sexta-feira, 20 de julho de 2018

Só a Água Não Apaga



"Sobrado de mamãe é debaixo d'água... Tem Ouro, Tem Prata... Tem Diamante Que Nos Alumeia" 

Vultos e sombras ao pé disforme que a nossa realidade disfarça... Movimentos de formas exuberantes florescendo na friagem de um mês nublado... Por aqui navegam muitas informações... Ônibus que bem poderiam ser naus a navegar por inúmeros rios de petróleo... O Sonho Americano se realizou... Isso aqui tudo é o Velho Oeste e estamos nos matando uns aos outros somente para provar a nós mesmos que entendemos alguma coisa lógica desta Realidade... Nós matamos por puro medo de estarmos errados... De termos interpretado equivocadamente alguma coisa... De ter confiado demais nos olhos e nos ouvidos e mais ainda pelas sensações (que por sinal são tão confusas em meio a essa enxurrada suicida de excessos de tudo)... Nós desistimos das pessoas por que é mais fácil...

Entro no ônibus e começo a falar de amor... Alí penso nos meus amigos... Naonde poderiam estar neste momento e como... Se ainda pensam em mim com afeto e ternura ao ler ou presenciar algo que os fazem lembrar a mim... Penso que eles estão comigo o tempo todo... E choro de verdade ao declamar o poema... Alí... Naufragando junto com aqueles versos que nem eram meus... Mas eram também... Antes de me afogar eu ainda posso ver o lampejo de milhares de universos brilhantes lacrimejando junto comigo... Falo tudo aquilo que gostaria de dizer a ouvidos que agora navegam em mares muitos distantes de mim... Numa realidade tão distinta que ao passar do meu lado parece ser uma figura pertencida à outra dimensão... Fora do tempo e do espaço onde vivo tantas aventuras incompartilháveis, limitadas pela inextensão das palavras... Pela elasticidade ridícula de um nada tão enorme que eu o poderia até apelidar de Deus... Nestes momentos sempre sou o monstro mais refém das fogueiras inquisitoriais do silêncio... Não tenho nada para dizer que poderia ser considerado verdade em parte alguma neste mundo tão concentrado nos assuntos do agora... Tudo o que digo talvez seja só para fazer sentido nestante... Nestante no sentido de daqui há pouco... Cinco minutos talvez? O que seriam cinco minutos numa escala maior que a Via Lactea inteira?

Todos lutamos por causas tão específicas que nos esquecemos frequentemente do todo... De que no final precisaremos de mais outros bilhões de seres para juntar os pedaços de nosso sofrimento escorrido entre as cachoeiras dos dias... Tudo escondido por detrás de águas turvas que passam destruindo tudo como uma maré imensa pondo abaixo prédios caríssimos... sacudindo automóveis... Este é o verdadeiro câncer que nós bebemos todos os dias... ignorância... e ignoramos porque estamos ávidos para explicar tudo... Me pergunto... Quantas coisas estou ignorando neste exato momento? Quantas coisas estou deixando de ver para ter o privilégio alucinante de refletir aqui sobre todas estas coisas? A verdade é que nunca saberei... Mas disso eu sei... E isso talvez me salve um pouco da cilada do ódio, do rancor e da falta de compreensão... Vocês me ensinaram, amigos... Me ensinaram novas formas de fazer um esforço enorme para não julgar ninguém...

Ainda no ônibus, perto de terminar a apresentação, um cara entra e me interrompe... Diz que precisa falar uma coisa séria... O motorista o repreende dizendo que é para deixar o poeta trabalhar... As pessoas também parecem achar ruim... Eu apenas digo a ele que já estou acabando... Fico triste por ele e por mim... Fico pensando em quantas pessoas devem ter desistido dele no momento em que ele mais precisava... E... Quantas vezes ele deve ter desistido das pessoas também? Quantas vezes ele desistiu de si mesmo desta forma como me da tanta vontade de fazer quando resolvo beber, ficar doidão... passar o dia chorando na cama? Terminei minha apresentação e sentei-me no fundo do ônibus... Ao me dar conta havia uma voz dizendo que era astrólogo... Mandando um mafioso se orientar... Que metáfora é essa agora, oh divindade? Como se o maremoto não bastasse... Estou aqui e sei que isso tudo aconteceu por algum motivo justificável... Essa água é a morte... A morte representada nas estrelas... E se ela te toca apaga quem você foi... Ela só não apaga o seu próprio rastro de destruição e fica perdida... Perdida sem saber qual é a verdade depois de tanta bagunça interpretada com suas ondas furiosas...

Majho 20/07/2018


(Atropelado Por Uma Onda - Raul Seixas)
https://www.youtube.com/watch?v=Z8WvET6pJOM