmente me
incomoda é:
Será que isso que estou fazendo
não se trata de uma digressão completamente inútil?
Qual é o objetivo deste
emaranhado confuso de palavras?
Não sabendo de nada dessas
respostas e de milhares de outras que assombram minha cabeça... Por fim eu
continuo... Talvez seja a minha maneira de exorcizar um pouco dessas
assombrações, quem sabe? Descemos pelas ruas da cracolândia do Pelourinho... Um
menino começou a entrar em pânico por estarmos em ruas perigosas... Debateu com
a professora a respeito disso... Bem... Ele até que tem uma certa razão... Mas
é que me sinto tão seguro em lugares como aquele... Lugares onde cresci longe
das vistas da minha própria mãe... Nossa... Minha mãe... Até ela me surge agora
como uma reminiscência tão distante que mal consigo acreditar que ainda tenho
uma... Graças à Deusa e todas as forças inexplicáveis do Universo...
III
A visita seguiu por uma igrejinha
que eu não conhecia por dentro... Soube lá que algumas de suas obras tinham
ligação com as que são expostas no Museu de Arte Sacra da UFBA... Outro
logradouro onde deposito os fantasmas de momentos tão melancólicos quanto
aquele... Mas enfim... Isso não tem nada a ver com o objetivo da minha visita
ou do meu texto... Mas aí eu me lembro que não tenho mesmo nenhum objetivo com
isso... Já desisti de querer me entender como um menino normal, como um aluno
normal, em busca de uma nota normal, de um emprego normal, uma carreira, um
INSS ladrão, de ser um artista respeitado, qualquer coisa que me faça parecer
uma pessoa normal neste mundo descartável... Porque de perto minha loucura
parece tão evidente que o que eu penso não parece fazer sentido nem mesmo para
os fantasmas em minha cabeça... No fundo me sinto isolado em qualquer
cortejo...
Seguimos para a praça Castro
Alves onde um pedaço da alma do poeta me ilumina por cima das nuvens como um
condor alvissareiro que me lembra quantas vezes bradei em alto e bom som os
meus afetos, minhas indignações, meu extenso amor mal compreendido... Para quê?
Um dia eu o saberei (ou não) com certeza... Huahhahahahhahaha!
O grupo se dissipou no topo do
Espaço Glauber Rocha de Cinema... E eu sentia-me exausto... Não sei o porquê
exato... Tenho neste momento que escrevo, meses depois do ocorrido, alguns palpites...
Mas palpites não forjam documentos... E assim se vai mais alguns minutos
tentando fazer sentido para mim mesmo... Pois se eu não me ler com coerência
quem mais poderá fazê-lo??? E é aí então que se dá razão ao título deste
enunciado...
Dizem que a gente usa a língua
também para sentir... Ou que sentimos com a nossa língua... Sei lá... Algo
assim... Talvez tenha sido por isso que preferi colocar este título em
inglês... Imagino que tal mistura seja de revirar suassuanas, mas é assim que
eu vejo o mundo de hoje... Já fomos tão colonizados que, até eu, um pobre
maldito, nascido e criado perto da BR de uma periferia do interior, me
possibilito agora sentir em outros idiomas... Dou título a esses parágrafos em
inglês por que é assim que eu me sinto ao passear por este centro, por estas
ruas... Porque tudo no centro me parece sempre tão familiar e ao mesmo tempo
estrangeiro... Bem como todo o mundo se me permitirem devanear mais
profundamente...
Quando conjuro estas três
palavras em inglês... Looking for Ghosts... Elas não surgem em negrito ou itálico convencionais para distingui-las de algo que não me é
próprio... Elas soam na minha cabeça como ecos de sussurros... Como se espíritos
sibilassem direto de urnas funerárias esquecidas, denunciando esta frieza e
esta melancolia que herdei depois de tantos massacres, de tantas injustiças e
da violência que carregamos como um soluço engasgado no corpo de nossas
ações...
Deixo para vocês um pequeno
relato de minhas assombrações...
Majhoo. Salvador-BA, 14 de
Dezembro de 2018.